I took a walk on a Saturday night,

Fog in the air just to make my mind seem clear

Where do I go from here?

Atravesso as ruas da cidadezinha em direção ao penhasco. É uma noite de sábado, bem fria para uma primavera. As ruas não estão vazias, apesar de ser bem tarde, e observo os casais caminhando.

Quando alguma pessoa cruza meu caminho, fico com medo de ser reconhecido ou de verem algum pedaço do meu braço de metal. Mas acho que ele está bem escondido sob a manga do casaco, e como estou sem luvas, deixo minha mão escondida no bolso.

Tudo que tenho agora é uma mochila com uma muda de roupa reserva, minha faca e meu uniforme. Lembro-me de quando invadi a lojinha de roupas. Peguei a primeira mochila que encontrei numa parede, soquei algumas roupas dentro e corri para o provador, onde tirei o uniforme e enfiei a calça jeans, a camisa e o casaco. Como não havia sapatos, continuei com minhas botas e saí o mais rápido que pude.

Inúmeras vezes pensei em jogar meu uniforme no lixo. Mas serviria apenas para dizer “O Soldado Invernal esteve aqui!”, e caso precise de uma tira de couro ou um tecido resistente, posso contar com ele.

Isso é o que me lembro com mais clareza. O resto da minha memória ainda está voltando aos poucos, mas não faltam são flashes de tiros, paisagens com neve, e um cara loiro me chamando de Bucky. O nome dele é Steve.

I see my breath pushing stream through the air,

Shaking hands run through my hair, my fears

Where do I go from here?

Consigo ver minha respiração saindo pela boca e se dissipando no ar. Lembro de tê-la visto várias vezes quando andava pela Rússia e Suíça procurando meus alvos. As paisagens nevadas, trilhos de trem... Uma ponte... Um calafrio percorre minha espinha, prefiro não pensar sobre isso.

Passo minha mão pelo cabelo e tiro uma mecha que caia sobre meus olhos. Noto que minha mão está tremendo, mas não por causa do frio. Ainda tenho medo de ser reconhecido, ou de algum policial perguntar o que estou carregando na mochila e ver meu uniforme ali dentro.

Se me pegarem, podem tentar apagar minha memória novamente e me usar como uma arma outra vez. Acordar, matar alguém, e ser congelado, sem nunca se lembrar de nada, sem saber o próprio nome. Apenas uma marionete nas mãos de alguém.

Sinto-me um pouco mais calmo quando pego a trilha para o penhasco. Preciso me acalmar, esvaziar a cabeça e deixar que as memórias voltem, e acho o penhasco um lugar tranquilo, mesmo com o barulho constante das ondas batendo nas pedras.

Is it my fault? Is it my fault?

We've been missing each other

We've been missing each other

My fault! Is it my fault?

We've been missing each other

We've been missing each other

Entro no bosque e vou seguindo a trilha a certa distância. Quantas vezes já tive que andar por trilhas tentando não ser pego pelo inimigo? E agora estou fugindo de um amigo. Lembro de algumas coisas sobre o Steve, ele era bem fraco e baixinho, algo sobre um soro e ele virar o “Capitão América”.

Não aguento mais fugir. Fugir do governo, do que pode ter restado da Hidra, mas principalmente dele. E se ele estiver me procurando junto com outras pessoas? Aquele cara das asas ou a ruiva? Não quero encontrar com nenhum deles, provavelmente me odeiam por quase tê-los matado. Não os culpo.

A trilha não é muito longa, estou quase chegando ao penhasco. Já posso ouvir as ondas batendo nas pedras. Eu tenho que parar de fugir, mas não posso. Eu quero viver minha vida sem ser uma peça no jogo de alguém.

Walking down to the waters edge,

Asking why I'm here instead of home,

Now I stand alone.

Saí do meio das árvores do bosque e andei até a beirada do precipício. De pé bem na beirinha, olhei em volta para ver se não havia ninguém. Tirei as mãos dos bolsos e estendi meus braços como uma águia. Sentir o vento, seu cheiro salgado, ouvir o oceano jogando suas ondas contra as pedras... É algo simples, mas incrível.

Olhei para o horizonte, sem poder dizer onde é o limite entre céu e mar. Olhei para baixo, para as rochas ensopadas de água, a espuma branca das ondas. Sentei na beirada, balançando os pés como uma criança.

Sinto muita saudade dessa época, poder correr pelas ruas, poder brincar por tudo e depois voltar para a minha casa e para a minha família. Nesse momento, é tudo o que eu quero ter. Um lugar para onde ir e uma família para me receber. Mas agora estou por conta própria novamente.

I stop to stare at the ocean side

I'm breathing in just to feel its side with his

Like you were here with me.

Fico olhando o oceano e tateando meu braço de metal. Tento respirar junto com o ritmo das ondas, fingindo que eu e o oceano somos um só, que eu posso me misturar com ele e fugir de todos os problemas, apenas descansando no seu leito gelado.

Talvez isso seja muito dramático, mas não seria se eu tivesse alguma companhia. Tenho que colocar minha cabeça no lugar, não ficar idealizando cochilos no fundo do oceano, e seria de grande utilidade ter alguém para me ajudar com essa tarefa.

