A Bruxa

2 O retorno do fantasma


Notas iniciais
Vocês aqui novamente. Venham, sentem-se. E já que vieram é sinal de que querem saber mais. Escolham uma posição pois vou lhes contar, só espero que tenham paciência e escutem com atenção, vamos lá onde parei? Ah sim...

– Como aqui é bonito, é a cidade mais incrível que já estivemos.

– Sim, aqui é muito bonito, só não sai de perto da mamãe, além de bonito também é perigoso.

Enfim, voltei. Muitas primaveras se passaram, muitos sorrisos se perderam, minha inocência se foi junto com a compaixão, lembranças negras carrego.

Uma trilha de sangue me acompanha e ainda não tem fim. Sussurros de loucura me atormentam e de mim uma vida depende, mas aqui estou eu novamente, em Frenesco. Como é estranho retornar a cidade em que sofri, cidade essa que foi meu caixão e será palco do meu espetáculo.

– Anjela, não! Desça já dai! Esta querendo se machucar? — Tão linda, tão frágil... A unica coisa que me faz ter medo de voltar aqui é ela, mas se não fosse por estar gravida, talvez não tivesse sobrevivido. — Querida vamos, temos que sair logo da rua, vamos encontrar um lugar para passar a noite.

– Mamãe?! — Chamou-me meu anjinho com seus grandes olhos de botões negros.

– Estou com fome.

– Espere até mais um pouco meu amor, logo você terá uma refeição satisfatória, Mas por hora precisamos descansar.

Encontramos uma estalagem, barata, porém confortável para descansar, embora ainda fosse meio-dia nossos corpos já doiam. Faziam dois meses na estrada, passando por apuros, fugindo de ladrões, comerciantes de escravos e todo o tipo de escória humana. Mortes nos acompanharam por todo o caminho. Nossos rastos deixaram marcas por onde quer que fossemos. Hoje, não há uma aldeia por onde passamos que vá se esquecer tão cedo de nossos rostos, nossas historias vão durar gerações. Contudo, a pior parte de nossa viagem não foi essa, foram as refeiçoes de péssima qualidade que tivemos. Enfim, em uma cidade grande como essa, comida é o que não vai faltar.

Finalmente vou dormir uma noite inteira sem ter preocupações com bandidos se aproximando na surdina, nem ter que ficar caçando comida para meu anjinho, aqui a comida vem até você. Minha felicidade não cabia em mim por estar de volta, era tão grande que até meu corpo mostrava sinas de êxtase.

– Está feliz, mamãe? — De cima da cama com seu jeito doce de sempre, perguntava-me.

– Você nem imagina quanto.

Feliz não era a palavra certa, meu sentimento era tanto que não existia palavra para descrevê-lo. Como pode-se chamar o sentimento de uma vingança sendo iniciada? Como pode-se chamar a vontade de matar? Como? Este era o meu sentimento. Quero matar por vingança, mas também por prazer. Quero ver o rosto de todos os culpados por meu enforcamento suplicando por clemência, chamando pelo demônio.

Seus deuses não vão vir ajudá-los.

Cada ferida se abrindo e o sangue, lindo sangue púrpura, sair e cair sobre o chão. No fim ver bem de perto o brilho fugir de seus olhos e sentir suas almas deixando os corpos; nada nem ninguém vai me impedir de atingir meu objetivo, e quando não sobrar mais uma alma viva, vou pegar Ela.
Levantei e dei um beijo na testa do meu anjinho, ela era a criança mas linda que já vi. Tão pequena, sua aparência frágil comovia. Minha vingança era para que um dia nós pudéssemos viver em paz e eu ficaria livre da culpa por ter dado algo tão precioso para poder fazer cumprir minhas palavras. Aquela nunca foi só para mim e sim para nós, para nossa liberdade.

Pela janela o sol entrava, meus pensamentos como sempre iam longe vagando por meu passando, lembrando do meu amor. Como não lembrá-lo com ela aqui, eu a amo mais do que amava-o. Fruto daquela paixão proibida... minha linda princesinha.

Não passava das três da tarde e ela já estava dormindo. Como era delicioso vê-la dormir, quisera eu não ter preocupações, mas não posso, a culpa que carrego não me deixa ter paz.

– Durma bem princesinha. — Sussurrei me aproximando dela, dei um beijo na testa e fui em direção a janela, uma ultima olhada na rua movimentada e abaixei as cortinas encardidas. Haviam duas camas, uma estava Anjela que ficava nos fundos do quarto e a mais próxima a porta eu me deitei, finalmente o mínimo de conforto depois de meses.

– Eles não sabem o que os aguardam...

Fechei os olhos, e logo, a escuridão veio.

Notas finais
Agora mais próximos dos meus inimigos espero que tenham paciência. Vou tentar escrever para vocês semanalmente. Se na próxima quinta feira não voltar, é porque morri, só não fiquem tristes, a vida e assim mesmo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.