A Busca
1 O Mágico de Oz - Prólogo 1/2
29 de fevereiro de 2.000. Terça-feira. Poucos minutos após o meio dia.
Aconteceu uma coisa com o mundo.
Uma crise mundial e de proporções catastróficas, que por pouco não apagou do universo a história do planeta Terra, finalmente terminou. Aquilo que os cientistas da época chamaram de “Fim do Mundo”, que era previsto por alguns profetas e por vários supersticiosos do passado, e que varreu quase 40% da população de todo planeta, não foi nada além de um único meteoro, que atingiu a Alemanha numa velocidade superior a qualquer outra conhecida pelos astrônomos mais entendidos do assunto. Com o baque e a energia liberada por esse intruso, os terremotos, maremotos, erupções e todo o tipo de ataque da natureza aos humanos, ocorreram de modo súbito, seqüenciado, impiedoso e duradouro. Em adição às desgraças naturais, o suposto meteoro ainda trouxe consigo uma praga mortal, um tipo estranho e poderoso de vírus, apelidado de D-4, que se encarregou de dar cabo da vida de muitos dos humanos que sobreviveram ao baque e aos tremores da queda do corpo celestial.
Contudo, não há criatura que mais rápido se adapte à uma tragédia natural do que o homem. Por isso, os muitos humanos que lutaram e ainda lutam para existir, tiveram que re-aprender a viver e, assim, ao longo dos anos, o mundo foi se reconstruindo.
Estamos em 2015...
Uma vez alguém disse que a duração de um grande sonho, quando seguido de muita luta, só termina quando o mesmo é realizado. Em meados do mês de Junho do ano de 2015, numa terça-feira chuvosa, um grande sonho, de um grande homem, que se iniciou alguns anos antes e depois de muita, muita luta, finalmente terminou. Mas no seu caso, ele foi interrompido.
Para alguns, Gengetsu Burashi, o dono do sonho em questão, era um herói, um salvador, um visionário. Para outros, ele era visto apenas como um justiceiro violento, que subia uma escada de sangue para a realização de seu sonho. E havia ainda alguns que o viam como um tirano, um vilão... um assassino. Com uma personalidade que dividia opiniões, um confronto entre ele e os que agem à “favor do bem do povo” seria inevitável. Ele deveria ser detido. “Pessoas más cujos atos passam a ilusão de heroísmo são pessoas perigosas. É melhor evitar que cresçam”..., foi a desculpa usada para justificar a morte de Gengetsu, declarada abertamente numa entrevista. A frase foi dita por um rapaz jovem e de ar arrogante, responsável pelo feito.
Agora, dois dias depois do ocorrido, todo o grupo de Gengetsu, um pequeno conjunto de homens treinados e que foram presos após a morte do líder, receberia a liberdade mediante uma fiança. Dentre as pessoas, havia muitos japoneses. E entre os japoneses, havia dois de grande importância, corpulentos e de rostos muito sérios, que eram reconhecidos pelos outros como os capitães de tropa, chamados Mozu e Nezuo. Ambos receberiam uma liberdade considerada especial, concedida por uma brecha da justiça, que fazia uso de mais uma nova lei que beneficiava mais bandidos e marginais que inocentes. Isso, infelizmente, era uma coisa muito comum no grande país em que eles estavam. A “Ilha de Vera Cruz”, antigamente chamado Brasil, só mudou mesmo de nome, pois sempre foi um país injusto para os que andavam na linha. Tal lei, no caso, expunha que todo o crime cometido pelo acusado, por mais grave que fosse, poderia ser sanado se acaso fosse comprovado que todo delito foi feito por ordem de alguém que pudesse ser completamente responsabilizado. Esse alguém era Gengetsu Burashi.
Uma boa quantia em dinheiro para os bolsos da justiça brasileira e um acordo de extradição, assinado pelos meliantes, e pronto, sua história de crimes seria apagada dos arquivos policiais do país do carnaval. O julgamento do restante do grupo de soldados foi feito logo em seguida. Os valores sobre suas liberdades foram menores que o dos capitães, mas ainda era alto o demais para que algum deles tivesse condição de pagar a fiança e, portanto permaneceram presos. Mozu e Nezuo também não estavam com o dinheiro em mãos, no entanto, receberam a visita de um de seus representantes, de nome Klaus.
Klaus era musculoso, gostava de camisas apertadas, era mal encarado e exibia pose de soldado superior. O que era normal, já que ele era um “Ichigou”, ou seja, um “soldado número Um”. Cada um dos três capitães de Gengetsu tinha um Ichigou, que não chegava a ser um Tenente de grupo e, portanto, não precisava ser respeitado como tal. Mas era, em geral, uma espécie de “segundo em comando”. Klaus era o Ichigou de Nezuo.
