A Bijuu esquecida
15 Capítulo 14 - Mas ele já foi aceito por alguém...
Notas iniciais
—Não vai voltar pra casa até que limpe tudinho! – resmungou Iruka autoritariamente.
Naruto soltou um bufo e esfregou o monumento pichado nos Hokages com mais raiva.
—Grande coisa! – o menino resmungou. – Isso não faz a menor diferença pra mim, tá? Não tem ninguém em casa me esperando mesmo...
Dizendo isso o menino loiro abaixou a cabeça e voltou a se concentrar na limpeza do monumento dedicado aos Hokages da Vila da Folha.
Iruka ficou sem o que responder. Mesmo estando irritado com o garoto, a pena o acertou em cheio no meio do peito. Naruto era um menino que estava sempre sozinho. Não tinha um lugar para voltar quando saía da academia. Não tinha ninguém para acudi-lo durante as noites de sonhos ruins. Ninguém para cuidar dele quando estivesse doente.
Só ele. Sempre só...
Como ele mesmo.
Iruka balançou a cabeça. Os dias anteriores na Academia passaram como um filme diante de seus olhos. Naruto havia piorado consideravelmente nas aulas. Estava mais resmungão e atrevido. Desacatava mais abertamente ele e aos outros professores. E agora aprontara essa justo no monumento dos Hokages...
Por que ele estava fazendo isso?
Enquanto observava o menino trabalhar, Iruka matutou silenciosamente todos os detalhes que podia lembrar. Alguma coisa devia ter desencadeado essa intensa onda de rebeldia no órfão...
Um estalo em seus ouvidos quase o fez pular.
É claro! A garota!
Desde que Jyuu no Kailina havia passado no Exame de graduação na Academia Ninja, Naruto havia entrado fundo nesse frenesi de atrevimento. Geralmente zombador e fazendo piadas de tudo, agora ele se limitava a reclamar em voz alta e a arranjar confusão ao menor desentendimento.
E pensando bem, a menina era a única que conversava com ele normalmente. Os outros alunos o excluíam e zombavam do menino abertamente. Naruto era desprezado praticamente pela Vila inteira... Menos por aquela menina. Mesmo que de um jeito meio desengonçado, Naruto demonstrava querer a companhia da garota, e ela o acompanhava. Por causa dela, o menino não se sentia tão sozinho...
E agora ele estava. De novo.
Iruka soltou um longo suspiro.
Tentou rever mentalmente quem era Kailina. Lembrava-se dela nas aulas, era uma ótima aluna por mais que guardasse silêncio. Era educada e ajudava bastante nos exercícios, sejam práticos ou teóricos. Entretanto, Iruka nunca conseguira se aproximar muito dela por ser muito quieta e fechada. Mas, o mais esquisito era que, ao tentar se lembrar da conduta da menina em sala de aula, as suas memórias se tornavam esfumadas, mesmo que ele tivesse certeza que aquilo deveria estar bem claro em sua cabeça.
O selo...
Lembrou-se da explicação do Terceiro Hokage sobre a menina.
!!!...
Uma exclamação muda lhe fez ter um pequeno sobressalto.
É verdade! — pensou Iruka – a menina tem o mesmo sobrenome que o Naruto. E ele não sabe disso...
Seria mera coincidência os dois terem criado um laço de amizade? Ou será que Kailina contou para ele? Isso seria um fator importante para que os dois se aproximassem como aconteceu?
Iruka só foi arrancado de seus pensamentos porque Naruto começou a reclamar muito alto. Bufando, o professor encarou seu aluno. Imediatamente, a última frase que ele dissera ressoou novamente em seus ouvidos:
“Não tem ninguém em casa me esperando mesmo...”
—Naruto...
—O que foi agora? – respondeu o pequeno ninja irritado.
—Bom...- Iruka tentava arranjar um jeito de falar aquilo indiferentemente – Bom... Se você limpar tudo isso aí... Eu te levo para comer um rámen hoje à noite.
Foi a primeira vez que Iruka viu um sorriso tão brilhante no rosto do garoto.
