A Buscadora
8 Capítulo 8- Intrigada
Notas iniciais
Gente, esse cap é grande e cheio de surpresas!
Hoje seria um dia especial e marcante para o meu trabalho. Agora tínhamos permissão para sair e procurar sobreviventes, isso era um tanto bom. Sentia-me promovida, ainda mais por que eu começaria hoje.
Minha sorte era que eu já tinha muita experiência com carros, antes eu dirigia, por mais que não fosse certo para o mundo dos humanos. Na minha idade não era permitido, mas nesse mundo isso não importava.
Entrei no meu carro, um carro comum, mas que para mim era lindo. Sol ficou me acariciando e pedindo para que eu tomasse cuidado. Eu e ele sabíamos que não tinha perigo, há anos não encontravam sobreviventes.
Eu fui a única exceção.
Sol me deu armas, até que um arsenal grande. Muitas ali eu mal sabia o nome, mas sabia usá-las perfeitamente. Deu-me criotanques vazios, caso uma alma sofresse um acidente e eu fosse obrigada a retirá-la.
O mais estranho de tudo, que garanto que nenhum humano imaginava, era que os Buscadores levavam criotanques com almas, normalmente estas recém chegadas. Se precisasse, quem sabe se encontrasse uma resistência, deveria usá-las como isso.
Fiquei imaginando como eles tinham coragem de deixar seus semelhantes tanto tempo dentro desses tanques. Sentiria-me bem mal por isso, mas talvez eles nem ligavam.
Sol não gastou seu tempo falando muito de humanos, o problema dele era a segurança de alma. Acidentes eram raros, mas quando aconteciam, teria que ter um movimento rápido.
Começaria hoje pelas mediações do deserto de Picacho Peak. Sol me contou que há tempos duas almas morreram pelas localizações, e eu precisava cuidar para que nenhuma alma ficasse desprotegida.
Senti um pouco de medo, afinal, era perto de um deserto. Verifiquei minhas coisas antes de tudo, para ver se não faltava nada. Imagine se eu ficasse perdida no deserto?
Dirigia para Tucson, a estrada era até engraçada, não tinha carros nem movimento de pedestres. Achei bem fácil esse trabalho, mal precisava pensar para agir.
Achei algo incomum no meio da estrada. Um carro sedam estava parado com duas almas do lado de fora, eles pareciam preocupados e aflitos. O homem estava abaixado mexendo no pneu, entendi que estavam com problemas.
Meu trabalho tinha acabado de começar, eu iria ajudar essas almas. Sorri enquanto estacionava no acostamento, perto do casal de almas.
Eles me olharam assustados quando me viram, eu continuei sorrindo. Notei que eles cochicharam alguma coisa, mas ignorei, almas não falavam mal e não tinham nada a esconder.
Notei as características deles enquanto eu caminhava. O homem era alto, muito forte, tinha cabelos pretos, uma pele branquinha e olhos de um azul intenso. A mulher era a coisa mais linda do mundo, loira, cabelos cacheados e compridos, olhos claros e rosto angelical.
- Olá, vocês precisam de ajuda? – Perguntei ainda de longe.
Eles me olharam nervosos.
- Não, está tudo certo. – A moça respondeu, notei que ela escondia algo.
- Me parece que seu pneu furou. – Murmurei. – Olhe, eu tenho um de reserva no meu carro, posso ajudá-los sem problemas.
- Realmente não precisa. – Ela tentou sorrir, mas parecia falso.
- Como é teu nome? – Perguntei na curiosidade.
- Pétalas de Rosa.
- Ok, se vocês não precisam de ajuda, eu vou.
Eles não me responderam. Virei as costas para ir ao carro, percebi que o homem acabava de colocar o pneu e corria para dirigir. Os dois ainda pareciam nervosos, como se fugissem.
Parei para olhar mais um pouco a atitude deles. Ele tentava ligar o carro, mas não tinha resposta, sorte deles que eu ainda estava aqui.
Voltei, ele acelerou a tentativa. Tudo isso estava muito estranho. Fui para o lado do carona e bati no vidro.
- Vocês não querem ajuda?
- N-não precisa, eu e meu companheiro damos conta.
- Certeza? Meu trabalho é ajudar.
- P-pode ir. – Por que ela estava gaguejando tanto?
Será possível que ela era uma humana? Será que eu tinha encontrado sobreviventes? Essa idéia passou pela minha mente, eu precisava descobrir a verdade, agora!
- Posso ver seus olhos? Sabe como é né...
- Pode.
Ela disse isso calma, mas notei que seu parceiro estava rígido, sem se mexer. Depois eu iria olhar os olhos dele também.