Um Ichigou não era necessariamente o primeiro homem a entrar no comando de determinado capitão, nem precisava ser o mais forte do grupo, mas era preciso ser um membro de destaque, pois ele seria o homem em que o capitão mais confiaria. Tanto que os Ichigou eram os únicos membros abaixo dos capitães com permissão para pôr as mãos numa quantia, embora que ínfima, das finanças do “Gen-Bu”, o império de Gengetsu. Claro que cada centavo retirado era preciso ser justificado e era preciso autorização de qualquer um dos capitães antes de realizar o saque. Do contrário, o Ichigou perderia a confiança, o posto e, não raro, a vida.
Com a quantia em mãos, foi-se paga a fiança de Mozu e Nezuo e poucos momentos depois, ambos já haviam retirado suas coisas e estavam a caminho do local onde se hospedavam, que por agora estava sendo vigiado pela polícia, mas que logo estariam com suas privacidades restauradas e respeitadas, desde que sumissem do país em, no máximo, três dias. Quando perguntado por Klaus se era preciso libertar os outros prisioneiros, Mozu apenas disse:
– Deixe que apodreçam.
Longe dali, em menos de uma hora depois, dois homens acompanhavam atentamente o noticiário pela TV e só agora receberam o resultado da audiência. Eram mais dois dos homens que estavam sob as ordens de Gengetsu, aos cuidados e comandos do capitão Mozu e que, por uma estranha coincidência, foram ordenados a saírem do local de onde seu senhor estava, juntamente com o terceiro e último capitão, na verdade uma capitã, exatamente na noite anterior ao fatídico dia. Eles tinham como missão colher informações sobre um político de origem gaulesa, que era conhecido como John Galápagos. E depois, se possível, conseguir um meio de encontrar-se com tal figura para uma conversa informal e convidá-lo a conversar com Gengetsu.
O interesse de Gengetsu nesse homem era que Galápagos, assim como muitos outros espalhados pelo mundo, era um candidato à uma nova, ousada e influente vaga de comando com escala global, com poderes supremos na execução de ordem judiciária, legislativa e executiva. A vaga de Gilgamesh, que num resumo para leigos seria um tipo de Líder do Mundo. Galápagos, no entanto, não apareceu. E os soldados, agora pesarosos por terem deixado seus postos, lamentavam a perda de seu comandante.
Com o término do noticiário, os dois homens desligam a pequena televisão de 14’, saem da humilde cabana em que se hospedavam e vão em direção de outra cabana alugada, onde se encontrava a capitã a qual foram obrigados a seguir. Sentiam-se “obrigados” porque nenhum deles queria estar ali com aquela que, acreditavam eles, foi a razão pela qual Gengetsu os tirou do campo aonde aconteceria a batalha final. Nunca ficaram sob o comando dela, mas ouviram coisas ruins a seu respeito. Coisas que não condiziam com o peso do título ao qual ostentava. Embora que, pelo pouco tempo em que ficaram ao seu lado, tudo o que tenham ouvido sobre essa capitã ainda não havia sido comprovado.
Rumiko era uma mocinha baixinha e magrela. Tinha a pele rosada, nariz fino e olhos bem grandes com pupilas negras. Seus cabelos eram morenos, visivelmente lisos e escorridos, mas talvez por falta de cuidados ou seja lá qual for o motivo, suas madeixas se encolhiam ao ponto de ficarem ondulados. Com exceção de suas mechas frontais, sempre lisas e cheias e que lhe caíam aos lados da face, dando-lhe um toque peculiar. Tinha um rosto pentagonal, com traços finos e de cantos arredondados. E apesar da idade que já levava nas costas, era facilmente confundida com uma pré-adolescente, devido à de um erro celular em seu sangue, que moldava o envelhecimento de sua pele de um modo bem vagaroso. Herança de sua mãe, que também não aparentava a idade que tinha. Esse, aliás, era apenas um de uma pequena série de erros genéticos apresentados no organismo de Rumiko, que a biologia humana via como “defeito benéfico”.