—Fechado!! Vou deixar isto aqui brilhando!!!
***
—Acho que isso dá pra semana inteira. – disse Kailina erguendo os braços lotados de sacolas de compras.
Com um suspiro ela saiu do mercado e subiu a rua virando à direita. Ao passar na frente de uma loja de souvenires, ouviu duas mulheres conversando na porta:
—Aquele moleque! Aprontou de novo hoje! Você viu o estado do monumento dos Hokages?
Kailina diminuiu consideravelmente seu ritmo de caminhada e prestou atenção.
—Eu vi! É uma peste! Não vai tomar jeito nunca! Mas não é de admirar... Afinal ele é a Ra-
—Ssssshhhhhh! – repreendeu a outra com energia. – Não fique falando isso em voz alta, Hana!
—Desculpe, eu me esqueci... Mas enfim, querendo ou não, aquele Naruto vai ser sempre um incômodo para os moradores! E ele ainda vem com essas baboseiras de vez em quando de gritar na rua que vai ser Hokage...
Kailina retomou o ritmo de caminhada e seguiu olhando tristemente para seus pés. Os barulhos da Academia Ninja preencheram-lhe a mente...
Flashback on
—Muito bem! Próximo! – Iruka consultou uma lista presa em sua prancheta e anunciou em voz alta – Jyuu no Kairina!
Kailina sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Suas mãos começaram a tremer.
—Ganbatte, Kairina-san. – murmurou Hinata ao seu lado olhando-a de um modo reconfortante.
A Uzumaki olhou para amiga.
—Obrigada, Hinata. E eu já disse que pode me chamar de Kairina...
—Gomen...
—Ei, ei! Sem problema! Eu vou lá...
Desceu os degraus e cruzou pela frente da sala. No caminho, percebeu o olhar absorto de Naruto sobre ela. Ao fitar o amigo, ela ouviu as palavras mudas que o garoto não conseguira dizer.
Sorriu e seguiu para a outra sala. Porém, antes de atravessar a porta, sentiu outro olhar sobre suas costas. Um olhar muito mais frio que o de Naruto.
Olhou momentaneamente para trás e viu Uchiha Sasuke a encarando com um olhar não muito amigável.
Qual o problema desse cara?
Suspirou e seguiu para a sala ao lado. Chegando lá, viu Mizuki e Iruka já sentados na mesa de avaliação repleta de bandanas da Folha.
A menina se adiantou.
—Kairina, seu teste para graduação na Academia será produzir três bushins. – Iruka anunciou.
—Hai!
—Quando quiser.
A garota ergueu as mãos e fez o selo rapidamente.
—Bushin no Jutsu!
Três explosões de fumaça tomaram conta da sala por um instante, mas assim que a atmosfera densa se dispersou, pode-se ver quatro Kailinas no centro da sala.
—Muito bom, Kairina! – elogiou Iruka energeticamente. – O que acha, Mizuki?
—Estão perfeitos. – anunciou o outro professor.
Kailina por fim fez outro sinal e liberou o jutsu. Os olhos de Mizuki e Iruka se arregalaram.
Ela estava no meio quando fez o jutsu, pensou Iruka impressionado.
Foi capaz de mudar de posição quando produziu os bushins sem que nós percebêssemos?, o olhar de Mizuki tornou-se sombrio por um instante.
—Surpreendente. – soltou Mizuki. – Você mudou de posição enquanto realizava o jutsu sem que eu percebesse. Duvido que Iruka tenha percebido também, pelo olhar dele.
Kailina piscou atônita com um rubor lhe subindo pelo rosto.
—Hã?
Os dois se entreolharam. Kailina olhou para os lados.
—Ah! – ela exclamou. – Desculpa! É um hábito que eu desenvolvi. Sempre que eu conjurava esse jutsu, treinava para mudar de lugar o mais rápido e silenciosamente possível.
Realmente impressionante, observou Iruka em silêncio. Não é a toa que foi trazida para Konoha. Com aquilo dentro dela, somado ao seu talento, ela seria uma ninja extremamente perigosa sob o comando errado.
