A Bordo Do Titanic
3 Capítulo 2 - Os Sonhos Estranhos de Alice
Bella
Acordei com o som estridente de um grito, dando um salto enorme por entre os lençóis da minha cama e sentindo o meu coração a palpitar, em batimentos desmesurados. Por momentos senti-me desorientada, desconhecendo por segundos onde é que estaria exactamente e os meus olhos ainda se encontravam desfocados do sono profundo. Depois de piscar um bom número de vezes os meus olhos, consegui vislumbrar as cortinas de veludo que estavam ainda apanhadas, as massas de grande escuridão que mergulhavam o quarto misturavam-se com os feixes largos do luar que entravam através do vidro das janelas. Com algum esforço tentei focar o grande relógio dourado que se encontrava em cima da lareira de mármore cor de salmão ao fundo do quarto, numa tentativa de saber que horas seriam, o luar alcançava aquele ponto e consegui ver que os ponteiros marcavam 03:26 da madrugada, a minha respiração estava acelerada como se eu própria tivesse acabado de ter um pesadelo e finalmente tivesse acordado, libertando-me dele.
Fiquei quieta, esperando que não fosse alguém que estivesse prestes a assaltar a nossa mansão, um alguém que provavelmente tinha tentado entrar, recorrendo ao método de subir pelas heras que minavam a todo o comprimento das paredes do lado das varandas que pertenciam aos nossos quartos, pelos vistos, dera-se mal com a sua decisão.
Esperei, mas não ocorreu ouvir mais nada, nem um murmúrio nem um queixume. Talvez tivesse sido da minha cabeça ensonada. Preparava-me para dormir outra vez quando uma voz familiar fez-se ouvir… parecia chamar pelo meu nome, embora fosse difícil ter a certeza, dado que tinha sido pouco mais do que uma voz fraca que pareceu-me estar muito longe dali.
- Bella… Bella… — Murmurou novamente aquela voz, que pareceu-me estar rouca por um choro continuo.
Parecia vir do quarto ao lado… o que pertencia á minha irmã Alice. Levantei-me apressadamente, atravessando a grande porta do meu quarto e abrindo a do quarto da minha irmã. A Alice estava acordada, virada de lado e toda encolhida sobre si mesma, á sua volta os lençóis estavam numa confusão, revoltados como se tivesse andado numa grande Revolução, as inúmeras almofadas encontravam-se espalhadas pelo seu leito e algumas já jaziam pelo chão.
- O que se passou Alice? – Murmurei-lhe baixinho.
A resposta que me foi dada foi um choro mansinho e que rapidamente se tornou forte. Sem pensar corri na sua direcção, liguei a luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira e sentei-me na ponta da cama. Ela manteve-se na mesma posição, os seus ombros sacudiam-se com a força do choro. Num gesto de compaixão estiquei os braços para ela e puxei-a para mim. Ela não ofereceu resistência, deixando-se levar, continuando na sua entrega desesperada e de uma tristeza que dilacerava qualquer coração...principalmente o meu.
- Diz-me Alice, o que é que se passou? – Perguntei-lhe com uma voz amável. – Conta-me tudo. Porque estás a chorar?
Ela virou-se para mim, os seus olhos já se encontravam vermelhos devido ao choro e ainda havia lágrimas salgadas a percorrerem-lhe o rosto delicado de pele clara, naquele momento ela parecia vulnerável, tão frágil e indefesa…
- Foi… um sonho, um sonho horrível que eu tive… — soluçou a Alice com a voz rouca do choro.
- Um sonho? Que sonho foi esse que tiveste minha querida irmã? – Incentivei-a.
- Eu chamei-te, na esperança de que ainda estivesses acordada, oh Bella, sinto-me tão assustada… — Sussurrou Alice, ignorando por momentos o meu pedido.
Ela agarrou-se a mim, rodeando a minha cintura com os seus braços desnudados, senti as suas lágrimas ensoparem-me a minha camisa de alças de seda rosa pálido que tinha por hábito vestir quando chegava a hora de dormir. Não me importei com isso, era a minha irmã mais nova que importava agora e naquele momento necessitava do meu apoio, da minha ajuda. O sentimento de responsabilidade que tinha sobre ela falava sempre mais alto, tinha sempre a vontade de a proteger de tudo o que fosse de mal e o que a pudesse tocar só com o objectivo de a magoar.
