A Câmara Secreta - Por Rony W. e Hermione G.
15 Capítulo 15 - A Salvo
Notas iniciais
Rony estava exausto. Mais de uma hora havia se passado e ele tinha conseguido abrir uma brecha na parede de pedra, mas ainda tentava aumentá-la, de modo que Harry e Gina pudessem passar quando voltassem.
A ideia de Harry e Gina não voltarem, Rony havia decidido no processo, estava fora de cogitação. Apesar de estarem há tanto tempo lá dentro com o basilisco, ele continuava com suas esperanças de que tudo daria certo — afinal, precisava fazer isso. Era a única coisa que lhe dava força para continuar a deslocar as pedras, mesmo que lentamente.
Depois de um longo tempo, ele de repente ouviu alguém chamar seu nome ao longe. À princípio, achou que fosse coisa de sua cabeça, mas ergueu os olhos mesmo assim.
— Rony! – era a voz de Harry – Gina está bem! Está comigo!
Então sim, Rony pôde respirar direito. Um alívio imenso percorreu seu corpo, libertando seus pulmões que pareciam ter estado restritos todo aquele tempo, e logo ele viu, pela brecha que tinha aberto, Harry e Gina se aproximarem.
— Gina! – Rony exclamou, enfiando um braço pelo buraco para puxá-la primeiro. – Você está viva! Não acredito! Que aconteceu! Como... que... de onde veio o pássaro? — ele estranhou, reparando num pássaro vermelho que mergulhou no buraco atrás de Gina.
— É do Dumbledore – respondeu Harry, espremendo-se para passar.
— Onde arranjou uma espada? – indagou, boquiabrindo-se ao ver a arma na mão de Harry.
— Explico quando sairmos daqui – disse Harry com um olhar de esguelha para Gina, que agora chorava mais do que antes.
— Mas... — ele meio que precisava saber. Queria entender o que havia se passado com eles, e como, milagrosamente, haviam conseguido se livrar, e Harry salvo sua irmã.
— Mais tarde – disse Harry concisamente. – Onde anda Lockhart?
— Lá atrás – disse Rony, ainda com uma expressão intrigada, mas indicando com a cabeça o túnel na direção do cano de entrada. – Está bem ruinzinho. Venha ver.
Guiados por Fawkes, cujas penas vermelhas produziam uma luminosidade dourada no escuro, eles caminharam de volta à boca do cano. Gilderoy Lockhart estava sentado, cantarolando tranquilamente para si mesmo.
— A memória dele desapareceu – disse Rony. – O Feitiço da Memória saiu pela culatra. Atingiu ele em vez de nós. Ele não tem a menor ideia de quem é, onde está ou de quem somos. Eu o mandei vir esperar aqui. É um perigo para ele mesmo.
Lockhart mirou os garotos, bem-humorado.
— Alô – disse ele. – Lugar esquisito, esse, não acham? Vocês moram aqui?
— Não – respondeu Rony, erguendo as sobrancelhas para Harry.
Harry se abaixou e espiou para dentro do cano longo e escuro.
— Você já pensou como é que vamos subir por isso para voltar? – perguntou a Rony.
Rony sacudiu a cabeça, mas Fawkes, a fênix, passara por Harry e agora esvoaçava à sua frente, seus olhos de contas brilhando no escuro. Ela acenava com as compridas penas douradas da cauda. Harry olhou-a hesitante.
— Parece que ela quer que você a agarre... – disse Rony, com um olhar perplexo. – Mas você é pesado demais para um pássaro arrastá-lo por ali...
— Fawkes não é um pássaro comum. – Harry se virou depressa para os outros. – Temos que nos segurar uns nos outros. Gina, agarre a mão de Rony. Prof. Lockhart...
— Ele está se referindo ao senhor – disse Rony rispidamente a Lockhart.
— Segure a outra mão de Gina...
Harry prendeu a espada e o Chapéu Seletor no cinto, Rony segurou as costas das vestes de Harry e este esticou a mão e agarrou a cauda de Fawkes.