Peguei a lanterna de meu cinto e apontei para os olhos de Pétalas de rosas. Seus olhos eram bem bonitos, quase pratas de tão claros. Deles refletiu a luz prata, ela era alma sim.
Será que eu devia olhar os olhos do outro também? Poderia ser desagradável de minha parte, a final, eles eram apenas mais um casal de almas...
Não, eu ia olhar para ter certeza.
- Posso ver os olhos de seu parceiro? – Ambos ficaram muito preocupados.
Nenhum dos dois respondeu, notei que ele segurava algo nas mãos, algo muito pequeno, assim como ela. Não poderia ser nenhuma arma, mas aquilo era bem estranho.
Dei a volta no carro pela frente, os dois sussurraram alguma coisa e se beijaram loucamente, como se fosse uma despedida. Tudo isso era bem suspeito, na dúvida, coloquei a arma nas mãos.
Peguei a lanterna e apontei para o rosto do cara, seus olhos azuis eram bem bonitos. Quando a luz bateu ali, nada aconteceu, nenhum brilho...
Meus lábios soltaram as palavras automaticamente.
- Você é humano!
No exato momento que eu disse isso, ele colocou algo na boca, um comprimido, era veneno!
- Não engula! – Gritei desesperada.
Eu precisava pensar rápido, precisava fazer algo para que o impedisse, para que ele não morresse... Virei minha arma para a moça loira de seu lado, a alma.
- Não engula!
Ela ficou rígida quando mostrei a arma para ela.
O homem de olhos azuis, quando notou que eu estava com a arma no pescoço dela, cuspiu o possível veneno da boca.
- Não faça nada a ela! Toma, me leva!
Ergueu as mãos mostrando que não tinha nada a esconder.
- Eu a tinha capturado, ela não tem culpa de nada!
Novamente ele falava, essas coisas não tinham sentido. Eles tinham se beijado, ele não a capturou, isso eu sabia.
O que eu não entendia era o romance dos dois, entre um humano e uma alma.
- Contra outra. – Murmurei fazendo careta, meio que zombando dos dois.
Ela começou a chorar loucamente, e ele ficou rígido, preocupado.
- Tudo bem, mas não a culpe olha...
Enquanto ele pronunciava essas palavras, eu me senti como a alma. Eu era algo estranho, como ela. E ambos precisavam saber do meu segredo.
- Não. Eu não a culpo. – Murmurei o interrompendo. – Também tenho um segredo, algo para esconder.
Dei uma risadinha, ambos continuavam com a mesma expressão.
- Você é humano... Mas eu também.
- O que? – Ambos pronunciaram essas mesmas palavras, enquanto arregalavam os olhos.
- Eu sou humana... – Dei mais uma risada. – Ok, vai parecer a coisa mais estranha do mundo... Mas tem uma alma dentro de mim...
- Isso é impossível. – O homem murmurou.
- Não, não é. É a coisa mais possível do mundo.
- Você está mentindo, ainda não percebi o motivo, mas esta mentindo. – Ele murmurou exaltado. – Como toda a Buscadora, você mente, mente para o nosso mal.
- Calma Ian... – A moça loira resmungou. – Olha, isso já...
- Calma nada, Peg. Você não vê que ela quer nos matar? Que ela é uma buscadora, tão ruim como as outras?
- Hey cara. – Agora era eu que estava gritando. – Não tenho motivos para mentir, olha, eu nem estou fazendo nada de mal para vocês e...
- Me desculpa, Buscadora. – Tinha sarcasmo na voz. – Mas eu aposto que vai nos prejudicar.
Eu o encarei, sem ter o que falar.
Por um momento, eu o compreendia, sabia que se estivesse no lugar dele, não confiaria de forma alguma. Meus olhos encheram de lágrimas enquanto eu pensava na hipótese de perder mais uma vez os resquícios de uma civilização humana.
A garota loira parecia se preocupar comigo.
Olhei bem para eles, com a tristeza me dominando. Virei as costas para ir embora. Eu tinha desistido mais uma vez, mas não havia forma de tentar convencê-los de que tudo era verdade.
- Tudo bem vocês não acreditarem em mim... Mas eu juro que é verdade.
Eles não responderam, eu continuei andando triste e infeliz para o meu caro. Seja lá o que eles estavam pensando, a única coisa que fiz foi deixá-los sozinhos.
Eles poderiam pensar que eu era uma Buscadora sim.
Não tinha mais formas de tentar acabar com isso, eu estava condenada e a tristeza me consumia. Entrei em meu caro de cabeça baixa, enquanto dava partida.
Não olhei mais para aqueles rostos.
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