A Bordo Do Titanic

2 Capítulo 1 - Londres deixada no Esquecimento


Carlisle

O Jasper olhou para mim com aquele olhar comedido e prudente que o caracterizava tanto enquanto o Edward deixava transparecer uma evidente perturbação.


– Tu achas que é boa ideia partir para a América, Carlisle? – Questionou Jasper, colocando as mãos atrás das costas e caminhando calmamente pela pequena sala da Biblioteca.


Observei-o por mais uns segundos, pousando as mãos sobre a secretária.


– Já passou tempo demais, e continuarmos a residir aqui constituiria a imposição de inúmeras perguntas Jasper. – Respondi prontamente.

– Não bastaria escondermo-nos durante o dia? – Perguntou desta vez o Edward com impaciência. – Esta vida de mudar constantemente de habitação está a tornar-se uma maçada Carlisle. Com certeza que as pessoas não se questionariam assim tanto a nosso respeito.


Claro que aquele argumento não tinha qualquer fundamento, tanto de lógica como de verdade. Já tinham passado cerca de 7 anos desde que se tinham instalado nos subúrbios da cidade de Londres e a eterna juventude, tanto minha como a de Jasper, Edward e Emmett e da minha amada esposa Esme começava a ser questionada nos inúmeros salões das famílias mais influentes da classe rica. A nossa vida era cuidadosamente encenada no meio daquela sociedade maioritariamente humana, tanto eu como Esme desempenhávamos sempre os papéis dos pais austeros e elegantes que tinham tido a felicidade de trazer ao mundo os três “filhos” mais virtuosos e bem-parecidos que frequentavam as grandes esferas da alta sociedade. Mas agora temia que essa encenação estivesse prestes a chegar ao fim naquele meio actual.


– Tu não compreendes Edward, as coisas não são assim tão simples como as queres fazer-nos ver. Se decidirmos ficar o risco tornar-se-á maior e a probabilidade de sermos expostos ainda maior. – Expliquei num tom comedido. – A vossa mãe concorda comigo e já tomamos a decisão de partirmos para a América ainda esta semana.


Jasper manteve-se em silêncio, observando-me com a mesma calma de antes, não abriu a boca para dizer o que achava acerca disto, se aquilo era o melhor para a sua família então não era ele que se oporia. Já Edward lutava contra a minha vontade silenciosamente, eu via que a expressão do seu rosto procurava por um argumento que contrabalançasse com o meu.


– Ainda há algo que nos queiras dizer filho? – Perguntei, dirigindo-lhe um olhar gentil.

– Não Carlisle… — Respondeu em sinal de rendição.

– Muito bem, partimos daqui a 2 dias. – Conclui, esboçando um sorriso de satisfação.


Levantei-me da pesada poltrona, rodeando a secretária cheia de documentos e papéis em branco. Preparava-me para sair da Biblioteca para ir ter com Esme e contar-lhe como tinha corrido a conversa quando o Edward fez uma pergunta inesperada.


– Vamos partir em que Navio Carlisle?


Estanquei os meus passos e virei-me na sua direcção.


– Na devida altura saberás em qual partiremos… — Respondi-lhe com um sorriso enigmático.


Jasper olhou para mim com aquele seu olhar de que me estava a avaliar e talvez tentar descodificar qual seria o navio em que partiríamos, mas esse não era o seu dom. A poderosa habilidade de ser um leitor das almas era com o Edward, por isso fiz questão de manter o nome do navio o mais afastado da minha mente, com o maior dos esforços. Eu queria-lhes fazer uma surpresa, como um pai normal faria com os seus filhos normais. Mas havia aquele habitual problema, sempre persistente nas nossas eternas vidas… sermos vampiros.

Na nossa família os dons abundavam com uma grande variedade, uns que á primeira vista não poderiam parecer nada de extraordinários, mas uma coisa era certa, todos eles mantinham a nossa família unida desde á décadas. O Edward tinha a capacidade de ler as mentes, tanto dos humanos como dos vampiros, o Jasper tinha a capacidade de controlar e sentir os sentimentos de todos, o Emmet tinha a capacidade de ter uma força esmagadora e destrutível, a Esme tinha a capacidade de dar o seu amor e protecção maternal, enquanto eu tinha a simples capacidade de ser prestável e ajudar tanto humanos como os vampiros em qualquer ocasião.


– Oh vá lá Carlisle, sê razoável connosco… — insistiu o Edward, esboçando um sorriso torto. – Será que nem na tua mente consigo saber qual é o navio?