Apenas com 1 ano de diferença de mim, a Alice era de estatura pequena, um corpo que já nos seus 16 anos parecia o corpo de uma mulher, com as suas curvas sinuosas e delicadas, os seus cabelos, castanhos como os meus, eram um pouco mais curtos e lisos, dando-lhe pelos ombros e oferecendo-lhe aquele toque de graça e ar de se parecer com uma criatura da Floresta, talvez como uma pequena fadinha. Alice já começava a despertar os interesses do sexo oposto e isso começava a deixar transparecer um estranho desagrado da nossa mãe, o que eu achava que era fora de contexto pois não eram atitudes que ela tivesse por hábito de adoptar. Dava a entender que a sua intenção não era que a sua segunda filha fosse feliz e isso deixava-me sinceramente confusa. Com um gesto subtil, dei-lhe festas delicadas sobre o seu cabelo desalinhado e embalei-a nos meus braços.
- Que sonho foi esse que te deixou neste estado Alice? – Voltei a perguntar.
- Há minha volta havia pessoas, pessoas mortas, tantas… estavam congeladas, debaixo de um céu estrelado, escuro e glacial Bella. Eu estava no meio delas, e apercebi-me que debaixo de mim estendia-se o infinito do mar, escuro e sinistro, estava juntamente com os cadáveres congelados a flutuar sobre um mar gelado. Conseguia ouvir o estranho som de metal a ranger debaixo dos nossos pés, como se fosse um monstro gigantesco de ferro que estivesse prestes a vir á superfície e depois nos tragasse a todos. Bella foi horrível!
Senti inexplicavelmente um grande arrepio com aquela descrição tão crua e dura que Alice me proporcionara. Era um sonho estranho, abracei-a com uma força ainda maior e ela continuou a soluçar baixinho. Sobre a minha mente surgiam perguntas, umas atrás das outras, porque é que a Alice tinha tido um sonho assim?
Ela afastou-se subitamente de mim, encarando-me nos olhos, os seus espelhavam medo, receio, terror.
- Algo me diz que não devemos fazer esta viagem Bella… — Murmurou Alice muito séria e com a sua voz a tremer ligeiramente.
Surpreendi-me com o que ela me tinha acabado de dizer. – E porque é que não deveríamos de partir para o outro lado do Atlântico, achas que não será bom para nós?
- Eu não te disse nada, nem á nossa mãe… mas já á várias noites que tenho tido este tipo de sonhos. – Alice agarrou-me as mãos com força, de uma forma quase possessiva. – Em alguns sonhos apareces tu, e a nossa mãe. Umas vezes mortas e congeladas como os outros restantes, outras vezes vocês surgem do nada, no meio daquela multidão já morta, a agonizarem com o frio cortante… mas houve uma ou duas ocasiões em que surgiam uns indivíduos que não os conheço de parte alguma mas no sonho é como já os conhecesse á muito tempo. – Alice franziu o nariz, como ela fazia sempre quando se deparava com algo que não compreendia. – Eu acho que era melhor ficarmos aqui por Londres e esperar que o tempo passe, e depois… talvez, partir então para a América.
- Consegues mos descrever? – Perguntei-lhe com uma voz gentil.
- Não exactamente… — Respondeu, enrugando novamente o nariz. – Nunca consegui vê-los como deve ser em todos os sonhos que já tive Bella… Apenas me lembro do frio que deveria ter e não tenho, e daquela gente morta, como bonecos rígidos e de olhos morbidamente abertos. Excepto esses mesmos indivíduos, parecem não se incomodar com a água gelada e o barulho que eu consigo ouvir debaixo dos meus pés, é como se o ignorassem deliberadamente, fixando os seus olhares sobre mim. Nem parecem estar sonolentos ou com sinais de hipotermia.
- Eu acho que nós deveríamos contar estes teus sonhos estranhos á mãe… — murmurei.
- Não Bella, por favor! – Implorou Alice. – A mãe nunca compreenderia, acharia que eu estava a precisar urgentemente de um médico. – Alice apertou-me um pouco mais as mãos e eu tratei de ignorar que ela estava a começar a magoar-me.
- Tens razão… — conclui cheia de compreensão e desvalorizando a dor momentânea que o aperto de Alice tinha provocado. – Ela nunca acharia estes sonhos normais, embora eu também não os ache.
