A Boca do Silêncio

2 A Pergunta Que Caminha à Noite


A primeira notícia surgiu três dias depois do espelho do corredor.

Mizuki estava sentada no pequeno sofá do apartamento, a televisão ligada apenas para quebrar o silêncio, quando o nome do bairro lhe chamou a atenção. Suginami. O repórter falava com uma voz controlada, demasiado neutra para aquilo que estava a relatar.

Uma estudante do ensino secundário fora encontrada em estado de choque numa rua pouco iluminada, perto de um parque infantil abandonado. Não apresentava ferimentos graves, mas repetia a mesma frase, sem parar, mesmo quando os paramédicos tentavam acalmá-la.

“Ela perguntou-me se era bonita.”

Mizuki sentiu um arrepio subir-lhe pela espinha.

O repórter continuou. A jovem descrevera uma mulher alta, de cabelo escuro, usando uma máscara cirúrgica branca. A voz era suave. Educada. Quase gentil. Quando a estudante respondeu afirmativamente, a mulher retirara a máscara.

A câmara cortou antes de surgirem pormenores. Mizuki desligou a televisão.

O apartamento pareceu encolher à sua volta. O silêncio tornou-se pesado, denso, como se estivesse carregado de algo invisível. Aproximou-se lentamente do espelho do corredor, ainda estalado, e passou os dedos pela fenda. O vidro estava frio. Demasiado frio.

— Não pode ser… — murmurou.

Conhecia a história. Toda a gente conhecia. Kuchisake-onna. A lenda urbana que atravessara gerações, ressurgindo sempre que o medo colectivo precisava de uma forma. Uma mulher mutilada, vítima de ciúme ou castigo, condenada a vaguear pelas ruas à noite, perguntando às suas vítimas se era bonita.

Mizuki sempre achara a lenda absurda. Até agora.

Nessa noite, decidiu caminhar. Precisava de ar, de movimento, de convencer o corpo de que ainda tinha controlo sobre si própria. O bairro estava silencioso, iluminado por candeeiros antigos que projectavam sombras irregulares no asfalto. As folhas secas acumulavam-se nos cantos das ruas, e o vento fazia-as deslizar como passos furtivos.

Ao passar pelo parque infantil abandonado, hesitou. Os baloiços rangiam suavemente, apesar de não haver vento suficiente para os mover. A ferrugem manchava as estruturas metálicas, e o escorrega estava coberto de grafitis antigos. Um lugar esquecido. Um lugar perfeito.

— Estúpido… — sussurrou, apressando o passo.

Foi então que ouviu. Passos atrás de si. Lentos. Deliberados. Demasiado próximos para serem ignorados. Mizuki parou. Os passos pararam também. O coração batia-lhe com força nos ouvidos.

Virou-se devagar. A mulher estava a poucos metros de distância.

Alta. Magra. O cabelo negro caía-lhe sobre os ombros, perfeitamente alinhado, como se nunca tivesse sido tocado pelo vento. Usava um casaco comprido e uma máscara branca que lhe cobria metade do rosto. Os olhos eram escuros, atentos, quase curiosos.

Mizuki sentiu um choque violento no peito. Era ela.

Não, não podia ser. O reflexo no vidro da carruagem, os espelhos, a irritação constante… tudo convergia para aquele instante.

A mulher inclinou ligeiramente a cabeça, num gesto educado.

— Boa noite. — disse, com uma voz estranhamente familiar. — Posso fazer-te uma pergunta?

Mizuki tentou responder. A garganta recusou-se a cooperar.

— Sou bonita?

O mundo pareceu afastar-se. O cheiro a ferrugem do parque, o zumbido distante da cidade, tudo desapareceu. Restava apenas a pergunta, suspensa no ar, pesada como uma sentença.

Flash.

Mizuki em criança, diante do espelho da casa de Niigata. A mãe atrás dela, ajustando-lhe o cabelo.

— Não abras tanto a boca quando sorris. As pessoas reparam nesse tipo de defeito.

No presente, a mulher deu um passo em frente. Mizuki viu as mãos dela. Brancas. Delicadas. Manchadas de algo escuro nas pontas dos dedos.

— Eu… — conseguiu finalmente dizer, a voz a tremer. — Eu não sei.

A mulher ficou imóvel.

Por um instante, Mizuki teve a certeza de que aquela resposta era pior do que um “sim” ou um “não”. Os olhos da mulher estreitaram-se ligeiramente, como se estivesse a avaliar algo invisível.

Depois, muito lentamente, a mão subiu até à máscara. Mizuki fechou os olhos. Quando os voltou a abrir, estava sozinha.

Nenhuma mulher. Nenhum som. Apenas o parque abandonado e o eco distante dos seus próprios batimentos cardíacos. As pernas cederam, e caiu de joelhos no asfalto frio.

Em casa, horas depois, lavou o rosto vezes sem conta. Ao erguer os olhos para o espelho da casa de banho, o reflexo devolveu-lhe algo que a fez gritar.

A fenda tinha aumentado. Começava num canto da boca. E estendia-se lentamente, como se algo por dentro estivesse a tentar sair.