CAPÍTULO DOZE

Ele não sabia quanto tempo fazia desde que havia deixado para trás sua terra natal. Passara dias navegando sozinho na fragata e dormindo em pequenos turnos, sempre à sombra da preocupação em desviar-se da rota que traçara em sua mente. Felizmente, não tinha enjoos do mar, sendo nascido e criado entre portos e embarcações, mas ver seus mantimentos diminuírem mais a cada dia o fazia querer voltar logo à terra firme. O homem agora apoiava-se ao leme que direcionava o curso do barco, quando viu uma sombra rapidamente cortar o chão do navio e pousar na outra extremidade.

“Um pelicano”, ele pensou, sentindo uma nova excitação dentro de si. A vista de uma ave marinha significava estar perto da costa. Há dias o marinheiro vinha evitando a terra firme, com medo de corsários e ataques, mas pelos seus cálculos o pequeno ponto rubro que avistava na linha do horizonte só poderia ser uma cidade.
- Lançassolar – ele murmurou, olhando para a ave branca e robusta. – É Lançassolar, tenho certeza. — e riu, sem pensar como pareceria estúpido falando com um animal e rindo sozinho.

O prazer de avistar os primeiros portos do Mar do Verão lhe trouxe uma alegria nunca vista. Içou a vela branca a favor do vento que soprava em direção do continente, e sentia o vento quente beijar-lhe a face e acariciar seus cabelos como uma amante que há muito tempo não encontrava. Havia aportado ali anos antes, mas não se recordava bem dos locais onde poderia ancorar com segurança.

Então viu um pequeno homem negro acenando-lhe do cais de pedra para que se aproximasse de uma galé de casco esverdeado, que, segundo o próprio homenzinho, era local seguro para a pernoite do barco.

Quando a âncora encontrou a areia no fundo do mar, ele veio ao encontro do marujo com um sorriso alvo e jovial:

- Vossa senhoria precisa que este humilde servo tome conta de sua nobre embarcação, senhor? – indagou-o enquanto alisava os tecidos vermelhos de suas vestes com mãos adornadas de anéis de pedras douradas.

- Sim... E gostaria de vendê-lo, aonde posso encontrar um mercador de navios?

- Oh, um mercador, sim conheço bons mercadores nestes portos, meu senhor... Como se chama mesmo, nobre senhor?

- Ryam... Ryam Flowers – respondeu com firmeza

- Um belo nome, sem dúvidas – respondeu o homenzinho, abafando o riso por ter chamado de “nobre” um bastardo da Campina, que carregava o nome “Flowers” por seu baixo nascimento.

Ryam engoliu em seco e sorriu. Sabia o motivo da risada do homenzinho, mas por bem não demonstrou seu constrangimento ou desagrado. “Flowers” era o nome como chamavam os bastardos da Campina, era bem verdade, mas agora ele estava em Dorne e, bastardo ou não, evitar problemas era o melhor que poderia fazer.