Essa garota..., o olhar de Mizuki se tornou sombrio novamente.
Iruka levantou-se da mesa e pegou uma bandana da Folha.
—Meus parabéns, Kairina. Você é oficialmente uma ninja de Konoha.
Ela olhou hesitante para o metal que reluzia com a luz que vinha da janela. Aproximou-se do professor com passos calculados, e sua mente começava a entrar num estado letárgico. Fora tão simples que mal parecia verdade. Diante dela estava a sua bandana.
Agora, ela era uma gennin.
Uma gennin da Vila da Folha.
Com as mãos trêmulas, ela ergueu os braços e segurou o protetor de metal. Dois sentimentos opostos se misturaram furiosamente dentro dela naquele momento. Pela primeira vez desde que chegara ali, ela sentia que estava no lugar que deveria estar. Estava em casa. Porém, ao mesmo tempo, se sentia observada por olhos que não a viam de verdade. Sentiu que estava invadindo um lugar ao qual não pertencia. Era uma forasteira e sempre seria.
Percebendo a confusão nos olhos da menina, Iruka deu um tapinha em seu ombro e sorriu.
—Cuide bem dela. – ele disse. – Aprenderá a ter muito orgulho de usar isso. – e com isso ajeitou seu protetor da Vila da Folha em sua testa.
Kailina sorriu timidamente. O leve desconforto em seu peito diminuiu.
—Arigatogozaimasu! – ela fez uma reverência. – Domo arigatogozaimasu, Iruka-sensei, Mizuki-sensei.
Os dois sorriram.
Satisfeita, voltou à sala com os alunos. Ao passar por Naruto, ergueu a bandana significativamente e movimentou os lábios rapidamente dizendo “ganbatte” para o amigo. Com isso, voltou a se sentar no seu respectivo lugar na sala de aula, ao lado de Hinata. Ela também já trazia sua bandana, e esboçava um leve sorriso constante no rosto.
—Parabéns, Kaili-na. – ela custou a tirar o sufixo, mas conseguiu.
Kailina abriu um enorme sorriso para a amiga.
—Arigatô!
Naruto, sentado ao lado de Sakura, se remexia de nervosismo e alternava seu olhar entre a mesa de avaliação e sua amiga recém-graduada.
Droga! Eu treinei junto com a Kailina! Não é possível que eu não vá passar! Mas... Aaaaaah... Mesmo com todo o treino eu ainda não consegui dominar o Bushin no Jutsu...
—Próximo! Uzumaki Naruto!
Naruto ergueu-se nervoso em direção à porta. Kailina seguiu-o com o olhar, murmurando novamente “ganbatte” quando ele olhou para ela.
Alguns minutos depois, Kailina ouviu uma batida forte, como se alguém tivesse batido uma porta ao lado. Um burburinho começou na sala. Hinata olhou preocupada para o outro lado da sala.
—Será que o Naruto-kun...
Kailina não perdeu tempo. Ergueu-se de sua cadeira e correu para a saída. Ao sair, viu que alguém acabara de sair correndo na direção da entrada da Academia. Correu também. Quando chegou lá fora, viu Naruto se sentando no balanço que ficava debaixo de uma árvore em frente à Escola de Ninjas. Ela reduziu a distância entre eles com apenas algumas passadas e parou com um pulo de frente para o amigo.
—Naruto, o que foi?
O menino olhava com uma mistura de raiva e tristeza para o chão. Não respondeu.
—Naruto!
Ele ergueu os olhos para ela e disse com raiva:
—Sai daqui. Não quero falar com você.
—Mas... Naruto...
—EU JÁ DISSE PRA VOCÊ SAIR! – e com esse berro, empurrou a amiga para trás.
Kailina quase caiu, mas não por causa do empurrão. Jamais imaginara que Naruto a trataria daquela maneira. E aquele empurrão... Fora o pior sinal de rejeição possível entre ela e o garoto.
Meio zonza e com uma forte sensação de vazio no peito, Kailina se endireitou lentamente e assentiu.