Rumiko sempre fora alegre e sorridente, aparentemente feliz mesmo diante dos problemas e das dificuldades extremas em que Gengetsu se envolvia e que ela, com muito orgulho e entusiasmo, também entrava de cabeça. Esse seu sorriso quase interminável, que seja dito de passagem, se tornou sua característica principal no império Gen-Bu, conferindo-lhe o apelido de Egao, ou seja, “Rosto sorridente”. Também era uma pessoa brincalhona, quesito esse que não combinava com o ambiente em que vivia. Falava bobagens para pessoas sérias, sem medo de ser ridicularizada ou agredida. Tratava todo e qualquer ser humano que encontrava nas cidades que visitava com Gengetsu, desde os figurões até os moradores de rua, com o mesmo nível de educação e respeito. Era uma pessoa que, quando vista de fora do império, era difícil acreditar que se tratava de alguém que continha o título de “Teichou”, que significava ser um dos capitães de tropa do Gen-Bu. E mesmo que nesses últimos meses ela estivesse apresentando uma face aborrecida e chateada, talvez até infeliz, essa fase em nada se assemelhava com a Rumiko em que os soldados agora avistavam.
Sentada numa escada de madeira, em frente à cabana a qual pernoitou pelo segundo dia seguido, estava uma Rumiko triste, cabisbaixa e desanimada, exatamente como esteve durante todo o dia anterior. Não precisou ser informada da morte de Gengetsu, pois, de alguma maneira, assim que ele morreu e os soldados foram lhe avisar, ela já estava praticamente catatônica, sentada naquela mesma escada. Era como se soubesse com antecedência que Gengetsu seria assassinado. E como ela sempre foi uma pessoa que tinha uma sensibilidade quase mediúnica, não seria estranho se ela tivesse sentido a morte de seu senhor. E agora, tudo o que ela tem feito desde então é sentar-se e ficar pensativa. Às vezes saía e, sozinha, dava uma longa volta pelo local, depois voltava e ficava novamente pensativa, debruçada, melancólica, praticamente adoecida, como se não soubesse mais o que fazer da vida. Até que chegava a hora de entrar para dormir.
Os dois homens ficam de longe, observando a moça por vários segundos antes de se entreolharem e decidirem se aproximar. Seria a primeira vez que falariam com ela diretamente e os boatos de que ela era uma megera metida, rabugenta, convencida e mandona ainda ecoava na cabeça de ambos. E com a morte de Gengetsu, a quem gostava tanto, ela deveria estar bem mais irritante.
Ao chegarem suficientemente próximos, os homens ajoelham-se diante da moça, ao estilo respeitoso que lhes fora ensinado no Gen-Bu e que deveria ser realizado sempre que se dirigissem à qualquer capitão. Com a mão direita no peito esquerdo, os dois exclamam ao mesmo tempo:
– Teichou!
Rumiko ergue a cabeça e vê os homens prostrados à sua frente, em posição de respeito. Ela meneia a cabeça e respira fundo. Como eram simples soldados, Rumiko não sabia os seus nomes, pois no sistema do Gen-Bu, adotado por Gengetsu, meros guerreiros não deveriam ter intimidade com os capitães e, portanto não eram chamados pelos nomes e sim por seus números cardinais que lhes eram dados de acordo com seus capitães. E como eles não eram os “seus” comandados, Rumiko também não sabia os números aos quais eles eram identificados, portanto apenas se referia à eles como soldados. Aliás, o título de soldado ainda era meio exagerado, já que os homens eram treinados, mas não nos moldes de um treinamento militar. Eram guerreiros, sim, disso não havia dúvida. Leais até o ponto em que se pôde testar sua lealdade e eram prestadores dos mais variados serviços, inclusive de assassinato, por isso não eram diferentes dos soldados de “verdade”. Mas aos olhos de entidades comprometidas com a justiça e com a defesa geral da nação, os homens de Gengetsu eram vistos como meros capangas.
Rumiko torna a observá-los com um olhar triste e de pálpebras pesadas antes de proferir:
– Os senhores estão sob o comando de Rumiko pela primeira vez então não devem saber. Mas só precisam reverenciar Rumiko na ausência de nosso mestre – ela volta a abaixar a cabeça e continua em tom melancólico – E pelo visto, os senhores não precisam fazer isso nunca mais.
A voz era doce e educada, do tipo de alguém que implora por algo ao invés de mandar. – “Como alguém com uma voz tão suave poderia ser uma megera mandona?” – foi o que um dos soldados pensou. Quando aqueles homens conheceram Rumiko, há menos de 3 anos atrás, ela já era um membro importante do grupo de Gengetsu. Já era um capitão. Motivo pelo qual eles nunca haviam conversado com ela pessoalmente.
