A Blood Links
2 Naked Love
Notas iniciais
Veneza, tambem. Toreador
A manhã do dia 13 de Abril amanhecera ligeiramente chuvosa... Não que aquilo fosse novidade, Veneza era sempre chuvosa... Mas aquele dia estava triste. O dia passou correndo, e logo o crepúsculo caía sobre Veneza.
O loiro saía da sala de música, fechando a porta e apagando as luzes do recinto. Um jovem, mais velho e robusto acompanhava-o, e falava incessantemente, o quê fazia Andrea sorrir e comentar às vezes. Tão logo alcançaram a rua, o maior acenou e seguiu seu rumo. A chuva não cessara, e, infelizmente, havia perdido o guarda-chuva no almoço. Agarrou-se ao casaco, que não impediria a água nem um pouco de molhá-lo, e caminhou em direção do seu apartamento.Os infortúnios acompanhavam o rapaz... Logo, virando a esquina de um beco qualquer, aparecia um homem alto, músculos aparentes e saltados, que acabou parando em frente ao rapaz. Andrea dera um passo para o lado, que fora acompanhado pelo homem. O mesmo sorrira maldosamente olhando o jovem...- E não é você o putinho que fica por esses becos durante as noites?- Não estou trabalhando agora...Falou o loiro, fitando o maior. As palavras do homem pareciam rudes, o quê fez Andrea analisar o estranho. Era óbvio que o esse o alcançaria se tentasse correr, e não sabia lutar... Sorriu levemente para o homem, embora não soubesse o motivo.- Pare de se fazer de difícil... Quanto você quer?! Eu pago. Eu quero você agora, para de frescura...O mesmo dava um passo ameaçadoramente, agarrando o garoto.- Pode esperar eu tomar um banho e trocar de roupa? Não quero que meus livros se molhem na chuva...Falou, fitando os olhos do maior. Ele não parecia que iria desistir, não que Andrea quisesse aquilo. Precisava do dinheiro. Mas não se sentia à vontade de pular a rotina. A mão do homem era estranhamente mais forte do que qualquer uma que o tocou, mas Andrea não resistiu, nem esboçou reação.O homem o agarrara com mais força, e a mão do mesmo puxou o canivete do bolso. Encostara a pequena faca no pescoço do garoto, evitando qualquer movimento do mesmo. Puxara-o violentamente até ele, abrindo um corte na garganta do loiro.- Não gosto de esperar, sabia?O loiro sentiu o braço espremer, o homem estranho era muito forte. Não viu puxar a lâmina, mas sentiu-a cortar a garganta. Aquela dor... Sentiu a excitação do outro de ver sua careta. Relaxou os músculos, ficando na deriva do maior. Sabia que a qualquer movimento, o homem não hesitaria em machucá-lo e era tolice tentar resistir... A chuva varria o sangue do corpo do menor.- Ai... — Murmurou, olhando o maior.O Corte não era comum... Era profundo. Acontece que ali na sua frente, estava alguém que sentia o prazer na dor alheia... Ele o arrastou sem dificuldade até o beco, o pressionou contra a parede. Sorria de forma descomunal. O fato era que aquele corte, mais o sangramento o matariam em poucos minutos. A noite já estava avançada e o cheiro de sangue se alastrava pelo beco, apesar da chuva lutar para atenuá-lo. O menor se via pálido, refletido nos olhos do agressor, cuja face era a máscara da própria luxúria... O homem arrancara a camisa do menor freneticamente, enquanto o sangue jorrava...Andrea não gritava porque se gritasse, sabia que o outro lhe calaria ou pior, lhe mataria. O sangue tingia suas vestes, e isso o fez entender que só viveria se o outro quisesse... O desejo na face do maior... Era como se ele estivesse esperado por aquilo durante muito tempo. O frio açoitava-lhe o peito nu, e o calor esvaía-lhe do corpo juntamente com o sangue. Fechou os olhos, como se consentisse com o quê o outro queria, mesmo que fosse a morte.Logo, do fundo do beco, emergia uma imagem. Era um homem, a elegância e a beleza fina estampada em cada mínimo detalhe. Era alguém de alta classe, disso poderia ter certeza. Vestia as mais finas vestes que se poderia comprar naquela cidade, e tinha um cabelo comprido, meio avermelhado, preso por uma fita atrás. Ele abriu os olhos ao ficar ao alcance de visão dos dois, olhos vermelhos. Algo naquela imagem aterrorizara e ao mesmo tempo invocava uma imagem de paixão ao menor... Ele sorriu e elegantemente descruzou os braços.- Creio que este jovem não queria a sua companhia, senhor.Andrea abriu os olhos ao som de uma voz. A visão de Andrea falhava. Era como se tudo piscasse em cinza, o cinza das nuvens que choravam por ele, e depois voltasse ao normal. Ofegava. Estava frio. Sabia que aquele brutamonte iria lhe matar, mesmo que o outro ajudasse... Outro? Não tinha percebido ele chegar... Abriu os olhos ao som de uma voz. Era... Indescritível. O loiro acreditava em destino, mesmo naquele momento. Ele sentiu que o ruivo faria parte do seu, mesmo que lhe restasse pouco tempo de vida.O chão sumiu. Na verdade, Andrea não sentia mais as pernas. Estava sustentado pelos braços fortes do agressor. Pensou que seria seu último suspiro. Sorriu para o ruivo, torcendo para que o maior não o matasse, embora sentisse que o seu agressor não conseguiria fazê-lo. Os olhos vermelhos... A última coisa antes do negrume da morte. O brutamonte levantara, ameaçadoramente:- Caia fora daqui! Isso não é da sua conta, engomadinho! Esse moleque é meu, sacou? — Ele o levantara.O ruivo apenas sorriu. Havia algo naquele sorriso, quase cínico. Ele deu um passo para o lado e o maior soltara Andrea, deixando-o cair no chão, já inconsciente. Posicionou seus punhos numa posição de luta, com o canivete em punhos. Isso foi estranhamente rápido, mas o ruivo já estava por trás dele e atravessava violentamente a mão pelas costas do brutamonte, abrindo um buraco pela barriga do mesmo.