O pior é que eu sei que tem alguém que quer me ajudar. Steve. Eu me lembro dele, não muito da nossa infância, mas lembro de muitas vezes onde eu o ajudei e ele fez o mesmo por mim. Lembro de ter servido no exército com ele, nós e os outros “Howling Commandos”, ajudando uns aos outros em missões bem arriscadas até o fim. Provavelmente Steve e eu somos os únicos que sobramos.

Is it my fault? Is it my fault?

We've been missing each other

We've been missing each other

My fault! Is it my fault?

We've been missing each other

We've been missing each other

Sempre sozinho, desejando contato humano e sendo forçado a fugir dele. Tudo isso é minha culpa. Se eu não tivesse tentado bancar o herói e segurado o escudo do Rogers, como se eu tivesse força para o impacto naquela época, se eu tivesse morrido de uma vez naquela queda...

É minha culpa, eu sou culpado de tudo isso, de tantos assassinatos, a causa de tanto sofrimento, e principalmente para o Steve, ele era meu melhor amigo, eu o conheci minha vida toda, e sei que ele está me procurando.

Paro meus pensamentos quando escuto passos. E vozes. Levanto-me o mais rápido que posso e corro para o bosque, me escondo atrás de uma árvore e enfio a mão no bolso. Agachado, tento não fazer ruídos. Tem duas pessoas se aproximando.

Oh it's the loneliest nights,

It's in the brightest light,

It's when the world is moving

Oh it's the faintest cry,

It's in the lover’s eye,

It's when I need you most

And don't you know

As vozes, eu as reconheço. São Steve e aquele cara das asas, tenho absoluta certeza. Meu coração dispara enquanto tento respirar sem fazer ruídos. Isso não pode ser real, achei que estávamos a quilômetros de distância.

–Eu estou te dizendo, Sam, ele está por aqui. As pessoas disseram que viram uma cara com a mesma descrição há pouco tempo, aquela senhora até disse que ele parecia nervoso...

–Cara, já olhamos por tudo, e não posso abusar do traje, vai que aquele ex-pessoal da SHIELD não consertou direito...

–Por favor, só mais uma olhada nos rochedos e depois a gente volta.

–Está bem cara.

Ouvi os ruídos das asas abrindo e Sam provavelmente mergulhou no precipício e começou a revistar os rochedos à minha procura. Steve soltou um sonoro suspiro. Ele... Ele está bem ali... E eu... Mordo minha mão, tentando não chorar. Eu preciso da ajuda dele, eu... Eu preciso do meu amigo.

–Droga, Bucky, onde você se meteu?

Is it my fault? Is it my fault?

We've been missing each other

We've been missing each other

My fault! Is it my fault?

We've been missing each other

We've been missing each other

Is it my fault? Is it my fault?

We've been missing each other

We've been missing each other

My fault! Is it my fault?

We've been missing each other

We've been missing each other

As lagrimas começam a escorrer, e tento reprimir os soluços. Não quero fazer nenhum barulho, não quero que ele me veja. Seguro a cabeça com a mão, milhares de lembranças cruzam a minha mente, finalmente me lembro bem do passado, de quem eu era, de quem ele era, e sinto muita falta de tudo aquilo.

Por que eu estou fazendo isso? Por que? Eu não consigo mais controlar meus soluços, e ouço passos se aproximando. Steve está vindo, eu tenho que correr, eu tenho que... Tenho que sair daqui, não posso... Não...

Escondo minha cabeça no peito e a cubro com as duas mãos. Estou tremendo, vejo apenas minhas lágrimas caindo no casaco. Mas sei que ele está do meu lado. Ele toca no meu ombro, e eu me encolho, mais por culpa do que por medo.

–Bucky...? –Sua voz falha.

Não sei o que dizer nem o que fazer. Por que eu não corri? Por que eu continuo aqui? Por que... Por que eu preciso dele. Por que eu preciso parar de correr.

–Steve. –Digo por fim, com a voz fraca e rouca.

–Bucky, eu... Como...? Vem cá, deixa eu te ajudar...

Ele segura minha mão e me puxa para cima. Eu me apoio com as costas na árvore, acho que vou cair. Não consigo parar de chorar, acho que depois de tantos anos sem poder derramar uma única lágrima, tenho que deixá-las escorrer.

–Me... Me desculpe, é tudo... Tudo minha culpa, eu... Eu não queria...

–Não, Bucky, não é culpa sua...

–É sim.

–... Acabou. Te achei. Não vou deixar ninguém fazer nenhum mal a você, nunca mais. Confie em mim, acabou.

Ele soltou um sorriso, os olhos marejados. Dei um passo para frente e deixei que ele me abraçasse. Acabou.

–Vem, vamos para casa, eu te ajudo.

–Eu sei que você vai me ajudar. Você é meu amigo.

Eu sorri, meu primeiro sorriso em tantos anos. Nos soltamos do abraço, olhei bem nos olhos dele e perguntei:

–Até o fim da linha?

–Até o fim da linha.

Notas finais
Por favor, digam o que acharam, o que pode ser melhorado, etc etc etc. E obrigado por lerem
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!