Notas iniciais
dedicado à querida Naerys, uma ótima leitora e escritora grandiosa

- Eu havia escrito uma parte deste capítulo há algumas semanas atrás, ontem teminei a primeira parte e adicionei a segunda. Leiam ambas, pois estão completas agora! Beijos beijos


CAPÍTULO DEZ


Desmera perdeu as contas de quanto tempo se passara desde que o navio de Euron Greyjoy deixara a verdejante Campina. Sentira o ar esfriar e o mar agitar-se conforme rumavam ao Norte, e algumas vezes foi acordada pelo nariz gelado de Eldri a tocar a palma de sua mão, como que para tentar reconfortá-la silenciosamente. Quando finalmente encontrou forças para se por em pé novamente, deparou-se com a cadela encarando-a à porta dos aposentos privados, como se não permitisse que a dona fosse ao convés da embarcação, ou que outras pessoas entrassem onde Desmera repousava.

Haviam tentado proibi-la de levar o animal, mas felizmente ela insistira em dizer que era um presente de casamento do primo e, por fim, seu cunhado acabou cedendo e permitindo sua entrada no Silêncio. A Donzela das Uvas caminhou até a cadela e acariciou os pelos brancos que lhe cobriam o corpo, e então afastando-a delicadamente para abrir a porta e sair ao convés.

A claridade opaca a cegou por alguns instantes, mas logo Desmera vislumbrou a pintura rubra do convés com facilidade. Na Árvore, Lord Paxter possuía inúmeras embarcações luxuosas, navios de passeio ricamente ornamentados com entalhes em madeira e pinturas que ostentavam a riqueza e tradição da Casa Redwyne, mas a jovem dama jamais havia visto um navio cuja área externa houvesse sido pintada de apenas uma cor, como era o Silêncio: rubro, um vermelho escuro com manchas que se destacavam aqui e ali. Desmera logo as reconheceu como sangue de homens que haviam morrido pelas mãos de Euron Greyjoy.

Mas, quando enfim desviou os olhos do chão e encarou o firmamento sobre sua cabeça, viu um dia cinzento e gaivotas que sobrevoavam cortando as nuvens. Ela sentiu o coração pesar e as entranhas se embrulharem: as aves eram um sinal de que se aproximavam das Ilhas de Ferro. Por um momento desejou ter alguém por perto, Hobber ou um dos criados da Árvore, alguém para abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem.

Então sentiu um calor na palma de sua mão, como se seu anseio tivesse sido atendido pela graça dos Sete. Mas quando foi fechar seus dedos sobre aquele calor, percebeu que eram reais, e antes que pudesse desvencilhar-se dedos fortes e calejados prenderam-se em seu pulso fino e a puxaram para um abraço terrível.

– Está com medo, pequena florzinha? – o hálito de Euron recendia a carne salgada e Sombra da Tarde — Tens medo de não agradar meu irmão, é isso? Ora, ainda está em tempo de eu lhe ensinar alguns truques, se desejares... E depois disso ele jamais vai voltar a reclamar de meus presentes!

– Por favor, me solte Euron... – Desmera encarava com pavor aquele único olho azul cintilante, e desejou poder vazá-lo como fizeram com o outro. Mas ele ria, aquele olho ria dela e gozava de sua situação.

– Não entende o motivo de a mandarem pra cá, não é mesmo? – ele sussurrou em seu ouvido, puxando-a para si e roçando o corpo dela no seu – Em Westeros, não existem famílias que não venham, a um só tempo, do trono e da lama, Lady Desmera. Os Tyrell, e assim seus vassalos Redwyne, são capazes de tudo para elevar a Rosa acima do Leão e dos Dragões. Sua avó é uma senhora muito perspicaz, minha florzinha... Convenceu a ti e a Lord Paxter de que lhe enviaria para casar com uma poderosa aliança em um reino mais ao Norte, mas esqueceu-se de dizer quem éramos. E agora, ela terá a certeza de que os Greyjoy não atacarão a Campina, pelo menos por enquanto... – ele tocou o rosto da jovem e beijou sua fronte — Quem dera fôssemos todos com ela, não?

– Sou mais forte do que você imagina – Desmera retrucou, afastando-o para longe, e notou que Eldri rosnava, presa a um canto do navio.

– Descobriremos em breve, milady – ele riu, e Desmera notou a virilidade de Euron destacando-se dentro das calças por conta de seu “abraço”.

Enojada, ela foi sentar-se ao lado de onde Eldri estava amarrada, e daquele lugar observava a sombra cinzenta que se sobressaia no horizonte. Aos poucos, a sombra tomou forma e Desmera viu uma fortaleza antiga, esculpida na pedra e avançando sobre o mar como se o desafiasse. Falésias pontiagudas o cercavam e suas torres eram unidas por frágeis e oscilantes pontes de corda e madeira que balançavam à vontade dos ventos. A cadela tocou com seu focinho gelado a ponta dos dedos de sua dona e a Donzela das Uvas acariciou o pelo branco do animal.

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{CONTINUAÇÃO}

A embarcação avançava veloz, cortando a água verde-acinzentada com ferocidade. A cada milha que percorriam, o coração de Desmera parecia bater mais forte, a ansiedade e o medo tomando conta de seu corpo. Não sentia frio, mas ainda assim suas mãos tremeram e um arrepio percorreu-lhe a espinha quando distinguiu as tênues formas humanas que se delineavam em negro na beira mar, ocultas pelo nevoeiro. Eram quatro homens à frente, e ao fundo outras tantas se juntavam a elas, imóveis, como se petrificadas pelo tempo, mantendo vigília ao mar que era tanto sua vida como morte.