—Hai...
Virando-se de costas para a Academia, Kailina começou a arrastar os pés automaticamente para casa, sem se lembrar que deixara a bandana na sala.
Flashback off
Quantos dias já haviam se passado desde aquilo?
Inspirando profundamente, Kailina retomou a consciência do vazio que se instalara em seu peito desde que Naruto a empurrara na frente da Academia. Por mais que continuasse amiga de Hinata e vez ou outra se encontrasse com Sakura e Ino, a falta de Naruto causava um efeito imenso sobre a menina.
Naruto...
Ela mal prestava atenção por onde andava, seus pés se movimentando como se soubessem por si só o caminho para casa. Ela mal percebeu quando passou em frente ao Ichiraku, e só despertou de seus devaneios porque ouviu uma voz conhecida.
—Um dia eu vou ser Hokage. E vou superar todos os Hokages anteriores!
A menina ergueu rapidamente a cabeça e olhou para a direita. Ela viu as partes inferiores de duas pessoas, e uma era obviamente Naruto. Sua roupa laranja era inconfundível.
Ela parou de andar e ficou ali, parada no meio da rua com mais de dez sacolas penduradas nos braços, olhando na direção do Ichiraku. Naruto e Iruka continuaram a conversa.
—Não, não! Me empresta a bandana da Folha que ta na sua testa, só um pouquinho? – ela ouviu Naruto pedir com jeitinho.
—Ah, isto aqui? Não posso. A bandana é só pra depois de você se formar. Este é o símbolo que o reconhece como alguém qualificado. Talvez ganhe a sua amanhã...
Ah! É mesmo!, exclamou a Uzumaki mentalmente. Amanhã o Naruto vai prestar novamente o Exame de Graduação da Academia. Será que se ele passar... Talvez ele...
Ela sentiu um aperto no peito.
—UAAAAAAAAAAAAAH!
Um grito cortou a noite. Kailina deu um pulo e olhou para os lados. Várias pessoas apareceram nas ruas perguntando-se o que estava acontecendo.
Um novo grito se fez ouvir numa casa próxima. Neste instante, Iruka saiu do Ichiraku e veio para a rua. Naruto o seguiu.
—Mas o que está acontecendo!? – vociferou ele.
Mais pessoas se aglomeravam próximas à casa que era de onde provavelmente o grito saíra. Iruka começou a caminhar na direção da multidão e não percebeu que Kailina estava em seu caminho. Esbarrou na garota com força, fazendo-a cair sentada no chão.
—Oh! Kairina, eu não vi que estava aí! Desculpe!
A menina massageava o ombro, as sacolas amontoadas perto de suas mãos.
—Ah, não foi n- Iruka-sensei! Gomenasai! Eu que fiquei parada no meio do caminho...
Nesse momento, Kailina baixou os olhos e viu o garoto loiro parado atrás de seu professor. Naruto também a olhou. Uma densa atmosfera de constrangimento se estabeleceu entre os dois.
—PEGUEM ELE!
O grito da multidão reverberou na rua, e Iruka disparou para a confusão.
—Fiquem aqui, vocês dois.
Os dois ficaram parados olhando na direção que seu professor correra, e a atmosfera tensa voltou a se restabelecer. Kailina dedicou-se a reorganizar as sacolas e a se levantar. Terminado o processo, Iruka ainda não havia voltado.
—E aí, N-Naruto... – arriscou a menina. – Fiquei sabendo que amanhã você vai fazer a prova de Graduação de novo...
Instantaneamente o menino virou a cara e bufou. A abordagem não fora das melhores.
—É, vou. – disse ele num tom seco.
Felizmente, Iruka já se aproximava esfregando o topo da cabeça.
—Francamente... – ele reclamava baixinho.
—O que aconteceu, sensei? – perguntou Kailina.
—Parece que um tarado invadiu o apartamento de uma senhora ao invés de invadir o da garota que ele andara espionando...
—Que horror! – exclamou a menina.
Naruto segurava o riso, tentando manter sua pose séria. Iruka tornou a olhar para a garota.