Outro boato sobre Rumiko que correu nos ouvidos daqueles homens era que ela era vista como a queridinha do supremo líder. Muitos dos que a odiavam diziam que Gengetsu a mimava como uma princesinha, como a filhinha que ele nunca teve. No entanto, ninguém tinha provas disso. Na verdade, em todas as vezes que os dois eram vistos juntos, Gengetsu estava sempre sério e fechado. Falava com Rumiko raramente quando em público e, quando o fazia, era com certa grosseria e com tom autoritário. Jamais fez algum tipo de piada ou demonstrou qualquer afeto ou carinho. Mas era fato que os dois não se desgrudavam, não importava o quão perigosa ou secreta fosse a missão em que Gengetsu se envolvia. Numa conversa descontraída com os soldados que ficavam ao comando de Rumiko, o Ichigou dela chegou a dizer que ela era o sorriso que faltava em Gengetsu, ou que ela sorria pelos dois. Daí o motivo de ela estar sempre sorrindo e ele sempre sério. Por isso os homens estranharam quando, numa batalha tão importante quanto a que estava por vir, Gengetsu pediu para que Rumiko levasse dois homens, que nem eram de seu comando, para uma missão tão simples quanto a de colher informações.
– Teichou! – começa um dos homens ao se levantar, mas sem demonstrar desacato – o julgamento de nossos superiores terminou. Eles estão livres, mas terão de voltar para o Japão dentro em breve.
– Ótimo! – replica Rumiko tristemente, olhando para o chão – Era isso que queriam desde o início.
– Eu queria saber... – o soldado leva um tempo para reunir coragem – Milady, alguns de nossos homens permaneceram presos. Eu gostaria de saber se a senhorita poderia usar de seus privilégios para pagar suas fianças.
Rumiko ergue os olhos devagar e observa o soldado. Era mais magro que o outro, tinha um rosto fino e preocupado. Rumiko achou estranho que Mozu ou Nezuo não tenham se pronunciado quanto àquele fato, afinal, eram os homens deles que estavam detidos.
– Quantos ainda estão presos? – ela questiona.
Desta vez foi o outro soldado que falou, indignado com a atitude de seus outros capitães:
– Com exceção dos capitães Mozu e Nezuo, todos eles, milady. Mais ou menos vinte e dois soldados. Se a senhorita quiser, nós podemos escolher somente uns dez deles, só os melhores e mais confiáveis, já que a maioria não passa de...
– Pague a fiança – Rumiko ergue a mão, fazendo o homem se calar para não ouví-lo ofender seus comparsas – De todos eles.
– Milady? – o soldado fica espantado por um momento.
– Pague a fiança de todos eles, por favor. E leve todos de volta ao Japão. São guerreiros dos senhores Mozu e Nezuo. Rumiko assevera que isso lhes agradará, ou ao menos, deveria.
– E quanto à Milady?
– Rumiko ficará por aqui... por mais alguns dias. Rumiko vai providenciar o transporte do corpo de nosso mestre para o Japão.
– Se a senhorita quiser, nos poderemos fazer isso.
– Não! Rumiko quer fazer isso pessoalmente.
– Sim... Claro, milady. Com sua licença.
Os homens inclinam-se numa mesura nipônica respeitosa e viram-se, na intenção de retornar à cabana. Foi quando um deles parou um pouco mais adiante, olhou para trás, e observou, por mais uma vez, o 3ª capitão do grupo mais temido do Japão.
Rumiko apoiava o cotovelo sobre o joelho direito, com a face sobre a mão, tapando e apertando o rosto liso e rosado, numa cena deplorável de melancolia. Os negros, lisos e cheios fios de cabelo de suas mechas frontais lhe caíam pesadamente sobre os dedos finos. O soldado nunca tinha visto aquela moça chorar. Sinceramente, ele nunca a tinha visto sequer ficar triste. Parecia que a vida para Rumiko era sempre maravilhosa, por mais tenso e pesado que fosse o problema. Isso de certa forma o aborrecia. A felicidade, o brilho, a vida livre e a falta de preocupação que a moça transmitia tanto para si quanto para os homens ao seu comando deixavam os soldados de Mozu e Nezu irritados. Alguns deles até, por que não dizer, doídos de inveja. Vê-la naquele estado deveria fazê-lo feliz, era o que ele achava. Mas ele não estava. Era ruim vê-la daquele jeito. Rumiko tinha mais vida que qualquer pessoa que ele havia conhecido e por mais que a odiasse ou a temesse, de certa forma ele desfrutava da energia de vida que ela emanava. E agora, a melancolia da moça o estava afetando também.
Então, um pensamento lhe invadiu a mente. Uma informação que lhe foi confidenciada durante uma conversa que teve com outros soldados, que participaram de uma jornada com o senhor Gengetsu. Era uma idéia boba e talvez até infantil, mas quem sabe não alegrasse um pouco mais aquela moça e a motivasse a sair daquela fossa? O soldado abre a boca, mas antes de proferir um som, seu parceiro, mais adiante, lhe questiona:
– Hei, o que está esperando?
