A Bordo Do Titanic

5 Capítulo 4 - O Cais de Southampton - Parte II


Notas iniciais
Este Capítulo é ligeiramente maior em relação ao anterior, parece que a minha inspiração voltou novamente em força rsrsrs :)
Este capítulo é marcado pela pormenorização, espero que não seja demais. Se o for não hesitei em dizer!
Espero que gostem ^^
Obrigado por tudo :)
Beijooo

Alice

O véu nocturno salpicado de estrelas voltou a surgir, elas brilham intensamente no meio de toda aquela escuridão e eu sinto o frio bater-me rudemente nas bochechas provocando automaticamente um arrepio desagradável. Sinto que algo está errado, eu sei que sim… aquela noite encontra-se calma demais. Apercebo-me que estou na proa de um navio que não conheço o nome e o próprio encontra-se a navegar num mar de águas calmas e escuras. Subitamente um vento gelado sopra contra mim e eu encolho-me para me proteger dele, do nada consigo ouvir gritos de agonia, gritos que rasgam o silêncio daquele cenário nocturno… assustada tento localizar o sítio de onde eles possam vir, novamente, gritos de agonia e sofrimento, apercebo-me de que os próprios vêm para lá da proa do navio. Recolho a coragem suficiente e atrevo-me a debruçar-me, temendo do que possa encontrar… Detenho um grito de horror quando contemplo as centenas de corpos meio congelados, que flutuam sobre as águas calmas do oceano Atlântico, muitos rostos ainda têm os olhos abertos, sem vida, baços pelo gelo cruel. Os gritos vêm daqueles corpos, as suas almas gritam por um socorro que nunca virá….

Acordei. O peso daquele pesadelo desvaneceu-se rapidamente e com alguma dificuldade respirei em busca de ar. Tinha sido mais um sonho, um de muitos que ainda não conseguia encontrar lógica para explica-los. Tudo o que podia dizer era que eram horríveis, sonhos medonhos que faziam-me arrepiar só de pensar neles. Ainda me conseguia recordar dos rostos adormecidos na água… homens, mulheres, até mesmo crianças. Pessoas eternamente ligadas ao mar, ligadas a uma tragédia, que eu temia prontamente, se atrevesse algum dia a passar a barreira do imaginário para se tornar numa realidade cruel. Um novo arrepio, desagradável surgiu e comecei a chorar. Todos aqueles sonhos, sem explicação, confusos e para além da minha compreensão, baralhavam-me. Deixava a minha mente confusa e fazia-me procurar desesperadamente por algo que fizesse terminar este quebra-cabeças. Os meus ombros sacudiam-se com o choro convulsivo, o que se estava a passar comigo? Estaria realmente a ficar louca?!

Por entre aquele reboliço todo de sentimentos confusos e desesperados consegui ouvir um bater leve na madeira da grande porta do meu quarto. Não disse nada, naquele momento não tinha voz para responder a quem quer que fosse… Se fosse a minha mãe, o que lhe diria? Chamar-me-ia louca se eu lhe confessasse os meus sonhos demasiado estranhos que ficavam com toda a certeza para além da compreensão humana?

A porta abriu-se e eu olhei na sua direcção, ainda com os olhos marejados de lágrimas, temendo que fosse realmente a minha mãe. Mas quem surgiu do meio das sombras foi a minha irmã mais velha, Bella, o sentimento de alívio atingiu-me instantaneamente.

Com ela presente eu sei que podia chorar livremente, falar abertamente e abordar o que mais me preocupava. Quando ela viu-me mais uma vez no meio de todos aqueles lençóis revoltados e travesseiros espalhados por todo o lado, ela veio até mim num passo apressado e sentou-se ao meu lado na cama, abraçando-me carinhosamente.

- Foi mais um daqueles sonhos, não foi Alice? – Murmurou a Bella com uma voz que tocava a compreensão.

Fiz um aceno de cabeça em afirmação á sua pergunta, tapei o rosto com as mãos, tentando ocultar inutilmente as lágrimas teimosas que ainda escorriam pelas minhas bochechas, mas o receio era maior, eu sentia-me tão assustada. Mais uma vez não resisti e agarrei-me a ela, amparando-me na sua compreensão. Não havia outra pessoa se não Bella para me ajudar a ultrapassar esta situação. Continuei a chorar, sentindo-me incapacitada para falar, quando é que aqueles sonhos teriam o seu fim? Quando?!