O braço atravessara toda a faixa das costas, até a frente, em linha reta. Na mão do ruivo jaziam as entranhas do homem. O corpo do homem amoleceu, estava morto. O ruivo puxou o braço daquele corpo, deixando o mesmo cair, limpando as mãos com asco e sussurrou:- Sabe... Sempre é bom ouvir o que as pessoas dizem.E agora o vampiro ajoelhara até o corpo caído do jovem, olhando-o. Colocou a mão sobre o corte, parando minimamente o sangramento. Precisava dele como sempre precisou. Aquela era a criança que tinha escolhido. O pequeno jovem loiro... Era dele, sim só dele... E era hora de tomá-lo para as trevas. Esticou as presas até o corte, bebia avidamente; aquela era a forma de criá-lo como sua criança.- Ah... – resmungou o loiro.Andrea sentiu-lhe o resto do líquido ser sugado. Não sabia que ainda estava vivo. O cheiro de sangue havia sumido. Não ouvia nada. Não conseguia enxergar, e sabia disso sem abrir os olhos. Levantou a mão, avidamente. Sabia que era o ruivo. Sabia que ele estava tentando salvá-lo. A mão alva e esguia pousou na nuca do maior, fria, incentivando-o... Pelo menos achava que sim.O ruivo sorriu para o garoto. Não sobrara quase nada do líquido do menino, bebera apenas esse mesmo pouco. Inclinou-se levemente, segurando a mão do jovem e entrelaçando-lhe os dedos com a sua própria mão. Abrira um pequeno rasgo na própria garganta, deixando que o sangue lhe escorresse pelo pescoço, quente, essência vital necessária; nada poderia lhe parecer mais doce e mais terrível. Era o fogo e o mel, o veneno e o céu; era tudo o que o pequeno jamais teria com nenhum amante.O loiro sentiu a alma sair do corpo, se podia sentir isso, enquanto o sangue lhe era sugado. O pouco que tinha. A mão não tinha mais reflexos, não sentia mais nada. Do nada, sua boca começou a queimar, e seu espírito parecia aprisionado por correntes eternas no seu corpo. Ergueu a cabeça, levando os lábios até o corte. O quê fazia não lhe parecia repulsivo... Ainda. Sugava com vontade o sangue do ruivo, mas mantinha a expressão calma. A mão na nuca do maior ajudava-lhe no ato. Algo lhe dizia que, quando parasse de beber, apagaria. Não queria ficar sem o ruivo... Tinha medo de que o deixasse sozinho no beco...Ele o abraçara e fechara os olhos. O estranho prazer do êxtase... O acolheu como um filhote, seus braços estavam gelados, mas poderiam parecer quentes, porque Andrea já estava morto... Pela mente do pequeno rolariam dezenas de memórias, sabia bem disso, mas era o que desejava. Desejava que o reconhecesse, aquele que sempre lhe guardara os passos. Sempre estaria com ele. Sempre.A mente... Não era mais do loiro. Era a dele. Do ruivo. Via cenas da vida do maior. \"Época diferente. Velas, barcos, castelos... Ele. Anos num quarto, estudando, matando humanos, bebendo sangue... Um bar. Um menino no balcão, brincando com um brinquedo barato. Era ele, não o ruivo, Andrea.\" Conhecia aquele homem! Desde pequeno... \"Um sentimento forte invadia a cabeça do loiro. Era o sentimento do Ruivo. Muito forte, avassalador. Outra cena. O maior, em cima dos prédios, observando o loiro pela janela da sala. Observando ele fazendo seu trabalho sujo, e uma raiva se apoderando dele...\"Andrea estava cansado. A sede não tinha cessado, mas queria parar. Muitas memórias, sentimentos e emoções para assimilar.- Marius... – Sussurrou o nome do seu salvador e assim que separou os lábios do pescoço do maior, desmaiou.O ruivo não deixaria que o garoto caísse. Nunca. Agora o pegara gentilmente entre os braços, saindo de cena pela escuridão. Teriam tempo. Tempo infinito..
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