A Breath of Snow and Roses
17 Capítulo 13
Notas iniciais
CAPÍTULO TREZE
Faltava pouco para a Lua completar seu quinto ciclo completo desde que seu casamento. Os primeiros dias arrastaram-se penosamente. Em seu terceiro dia, o marido trouxera uma arca de ferro e olmo para guardar os vestidos sulistas e as joias. Desmera resistiu, continuou a usar as sedas, o linho e as rendas. Deixou as joias, mas continuou a carregar o punhal que fora presente de Hobber antes de despedirem-se.
Pyke era fria e úmida por causa da brisa gélida do mar. A Árvore também sofria com os problemas da umidade, embora os ventos do sul eram mais quentes e carregados com garoas de verão, mas Victarion garantia que seu quarto fosse quente e seco.
As criadas mudas, presentes de Euron, haviam sido mandadas para Alannys, a esposa de Balon, que vivia afastada da capital e do marido e certamente não se incomodaria em ter mais duas ou três moças para sua companhia, especialmente se não precisasse fazer esforço para mantê-las caladas.
Alannys havia enviado como presente de casamento uma capa de manga azul-turquesa com braçadeiras em cobre e também dois culotes de montaria. Em princípio, Desmera quis rejeitá-los e continuar a usar as vestes que trouxera do sul, mas os vestidos rasgavam-se facilmente nas rochas por onde caminhava, e bem sabia ela que suas roupas destoavam dos costumes das Ilhas de Ferro e de seus homens. Victarion assegurara de que, apesar da saúde física debilitada, Alannys ainda possuía bom caráter e juízo perfeito, e seria conveniente que não a desrespeitasse rejeitando os presentes que ofertara.
A moça sulista sabia que o Capitão da Frota de Ferro e a rainha de Balon Greyjoy haviam sido próximos. Ambos enfrentaram o infortúnio de uma união infeliz. Mas Victarion tivera outra chance, e mais uma, e então uma terceira. A terceira, grávida e morta. Não sabia o que aconteceu às duas primeiras, e, no fundo, não queria descobrir. Desmera era sua quarta esposa. Rezava aos Sete Deuses pela felicidade do marido, para que ele não necessitasse procurar uma quinta consorte.
Mas apesar do medo e do que lhe haviam contado, seu capitão era bom para ela. Na noite de núpcias, fora gentil e zeloso ao preparar seu banho para tentar acalmá-la. Ela lembrava-se de como perdera o chão, do quão assustada estava e de como isso aumentou a medida que ele desabotoava os botões de seu vestido – mas quando pôde sentir e o cheiro da pele Victarion e o toque das mãos calejadas pelo machado de guerra em sua cintura, quis olhar novamente nos olhos dele, cinzentos como o mar bravio, e afogar-se beijando sua boca.
E, incrivelmente, ele lhe dedicava mais tempo do que Desmera jamais imaginara. Quando criança costumava ver os pais juntos apenas na hora da ceia, quando a família fazia junta a última refeição do dia e depois retiravam-se para seu descanso noturno. Durante o restante do dia, Paxter e os gêmeos acompanhavam o pai nas transações comercias e procedimentos políticos, enquanto ela aprendia com a mãe e suas damas os ofícios de uma mulher da Campina.
Victarion levantava-se antes do sol nascer para ir ter com seus companheiros de frota, voltando em duas ou três horas, para encontrar a esposa já vestida e pronta para suas lições. “Vamos dar uma utilidade a este animal.” Ele dissera, referindo-se à Eldri, a cadela que fora presente de Wyllas. O capitão decidira ensiná-la a caçar com Eldri utilizando um arco recurvo que pertencera a um dos filhos mortos de Balon.
- Respire com calma – ele dissera em seu primeiro dia – ponha o pé esquerdo um pouco atrás do direito, e forme um ângulo pequeno entre os dois... Sabe qual é seu olho dominante? – E quando Desmera hesitou em responder, ele continou.
“Seguras o arco com a mão direita, então o olho esquerdo é provavelmente o dominante, o que tens que usar pra mirar. – Victarion riu, cobrindo o outro olho dela com uma das mãos. – Agora, segure a flecha com o polegar e os dois primeiros dedos da mão, a princípio apoiando a extremidade cega na parte suave abaixo do polegar. E então puxe a flecha encaixada na corda do arco até a altura em que seu dedo possa tocar o queixo – e puxou a mão da esposa que segurava a flecha já encaixada até o maxilar de Desmera. – E quando soltar, sua mão deve terminar o movimento atrás do pescoço! Tente sozinha, agora.
E quando tentou sozinha, mais de uma vez passou longe demais do alvo que fora preparado. Irritou-se e quis largar o arco, mas foi rapidamente convencida à continuar. “Isso ou pode tentar aprender com machado de guerra, o que prefere?” o homem lhe sorrira ao perguntar. Ela não soube dizer se foi o medo do machado ou aquele sorriso que a convenceu. Parecia a Desmera que Victarion tinha um sorriso vacilante, sorria com o canto dos lábios, como se tivesse medo de sorrir.
- Acho que podemos continuar – ela disse, repreendendo-se por antes ter desistido. Qualquer que fosse a causa daquele meio-sorriso, Desmera estava decidida a transformá-lo em um sorriso pleno, em um riso largo.
O vento salgado vindo do oceano beijava-lhe o rosto e os cabelos incessantemente, atrapalhando a prática com o instrumento, mas quando a jovem finalmente acertou o alvo, o Capitão de Ferro incitou Eldri à correr até onde a flecha atingira.