- Talvez todos estes sonhos não queiram dizer nada, são apenas… sonhos. – Murmurou mais uma vez Bella, passando-me com a mão suavemente no cabelo despenteado. – Verás que acabará tudo bem, amanhã partiremos…

- Não. – Interrompi-a bruscamente, com a voz a tremer-me na garganta e rouca do choro. – Eu insisto que não devemos fazer esta viagem Bella.

- Alice… — Iniciou, mas eu não lhe dei hipótese de falar.

- Não, escuta Bella… todos estes sonhos nestes últimos dias são demasiado estranhos para serem simplesmente ignorados. Eles têm algo que devem ser levados a sério… Fala novamente com a nossa mãe e insiste para não partirmos agora para a América por favor Bella.

Eu apercebi-me do tom desesperado que a minha voz tinha tomado naquele momento, mas aqueles sonhos, aqueles pequenos alarmes na cabeça que não me deixavam em paz e que me diziam que era definitivamente má ideia partir de Londres. Estes sonhos nocturnos deviam ser com certeza um mau presságio de algo vindouro, algo que estava para acontecer de terrível e ninguém prestava atenção, como isso me irritava... Eu não conseguia ver exactamente o que era mas o meu lado instintivo dizia-me para fugir enquanto havia tempo. Mas como seria possível quando sentia que estava a remar contra a corrente? Será que era só eu que conseguia ver?!

- Tu sabes qual será a resposta minha querida irmã… — respondeu Bella com um olhar triste, afagou-me novamente os cabelos generosamente. – A nossa mãe nunca permitirá isso, e tu sabes que ela insistirá em saber qual é o motivo para não partirmos já de Londres rumo a Nova Iorque.

Desviei o olhar do seu rosto, encarei o toucador já sem os meus pertences, completamente despido, tornando-se apenas num de muitos… sem qualquer vestígio meu, que pudesse dizer que ele me pertencia. Bella tinha razão, a nossa mãe com toda a certeza exigira uma justificação, uma justificação plausível e suficientemente convincente para não irmos nesta viagem, se a nossa mãe tivesse conhecimento dos meus receios, a minha consideração de tudo isto ser um erro… ganharia com certeza uma passagem para uma consulta de psicanálise e não para a América. Afinal, qual das duas opções escolher? Uma consulta baseada na mais recente teoria do afamado Doutor Freud no que toca aos mistérios da mente? Ou uma passagem de 1ª classe para a América? Qual das duas seria a pior? Perguntas, perguntas, perguntas… duas opções, apenas uma escolha. O meu único direito e eu não sabia qual dois caminhos tomar…

O tempo urgia como a areia a escorrer na grande ampulheta da vida e a decisão tinha que ser tomada. O meu olhar desviou-se do tocador para pousar desta vez sobre a poltrona de veludo rosa pálido, lá repousava já a roupa que envergaria amanhã no dia da nossa partida, contemplei-a com um olhar desesperado vindo-me á mente as memórias recentes de observar as criadas a prepara-la com grande competência e eficiência, tirando aquele vestido verde água de ceda e renda branca no decote e nas mangas do armário onde os vestidos eram guardados, o casaco de uma cor ligeiramente mais escura, de veludo com as mangas á balão que acompanhava o comprimento da saia quase justa. Aquele chapéu branco de aba larga, do mesmo tecido do casaco, ornado com plumas e renda… Ao lado uma pequena caixa com as jóias que usaria, um pequeno alfinete de madre pérola de onde sobressaía rosas esculpidas e pequenas esmeraldas encrostadas a fazer de folhas verdejantes; os brincos pequenos de pequenos diamantes e esmeraldas nos rebordos, ainda uma pequena bracelete fina de ouro branco e esmeraldas. Um trio perfeito e harmonioso que faria qualquer jovem rapariga da minha idade feliz, mas a mim só me transmitia aquele mau pressentimento, como se fosse a roupa e os ornamentos que me acompanhariam no meu funeral e por fim á minha última morada, a sepultura. Não confessei a Bella aquele último pensamento arrepiante, receando por momentos o que ela pudesse pensar da sua própria irmã.

- Tens razão… — concordei. – Ela vai querer saber o motivo pelo qual eu sou tão contra a viagem.