O Silêncio finalmente ancorou entre as rochas em Pyke, roçando a proa levemente entre as pontiagudas pedras do mar. Euron Greyjoy era um navegador habilidoso, disso não se podia duvidar, e um dos poucos que arriscava-se a chegar tão perto da costa escarpada e perigosa.

O capitão desceu primeiro, saltando para a terra firme, e então sorriu seu sorriso debochado e ofereceu a mão à donzela que trouxera para Victarion, mas atrás de si um homem de barba e cabelos compridos puxou-o pelo ombro fortemente, sobrepondo-se a ele:

– Donzela das Uvas, Senhora dos Vinhos do Sul, nossa Casa Antiga e Nobre saúda sua chegada – ele disse, com voz trêmula e ofegante, enquanto agarrava o fino pulso de Desmera e trazia para terra com menos cuidado que ela gostaria. Ela pôde observá-lo melhor de perto, os olhos vazios e negros como a noite, e o rosto marcado de cicatrizes quase oculto pelos cabelos escuros e desgrenhados.

– Mace Tyrell, Senhor do Sul e a Casa Redwyne os saúdam os Senhores de Ferro e o Rei do Sal e da Rocha. – Desmera devolveu a cortesia com que fora recebida, olhando ao redor em busca de algum sinal que denunciasse Balon Greyjoy, autoproclamado ‘rei’ – Recebam as dádivas de Lord Paxter Redwyne, Senhor da Árvore, em sinal de respeito e trégua, e sua aliança na forma de união entre nossas casas, Capitão Victarion. – ela concluiu, voltando a olhar o homem que ainda segurava seu pulso, com algas no cabelo e aquele olhar sem vida.
Nem bem terminara sua fala, ouviu o som do riso debochado de Euron mais uma vez:

– Minha dama, um discurso muito belo e bem ensaiado, mas teria sido melhor apresentá-lo ao pretendente certo. – disse ele, a tomando pelo pulso que ainda tinha livre e conduzindo-a até onde estavam as três outras figuras que avistara ao longe. Quando aproximaram-se, pôde distinguir contornos femininos em uma delas, a cintura mais fina e seios que delineavam-se levemente por debaixo dos tecidos grossos, mas em rosto era tão carrancuda quanto os homens que a ladeavam.

“Permita-me apresentar-lhe, Lady Desmera – Euron continuou – Curve-se ao seu novo rei, Balon IX e sua herdeira Asha Greyjoy, Capitã do Vento Negro. – Ambos a olharam com indiferença, mas era perceptível o olhar de Asha para o tio, um olhar desconfiança e desprazer ao homem que lhes falava com um respeito duvidoso – E este, jovem donzela, é nosso Capitão de Ferro, Victarion Greyjoy e a quem deverá dedicar sua lealdade e devoção tanto quanto dedicará à seu novo rei.

Diferente de Asha, Victarion sequer dirigiu o olhar ao irmão. Olhava diretamente à Desmera, os olhos de um azul-cinzento como o mar tempestivo e gelado pareciam penetrar-lhe a carne e atingir o cerne de seu ser. Não a olhava com indiferença, mas ela não sabia dizer o que significava aquele olhar.

Diferente dos dois irmãos mais velhos, Victarion tinha os cabelos presos em uma trança desalinhada, de onde alguns fios escaparam e tremulavam ao vento. A barba cinzenta escondia uma cicatriz que ia do queixo até acima do maxilar, quase imperceptível. Seu Capitão de Ferro vestira a armadura para receber sua Donzela das Uvas na praia, sobre a qual se ostentava uma lula gigante cujos tentáculos pareciam tentar agarrar tudo ao seu redor, e uma lula também era o elmo que ele segurava sob o braço.

Mas de toda sua armadura nenhuma era tão forte e impenetrável quanto aquele semblante férreo que observava a Desmera sem nada dizer. Prestava atenção ora nos cabelos cacheados voando à brisa marinha, ora no vestido branco e azul que lhe fizeram para suas núpcias, com bordados de prata em formas de conchas do mar, para que não ostentasse os símbolos da Campina nem das Ilhas de Ferro.

E então Victarion tomou a mão dela e a fez ajoelhar-se diante dele, acenando para que Aeron se aproximasse com a jarra que agora trazia em suas mãos. O sacerdote despejou a água fria e salobra do mar por sobre a cabeça da jovem donzela, entoando a prece ao Deus Afogado, e quando a entoou novamente foi acompanhado não só por um coro de vozes profundas e roucas, as vozes dos Homens de Ferro, mas também pela voz de Desmera.

Ela podia sentir o coração palpitante e o peito elevar-se com sua respiração, mas não havia medo dentro de si. Levantou o rosto que antes fitava a rocha coberta por limo e algas e encarou com firmeza seu marido. Pôs-se de pé diante dele, forte e rígida, seria sua Esposa de Rocha.

Por um momento, Desmera pensou ter visto os lábios de Victarion contraindo-se em um sorriso, mas não teve certeza. Novamente ele tomou uma das mãos de sua jovem esposa, e colocou em seu dedo central um anel com o formato da lula gigante, símbolo de sua casa.

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