Uma leveza extraordinária pareceu se espalhar por todos e, no segundo seguinte, o grupo voava pelo cano em meio a um farfalhar de asas. Lockhart exclamava: "Espantoso! Espantoso! Isso parece mágica!". Após alguns minutos voando, os quatro saíram no buraco do cano e bateram no chão molhado do banheiro da Murta, e enquanto Lockhart endireitava o chapéu, a pia que escondera o cano voltou a se encaixar suavemente no lugar.
Murta arregalou os olhos para Harry.
— Você está vivo! – exclamou ,desconcertada.
— Não precisa parecer tão desapontada – disse o garoto, sério, limpando os salpicos de sangue e limo dos óculos. Rony endireitou e bateu as vestes, olhando do amigo para a fantasma, e depois estendendo uma mão para ajudar a irmã que parecia ter escorregado um pouco no chão ensopado.
— Ah, bem... andei pensando... se você tivesse morrido, seria bem-vindo a dividir o meu boxe – disse Murta, com o rosto tingindo-se de prateado, enquanto eles rumavam para fora do banheiro.
E assim que saíram, Rony, que estava feliz demais, sentindo o humor voltar à sua mente no lugar do pânico, brincou:
— Arre! Harry! Acho que Murta está gostando de você! Gina, você ganhou uma concorrente!
Mas, Gina não reagiu bem à brincadeira: as lágrimas continuavam a escorrer silenciosamente pelo rosto dela, o fazendo voltar a ficar quieto, preocupado novamente com a irmã que, pelo visto, continuava muito abalada.
— Onde agora? — perguntou, lançando um olhar ansioso a Gina. Harry apontou.
Fawkes tomou a frente, refulgindo ouro pelo corredor. Eles o seguiram e momentos depois se encontravam à porta da sala da Profa McGonagall. Harry bateu e empurrou a porta, abrindo-a.
Os quatro entraram, cobertos de sujeira e limo, e no caso de Harry, sangue, e após um silêncio momentâneo, Rony ouviu sua mãe gritar.
— Gina!
Viu, então, ela se levantar de um salto: estivera sentada diante da lareira, visivelmente chorando. Seu pai a seguiu e os dois se atiraram à Gina.
O Prof. Dumbledore estava parado junto ao console da lareira, sorrindo, ao lado da Profa McGonagall, que inspirou várias vezes, com as mãos no peito. O pássaro passou voando pela orelha de Harry e pousou no ombro de Dumbledore, na mesma hora em que Harry e Rony se viram envolvidos pelo abraço apertado da Sra. Weasley.
— Você salvou minha filha! Você a salvou! Como foi que você fez isso?
— Acho que todos nós gostaríamos de saber – disse a Profa McGonagall com a voz fraca.
A Sra. Weasley soltou Harry, que hesitou um instante, caminhou até a escrivaninha e depositou em cima dela o Chapéu Seletor, a espada cravejada de rubis e o que sobrara do diário de Riddle.
Então começou a contar tudo. Durante uns quinze minutos ele falou cercado de atenção e silêncio: contou sobre a voz invisível que ouvira, como Hermione finalmente percebera que ele estava ouvindo um basilisco na tubulação; como ele e Rony tinham seguido as aranhas até a floresta, que Aragogue revelara onde a última vítima do basilisco morrera; como tinham adivinhado que Murta Que Geme fora essa vítima e que a entrada para a Câmara Secreta poderia estar no banheiro...
— Muito bem – encorajou-o a Profa McGonagall quando ele parou –, então vocês descobriram onde era a entrada, e eu acrescentaria: atropelando umas cem regras do nosso regulamento, mas, por Deus, Potter, como foi que vocês conseguiram sair de lá com vida?
Harry, com a voz rouca de tanto falar, contou que Fawkes chegou bem na hora trazendo o chapéu seletor com a espada mas, nesse ponto, lhe faltaram palavras. Harry então olhou para Dumbledore, que lhe deu um breve sorriso, os seus óculos de meia- lua refletindo a luz do fogo. Rony prestava tanta atenção quanto os outros, e entendeu, nesse ponto, que Harry também não sabia como acontecera.
— O que me interessa mais – disse o diretor com brandura – é como foi que Lorde Voldemort conseguiu enfeitiçar Gina, quando as minhas fontes me informaram que no momento ele está escondido nas florestas da Albânia.
