A Cápsula Do Tempo
2 Victor
Notas iniciais
Cheguei no colégio alguns minutos antes da primeira aula começar e corri para a carteira de Skylert.
Ela estava em silêncio, como de costume, lendo seu livro favorito. A capa era toda preta, sem título. Ela nunca me deixou ver sobre o que se tratava, mas eu tinha minhas intuições. Sempre achei que era algum tipo de livro negro, bruxaria, algo sobrenatural.
— Afinal de contas, o que você está olhando, Victor? – ela se virou para mim e resmungou.
Suspirei confuso, e falei:
— Sky.
— Skylert. – ela me corrigiu. Nunca gostava quando a chamava pelo apelido que dei.
— Você tem irmã?
— Não. Sou filha única.
— É. Não podia ser sua irmã. Vocês são muito diferentes. Você é pálida, e tooooda irritadinha.
Skylert fechou seu livro e apertou minhas bochechas:
— Hãm?! O que você tá falando aí, ou?! Veio aqui só pra falar mal de mim?
Eu não pude deixar de rir. As mãos dela eram pequenas e delicadas. Chegava a ser engraçado o jeito durão que ela tem. Se irrita tão fácil comigo, mas se era isso que eu precisava aturar para ficar perto dela, eu não me importaria.
— Ai, Sky! Dói! – ri.
Quando o professor entrou na sala, fui até minha carteira e me sentei. Eu ficava na fila ao lado, no fundo da sala.
O professor Charlie colocou em cima de sua mesa uma pilha de papéis de carta e um baú.
— Professor, o que é isso? – uma colega perguntou.
— Como as provas já acabaram, e todos estão se preparando para a formatura, decidi fazer algo diferente das outras classes: uma cápsula do tempo.
Charlie entregou um papel de carta e um envelope para cada um da sala, e continuou:
— Escrevam uma carta para vocês mesmos e coloquem no baú. Vamos enterrá-la e daqui a cinco anos, a abriremos. A maioria de vocês já terão se formado na faculdade, e será muito interessante ler o que escreveram.
Todos estavam animados com a idéia. Logo começamos a escrever e eu fui o primeiro a colocar minha carta dentro do baú.
Enquanto esperava os outros terminarem, fiquei distraído, pensando em Skylady.
A mulher que eu havia socorrido na tarde anterior precisava de ajuda, e eu não sabia o que fazer. Ela havia perdido a memória e não tinha idéia de quem era, ou o que estava fazendo no colégio.
Talvez fosse melhor levá-la ao hospital, pode ser que ela tenha batido a cabeça... Mas não haviam ferimentos, pelo menos não visíveis.
— Victor. – o garoto ao meu lado sussurrou, me passando algo embrulhado numa folha de caderno. – Da Skylert.
Era o meu chaveiro em forma de avião.
"Estava caído no chão. É seu?", li a mensagem no papel amassado.
Rasguei o canto da página do meu caderno, e escrevi:
"É. Obrigado, Sky."
Dobrei o bilhete e passei para o meu colega, que entregou para Skylert. Depois de ler, ela enfiou o bilhete no estojo e continuou a escrever sua carta.
Quando a aula terminou, fui novamente até a carteira de Skylert e a agradeci mais uma vez:
— Obrigado por ter encontrado meu chaveiro. Deve ter quebrado uma pecinha e caído sem que eu notasse.
— Você gosta de aviões? – ela perguntou, guardando seus materiais.
— Adoro! Deve ser incrível a sensação de pilotar um.
— Nunca imaginei que você gostasse dessas coisas. Até que você combinaria com uniforme de piloto.
E então, pela primeira vez ela sorriu para mim. Meu coração bateu forte.
— Sky, eu...
— Ué. – Skylert disse, olhando pela janela. – O quê aquela pessoa tá fazendo ali fora?
A janela dava em direção ao estacionamento dos professores. Havia uma mulher ali andando de um lado para o outro.
— Será que é um ladrão? – alguém sussurrou atrás de mim.
Quando notei, haviam vários dos meus colegas na janela, observando aquela mulher.
Foi quando ela se virou na nossa direção, que eu pude ver seu rosto com clareza.
— Mas que droga! O que ela está fazendo aqui?! – grunhi. Era Skylady.
Corri da sala, mas ainda pude ouvir as vozes dos meus colegas:
— Ele conhece aquela mulher?
— Será que é a noiva dele?
— Noiva?!
— É, ué! Ele não vai virar presidente da companhia do pai? Velho, a família dele é rica. É claro que os pais iam escolher uma noiva de família rica para ele se casar, e assim aumentar ainda mais a fortuna.
— Oh! Ai sim, heim?!
Corri o mais rápido que pude pelos corredores, quando cheguei no estacionamento a primeira coisa que fiz foi puxar Skylady para outro lugar, onde fosse distante o bastante dos olhares curiosos dos meus colegas de classe.
De mãos dadas a levei até um canto do colégio onde ninguém nos encontraria e falei, recuperando o fôlego:
— Sky.
— Victor... – ela sussurrou.