– Encontrem o Emmet e digam-lhe o que eu vos disse. – Disse-lhe desviando a conversa com uma grande perspicácia. – Precisamos de ter as coisas prontas para partirmos daqui a 2 dias.


Para trás deixei-os os dois, nas suas continuas perguntas. Já não fazia sentido ficar ali, a Inglaterra, em especial Londres já não tinha grande oferta para nós, era um país á beira da esterilidade para os vampiros, o sangue dos animais sabiam a doenças e morte, embora não fossemos sujeitos a tais fragilidades que vitimavam com tanta facilidade os humanos. Como eu comentara com a Esme, já tinha chegado o momento de mudar, o vento trouxera odores novos, odores de promessas por novas terras, misturadas com sal e a maresia do puro iodo do mar. O virar da velha vida levada a cabo em Londres estava prestes a ter o seu fim. A decisão estava tomada, a partida para a América de 1912 estava marcada.

Esme encontrava-se nos aposentos do nosso quarto. Sentada sobre o tocador de madeira trabalhada com rosas douradas e cornucópias, o seu reflexo nos três espelhos do tocador não pareciam ser suficientes para cantar a sua beleza. Tudo o que fiz foi sorrir e agradecer às circunstâncias da vida por me ter permitido encontrar aquela que era agora a mulher da minha vida. Aproximei-me dela e coloquei delicadamente as minhas mãos sobre os seus ombros nus, ela sorriu para o espelho e pousou o grande frasco de perfume parisiense que lhe oferecera na ocasião em que passáramos por Paris.

Sobre a superfície que lhe pertencia, estavam espalhadas jóias, diamantes no seu fogo puro, esmeraldas, safiras no seu azul gelado, rubis em todo o seu pleno fogo. Mais além tinha um boião de pó de arroz e inúmeros frascos de cristal veneziano.


– Como é que eles reagiram querido? – Perguntou-me numa voz doce.

– O Jasper pareceu-me compreender melhor que o Edward… — murmurei-lhe em resposta.

– O Edward tem que compreender que já estamos a viver aqui á demasiado tempo, seria demasiado arriscado.

Encolhi ligeiramente os ombros, a Esme tinha razão. – Que poderá ele fazer se não concordar? Ou fica com a sua família ou então partirá para destino incerto e nós continuaremos com o decidimos…

– Eu não partirei sem o nosso filho meu amor. – Ripostou prontamente Esme.

– Nem eu permitiria tal coisa minha querida. – concordei.

– O Emmet já sabe dos planos? – Perguntou Esme, pegando no tufo peludo que servia para espalhar o pó de arroz pelo rosto e corpo.

– Disse aos dois para que lhe dissessem o que lhes comuniquei.


Esme sorriu com aquele seu sorriso divino e eu sorri-lhe de volta. As coisas iriam correr bem e o Edward acabaria por se convencer que aquela era a melhor solução para se por em prática.


Por toda a cidade de Londres, os comentários eram abundantes e as teorias da supremacia humana eram mais que muitas. Nos salões literários, homens de grande cultura e conhecimentos nas áreas literárias e nas artes, comentavam:

O Homem é invencível, nada nem ninguém poderá nos deter no que toca ao progresso. Vejam, temos agora a maior das provas nas nossas mãos. O maior navio do mundo!”

Mas eu perguntava-me, e se o ser humano desse um passo em frente e em seguida caísse do seu pedestal recheado de glória? Já havia infelizmente demasiados exemplos na História que comprovavam que a ambição do homem podia ter consequências catastróficas. Por algumas vezes, o Homem tem esta pequena fraqueza. Falhar não pode ser um risco, o fracasso não pode ser um luxo, e de cabeça erguida, o Homem continua na sua marcha de orgulho e poder, mesmo que o tropeço seja grande e o dano quase irreversível. Quando ouvia aqueles discursos nos grandes salões da alta sociedade, fazia sempre questão de me manter á distância, aliás como sempre fazia, a ignorância humana disfarçada por aqueles discursos embelezados que os cavalheiros orgulhavam-se de ouvir e as damas tanto gostavam não me convenciam.


– Carlisle?! Esme?! – Berrou com toda a força o Emmet, enquanto subia as escadas, em direcção ao nosso quarto.


Entrou abruptamente pela grande porta e encarou-nos com as pupilas negras, a altura de caçar estava a aproximar-se.


– É verdade que nós vamos partir para a América? – Perguntou com um sorriso travesso.


Olhei primeiro para a Esme e depois para o Emmet.


– Sim, daqui a dois dias. – Respondi-lhe.

– Boa! Estava a ver que nunca mais saíamos deste buraco cheio de pomposos! – Festejou o Emmet com grande alegria.