—Já que está aqui, Kairina, por que não se junta a nós? Eu pago um rámen pra você!
A garota arregalou os olhos e corou. Automaticamente seu olhar procurou o amigo loiro.
—N-não p-precisa, sensei. Eu já estav-
—Ah, que isso! – ele exclamou colocando a mão em seu ombro. – Vamos lá!
Kailina não viu como recusar.
—Se não for incômodo...
Iruka começou a guiar a aluna para o Ichiraku, mas Naruto não se mexeu.
—Ei Naruto! – chamou o professor ao perceber que o menino não vinha. – Vai ficar plantado aí? Vem, eu te pago outro rámen.
O menino sequer se virou.
—Não... – disse ele depois de alguns segundos. – Eu já estou satisfeito. Vou pra casa.
E sem deixar espaço para objeção, o menino saltou para o telhado mais próximo e desapareceu.
—Mas... hein? – Iruka coçou uma das têmporas. – Não entendi essa...
Assim que terminou de falar, baixou os olhos para a Kailina. Jamais vira um olhar tão triste no rosto da garota.
—Qual o problema?
A menina balançou a cabeça. Lágrimas se acumulavam no canto de seus olhos.
—Pode me contar, Kairina.
Sem jeito, ela abriu os olhos e olhou para o chão. Iruka voltou a apoiar a mão em seu ombro, pegou algumas sacolas da mão da menina e guiou-a para um banco do Ichiraku.
—Dois rámens, por favor! – disse ele depositando as compras no chão ao lado do banco.
A pequena gennin fitava a bancada com os olhos vazios.
—O Naruto – disse por fim. – Não fala comigo desde o dia que me graduei na Academia.
Iruka piscou, confuso.
—Mas... por quê?
Ela tornou a balançar a cabeça.
—Não sei. – ela respondeu. – Eu corri atrás dele quando ele fugiu da Academia naquele dia. Quando consegui alcançá-lo, ele falou que não queria falar comigo e...
Sua voz falhou, e jounin percebeu que ela estava a beira das lágrimas.
—E gritou comigo. Gritou me mandando sair. – uma lágrima escorreu de um dos seus olhos.
As sobrancelhas de Iruka se abaixaram, franzindo sua testa.
Esse Naruto...
—Não fique triste, Kairina. Eu sei por que o Naruto fez isso.
Ela piscou olhando para seu professor.
—Ele é um garoto bastante teimoso e orgulhoso. Ver você passar adiante dele lhe deu um sentimento muito grande de impotência, porque garotos odeiam perder pra meninas.
—Mas por quê? Qual o problema? – tom de sua voz era claramente irritado.
—Calma, calma... – Iruka agitou as mãos. – Isso é coisa de menino. Meninos são idiotas mesmo...
Até menininhas parecem assustadoras quando se toca nesse assunto..., pensou Iruka suando frio.
—Enfim... – ele continuou com um pigarro. – É orgulho. Sem contar que ele tem aquela rivalidade doentia com o Sasuke. ‘Perder’ pra você significa ainda estar longe de derrotá-lo...
—Como assim longe? O Naruto vai conseguir derrotar o Sasuke antes de me derrotar! Eu sou MUITO mais forte que aquele idiota... – Kairina estava visivelmente irritada, os olhos brilhando de raiva. Seus punhos cerrados tremiam.
—C-Calma, Kairina! Como eu disse, isso é o que o Naruto pensa!
Realmente assustadora, Iruka sentiu uma gota de suor escorrer. Parece até a...
—Ai, ai... – Kailina suspirou e balançou a cabeça.
—O Naruto tem muita coisa pra aprender e amadurecer... Não vai conseguir se tornar um Hokage se continuar desse jeito.
—Desse jeito?
—Explosivo. Ele se irrita facilmente, sem contar que leva suas responsabilidades muito na brincadeira. Talvez se ele se focasse mais em seus treinamentos e aulas...