Vindos da mente de Alice, estes sonhos eram demasiado estranhos e estavam muito para além do que as nossas mentes conseguiam compreender. A sua interpretação e compreensão estavam num ponto mais além, fora da inteligência humana, num canto escondido que ao primeiro vislumbre nunca poderia ser alcançado.
Se nem eu nem a Alice compreendíamos tudo aquilo, como é que a nossa mãe, Renée Mary Dewitt Bukater, uma mulher fria, calculista e com um olhar perspicaz para o negócio que por vezes desejava saber a minha opinião em inúmeros assuntos, poderia compreender? Para a minha grande confusão, era assim que eu estava a começar a ver a nossa mãe, outrora ela parecera-me tão terna, compreensiva e maternal. Uma mãe que amava realmente as suas filhas… mas agora, ela parecia-me distante, completamente diferente, revelando uma nova personalidade que eu desconhecia totalmente. Depressa estava a perder aquela admiração que eu tinha por ela, o brilho da sua aura estava a desvanecer-se e com isso toda a ilusão de uma mãe que conhecera na minha infância.
O pedido urgente de Alice para que ela não tomasse conhecimento destes sonhos parecia fazer todo sentido. O plano seguiria o seu rumo, partiríamos para a América e este assunto seria ignorado… Apesar dos avisos de Alice que algo estava errado.
- Eu sei, e é lógico que não conseguias compreender estes sonhos Bella, mas eu sei e tenho a certeza de que tu nunca me entregarias às mãos de um médico lunático que mais provavelmente faria experiências desumanas comigo. Tu és boa pessoa… — Declarou com um sorriso tímido.
Abracei-a novamente, sentindo uma onda de grande carinho pela minha irmã. – Eu irei sempre proteger-te Alice. Nunca te esqueças disso. – E ela poderia ter a minha palavra de honra.
Nunca deixaria que fizessem mal á minha irmã. Nem mesmo permitiria que a nossa própria mãe o fizesse. Um perigo desconhecido começava a despontar e eu já começava a vê-lo, enquanto a Alice ainda estava longe de se aperceber de alguma coisa.
Renée
Olhei lascivamente para o espelho que se encontrava á minha frente. Todas as luzes dos meus aposentos encontravam-se acesas, tal como eu gostava. Apreciava um bom lugar mergulhado em luz e o melhor exemplo se não o meu quarto?
Eu gostava do luxo, da imponência, da riqueza. Qual não era a mulher que desejava ser poderosa e rica em bens materiais? Para isso havia a solução de nos entregarmos nos braços de um Homem que fizesse bons investimentos nas grandes bolsas Europeias e Americana, tivesse inúmeras terras e uma propriedade em cada uma delas onde pudesse sujeitar á submissão homens perdidos nos seus infortúnios e pobreza, carros velozes, roupas de tecidos caros, sapatos de preços exorbitantes e mais do que tudo…nome importante, então todos os nossos desejos seriam atendidos. Sacrificar a nossa pouca liberdade e tornar-nos cativeiras do domínio masculino era um preço que tinha de ser pago. Continuei a contemplar a minha figura ao espelho, não pude deixar de sorrir, a morte tinha-me separado de Charlie Anthony Dewitt Bukater, e tinha que admitir que a viuvez assentava sobre mim melhor do que pensara. Felizmente, aquele miserável que eu estupidamente amara, contraíra inúmeras dívidas que eu não tinha meio de como as liquidar. A sua riqueza efémera iludira-me e as consequências agora faziam-me arrepender amargamente por ter sido estúpida em casar-me com o tonto do Charlie.
Levantei-me do banco disposto em frente do tocador e aproximei-me da mesa ao lado deste, nela tinha espalhado todas as minhas jóias que Charlie, num acesso de paixão estúpida comprara-as num dos joelheiros mais caros de Londres, aquelas que pela força da teimosia, recusava-me a vender para saldar as dívidas. Com um passo vagaroso percorri todo o comprimento da mesa e com uma mão tocava ao de leve nos meus objectos mais preciosos. Deleitara-me quando ele ofereceu-me cada uma delas, convenci-me que o meu falecido marido, a estar ao serviço dos meus caprichos, proporcionava a possibilidade de eu conseguir ter tudo o que desejasse. Se eu dissesse ao Charlie para ele se atirar de uma ponte ele faria-o sem hesitar. Homem estúpido e apaixonado… Infelizmente a morte levara-mo cedo demais e com isso acabou-se os caprichos. Virei-me novamente na direcção do tocador, a carta de apenas uma folha ainda se encontrava desdobrada. A carta que eu recebera naquela mesma tarde, vinda da América.