– Hã...? Nada. Vamos indo!
Rumiko ainda fica por mais alguns longos minutos, debruçada sobre os joelhos, até que o sol é coberto por uma longa nuvem e um vento frio sopra seus cabelos. Então ela finalmente decide entrar em sua cabana. Lá dentro, olha ao redor da pequena sala principal, que continha uma mesa com quatro cadeiras de madeira, um canto reservado para uma cozinha improvisada, com uma pia, um micro fogão de apenas duas bocas e um pequeno armário parafusado na parede para guardar mantimentos de refeição rápida. Ela vai ao quarto de dormir e vê a cama de pernoite, que também era parafusada numa das paredes, ainda intocável, já que a moça não dormiu sobre ela, uma penteadeira com duas gavetas vazias na parede aos pés da cama e, do outro lado da quarto, uma minúscula mesa de centro que tinha sobre ela uma pequena TV. Ainda não encontrava força ou coragem para fazer nada, então caiu pesadamente sobre a cama e ligou o aparelho.
Klaus recebeu a ligação dos soldados que estavam com Rumiko e rapidamente passou a solicitação dos mesmos adiante. Também tinha o desejo de libertar os outros soldados, não por pena ou companheirismo, mas sim porque um “chefe sem índio não é um chefe”. Ajoelhado em respeito ao seu capitão Nezuo, Klaus teve de ouvir os berreiros de Mozu, de quem ele não gostava muito, e que firmou:
– Não vão pagar nada. Não vão retirar mais nenhum centavo pra ajudar um bando de inúteis.
– Meu senhor – Klaus ergue-se, mas mantém a cabeça baixa – a petição vem em nome de Egao-san.
– De Rumiko? – espanta-se Mozu – O que aquela pirralha tem a ver com isso? Não são os imprestáveis dela que estão presos. São meus. Meus e de Nezuo.
Klaus não citou o nome de Rumiko logo de início porque sentia um certo prazer em ver a mudança de temperamento de Mozu sempre que o nome da moça surgia num assunto em que ambos poderiam opinar. O ódio que Mozu nutria por Rumiko era de conhecimento de todos, mas ninguém nunca soube dizer exatamente o porquê. A explicação mais usada e aceita era o fato de que Rumiko, apesar do nome, não era sequer asiática. Ela tinha sido encontrada e adotada por Gengetsu numa de suas viagens feitas à Ilha de Vera Cruz, na época em que ainda se chamava Brasil. E Mozu era um soldado do tipo purista, que desejava que todos os guerreiros do Gen-Bu fossem comandados por homens unicamente japoneses, assim como ele. Por isso Klaus, que era alemão, adorava observar aquela troca repentina de emoções do capitão mais detestável do império.
Klaus espera o homem se acalmar um pouco e continua:
– Não sei, meu senhor, mas foi isso que os seus homens... – Klaus faz uma breve pausa e enfatiza a palavra “seus” propositalmente –... aqueles que estão com ela, me disseram. Não creio que estejam mentindo, mas a decisão é dos senhores.
– Até nisso ela se mete... Até em assuntos que não são de conta dela.
– Ela nunca pára de te surpreender não é, Yachou? – debocha Nezuo.
Yachou era o apelido usado pelas pessoas mais próximas de Mozu. Significava “Pássaro Selvagem” e era referência ao nome e ao estilo de combate daquele soldado que era visto como o 2º homem mais forte do império. Alto, de rosto largo e musculatura rígida, Mozu era o mais temido dos capitães, pois era rude, cruel e de temperamento explosivo.
Nezuo também era um homem alto, musculoso e de face arredondada. Face essa que escondia com uma máscara de carrasco, não para ocultar o rosto ou a identidade, mas sim porque gostava de saber que seus inimigos lhe confeririam, em suas imaginações, as mais tenebrosas aparências. Apesar de querer parecer assustador, ele soltava suas piadinhas sem graça de vez em quando. Era conhecido como o guerreiro mais forte do Gen-Bu, ficando abaixo somente de seu mestre e comandante, Gengetsu. Não era à toa que possuía o título de 1º capitão e era o homem em que Gengetsu escolhia para deixar no comando de seu império quando se ausentava, pois acreditava e até já proferira algumas vezes na presença de muitos de seus homens que Nezuo nasceu com dom para ser um líder.
– Pode retirar a quantia, Klaus – completa Nezuo, entregando ao soldado uma espécie de cartão.