— O quê você está fazendo? Ficou doida?
— Eu... estava procurando algo que fizesse minha memória voltar.
— Você não pode ficar vindo aqui. Se alguém te encontrar vai dar a maior confusão.
— Desculpa. Victor... eu...
— Não precisa se desculpar. Eu só fiquei preocupado.
Então, ela sorriu para mim:
— Eu não farei mais isso.
Num impulso, a peguei pelos ombros e a encarei. Vi seu rosto ficar vermelho de vergonha e a soltei. O sorriso dela era idêntico ao de Skylert. Mas era impossível... Skylert disse ser filha única.
— O que foi, Victor? – ela me perguntou, assustada.
Será que alguém andou "pulando cerca" na família?
— Desculpa, Victor. Se algum professor nos pegar, vai dar o maior problemão, não é? É melhor eu ir embora. – ela disse.
— É... Se alguém perguntar, é só você falar que é minha noiva.
— Noiva?! Você tem noiva?!
— Não! – ri. – É que assim você não vai se encrencar, se algum professor te pegar quando estiver indo embora. É só dizer que veio conhecer a escola, e tal.
— Ah, que susto. – ela soltou um suspiro aliviada.
— Afinal de contas. Eu sou o filho do presidente de uma grande companhia. Não seria um espanto se meus pais decidirem com quem e quando me casarei. Né... – eu falei mais pra mim mesmo.
Skylady ficou em silêncio por um tempo com seus próprios pensamentos. Sorri para ela:
— Espera só um pouquinho aqui. Vou pegar minhas coisas e voltamos juntos pra casa, okay?
E antes que Sky me desse alguma resposta, corri para minha sala. Estavam todos na aula de educação física, então foi fácil fugir do colégio.
Voltei para onde minha nova amiga me esperava e caminhamos lado a lado até meu apartamento. Eu estava calado, e Sky também não parecia querer conversar.
— Victor... – Sky sussurrou quando chegamos no prédio e entramos no elevador, ela parecia preocupada com algo.
— Sim? – eu sorri.
— Você quer ser piloto de avião, não é? Esse é o seu sonho, não é?
Olhei sério para ela e respondi, sem hesitar:
— Eu serei sucessor do meu pai, e...
— Diga a verdade. – Skylady estava tão séria quanto eu. – Você já conversou com seus pais? Por quê esconde isso? Eu vi os livros sobre aviação no seu quarto, vi os projetos, os desenhos, os aviões de brinquedo que você montou...
Fiquei sem saber o que dizer. Minhas palavras travaram na garganta, e meu sorriso desapareceu por completo.
— Ah! Me desculpa, Victor! Eu não estava bisbilhotando, é que estava tudo na estante e eu não pude deixar de notar. E-eu não deveria me meter na sua vida... Eu...
— Eu quero ser aviador. – sussurrei.
Sky me olhou assustada, seu rosto corou, e eu a abracei. Após o longo abraço, olhei para ela e sorri:
— Obrigado, Sky. Foi bom colocar para fora. Você parece me conhecer tão bem.
Ela, com o rosto mais corado ainda, sorriu para mim. Me lembrava tanto aquele primeiro sorriso que vi nos lábios de Skylert...
• • •
Skylady e eu nos sentamos à mesa e almoçamos enquanto conversávamos sobre o que fiz na aula.
— Cápsula do tempo? – Skylady me olhou surpresa.
— É. Escrevemos cartas para nós mesmos, as guardamos em um baú e vamos abrir daqui uns anos. – eu expliquei.
— E o que você escreveu? Escreveu sobre ser piloto e dar a volta ao mundo?
— Não exatamente. – sorri.
Skylady sorriu de volta, e eu não pude deixar de comentar:
— Você realmente se parece muito com a Skylert, principalmente o sorriso. Apesar de se irritar facilmente com tudo e todos, principalmente comigo, sei que lá no fundo ela é doce e carinhosa.
Skylady me encarou, suas bochechas estavam rosadas.
Depois do almoço, eu me retirei para o meu quarto, enquanto ela permaneceu na sala com a televisão ligada.
Peguei as caixas de papelão que escondi embaixo da cama, e voltei a guardar meus livros e roupas. Houve uma batida na porta, mas antes que eu pudesse esconder as caixas novamente, Sky entrou no quarto:
— Victor, eu preciso te contar uma coi... Ei, o que você está fazendo?
Abaixei o rosto e respondi:
— Semana que vem, eu vou me mudar. Meu pai quer que eu vá estudar em uma faculdade na cidade onde ele trabalha. Mas você não precisa se preocupar. Minha irmã vai continuar aqui e...
— Por que não me contou?
— Eu ia te contar, é que...
— Vai embora escondido... Mais uma vez...
— Mais uma vez? Como assim? Você...
— Você não me contou nada sobre o seu sonho, nem sobre ir embora... Por que você fez isso? Eu realmente não significava nada para você?
Lágrimas molhavam as bochechas de Skylady. Eu não estava entendendo nada.
— Sky, o que você...