— Q-que foi que disse? – perguntou o Sr. Weasley com a voz aturdida. – Você-Sabe-Quem? En- enfeitiçou Gina? Mas Gina não... Gina não esteve... esteve?
— Com esse diário – respondeu Harry depressa, apanhando-o na mesa e mostrando-o a Dumbledore. – Riddle escreveu nele quando tinha dezesseis anos...
Dumbledore recebeu o diário de Harry e examinou-o com atenção, por cima do nariz comprido e torto, as páginas queimadas e encharcadas.
— Genial – disse baixinho. Rony não tinha reação alguma senão se surpreender mais, expandindo os olhos sem perceber. – É claro, ele foi provavelmente o aluno mais brilhante que Hogwarts já teve. – E Dumbledore se virou para seus pais, que pareciam inteiramente perplexos.
"Muito pouca gente sabe que Lorde Voldemort um dia se chamou Tom Riddle. Eu fui seu professor há cinquenta anos, em Hogwarts. Ele desapareceu depois que terminou a escola... viajou por toda parte... aprofundou-se nas Artes das Trevas, associou-se com os piores elementos do nosso povo, passou por tantas transformações mágicas e perigosas que, quando reapareceu como Lorde Voldemort, quase não dava para reconhecê-lo. Muito pouca gente ligou Lorde Voldemort ao garoto inteligente e bonito que, no passado, fora monitor-chefe aqui."
— Mas, Gina – perguntou a Sra. Weasley. Rony, então, se lembrou da reação descuidada que Harry tivera ao encontrar o diário, as coisas que se lembrava de seu pai tê-lo alertado, a forma como Gina vinha se comportando estranhamente e as coisas de Harry reviradas, com o diário sumido: tudo parecia se encaixar de alguma forma. Mas, incerto, ele apenas esperou quieto que a mãe perguntasse. – Que é que a nossa Gina tem a ver com... com... ele?
— O d-diário dele! – soluçou Gina. – And-dei escrevendo no diário, e ele andou me respondendo o ano todo...
— Gina! – exclamou o Sr. Weasley, espantado. – Será que não lhe ensinei nada? Que foi que sempre lhe disse? Nunca confie em nada que é capaz de pensar se você não pode ver onde fica o seu cérebro. Por que não mostrou o diário a mim ou a sua mãe? Um objeto suspeito desses, estava obviamente carregado de Artes das Trevas...
— Eu n-não sabia – soluçou Gina. Rony teria tido a mesma reação que seu pai, como fora com Harry, mas não havia por que pressioná-la naquela situação. Ele estava realmente com pena dela, naquele estado. – Encontrei o diário junto com os livros que mamãe comprou para mim. P-pensei que alguém o deixara ali e se esquecera dele...
— A Srta. Weasley devia ir imediatamente para a ala hospitalar – Dumbledore interrompeu-a com firmeza. – Ela passou por uma terrível provação. Não haverá castigo. Bruxos mais velhos e mais sensatos que ela já foram enganados por Lorde Voldemort. – Encaminhou-se, então, para a porta e abriu-a. – Repouso e talvez uma boa xícara de chocolate fumegante. Sempre acho que isto me reanima – acrescentou ele, piscando bondosamente para a garota. – Os senhores encontrarão Madame Pomfrey ainda acordada. Está administrando suco de mandrágoras, imagino que as vítimas do basilisco irão acordar a qualquer momento.
— Então Mione está bem! – exclamou Rony, animado. Falando pela primeira vez desde que chegaram ali.
— Não houve dano permanente – disse Dumbledore.
Os pais de Rony saíram com Gina — seu pai ainda parecia bem abalado.
— Sabe, Minerva – disse o Prof. Dumbledore pensativo –, acho que tudo isto merece uma boa festança. Será que eu poderia lhe pedir para avisar às cozinhas?
— Certo – disse a professora, eficiente, encaminhando-se também para a porta. – Vou deixar você lidar com Potter e Weasley, concorda?
— Com certeza.
Ela saiu, e Harry e Rony olharam inseguros para Dumbledore. Que será que a professora quisera dizer com aquele "lidar com eles"? Depois de tudo que já tinham sofrido ainda seriam castigados?
— Estou me lembrando que disse a ambos que teria de expulsá-los se infringissem mais um artigo do regulamento da escola – começou Dumbledore. Rony abriu a boca horrorizado.