- Verás que todos estes sonhos não passaram disso mesmo. Sonhos maus sem nenhuma credibilidade. – Tentou Bella tranquilizar, exibindo um sorriso confiante nos lábios.

- Desejo ardentemente que estejas certa minha irmã… — murmurei a meia voz, ainda um pouco receosa.

- Agora não há como voltar atrás, as nossas bagagens já estão prontas, os criados de que não são precisos, dispensados. Todos os planos já estão traçados Alice, cancelar um plano desta dimensão tendo em base sonhos tão estranhos como assustadores não seria de grande sensatez querida irmã… Verás que tudo correrá bem e daqui a mais ou menos 6 dias, estaremos seguras em Nova Iorque. – Tranquilizou-me, mantendo o sorriso confiante.

Os alarmes não tinham desaparecido ainda da minha cabeça, embora tivessem diminuído um pouco, o receio continuava lá, mas porque não confiar nas palavras optimistas de Bella? Se ela tinha tanta confiança e certeza de que as coisas correriam pelo melhor… Limpei com uma mão os últimos vestígios de lágrimas e sorri timidamente. Bella abraçou-me um pouco mais e depois deu-me um beijo no rosto. Eu tinha tanta sorte por ter uma irmã como Bella… não suportaria viver num mundo onde ela não existisse, abracei-a de volta.

- Acho que é melhor descansares Alice… — aconselhou-me. – Amanhã temos um grande dia pela frente.

- Sim. – Concordei. – Não quero partir desta mansão sem me despedir de tudo…

A resposta de Bella foi um sorriso meigo, levantou-se da cama e com passos inaudíveis saiu discretamente do meu quarto para entrar logo no seu que ficava mesmo ao lado. Apesar das minhas advertências, tendo em base os sonhos que tivera nestas últimas noites antes da nossa partida, não eram suficientes para adiar a viagem. Depois de longos pensamentos libertados sobre o meu leito mergulhado em sombras projectadas pelas longas cortinas do dossel pormenorizadamente esculpido e dispendioso, um sono suave e agradável começou a pesar-me nas pálpebras e sem qualquer agitação mergulhei por entre os lençóis macios num sono que não foi mais interrompido pelos mesmos pesadelos que até á data tinham-me andado a atormentar noite após noite.

Eu tinha tomado a minha decisão, escolhido o meu caminho… agora era só esperar pelas consequências. Restava saber se essas mesmas consequências eram boas ou se eram más ao ponto de nos serem fatais.

Bella

Sonhos, uma teoria apenas baseada em sonhos… perturbantes, horríveis, temerosos. Talvez uma profecia vindoura de coisas aterradoras, num futuro próximo. Eu confiava na credibilidade e na sinceridade da minha irmã Alice. Eu conseguia acreditar que nas devidas alturas, o ser humano tinha a capacidade de ter uma espécie de sexto sentido e conseguir aperceber-se de factos ou acontecimentos que ainda não tinham sido contemplados pelos olhos humanos. Mas como explicar a uma mãe que está numa transacção de personalidade, a deixar descair uma máscara de grandes virtudes e amor maternal que afinal de contas nunca existiu? A melhor solução que eu via aqui era tentar ignorar. Talvez aqueles sonhos não quisessem dizer nada… toda aquela preocupação de Alice seria em vão e nós estaríamos muito em breve em Nova Iorque para um propósito que eu ainda nem tinha conhecimento. Apenas sabia que a nossa mãe Reneé fazia uma grande questão de fazer esta viagem. Afirmara uma vez, num chá tomado entre as duas, na sua pose elegante e voz ponderada que estava á procura de uma nova vida para nós…

A nossa mãe afirmava conseguir alcançar por nós a felicidade, uma felicidade que ela afirmava estar apenas e só mesmo numa grande fortuna e num bom título. Princípios que eu poderia dizer que não concordava de todo. Até mesmo o seu simples gesto ao pegar na sua chávena de chá dava a evidência de uma personalidade fútil e afectada, uma mente vazia que pouco se importava com os outros. Eu nasci, cresci e vivo num mundo marcado pelas suas inúmeras festas luxuosas, corridas de cavalos, sessões literárias nos melhores salões privados de Londres, jogos de Pólo, convívios com as pessoas mais ilustres e respeitadas da alta sociedade. Mas a pergunta surge, é isso que vale a pena nesta vida? Eu sei que há um mundo para lá desta cerca de ouro e requinte que me aprisiona, mas eu não tenho forças para a conseguir saltar e por fim contornar. Pequenos vislumbres? Sim, já os tive e posso afirmar que o lado oposto é bem diferente de tudo o que conheço e com que cresci. Esses mesmos pequenos vislumbres fizeram-me acordar para uma realidade em que a teoria é “os bens materiais não são tudo”.