Aos poucos a voz de Iruka foi minguando na mente de Kailina, que foi preenchida pelas imagens dos treinos exaustivos feitos com o menino. Treinavam até caírem duros, e mesmo não conseguindo grandes avanços, Naruto jamais desistira.
Jamais.
Quando ela já estava completamente incapacitada de levantar, ela assistia impressionada o menino se colocar de pé e atirar mais shurikens contra o tronco da árvore de treino.
“Eu... Eu vou... Me tornar O HOKAGE DATTEBAYO!”
—Você não sabe... – ela disse baixinho.
Iruka parou subitamente de falar.
—O que disse, Kairina?
Kailina se encolheu no banco. Tinha medo de ser mal-educada com o professor ou ofendê-lo, mas ela não podia continuar escutando ele falar daquela forma de seu amigo.
—Desculpe, Iruka-sensei... Mas você não conhece a determinação do Naruto. Ele é a pessoa mais esforçada que eu já encontrei. Minha determinação como uma shinobi não chega nem à sombra da dele...
O jounin da Folha permaneceu em silêncio, fitando a menina com os olhos levemente arregalados.
—Se eu tivesse pelo menos metade da determinação dele... – a menina cerrou as mãos sobre as perninhas que balançavam nervosamente.
Aquilo fora inesperado. Kailina jamais contrdizera um adulto ou o desafiara como ela abara de fazer.
Iruka fitou a garotinha de cabelos escuros e tentou puxar da sua mente a figura dela em suas aulas. Era extremamente difícil, pois todas as lembranças em que Kailina aparecia tinham uma espécie de distorção, como se no momento houvesse uma forte névoa no cenário.
Mesmo que eu saiba sobre o selo, ainda assim ele surte algum efeito. Mal consigo me lembrar de Kailina em minhas aulas, mas tenho certeza de que era uma ótima aluna. Quieta, mas sempre atenciosa.
Ali observando-a balançar as pernas, o ninja conseguiu se lembrar de alguns episódios espaçados envolvendo a garota.
Encontrara uma vez tarde da noite estudando na biblioteca da Vila. Ela havia invadido trazendo uma lanterna e ficara muito tempo estudando pergaminhos básicos sobre taijutsu.
Lembrava de casualmente vê-la saindo da Academia indo para casa... E estava sozinha.
Tinha visto ela numa das ruas comerciais de Konoha comprando roupas... sozinha.
E alguns momentos antes de estarem ali no Ichiraku, ela fora fazer compras... sozinha.
Num insight súbito, Iruka percebeu que nunca se tocara que Kailina vivia a mesma situação de rejeição que Naruto. Era uma forasteira solitária na Vila, tendo visitas esporádicas do Terceiro. Nenhum adulto se preocupava com ela, e aparentemente, fazia tudo por conta própria.
Além disso... Ela era exatamente igual ao Naruto. Carregava a mesma sombra amaldiçoada selada dentro de sua alma.
Com um aperto no coração, percebeu que a única diferença entre ela e Naruto é que a garota sofria em silêncio.
Como é que eu não percebi isso antes...?
Será que a falta de presença dela é tão forte assim, mesmo sobre as pessoas que sabem do segredo dela...?
—Kairina...
As peças começavam a se encaixar. No meio da solidão dessa terra estranha, Kailina conhecera Naruto, um garoto estúpido e barulhento que passava pelo mesmo problema que ela. Porém, ao invés de se contentar em se esconder pelos cantos, Naruto berrava sua existência para todos. E não só sua existência, mas seus sonhos também.
Aos poucos, Iruka se deu conta de quem Naruto era para Kailina.
—Me desculpe. – ele murmurou. – Realmente, talvez eu não tenha visto o suficiente.
A menina ergueu os olhos, e ele viu que eles tremiam de leve.
—Fique tranqüila, você não disse nada de errado. Eu compreendo.
Ela ficou com uma expressão chorosa e desviou o olhar.
—Gomenasai, Iruka-sensei. Eu não devia...
—Ei, ei! Está tudo bem!
Iruka tornou a analisar a garotinha com um leve sorriso nos lábios.