— O que prova que até o melhor de nós às vezes precisa engolir o que disse – continuou o diretor, sorrindo. – Os dois receberão prêmios especiais por serviços prestados à escola e... vejamos... é, acho que duzentos pontos para a Grifinória, por cabeça.
Rony fechou a boca, sem perceber. Sentia seu rosto queimar — devia estar muito vermelho. Ele, Rony Weasley ia ganhar um prêmio? Ele havia ganho duzentos pontos para sua Casa? Devia estar sonhando.
— Mas um de nós parece que está caladíssimo sobre a parte que teve nesta aventura perigosa – acrescentou Dumbledore. – Por que tão modesto, Gilderoy?
Ao ouvir o diretor, Rony saiu do seus pensamentos inacreditáveis e só então lembrou-se que o professor estava ali a um canto da sala, um sorriso vago ainda no rosto.
— Prof. Dumbledore – disse Rony depressa –, houve um acidente lá na Câmara Secreta. O Prof. Lockhart...
— Eu sou professor? – perguntou Lockhart, ligeiramente surpreso. – Nossa! Acho que fui inútil, não fui?
— Ele tentou lançar um Feitiço da Memória, e a varinha estava virada para ele – explicou Rony, calmamente, a Dumbledore.
— Ai, ai – exclamou Dumbledore, balançando a cabeça, seus longos bigodes prateados tremendo. – Empalado com a própria espada, Gilderoy?
— Espada? – repetiu Lockhart confuso. – Não tenho espada. Mas esse menino tem. – E apontou para Harry. – Ele pode lhe emprestar uma.
— Importa-se de levar o Prof. Lockhart à enfermaria, também? – pediu Dumbledore a Rony. – Gostaria de dar mais uma palavrinha com o Harry...
Lockhart saiu. Rony lançou um olhar curioso a Dumbledore e Harry ao fechar a porta. Ficou imaginando o que o diretor falaria com Harry mas, de toda forma, estava muito satisfeito com o desfecho daquela história para se deter demais pensando nisso.
Rony, então, pegou no braço do professor e o guiou até a ala hospitalar. Assim que chegaram, ainda a porta, explicou a Madame Pomfrey o que tinha acontecido, lhe indicando Lockhart, que entrou feliz, sentando num leito. Quando a porta abriu para que ele passasse, Rony pôde ver Gina na primeira cama com os pais a seu lado. Ela lhe deu um sorriso e ele retribuiu com afeto — um gesto que logo se alargou ao ver Hermione se levantar e vir até ele.
— Mione! Bem-vinda de volta! — ele disse sem conseguir parar de sorrir, olhando para ela fixamente outra vez, e sentindo um grande alívio.
Ela parou na frente dele, também sorrindo. Sua vontade era abraçá-lo, mas não sabia se devia, então, sentindo que estava ficando vermelha e sem graça, preferiu falar.
— Olá, Rony! É bom estar de volta! Cadê Harry?
— Está falando com Dumbledore. Tivemos várias aventuras enquanto você... bem... — ele engasgou com a palavra, encolhendo os ombros. Hermione sorriu compreensivamente.
— Conseguiram desvendar o mistério? — ela perguntou, interessada e entusiasmada.
— Ah, conseguimos! Graças à sua página do livro e sua anotação, Harry sacou tudo e pudemos resgatar Gina. — ele explicou, sorrindo feliz.
— Resgatar Gina? — ela repetiu, intrigada, olhando para a garota na cama mais adiante.
—Bem, é uma longa história. Te contamos tudo depois. — ele garantiu, e Hermione assentiu devagar, processando o que poderia ter acontecido, quando ele disse, alegremente — Agora, que tal irmos para o Salão Principal? Dumbledore falou que fará uma comemoração por tudo ter sido solucionado e acabado bem.
—Claro, vamos! — ela respondeu, também feliz.
Antes de sair, Rony foi até os pais para dizer que iria à festa e também para ver se Gina estava realmente bem. Pareceu a ele que, depois que Dumbledore não a responsabilizou por nada, ela finalmente tinha parado de chorar, apesar de ainda estar muito abalada. Bom, ele não podia culpá-la: havia sido um baita caos.