Talvez esse fosse o factor chave para me ajudar a ver a verdadeira personalidade da Reneé Mary Dewitt Bukater, essa dura realidade agora impelia-me a ser uma mulher diferente.

Na manhã ligeiramente soalheira de 10 de Abril de 1912 acordei bem cedo, talvez fosse pelo sentimento de vazio que eu já sentia tão precocemente. Abandonar aquela residência não era assim tão fácil como me parecera dias atrás, havia ali demasiadas memórias retidas, era onde eu tinha nascido e onde tinha crescido, as recordações da infância ainda conseguiam ter aquele encanto próprio... apesar de a mansão já se encontrar parcialmente despida dos seus bens, eu conseguia saber o lugar pertencente a cada um deles. Tentava colocar na minha mente aquela ideia como se fosse uma manhã como todas as outras, mas no fundo eu sabia que isso não me levaria a lado nenhum…

Subi para os meus aposentos, as minhas duas criadas pessoais já me esperavam para o começo do ritual que acontecia todas as manhãs, o banho com os meus sais preferidos, seguido da escolha da roupa e depois o arranjo do cabelo e a escolha das jóias que usaria.

Naquela manhã escolhi um vestido simples, branco e roxo às riscas verticais, traçado á frente com botões de veludo brancos e roxos o chapéu de aba grande roxo com um grande laço na frente igualmente com riscas, os sapatos de veludo a condizer… olhei para aquele traje com alguma indiferença em frente ao espelho do meu tocador, suportado pelo meu corpo como se fosse uma outra roupa, igual a tantas outras, com a mesma simples função. Uma das criadas apanhou-me o cabelo castanho atrás e colocou-me o chapéu, a outra criada deu-me para a mão uns brincos de ouro e pedras semi preciosas roxas e um alfinete de ouro fino que coloquei com uma melancolia mórbida.

- Podem sair obrigada… — ordenei-lhes com uma voz gentil quando dei aquele ritual matinal por terminado.

As duas criadas fizeram uma reverência simples e delicada saindo depois discretamente dos meus aposentos. Quando dei por mim sozinha, em frente de um tocador já privado de tudo o que eu estava habituada a ver diariamente, apercebi-me subitamente do peso da realidade. Eu ia partir dali… levantei-me e com passo vagaroso aproximei-me do espelho de corpo inteiro que eu tinha decidido deixar para trás, com a intenção de mais tarde, quando já estivesse devidamente estabelecida em Nova Iorque com a minha irmã e mãe, mandar uma carta aos que ficariam encarregues da nossa Mansão para mo enviarem. Deixei escapar um suspiro de leve angústia… por fim tinha-me despedido de tudo.

A nossa mãe fez questão de que fossemos no carro mais vistoso e luxuoso que o nosso falecido pai, Charlie Bukater tinha deixado na herança. Expressou esse desejo caloroso na ocasião em que tomávamos o último pequeno-almoço ali. Alice não fez qualquer comentário, mantendo o olhar fixo na sua chávena e no seu prato com tartes pequenas de framboesa e chantilly. Quanto a mim fixei o olhar na nossa mãe para depois desvia-lo convenientemente para o que tinha á minha frente. O apetite já não era muito e ouvir aquelas expressões vazias e fúteis de nossa mãe…

Partimos assim que terminamos o pequeno-almoço, uma partida brusca que não deu uma última hipótese de quaisquer despedidas. Assim como a nossa mãe expressara, o seu pedido foi atendido e no largo em frente á mansão, onde repousava uma larga fonte, que a meu ver mais se assemelhava a um lago, decorada com estátuas que eu admirei pela última vez com prazer, estava um carro vistoso, grande, branco, preto e dourado.