– Sim, meu capitão – Klaus novamente enfatiza uma palavra, nesse caso o pronome “meu”, orgulhoso por ser chamado pelo seu nome e não por Ichigou.
– Não quero mais nenhum daqueles vermes – teima Mozu.
– Deixa de birra, Yachou. – Nezuo lança um olhar para Mozu, como se transmitisse um sinal incompreensível para Klaus e repete – Deixa de birra. Eles ainda podem ser úteis.
– Hunf! Úteis em quê?
– Aspirantes sempre são úteis.
De volta à outra cadeia de cabanas, Rumiko, ainda esparramada na cama com a cabeça apoiada na parede, passeava pelos canais a esmo, até que vê a reprise de uma entrevista dada por um jovem rapaz chamado pelo pseudônimo de Jay Lee. Até aquele momento a TV estava baixa, mas ao ver a matéria, Rumiko aperta o botão “mudo” e apenas viaja nas imagens, de olhos fixos no rapaz em frente a um amontoado de microfones das mais diversas emissoras. Queria sentir raiva. Queria sentir ódio. Mas estranhamente, não sentia nada. Era estranho porque Jay Lee era, indiretamente, o culpado pela morte de Gengetsu. E talvez por ser o responsável pela maior dor que Rumiko já sentiu na vida, mas de modo “indireto”, fosse o motivo do porque ela não sentia nada em relação à ele.
Jay Lee não era um guerreiro, não era um soldado ou um atirador. Talvez ele sequer possuísse conhecimentos em artes marciais. Mas era um líder de equipe. De uma equipe pequena, porém uma das mais respeitadas e eficientes da atual Ilha de Vera Cruz e uma das mais importantes do mundo. A Força Nerak era um grupo formado por profissionais de áreas diversas. Havia alguns fotógrafos, para os casos em que precisassem de imagens de investigação, detetives para os casos especiais que eram investigados de modo sigiloso, jornalistas para divulgação desses casos, e alguns soldados fardados, mas sem vínculo com o exército brasileiro, para os casos em que a força precisasse ser usada. O seu maior trunfo, contudo, consistia numa arma secreta, responsável por dar a tal Força Nerak sua mundial fama e respeito.
E enquanto Jay Lee falava, o cameraman do canal em que Rumiko assistia fez um leve e rápido passeio pelo local onde ele estava e localizou a tal arma secreta da Força, pouco mais ao fundo e atrás de um grupo de soldados, que se moviam de forma desordenada, porém mantendo o objetivo principal de ficar de olhos nas lentes de TV. Eles também eram responsáveis em impedir que civis desavisados chegassem perto demais da famosa arma, que também é, ou ao menos já foi, uma das criaturas mais fantásticas do mundo. Seu nome era Flousey.
Nos contratos assinados na área de reportagem com praticamente todas as emissoras de TV, o parágrafo mais importante do documento deixava claro que só era permitido mostrar a imagem de Flousey na tela por até de 30 segundos ou menos. Mas mesmo que a lente ficasse sobre ela por mais de dez minutos, não filmariam nada muito diferente do que o tempo estabelecido.
Parada como uma estátua, Flousey, numa pose tão fixa quanto a de um soldado da realeza britânica, esbanjava sua onipotência enquanto o vento acariciava seus cabelos negros, longos e meio cacheados. Era uma mulher alta, robusta, de olhos verde-esmeralda, e que no meio de uma multidão passaria facilmente despercebida, não fosse por um detalhe pitoresco: Flousey era uma criatura alada. Asas brancas, grandes e plumosas, que lhe deram o apelido, com sentido às vezes congruente, outras vezes distorcido, de Anjo. Tal forma majestosa, de acordo com o que foi explicado pelo próprio Jay Lee quando perguntado, era devido ao fato de que Flousey não era desse mundo, mas sim, uma visitante de outro planeta. Um planeta ainda inalcançável pelos nossos equipamentos de astrologia ou por nossa ciência, mas que possuía o mesmo nome da atual Força à qual ela pertencia aqui na Terra. Essa explicação era aceita num passado longínquo, pois parecia ser a única plausível e não havia meios de provar o contrário. Mas no mundo atual, ela foi novamente posta em dúvida, porque o planeta agora apresenta uma realidade que outrora era impossível.