O meu sorriso tornou-se mais largo, aproximei-me e peguei na folha de papel, relendo com uma satisfação e convicção de que em breve os nossos problemas acabariam.
Nova Iorque, 20 de Março de 1912.
Vossa Excelência,
Madame Renée Dewitt Bukater.
Foi com um grande gosto e alegria que recebi a sua carta e digo-lhe que a sua proposta de dar a mão da sua filha Bella em casamento ao meu filho mais velho agrada-me.
Agradeço-lhe desde já, o maravilhoso retrato pintado a óleo da sua filha, que digo-lhe em primeira mão, deixou o Albert encantado. Espero-a a si e á sua família aqui em Nova Iorque muito em breve, com o fim de dar inicio aos preparativos do casamento, garanto-lhe que as despesas não serão um problema, poderemos gastar tudo o que desejar nas bodas dos nossos filhos. Digo-lhe que da minha parte convidarei pessoas ilustres e sobretudo importantes de alguns estados da América. Será uma cerimónia marcante e que com toda a certeza ficará para a história. Desejo-vos uma boa viagem a bordo do Titanic.
Os meus sinceros comprimentos.
Lorde William Joseph Smith
O plano estava todo a decorrer como eu imaginara, Bella casar-se-ia com um jovem rico americano e as malditas dívidas de Charlie nunca mais seriam mencionadas no nosso meio. Teríamos uma vida ainda melhor do que aqui em Londres e faríamos parte de uma das famílias mais importantes de Nova Iorque.
O arranque de tudo teria no dia seguinte, quando partiríamos a bordo do Titanic. Os elogios dariam uma extensa lista a seu respeito. Era o maior meio de transporte movido pela mão do homem em toda a história. Tão luxuoso, forte, imponente, uma supremacia que jamais deveria ser desafiada, uma expressão que apenas suscitava uma palavra e a fazia persistir constantemente, a palavra inafundavel.
Naqueles últimos dias, o Titanic alcançara o estatuto de navio que nunca afundaria, até mesmo Deus, como tantos e tantos diziam com orgulho pelas ruas e até mesmo nos grandes salões da grande elite, não teria as forças suficientes para aniquila-lo. Aos olhos de todos, o Titanic tinha acabado de conquistar o título de Titã dos mares, exuberante no seu luxo e requinte ao qual eu tinha tido conhecimento á uma questão dias, tinha sido bajuladoramente decorado de acordo com o Movimento Artístico francês em alta, Art Noveau.
Para nós, que pertencíamos á melhor parte da sociedade, os bons e requintados aristocratas, era o navio mais adequado e seguro para se viajar para o lado oposto do oceano, onde estaria á nossa espera o fim das dificuldades e o começo de uma vida livre e rica em bens materiais. Eu sentia aquele desejo ardente de provar e saborear o paladar da soberania, da inteligência humana com a capacidade para criar obras como esta.
Mais tarde, quando me encontrasse em Nova Iorque com as minhas duas filhas, a mais velha prestes a casar com um dos jovens nova iorquinos mais ricos, teria o orgulho de dizer que tinha viajado no navio mais importante de todos os tempos. Então talvez eu também tivesse um pouco de sorte e conseguisse caçar um velho magnata podre de rico que me fizesse nada em diamantes e ter tudo o que eu quisesse.
Eu tinha pena e no fundo irritava-me que ambas as minhas filhas não tivessem o mesmo espírito de ambição como eu acalentava. Se não fosse eu, o que é que seria delas?
Pousei a carta no seu lugar original e voltei-me a sentar sobre o banco em frente ao tocador ornado de plumas vistosas e pérolas, pegando na escova de prata do cabelo dei inicio a escovadelas vagarosas sobre os meus cabelos castanhos compridos.
Sorri maliciosamente para o espelho, eu tinha a certeza que ia ser rica às custas da Bella e ela nem sonhava que estava a ser usada para esse fim.
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