- Com o tempo, ela aprenderá a seguir a flecha e a ajudará a capturar animais quando caçarem. – disse Victarion enquanto recolhia a flecha do alvo e dava à cadela branca um pedaço de carne seca como recompensa. – Acho que podemos encerrar, por hoje.
- Mas achei que ainda tivéssemos tempo, o sol não vai alto ainda. – retorquiu Desmera, desaprovando.
- Eu posso ver o sol, Senhora, mas há assuntos mais urgentes a tratar. Venha.
Aquilo a fez estremecer. Não a pedira para retornar à fortaleza, pelo contrário, dissera para lhe acompanhar, e agora se dirigia aos rochedos. Podia sentir os músculos sob a pele retesando-se e o coração palpitar frenético. Haviam dito que Victarion espancara sua antiga esposa até a morte nos rochedos, e então a atirara para servir de banquete aos caranguejos e animais marinhos. Mesmo que nunca lhe tivesse feito mal, era difícil conviver com a tensão que as histórias lhe causavam. Às vezes, pensava se o amava realmente, mas então por que tinha tanto medo?
Seu capitão conduziu-a por um estreito caminho de pedras soltas e chão de terra e areia. Se ainda usasse seus vestidos, jamais teria conseguido segui-lo, mas as botas eram firmes e seguras, e as calças de montaria justas ao corpo facilitavam sua locomoção.
Por fim chegaram a uma caverna cuja entrada era aberta ao precipício dos rochedos e ao mar afora. Desmera sentia que seu coração pulsava audivelmente quando Victarion fez sinal para que entrasse primeiro na escuridão.
Mas ali, então, havia nada além de um indistinguível amontoado de tecido verde-acinzentado, que converteu-se em uma sacola de viagem com vinho, água e pão de aveia quando o homem de ferro trouxe-a até sua jovem esposa.
- Preciso que escute com atenção, Desmera. – sua expressão era séria, e nem mesmo o ‘meio sorriso’ aparecia em seus lábios agora. – Meu irmão está morrendo. Balon, você sabe... Há dias nada consegue parar dentro dele... Aeron diz que é uma febre, um mal passageiro, mas, maldito seja, Balon parece piorar a cada dia.
“Asha enviou uma ave à Theon para que retornasse ao leito de morte do pai, mas creio que todos vocês, vocês de fora das ilhas, sabem o porquê de Theon estar afastado daqui e o que despertaria seu retorno. Há anos meu irmão vem planejando reerguer-se e coroar novamente a si próprio Rei das Ilhas de Ferro, Rei do Sal e da Rocha, nosso Deus Afogado sabe, ele sabia disso quando nos devolveu Aeron para acompanhar-nos nesse caminho, e quando fez de Asha uma guerreira de ferro para substituir os irmãos que perdeu... – ele suspirou brevemente, franzindo a sobrancelha como se buscasse fôlego para continuar. – Entende, Desmera? Myra... – então fez sinal para que ela sentasse ao lado dele, de frente ao abismo. Dhaes-myra foi como Victarion lhe chamara quando conseguiu pronunciar seu nome. “Estrela marinha”.
“Asha e eu acreditamos que o que está levando Balon é algo maior do que uma febre... Pela sucessão das Ilhas de Ferro, com Theon exilado, Euron sucederia Balon na Cadeira de Pedra do Mar. Ele seria nosso rei, Dhaes-myra, e eu lhe deveria obediência e comandaria a Frota de Ferro para onde ele desejasse. Mas você ficaria pra trás. E se algo acontecesse a ti, se novamente ele tomasse minha mulher, eu não suportaria ver minha própria honra subjugada por minha família pela quarta vez. Eu amaldiçoaria a mim mesmo traindo meu rei e meu sangue, e mataria Euron de uma vez por todas.
O tom das palavras do Capitão de Ferro era sombrio, mas havia força e verdade nelas. Desmera encostou seus lábios nos dele, e Victarion retribuiu com prazer.
- Foi por isso que me trouxe aqui, capitão? Se algo acontecer...
- Se algo acontecer eu quero que vá embora, o mais rápido que puder. – Victarion olhava fundo nos olhos dela – Leve a comida e o vinho que encontrar aqui, trarei novos suprimentos de tempos em tempos para garantir que estejam frescos... E leve Eldri também, para que possa caçar... Tenho homens que poderiam levá-la a uma pequena fortaleza aonde há um farol abandonado, na península ao norte de Guardamar, e poderão mantê-la ali enquanto for necessário. Você os encontrará neste local no dia em que eu partir.
- Eu poderia retornar à Árvore...
- Não – interrompeu em tom cortante – É seu capitão que lhe ordena – retificou rapidamente sua indelicadeza com aquele “meio sorriso”. – Se me for ordenado atacar a costa da Campina, não terei escolha senão obedecer. Quero que fique em um local seguro e aonde eu possa encontrá-la quando voltar.
Então cavalgaram de volta à fortaleza de Pyke, com suas torres e frágeis pontes de corda. Deixaram as montarias com o cavalariço que os recebeu no portão, e antes que Desmera pudesse se juntar às criadas que lhe faziam companhia à tarde, Victarion a puxou para si mais uma vez e sussurrou ao seu ouvido:
- E antes que seu capitão tenha que partir, senhora, talvez até mesmo hoje à noite, ele vai deixar um filho dentro de ti para que tenha companhia! – então riu um riso baixinho, encostando o rosto da esposa no seu.
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