Com uma face muito séria, Flousey olhava para o vazio, tentando não focalizar nenhuma das lentes televisivas e nem as câmeras fotográficas que não paravam de disparar seus flashes, na tentativa de encontrar um vão entre os soldados e conseguir uma boa foto. Flousey sentia-se incomodada e envergonhada com aquilo. Estava entre os humanos há tanto tempo e até hoje os jornalistas a tratavam como uma celebridade. Ela gostava de ficar entre as pessoas, mas evitava estar no meio de jornalistas e fotógrafos de revistas que, no que concerne seu entendimento sobre o ser humano, eram um tipo diferente de pessoas. O motivo de ela estar ali era que o dono da Força Nerak, hoje falecido, estabeleceu que ela deveria estar sempre ao lado do chefe supremo da organização. Jay Lee, no caso. Por isso, mesmo incomodada com as bajulações e os flashes, ela devia ficar até que Jay Lee desse a sua palavra final à imprensa e se despedisse.
Ao vê-la pelos míseros oito segundos em que foi filmada, Rumiko cerra os olhos e respira fundo, sentindo seu coração acelerar devido à exaltação que lhe invadiu o âmago. Flousey era a arma secreta, o soldado mais forte, o motivo da fama e do respeito da Força Nerak, a “super-heroína” que veio do espaço para ajudar a raça humana e, num contexto exagerado, ela era um anjo enviado por Deus.
Num passado distante, Rumiko já foi uma grande fã de Flousey, pois achava que ela acabaria com os problemas do mundo e, mais importante, os seus próprios. Mas hoje, Flousey era só alguém com quem Rumiko gostaria de ter um pequeno encontro, e não seria para pedir autógrafo. Pois Flousey, ou “a Nerakyana” como era conhecida pelos estudiosos sobre ela e como era chamada de forma briosa pelo seu mestre, era, também, a responsável direta pela morte de Gengetsu. O foco da câmera volta para o rapaz discursando algo que Rumiko não ouvia e, enquanto ela organizava seus pensamentos e tentava imaginar o que faria de sua vida dali por diante, um dos soldados que estavam em sua companhia bate na porta e a chama pelo título em japonês:
– Teichou! Podemos entrar?
Rumiko desliga a televisão e os convida, também em japonês.
– Douzo!
Os soldados entram, encostam a porta, vão até o quarto de dormir onde a mocinha se encontrava e ajoelham-se respeitosamente. Rumiko solta um suspiro de irritação. Detestava aquilo. Detestava ser tratada como uma princesinha ou de modo superior só por ter sido adotada por Gengetsu.
Logo no início, quando Gengetsu lhe conferiu o título de capitão, Rumiko negou porque viu como os soldados dos outros capitães os tratavam e não queria ser tratada da mesma forma. Só que ela não queria sair do lado de seu mestre e este lhe disse que esse era o único jeito de ficarem juntos. Então teve de aceitar o cargo, com a condição de que não tivesse soldados ao seu comando. No fim, ela acabou ficando no comando de alguns homens, formando o mais escasso grupo especial do Gen-Bu. Mas diferente do que aconteceu com Mozu e Nezuo, Rumiko não precisou escolher seus soldados. Foram os soldados que a escolheram como capitão.
– Levantem-se, por favor – diz ela finalmente, sem se voltar para os homens.
– Seu pedido foi aceito e nossos companheiros serão libertados – explica o soldado mais magro, antes de se levantar.
– Ótimo!
– Um longo momento de silêncio ocorre no quarto e Rumiko, vendo que os homens não tinham mais nada a dizer, continua.
– Os senhores também podem ir, se assim o desejarem.
– Sim, Milady. Com sua licença.
Os dois, no entanto, ficam grudados no lugar, observando a moça jogada na cama, parecendo uma inválida, até que ela os nota ali parados e, virando o rosto para eles, questiona em japonês:
– Nani?
– Teichou... Obrigado.
– Hun? Pelo quê?
– Por ajudar nossos companheiros – responde o outro homem, que até agora estava calado.
– Todos os senhores são homens de Gengetsu-sama. Ele também os teria libertado.
– Sim ele... acho que ele teria feito isso, sim.
– Ele teria feito com certeza – Rumiko direciona o olhar para o teto da cabana, feito de madeira e telhas vermelhas – Se os senhores não se importam, Rumiko gostaria de ficar sozinha.
– Claro, milady. – eles se entreolham e dizem juntos – Vamos!
– Os homens caminham até a saída, mas antes de irem, o mais magro, que estava na frente, pega na maçaneta, mas não puxa a porta. Depois de alguns segundos na dúvida se diria ou não o que estava preso na garganta, ele volta seu olhar para o companheiro, sorri e retorna para o quarto de Rumiko. E seu companheiro o segue, ainda que sem entender o porquê, mas curioso para saber o que o parceiro pretendia.
– Teichou! – diz o primeiro pouco antes de se aproximar o suficiente para se ajoelhar.