A última coisa que fizera foi abraçar a irmã e perguntar, aos sussurros, em seu ouvido:
—Você está bem, Ginny? — ele quis saber, preocupado e alongando um pouco o abraço para que ela pudesse responder. A irmã apenas mexeu a cabeça afirmativamente em seu ombro, sem dizer nada, então ele a soltou, satisfeito, lhe dando um último sorriso antes de sair, acompanhado de Hermione.
Hermione assistiu à cena em silêncio: nunca havia visto esse lado afetuoso de Rony, e muito menos com sua irmã. Não fazia ideia de que eles eram próximos, afinal, nunca os via conversando na escola. Mas, o que acabara de ver era, inegavelmente, um irmão realmente preocupado com sua irmãzinha — coisa que, por algum motivo, a fizera sorrir.
Então, eles saíram da enfermaria. No caminho até o Salão Principal, Rony contou a ela que ele e Harry tinham ganhado um prêmio por serviços prestados à escola e duzentos pontos para Grifinória, cada um.
—Que maravilha, Rony! — ela exclamou, sorrindo largo — Parabéns!
— Obrigado! — ele respondeu, corando um pouco, e acrescentou com um sorriso presunçoso e ar de satisfação — Na próxima detenção vou poder polir meu próprio prêmio.
Hermione riu com gosto — ao que ele sorriu com ainda mais sinceridade.
Um pouco depois que os dois chegaram ao Salão, Harry entrou, sendo cumprimentado por vários alunos. Hermione correu em sua direção aos gritos de "Você solucionou o mistério! Você solucionou o mistério!" e o abraçou forte.
Só quando o soltou foi que se deu conta que a Harry ela não tinha problemas para abraçar: afinal, ela não tinha dúvidas de que não pareceria estranho, porque eram amigos.
Mas, essa observação desprendeu-se de sua cabeça quando a Prof, Minerva se pôs à frente de todos e anunciou que todos os exames haviam sido cancelados, como um presente da escola. "Ah não!" Hermione lamentou, em meio aos vivas de todos.
Rony, por outro lado ficou aliviado: não precisaria fazer as provas com sua varinha quebrada, o que certamente o faria reprovar. Além disso, estava muitíssimo feliz porque Grifinória tinha ganho a Taça das casas pelo segundo ano consecutivo.
Após os vivas do anúncio dos exames e da vitória da Grifinória, cessarem, Dumbledore anunciou que, infelizmente, o Prof. Lockhart não poderia voltar no próximo ano, porque precisava se afastar para recuperar a memória. Muitos professores participaram dos aplausos que saudaram esta última notícia.
— Que pena! – ironizou Rony, servindo-se de uma rosquinha com geleia. – Eu estava começando a gostar dele.
A festa avançou madrugada adentro e às três e meia, Hagrid apareceu e deu socos tão fortes nos ombros de Harry e Rony que os garotos quase foram parar em cima dos pratos de gelatina caramelada. Mas, Rony estava tão feliz de tê-lo de volta, junto à solução de todo o resto, que sequer se importou.
(...)
No dia seguinte, Harry contou que Lúcio Malfoy tinha sido o responsável pelo diário chegar a Gina, mas que como não tinham provas nada podiam fazer. O lado bom era que ao menos ele tinha conseguido libertar Dobby, o elfo que pertencia aos Malfoy, armando pra Lúcio: fizera ele acidentalmente dar uma meia a Dobby. Os garotos também contaram tudo que aconteceu enquanto Mione estava petrificada.
O restante do trimestre Hogwarts voltou ao normal com apenas algumas diferenças – as aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas foram canceladas ("mas tivemos bastante treinamento nisso", disse Rony a uma Hermione irritada); Lúcio Malfoy foi dispensado do cargo de conselheiro, o que fez Draco parar de se exibir pela escola como se fosse dono do lugar, parecendo cheio de rancor e mágoa. Por outro lado, Gina voltou a ser absolutamente feliz: uma mudança de cenário que, para Rony, estava exatamente perfeita.
Na volta para casa, Harry, Rony, Mione, Fred, Jorge e Gina conseguiram uma cabine só para eles. Aproveitaram ao máximo as últimas horas em que tinham permissão para fazer mágicas antes das férias. Brincaram de snap explosivo, queimaram os últimos fogos Filibusteiro de Fred e Jorge e treinaram como desarmar uns aos outros com feitiços. Harry estava ficando muito bom nisso.