Esme levantou-se do banco de veludo vermelho com franjas douradas e agarrou-me o braço com gentileza, o seu vestido de renda branca e seda cor de pérola fazia-a ainda mais bela, sobressaindo-lhe os cabelos fortes, madeixas castanho-escuras e ondulado sobre a cor pálida do seu rosto de mármore cravejado de pequenos brilhantes que pareciam diamantes expostos sobre a luz do sol.


– Mas parece que os teus irmãos não estão muito de acordo com o que tu achas Emmet. – Disse ela. – O Jasper ainda não expressou propriamente o que achava mas o Edward já deixou bem claro que não lhe agrada a nossa partida para a América.

– E também o que é que agrada ao Edward? – Questionou o Emmet divertido. – O Edward não se interessa por mais nada, a não ser pelo seu piano de estimação.

– Não sejas tão crítico meu filho… — adverti-lhe.

– É verdade Carlisle. O Edward nunca está contente com nada… — Emmet encolheu os ombros.

– Verás que isso lhe passa quando já estivermos instalados em Nova Iorque. – Assegurei-lhe.


Tinha esperanças de que o Edward iria-se adaptar tão facilmente a Nova Iorque como se adaptara a Londres. Ele era um jovem eterno de 17 anos que sabia ser prático quando queria e tinha maturidade pelos anos como vampiro de aceitar uma decisão quando a mesma tinha a sua lógica. Perguntar-me-ia se já não estava na altura de o Emmet, o Jasper e em especial o Edward arranjarem uma companheira para todas as suas eternidades e serem tão felizes quanto eu era com a Esme.


Edward

Mais uma mudança? Mais uma cidade nova, pessoas novas e novas mentes para eu invadir sem que eu o quisesse realmente? Eu tentara dizer a Carlisle que estava farto desta vida, renovar de 4 em 4 anos as nossas vidas e partir subitamente. Estava cansado, eu queria ficar ali o tempo que quisesse em Londres, já tínhamos ficado por 7 anos não tínhamos? Tinham sido 3 anos a mais na velha e suja cidade inglesa, agora que já estava tão habituado aos odores nauseabundos da urina e das fezes nos becos sujos das ruas mais pobres e miseráveis, á vaidade e o lado soberbo do homem londrino que já não me importava de os suportar. Ouvi-los ou não era-me indiferente. Carlisle expressava o seu desagrado pelos discursos cheios de ganância dos maricas vestidos com os melhores fatos completos que Londres oferecia e com chapéus de coco pretos ou os de pala alta, mas no entanto frequentava com a mesma regularidade os convívios nos salões, acompanhado por Esme. Jasper preferia estar nessas ocasiões sozinho no seu quarto a ler livros que nunca mencionava o nome Emmet preferia ir ao teatro ver as comédias que estavam na moda. Eu mais do que tudo, preferia a preciosa companhia do meu piano de cauda. Ouvia as suas melodias com um deleite divino, não haviam notas mais celestiais do que aquelas que aquele instrumento emitia só para mim, na minha solidão que eu fazia tanta questão de ter.

Por instinto, fui percorrer os grandes jardins da nossa mansão que ficava nos subúrbios de Londres, um dos bairros mais famosos e riscos da alta sociedade.

Afastei da minha cabeça os pensamentos de calma do Jasper, que seguia atrás de mim em silêncio. Subitamente virei-me para ele e fui impetuoso na minha pergunta.


– Diz-me Jasper, o que é que achas desta palhaçada toda?

Jasper hesitou por uns segundos mas acabou por responder. – Eu acho que o Carlisle quer apenas o melhor para nós.

– Jasper, pelo menos uma vez na tua vida diz a tua verdadeira opinião e não uma que seja baseada nas dos outros. – ripostei já com a paciência a esgotar-se.

Ele encolheu os ombros, mantendo-se sério. – Para ser sincero eu acho que isto é o melhor para nós. Londres já teve o que teve para dar… para os humanos está cheio de expectativas, mas não creio que seja o mesmo para os da nossa espécie.


Meditei nas suas palavras… Numa coisa o Jasper não se enganava, Londres já não tinha muito para nos oferecer. Mas eu sentia-me resignado a enfrentar um desconhecido do outro lado do Atlântico, o que teria para oferecer de diferente do que conhecíamos?

Apostava em como não era nada de novo…


– Edward… tenta compreender a posição de Carlisle, ele só quer o melhor para a família.


O que é que eu poderia fazer? Teria que aceitar os factos e partir com a minha família, estaria fora de questão deixa-los partirem e eu ficar para trás.

Concordei com a cabeça e o Jasper sorriu satisfeito.