A Burguesa
4 IV- Que ótimo para você
Notas iniciais
Capitulo IV
Que ótimo para você
“Convivi quase minha vida toda com falsidades, não era agora que iria perder a habilidade de identificar quando fingem na minha frente”
Três dias depois.
Estava sentada no degrau da varanda— quase ninguém passava por ali, pois o caminho mais usado era as portas dos fundos— só observando a paisagem. Colocaram um cavalo para pastar no curto gramado da frente e ele não parecia ser um animal rebelde, já que não precisava de supervisão, o pelo negro dele brilhava a luz do sol, sua pose era bem graciosa. Essa cena tinha que ser desenhada, uma inspiração confortante se instalou em meu peito e eu decidi que ia desenhar aquele formoso animal.
Estava com meu enorme caderno sobre o colo e as outras coisas que eu precisava jogadas no espaço não ocupado da pequena escada, aquele lugar era exclusivamente meu hoje. Peguei o carvão e fiz o contorno do animal e dei forma a paisagem e ficou tudo esfumaçado meio que desaparecendo, era só um esboço. O fino pincel que estava sobre a paleta de tinta, o passei pela tinta preta e contornei a formas que fizera antes, dei pinceladas singelas e arquitetadas, enquanto vez ou outra olhava para a paisagem. Por incrível que pareça o animal estava parado, parecendo posar para mim, mas isso é só imaginação de uma artista. Trocava de pincel do mais fino ao médio e misturava as cores fazendo aquele desenho ganhar vida aos poucos.
Me senti feliz e completa quando terminei, não vou ser modesta, tenho talento. Desenhar é uma das poucas coisas que me deixam realmente feliz, sorri olhando para o resultado novamente. Quando ia me levantar para colocar o caderno apoiado no canto da parede para secar, ouço um trotar de cavalos e não era do qual eu desenhara. Observei os cavalos se aproximarem aos poucos, puxavam uma carruagem e era controlado por um homem de terno e chapéu preto. Esse homem me fez lembrar do sujeito/assassino de preto daquele pesadelo.
Nem percebi o tempo passar
Que ótima hora para Streenford vir, com eu toda suja de tinta, vestido, mãos e braços e não duvido nada que tinha uma mancha no meu rosto, uma lástima. Não me importei se é assim que as coisas serão. Segurei o caderno enquanto me levantava, só esperando a carruagem se aproximar mais e parar. Meus cabelos estavam amarrados em um coque desleixado pela fita preta que eu carregava. Acho que com minha aparência atual eu parecia mais uma criada comum da minha casa. Sorri e esperei alguém sair da carruagem
Dito e feito, um homem alto e de curtos cabelos pretos desceu dela com uma pose confiante.
Fiquei só olhando com um sorriso brincando em meus lábios, só pensando em como seria ver sua reação ao ver a ‘esposa’ daquele jeito para recebe-lo.
Ele então se virou para frente e notou a minha presença, seus olhos azuis acinzentado se encontraram com os meus, nesse pequeno contato vi toda a frieza que eles transmitiam, um resquício sombrio de mistério, que estava disposta a desvendar, talvez, aquele sentimento que apareceu um segundo era divertimento?
Um arrepio percorreu meu corpo, o sorriso se desmanchou e fiquei séria, ele notou minha súbita mudança de expressão e sorriu, um pequeno sorriso de lado.
Acho que Streenford é o tipo de homem que as garotas babam por causa de sua beleza exorbitante, sim ele é bonito, mas não causa esse efeito em mim, não sou ingênua.
Se aproximou a passos lentos ainda mantendo aquele sorriso na cara, apertei um pouco a borda do caderno e sorri falsamente para ele.
— Miriam, não? — Perguntou, assenti afirmando que era eu. — Estás bem diferente, não costumo ver garotas desse jeito. — Alfinetou presunçoso.
Dei de ombros.
— Acontece que eu sou diferente, tinha me esquecido completamente de você — retruquei calma.
— Além de desleixada é esquecida... — fingiu pensar — Que esposa eu arranjei, não? — Completou com um sorriso mostrando todos seus dentes brancos
Não sei bem se ele estava me insultando ou elogiando... provavelmente um insulto disfarçado.
— Se arrepende? — perguntei sem ao menos hesitar.
— Claro que não minha dama, sua beleza misteriosa certamente compensa todo o resto.
E lá vai ele me insultando de novo.
— Chamaste-me de superficial? — Fingi de desentendida e chocada coloquei uma mão a boca só para exagerar.
Parece que fiz ou falei uma coisa muito engraçada, já que ele começou a gargalhar tão repentinamente. Nossa, como ele ficava lindo rindo, deixava sua forma mais leve, nem todo mundo consegue ficar bonito rindo desse jeito.
Impressionante.
Quando, enfim ele parou e recuperou o fôlego, acrescentou :
— E uma ótima atriz também. — Deixei passar, não estava querendo mais conversar.
Ele olhou para minha mão direita que segurava o caderno
— Posso ver? — perguntou não escondendo sua curiosidade. Arqueei uma sobrancelha
— Por que não? — entreguei o caderno a ele
Sua expressão mudou para admiração quando viu o desenho e depois olhou ao redor encontrando o modelo que posou para mim. Ele deu um sorriso discreto
— Se possível retratou o animal mais bonito ainda do que já é. Vejo que encontrei uma esposa cheia de qualidades.
Sabia que tudo não passava de fingimento, convivi quase minha vida toda com falsidades, não era agora que iria perder a habilidade de identificar quando fingem na minha frente.
— Que ótimo para você — Deixei minha máscara cair falando sarcasticamente.
Minha atuação acaba por aqui, mas a de que eu estava bem após a morte de Lize, essa, ainda continua e não pretendo mostrar para ninguém o quão devastada me sentia.
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