Estavam quase chegando a King's Cross quando Harry perguntou a Gina:
— Gina... que foi que você viu Percy fazendo, que ele não queria que contasse a todo mundo?
— Ah, aquilo – disse Gina entre risinhos. – Bom... Percy tem uma namorada.
Fred deixou cair uma pilha de livros na cabeça de Jorge.
— Quê?
— É aquela monitora da Corvinal, Penelope Clearwater. Foi para ela que esteve escrevendo o verão todo. Eles têm se encontrado escondido por toda a escola. Um dia eu peguei os dois se beijando numa sala vazia. Ele ficou tão perturbado quando ela foi... sabe, atacada. Vocês não vão caçoar dele, vão? – acrescentou ela, ansiosa. Rony já estava encrespando os lábios num sorriso contido quando olhou para os irmãos.
— Eu nem sonharia – respondeu Fred, que parecia um menino cujo aniversário tivesse chegado mais cedo.
— De jeito nenhum – disse Jorge, abafando o riso.
Rony, então, riu gostosamente: tinha certeza que aquele verão seria divertidíssimo.
Após algum tempo, o Expresso de Hogwarts reduziu a velocidade e finalmente parou. Foi quando Harry tirou uma pena e um pedaço de pergaminho e se virou para Rony e Hermione.
— Isto se chama um número de telefone – disse a Rony, escrevendo duas vezes, rasgando o pergaminho em dois e entregando um pedaço a cada um. – No verão passado, contei ao seu pai como se usa um telefone, ele vai saber. Me liguem na casa dos Dursley, está bem? Não vou suportar outros dois meses tendo só o Duda para conversar...
— Mas os seus tios vão se sentir orgulhosos, não vão? – perguntou Mione, quando desembarcaram do trem e se juntaram à multidão de alunos que se dirigia à barreira encantada. – Quando você contar o que fez este ano?
— Orgulhosos? – falou Harry. – Você enlouqueceu? Depois de todas aquelas vezes que eu podia ter morrido e não morri? Eles vão ficar furiosos...
Os três atravessaram juntos a barreira para o mundo dos trouxas. Hermione e Rony se despediram de Harry, que já havia avistado o tio ao longe e foi rápido, antes que ele desistisse da carona. Hermione também avistou aos pais logo em seguida e então se despediu de Rony.
— Até mais, Rony! Tenha um ótimo verão!
— Você também, Mione! — ele desejou, sorrindo, e então se lembrou com urgência — E ah, me escreva as novidades do verão! Não vou saber mexer nesse tal elfetone de que o Harry falou.
—É telefone, Rony! — falou ela, rindo, e então completou — Mas, é claro que irei escrever, desde que me escreva também.
—Certo, pode deixar! — respondeu Rony satisfeito, com um sorriso. Depois acenou para os Granger, que estavam mais à frente — Acho melhor você ir!
Seguindo sua recomendação, Hermione olhou para os pais que a esperavam, deu um sorriso de volta para Rony e, enfim, correu até os pais.
O garoto, por sua vez, a assistiu se afastar por um momento antes de correr para alcançar sua família. No breve caminho feito ele ponderou que, pensando no desfecho do ano anterior e agora naquele, talvez ele devesse começar a se acostumar à ideia de que aquela era a melhor versão de "normal" que ele, Harry e Hermione poderiam ter.
E na verdade, talvez ele pudesse fazer isso. Afinal, se havia uma coisa que aprendera com todos o cachorros de três cabeças, trasgos no banheiro, Você-Sabe-Quem debaixo de turbantes, aranhas gigantes o carregando pela floresta e diários que capturavam irmãs caçulas era que, embora sempre desejasse que o ano letivo fosse mais normal do que acabava sendo para ele e seus amigos, todas as coisas tinham um potencial de terminar a salvo e, na verdade, melhores do que imaginara, desde que eles tivessem um ao outro durante o caminho.
Mas, é claro, não que esse conforto fosse, de maneira nenhuma, um convite para ser colocado num covil de aranhas outra vez.
FIM
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