A Boneca de Emily
11 Fotografia
Notas iniciais
Viro as páginas com cuidado, com os olhos grudados nas imagens diante de meus olhos. Todas as fotos tinham legendas. Olho para uma em específica, em que a garotinha está toda sorridente ao lado de uma fonte rodeada por flores, onde se lia "Meu Jardim Mágico". Sorrio para Dolleye.
– É nosso jardim!
– Sim — Dolleye responde, logo após soltando uma risadinha.
Observo todas as fotos, maravilhada. Quando acabo um álbum, passo para outro e assim por diante. Vejo como que uma retrospectiva da vida de minha bisavó: sua infância, adolescência, casamento, vida adulta...
Dolleye pega o último álbum, me entregando. A primeira foto era uma de minha bisavó com a minha tia-avó Vanessa, ainda jovem, talvez uns 17 ou 18 anos. Na legenda se lia "Sei que só quer meu bem, Nenessa. Mamãe ama você."
– Porque uma legenda assim? Será que não se davam bem?
– Vanessa tinha uma personalidade forte, então brigava muito com Margareth.
– Você fala como se a conhecesse — rio com o absurdo, mas Dolleye não me acompanha. Apenas olha para o chão, inquieta. — O que foi?
– Nada — ela me olha e sorri.
Distraída demais com os álbuns, não dou muita atenção para o comportamento estranho de Dolleye, e continuo passando as fotos.
Chego a uma foto de Margareth, com seus quarenta e poucos anos, sentada em sua cama — no caso a minha no momento — chorando. Na legenda: "Ela está estranha... Não sei mais o que fazer." Na foto ao lado, Margareth e meu bisavô, Bill. Na legenda: "Tenho Bill aqui comigo, Nenessa. Dolleye é toda sua".
– D-Dolleye...? — quase me engasgo com a informação. — V-você...
– Acalme-se. É uma longa história...
– Tudo é uma longa história pra você, Dolleye! — interrompo-a, alterando meu tom de voz.
– Achas que é fácil para mim? Achas que é fácil não poder lhe contar tudo o que sei?
– Nada está te impedindo!
– E tu acreditarias em mim se eu dissesse que sou a mesma Dolleye dessa legenda? Acreditaria que vivi tanto tempo? Acreditaria que você é louca?
– Eu não sou louca! — grito.
Dolleye me olha com uma expressão que dizia claramente "viu?". Respiro fundo antes de me voltar para o álbum, tentando ignorar o nome de Dolleye ali e virando a página, chegando a última e mais terrível foto.
A última foto fora tirada no meu atual quarto, na minha atual cama. Ali, jazia o corpo imóvel de Margareth Jones, com vários cortes pelo corpo. O pior deles, se encontrava no coração, ainda com a faca enfiada ali, de onde saía muito sangue. Margareth estava com uma expressão de horror em seu rosto, embora já claramente não estava mais viva.
Levanto do banquinho em um salto, derrubando o mesmo, enquanto lágrimas brotavam de meus olhos e soltava um grito de puro horror, tapando minha boca logo em seguida. A legenda da foto era "Eu confiei e amei você... Mas você me matou"
– Acalme-se, Emily — diz Dolleye calmamente.
– V-Vo... Cê... — engulo em seco para deter a gagueira, anted de gritar: — VOCÊ A MATOU!
Dolleye me olha com a expressão de puro horror.
– Não! Eu jamais a mataria!
– ELA CONFIOU EM VOCÊ E... VOCÊ A MATOU! — digo, sentindo as lágrimas virem com mais força agora.
– Emily, não é isso...
– ELA TE AMOU, DOLLEYE! E VOCÊ A MATOU POR CIÚMES DO BISAVÔ BILL!
– Claro que não! Emily, me escuta...
– EU ODEIO VOCÊ! — grito, antes de sair do sótão, batendo o alçapão com força atrás de mim.
~~*~~
– Eu achei alguns álbuns com fotos pro trabalho — digo colocando a mochila na carteira e me sentando.
– Ah que ótimo! — diz Mia.
– Mas o trabalho é pra amanhã, então você pode ir em casa hoje?
– Vou ligar pra minha mãe no intervalo, mas acho que ela deixa.
– Ok.
– Mas diz aí, porque faltou ontem?
– Bem... Eu prefiro não falar sobre isso...