A nossa mãe contemplou com uma satisfação enorme e desceu com toda a vaidade as escadas de entrada. Envergava um vestido verde musgo de veludo, o seu pescoço brilhava com os inúmeros diamantes com a luz matinal a incidir sobre eles. Naquela manhã a nossa mãe parecia mais austera, luxuosa, escandalosamente rica. Desviei o meu olhar, procurando com senso de urgência algo que ainda não me tivesse despedido.

Aquela fonte, pertencente ao nosso jardim enorme e elegante… Com 4 estátuas de mulheres semi nuas, todas elas belas. Escultura italiana Barroca do século XVII…

Estavam dispostas ao longo da larga circunferência que a fonte formava, estando uma em cada canto e viradas para o exterior do círculo, virando costas ao repuxo de água que ele próprio era uma mulher majestosa, na sua graciosidade ao segurar por uma das asas um vaso grego sobre o ombro que deitava a água. Dois anjos barrocos, um de cada lado, seguravam-lhe o pano que circundava o seu corpo nas zonas propositadas a esconder, deixando apenas o tronco, braços, pernas e nomeadamente os seus seios a descoberto.

As restantes 4 carregavam com o seu próprio significado. Eu sabia-o pelos ornamentos que cada uma carregava, eram as quatro estações do ano... As duas que estavam em primeiro plano da minha vista representavam o Verão e a Primavera.

O Verão por uma mulher de cabelos ondulados que pareciam esvoaçar com uma brisa quente e com a sua mão direita levantada para cima, aberta em concha, parecia querer tocar no próprio céu, nas escassas nuvens próprias da estação e no sol ardente que reina nesses dias. O seu rosto, olhando para cima, representava uma expressão de serenidade e a alegria. No seu lado esquerdo carregava um fino cesto de verga com frutos colhidos da época e o seu vestido que me dava a sensação de ser transparente e molhado dava a revelar os seios fartos e arrepiados da água fresca. Os seus pés brancos de pedra faziam-na parecer caminhar sobre a borda de um lago numa tarde soturna.

Do seu lado oposto, encontrava-se a Primavera, representada por outra mulher, mas esta tinha os cabelos ornamentados de flores e fitas num penteado grego, todo ele aos caracóis e comprido, esvoaçando com o vento ainda fresco. O seu sorriso era aberto e os seus olhos sorriam em conjunto com a serenidade. A sua mão esquerda levantada sustentava uma ave majestosa e elegante de asas abertas. Ela olhava na direcção do pássaro, com a cabeça inclinada para o lado, como se tivesse com o olhar procurando por pormenores, com um interesse aguçado e do outro braço pendiam um enorme ramalhete de flores, todas elas diferentes. O vestido comprido e cheio de pregas quase revelavam o peito elevado e robusto da mulher. Na sua cintura encontrava-se uma corneta de caça.

Imaginei-a toda ela feita de marfim, encrostada com pedras preciosas e fio retorcido de ouro. Os seus pés escondidos pelo comprimento do vestido esvoaçante e o gracejo com que ela se mantinha na sua posição fazia-me imaginar que ela se encontrava num bosque orvalhado pela manhã primaveril, onde o sol espreita por entre os espaços das folhas verdes e uma vez ou outra uma ave mais atrevida dá o seu concerto de cantorias para despertar aqueles que ainda repousam.

- Queres-te despedir da fonte Alice? – Murmurei-lhe numa voz em tom de convite.

Pela primeira vez nesta manhã, Alice sorriu e pegando-me na mão as duas descemos a enorme escadaria, esquecendo-nos por instantes do pavão vaidoso da nossa mãe.

Alice, de sorriso nos lábios e lágrimas discretas a surgirem-lhe nos olhos, circundou comigo a fonte até chegar às outras duas estátuas, para as poder observar, cheia de entusiasmo. Lá estava as outras duas estações representadas, o Outono e o Inverno…

A mulher que representava o Outono tinha o cabelo comprido como todas as outras, talvez ligeiramente mais curto, igualmente ondulado mas parecia ainda mais revoltoso que os das duas primeiras que vira. A enfeitar os seus cabelos tinha folhas secas, umas grandes, outras mais pequenas. O vento outonal parecia bater-lhe contra o rosto, dando-lhe uma expressão e feições de calma. Baixara o seu olhar na direcção do seu regaço e os seus lábios desenhavam uma pequena timidez. Utilizando o seu vestido comprido, transportava sobre o regaço, sustentando apenas com o braço esquerdo, castanhas e figos e sobre os seus ombros um xaile aparentemente transparente dava-lhe um toque de graciosidade. Com a sua outra mão, livre de algum objecto, acariciava a cabeça de um pequeno veado que se encontrava ao seu lado, olhando para ela, as suas pequenas hastes elegantemente esculpidas na pedra.