— Vem comigo, Victor. – ela disse, me pegando pelo braço e me puxando para fora do apartamento.
Skylady me fez correr à toda velocidade até o meu colégio. Chegando lá, fui puxado até o jardim.
— Era aqui que você estava desmaiada naquele dia... – eu disse, quando Sky finalmente soltou meu braço. – Afinal, por que me trouxe aqui? O que você tem?
Skylady se aproximou da grande cerejeira à nossa frente e falou:
— Essa árvore é maravilhosa. Se você escrever um desejo e enterrá-lo junto à cerejeira, seu sonho se realizará.
— Skylady, você não está falando coisa com coisa. Você está bem?
— É verdade, Victor. Se você realmente acreditar, essa cerejeira vai realizar seu pedido.
Ela sorriu em silêncio por alguns segundos, e continuou:
— Ela realizou o meu.
— O quê?
— Eu vou estar esperando por você, Victor. Independente do caminho que você escolher. Eu vou te esperar. Por isso, daqui cinco anos... Venha me encontrar.
"Skylert!", ouvi uma voz ao longe.
— Skylady, você está ouvindo? Juro que ouvi alguém chamando por Skylert. – eu disse, procurando pelo dono daquela voz.
— Alguém está me chamando! – Skylady exclamou. – Essa voz...
— Por você? Como assim?
— Victor! – ela sorriu, assustada e com os olhos cheios de lágrimas. – Adeus...
— Adeus? Skylady? O que está acontecendo?
"Skylert! Skylert!", aquela voz não parava de repetir, "Skylert! Sky!"
E então uma luz branca intensa me cegou. Quando os abri, Sky havia sumido.
— Sky? – eu a chamei, mas não obtive resposta. A única coisa à minha frente era a grande cerejeira mágica, com suas flores rosadas... pétalas voavam para todos os lados. – Skylert...
• • •
Após receber o telefonema de Megg, me dizendo que Skylert estava no colégio, tomei coragem e desci do carro, qual estacionei à três quarteirões.
Atravessei os portões, e sem pensar duas vezes, me apressei até a cerejeira. Ela estava seca, e o vento gelado fazia seus galhos balançarem.
Me aproximei da grande árvore e toquei em seu tronco.
"Foi aqui onde vi Sky pela última vez.", pensei, "Já se passaram cinco anos. Cinco anos desde aquele dia confuso."
Olhei ao redor e encontrei um papel caído no chão. O peguei e li:
— Victor.
Era a letra de Skylert. Lembrei perfeitamente de suas palavras, "Se você realmente acreditar, essa cerejeira vai realizar seu pedido. Ela realizou o meu."
Não haviam sinais de Sky em lugar nenhum. Me distanciei da cerejeira, e então comecei a chamá-la desesperadamente:
— Skylert! Eu sei que você está aqui em algum lugar! Skylert! Skylert!
Eu achava que Skylert e Skylady tinham algo em comum. Mas eu estava errado. Elas eram a mesma pessoa. De alguma maneira, aquela mulher que eu chamava de Skylady era na realidade Skylert. Sempre foi Skylert! Sempre foi...
— Sky!
Uma luz branca forte me cegou mais uma vez, como há cinco anos atrás. E quando consegui abrir meus olhos, lá estava Skylert caída no chão próxima à cerejeira, coberta por lindas flores rosadas.
Corri até ela, que parecia tão perdida quanto eu.
— Victor? – ela sussurrou, quando me ajoelhei ao seu lado.
— Skylert? – eu pousei minhas mãos em seus ombros, não conseguindo acreditar. – O tempo todo, era você.
— Eu...
— Fui embora depois da formatura, sem me despedir, mas sempre quis te ver, sempre pensei em você. Só não voltei antes, porque você prometeu me esperar, lembra? Disse que ia me esperar.
— Independente do caminho que você escolher...
— Eu sou piloto, Sky. Graças às suas palavras, eu tomei coragem e enfrentei meu pai. Fui atrás do meu sonho, graças a você.
— Ver... Verdade? – as lágrimas já estavam para cair de seus olhos. Me calei e apenas sorri, a abraçando com força.
Pude sentir sua respiração quente no meu pescoço, e sussurrei em seu ouvido:
— Preciso te mostrar uma coisa.
Ela se soltou do abraço e sorriu para mim, com o rosto molhado.
Fui até as raízes da cerejeira e cavei o chão gelado com minhas mãos, não demorou muito até eu encontrar uma pequena garrafa de vidro.
— O que é isso? – ela perguntou, surpresa.
Abri a garrafa e tirei minha carta lá de dentro:
— Antes de me mudar, eu voltei até essa árvore e enterrei meu pedido. Acreditando que um dia, essa cerejeira o realizaria.
Entreguei a folha de papel para Sky, que leu com a voz trêmula:
— Skylert.
Aproximei meu rosto do dela e, fechando os olhos, senti seus lábios quentes nos meus. Um beijo carinhoso e gentil. Eu a envolvi pela cintura, e as mãos dela entrelaçaram meu cabelo.
O tempo pareceu parar naquele momento.
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