– Ah qual é, Mily. Somos amigas e você pode contar comigo. Desabafa! — diz ela sorrindo amavelmente.
– M-minha mãe... Ela acha que estou ficando louca... — digo sem jeito — E tive que ir ao psicólogo...
Mia me olha surpresa.
– E aí?
– E aí que o psicólogo disse que pode ser esquizofrenia. Mas não é nada certo...
– Você vê coisas?
– Não! Eu não sou louca — solto um suspiro pesado — Mas ninguém acredita em mim.
– Eu acredito — diz ela sorrindo compreensiva.
Dou um sorriso sem muita vontade, e a sra. Red entra na sala.
~~*~~
A mãe de Mia deixa ela ir em casa sem maiores problemas, então voltamos juntas. Chegando em casa, o mesmo cheirinho delicioso de comida da mamãe invade nosso olfato, fazendo minha barriga roncar.
– Boa tarde senhora Jones! — cumprimenta Mia.
– Boa tarde Mia — minha mãe sorri. — O almoço tá quase pronto, eu chamo quando acabar.
– Ok — digo puxando Mia até a porta dos fundos — Vem, vou te mostrar uma coisa.
Levo Mia até o jardim, mas não faço menção de mostrar-lhe a mágica daquele lugar. Não queria que Mia parasse de acreditar em mim agora.
– Nossa, que jardim lindo! — diz Mia maravilhada.
– Não é? — solto um risinho.
– Psiu! Ei! — ouço um sussurro.
Viro em direção ao som, e vejo a rosa branca me chamando com suas folhas. Olho com cara feia para ela antes de seguir Mia, que avançava distraidamente pelo jardim. As flores cantarolam suavemente, no mesmo tom que a primeira vez. Ela corre até a velha fonte.
– Veja, Mily! É uma fonte dos desejos?
Vou até ela.
– Como assim?
Ela aponta para a água da fonte.
– Tem várias moedinhas ali — ela revira os bolsos e tira de lá duas moedas — Faça um pedido — diz e me entrega uma.
Ela fecha os olhos com força e depois joga sua moeda na fonte.
– Tomara que se realize. Sua vez.
Fecho meus olhos. O que poderia pedir para a fonte? Penso por um instante. O que meu coração deseja? Penso em várias opções mas só uma faz sentido.
"Que eu e Dolleye volte a conversar como antes."
Jogo a moedinha na fonte, ouvindo um sonoro "ploft". Abro os olhos e olho para Mia.
– O que você desejou? — quis saber Mia.
– Não posso dizer. Senão não se torna real.
Mia solta uma risadinha.
– Meninas venham almoçar — grita mamãe de uma das janelas.
Seguimos o caminho de volta pra casa.
~~*~~
– Tome — digo, colocando o banquinho no chão.
Mia se senta no banquinho e eu vou até uma das caixas para pegar os álbuns, ciente do que poderia acontecer. Dolleye pediu para enxergar com a loucura, mas será que funcionava mesmo? Talvez só tivesse que olhar tempo suficiente para o álbum...
Penso por um instante. Mesmo que Mia visse, nada garantia que a sra. Red poderia ver também. E se nem Mia visse? Não tinha pensado nessa possibilidade. Mas antes que eu entre em pânico, ouço a voz de Mia:
– Mily?
Apresso-me a pegar os álbuns e me sentar em um banquinho ao lado de Mia, entregando o primeiro a ela. Prendo a respiração e fecho os olhos quando Mia o abre.
– Ainda não tem nada aqui. — diz Mia.
– N-não? — pergunto inutilmente.
– Não.
– Talvez demore um tempo para aparecer e...
– Mily, realmente não tem nada aqui. Você nem olhou, não é mesmo? — diz ela rindo
– É, acho que sim — digo sorrindo sem graça.
Melhor dizer algo lógico do que a Mia deixar de acreditar em mim. Ela encosta na parede, relaxando.
– Bom, então acho que não temos nada pro trabalho.
Me levanto.
– Já que não tem trabalho e vamos ficar sem nota mesmo, melhor aproveitar essa tarde. — digo, já descendo a escada.
– O que pretende?
– Sei lá. Primeiro vou te mostrar o meu quarto e aí você decide se prefere um filme ou ficar de boa no jardim.
Mia ri, me acompanhando.
– Acho uma ótima ideia.
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