Rumiko ergue lentamente o rosto e vira-se para o soldado. Seus olhos grandes e brilhantes de antigamente agora mostravam-se foscos e com pálpebras pesadas. Não pareciam, no entanto, que iriam ou que já haviam vertido lágrimas. Eles se encontram com os olhos do soldado, pequenos e pouco avermelhados, se fecham por um breve momento e, logo que se abrem, a moça retorna após quase cinco segundos de silêncio do homem:
– Hai?
Sua voz doce e agradável era irritante e desconfortável para aqueles que desgostavam dela, mas o soldado já não tinha mais certeza se era essa a sua condição. O homem desvia o olhar por um momento, até que decide perguntar.
– A senhorita já ouviu falar de Oz?
– Imbecil! – o outro soldado se aproxima bruscamente – Não aborreça milady com bobagens.
– Oz? – Rumiko endireita a coluna e senta-se na cama.
– Sim. Ele é um mago... ou um bruxo, sei lá.
Rumiko expressa um sorriso, o primeiro do dia, embora que tristonho, e morde os lábios inferiores. Não tinha o costume de desprezar comentários ou histórias, por mais infantis ou bobas que fossem. Aliás, ela até gostava. Mas não estava com humor para isso no momento.
– Senhor... Rumiko conhece a história. Mas não está interessada em um coração novo, nem em um punhado de coragem ou... ou... o que era mesmo que o homem de lata queria?
O soldado olha para o seu companheiro e ele dá de ombros, respondendo:
– Acho que o coração era o que o homem de lata queria, não?
– Ah é? – Rumiko olha pra o vazio, pensativa – Então quem é que está faltando?
– Bom, vamos ver...
– De qualquer forma, não é desse Oz que estou falando – replica o primeiro homem de forma abrupta, balançando as mãos – eu estou falando de uma criatura que pode ressuscitar os mortos.
– Agora chega! – seu parceiro o agarra pelo ombro, mas Rumiko o interrompe.
– Espere! O senhor disse... Ressuscitar?
– Sim... Exatamente.
– É só um conto de fadas, milady – insiste o parceiro – Se milady acha que um conto de fadas pode lhe agradar numa hora como essas, tudo bem, mas se quiser eu tiro esse idiota daqui.
– Pode até ser um conto de fadas. Mas me foi contado pelo Dai-Sensei em pessoa.
Nesse momento, os olhos de Rumiko se arregalam e o brilho intenso de outrora volta em cada um deles como uma labareda de fogo. Seu rosto apagado e melancólico rapidamente dá lugar a um rosto curioso e faminto por informações. Isso porque agora a conversa mudava radicalmente de importância.
No Gen-Bu havia professores para todo o tipo de ensinamentos. Desde mestres de combate para os interessados em aprender a lutar, passando pelos médicos de alto conhecimento, que ensinavam as mulheres à se tornarem enfermeiras de guerra, englobando ainda os mestres que exerciam ensinamentos religiosos e indo até os professores de ensino escolar e cultural para ensinar a língua e os costumes aos soldados estrangeiros. No Japão, a palavra “Sensei” definia todos esses e qualquer outro tipo de mestre, mas o termo “Dai-Sensei”, quando empregado pelos soldados, capitães e até mesmo entre os próprios professores, só era usado quando se era referido à Gengetsu Burashi.
E Rumiko, com sua voz ainda doce e aveludada, mas com um tom muito mais vivo e nítido, argumenta:
– Rumiko quer ouvir mais, por favor.
– Hã? Ah... Claro, Milady!
Num olhar de deboche, o homem mais magro puxa seu ombro, livrando-se de seu companheiro. Depois arrasta uma cadeira da pequena sala principal e pergunta à Rumiko se poderia sentar-se.
– Sim, sim... Claro! – Rumiko também se acomoda melhor na cama – Por favor, sente-se. E o senhor também.
Rumiko aponta para o outro homem, mais cético e aparentemente envergonhado, e gesticula para que ele também pegue uma cadeira na sala. E enquanto ele vai buscar o assento, o primeiro homem, notando o rosto ansioso de Rumiko, coloca as mãos sobre os joelhos e respira fundo. Sabia que aquilo que iria dizer a seguir era inacreditável demais até para aquela moça, que tinha a fama de ser ingênua o suficiente para acreditar até em papai Noel. Mesmo assim, ele assumiu um olhar mais sombrio para manter a seriedade do que iria dizer. E diferente do que esperava, os olhos de Rumiko, ao invés de se retraírem, brilharam ainda mais, completamente ávidos para ouvir uma história que, segundo aquele soldado, fora contada pelo homem que ela mais admira nesse mundo...
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