Imaginei-a a caminhar sobre uma floresta já toda ela pintada de amarelos-torrados anunciando a vinda dos tempos gloriosos de Outono, as árvores com as folhas avermelhadas, douradas e castanhas, caindo calmamente dos seus ramos, fazendo rodopios com o vento como as crianças no auge das suas brincadeiras, acabando por chegarem ao solo calmamente, formando um tapete colorido outonal e aí repousam. O sol a despontar através das que ainda se encontravam penduradas, esperando pela sua vez de serem derrubadas pelo seu outro amigo e companheiro de estação, trespassando-as, fazendo a sua luz transformar-se em cores que despontam em todas as direcções que o nosso olhar consegue alcançar.

As árvores desnudam-se das suas roupas, os animais preparam-se para o sono longo que os espera… Imaginei-me lá, com esta mulher, caminhando ao seu lado despreocupadamente…

Nem me apercebi que soltei um suspiro de satisfação súbita e as lágrimas começaram igualmente a assolar-me aos olhos. Do seu lado oposto encontrava-se por fim a mulher que representava o Inverno.

Esta, para não fugir á regra também tinha o seu cabelo comprido ondulado, mas não havia indícios de que houvesse vento para os movimentar. Estes encontravam-se descaídos sobre o seu corpo, ocultando um pouco dos ombros, pequenas gotas de orvalho congeladas ornamentavam-no, como eternamente pequenos diamantes e algumas madeixas tocando ligeiramente nos mamilos suavemente quase desnudados.

O seu vestido sustentava peles de animais a todo o seu comprimento, dando um ar aconchegante e quente.

Tinha o seu braço esquerdo elevado, com a palma da mão para cima e as pontas dos seus dedos delicados, tocavam num floco de neve trabalhado.

Ela observava de sorriso angelical e doce para ele e aos seus pés encontravam-se dois pequenos coelhos brancos, observando o que a bela mulher estava a fazer.

Os seus pés escondidos pela longa vestimenta dava-nos a sensação de que ela caminhava sobre um manto de neve muito suave e branca, não temendo o frio que a poderia congelar. A sua mão direita não sustentava nada, ficando mais ligeiramente abaixo.

Quatro mulheres, quatro estações do ano. Aquela fonte era para mim o bem mais precioso que existia naquela propriedade, ao contrário da nossa mãe que achava e afirmava que eram apenas bocados de mármore trabalhado. A mim, contrariamente fazia-me pensar que a vida ainda poderia ter significado, transmitido por grandes pequeninas coisas como esta. Só depois dei atenção aos 4 bancos de pedra perto de cada estátua, todos eles também ornamentados.

O do Verão ornamentado com peixes exóticos e aquilo a que dava parecer ser água.

O da Primavera ornamentado com rosas e pássaros aqui e ali.

O do Outono ornamentado com folhas de Outono, bolotas avelãs e esquilos.

E por fim, o do Inverno ornamentado com flocos de neve e coelhos albinos que se escondiam por entre a vegetação esculpida na pedra. As recordações aqui eram mais que muitas…

- Anda Alice… vamos embora… — Murmurei-lhe, não conseguindo esconder a tristeza.

Alice seguiu-me em silêncio, entrando primeiro no carro, onde já estava a nossa mãe instalada como se fosse ela própria a rainha. Não me atrevi a olhar para trás nem uma vez, partimos dali sem mais demoras…

Não dei pelo tempo passar rapidamente, emersa nas minhas próprias memórias, quando chegámos ao Cais de Southampton não pude deixar de admirar com olhos arregalados o enorme navio que nos esperava… senti a Alice a enrijecer-se automaticamente ao meu lado, iríamos embarcar no navio que tinha a fama de ser inafundavel.

Notas finais
Gostaria muito de saber a vossa opinião :)
Deixem alguns reviews please :P
muito obrigado ^^
beijoo***