O Naruto pode estar buscando desesperadamente por reconhecimento e aceitação... Mas ele já foi aceito por alguém. Talvez seja pela falta de presença dela, mas ela realmente o admira do fundo do coração.
Iruka soltou uma risadinha e abriu um enorme sorriso.
—Você vai ser uma ótima kunoichi, sabia?
A Uzumaki ergueu os olhos para seu professor e corou.
Nesse instante, os rámens foram colocados sobre a bancada.
—Estão prontinhos!
—Oh, arigatôgozaimasu! – agradeceu Iruka unindo as mãos e fazendo uma reverência com a cabeça. – Itadakimasu!
Kailina olhou para seu rámen e se sentiu insegura.
—Não vai comer? – o ninja perguntou depois da primeira bocada do macarrão fumegante.
—H-hum. – ela assentiu sem graça e pegou um rashi.
Como esperado do rámen do Ichiraku, estava perfeito. Ignorando a timidez, Kailina comeu com avidez, e Iruka observou com satisfação.
—Ah! – ele arfou depois de terminar o seu. – Meu Deus! Como tô cheio! Dois rámens não é pra qualquer um!
—Iruka-sensei, você comeu dois rámens!?
—Sim, um com você e um com o Naruto.
—Eh!? Que comilão! – ao perceber que fizera um comentário muito informal, Kailina tapou a boca e corou abaixando a cabeça.
Iruka soltou uma boa risada.
—Ah, eu sou mesmo... Não fique envergonhada, Kairina. Você não fez nenhum comentário maldoso...
O jounin pagou os rámens, agradeceram e saíram. Kailina parou alguns passos adiante.
—Arigatogozaimasu, Iruka-sensei. Foi muito divertido e o rámen estava uma delícia. – ela abriu um sorriso genuíno com um leve rubor nas faces.
—Não têm de quê. – disse o professor.
—Bom... Então acho que vou indo pra casa.
—Não quer que eu te acompanhe até lá?
Kailina teve um leve sobressalto com a sugestão.
—N-não precisa, sensei! Eu me viro bem sozinha.
—Ah, mas não custa nada te acompanhar. Vamos lá! Me dê um pouco das suas sacolas.
Vendo que não tinha como negar, Kailina concordou, deu algumas sacolas para que Iruka carregasse e os dois seguiram em direção à casa da garota.
—Está ansiosa para entrar num time? – perguntou Iruka depois de alguns minutos caminhando em silêncio.
—Ah... S-sim. Eu não sei como vai ser, estou um pouco nervosa. Afinal, eu sou uma forasteira... Não sei se vão me aceitar bem.
—Mas o quê isso, Kairina? É claro que você não é uma forasteira. Você já é uma gennin da Vila da Folha! Já é uma de nós faz tempo!
Kailina olhou com os olhos cintilando para o professor.
—Você realmente... acha isso?
—É claro que sim. – Iruka dirigiu um olhar afetuoso e compreensivo para ela. – Você não está sozinha aqui, Kairina.
Sozinha. Sozinha. Sozinha
A palavra ressoou na mente da garota.
“Você não está sozinha aqui, Kairina.”
Uma sensação estranha fez seu peito esquentar.
Neste instante, alcançaram as escadarias que levavam ao pequeno apartamento da menina. O jounin ergueu o braço e pousou a mão no topo de sua cabeça.
—Bom, boa noite, Kairina. Cuide-se. Não vá na onda do Naruto e sair aprontando pra todos os lados.
A garota enrubesceu novamente com a súbita demonstração de afeto e preocupação de Iruka. Devagar, ela ergueu os olhos e encarou o professor.
—Arigatô... Sensei.
Ele tirou sua mão do cabelo da menina e coçou a bochecha meio sem jeito.
—Então... Nós podíamos sair mais vezes... Eu, você e o Naruto... Pra comer rámen... Que tal?
Kailina arregalou os olhos. Lentamente ela viu os cabelos de Iruka ficando mais curtos e tingindo-se de um forte tom de vermelho. Os olhos se tornaram maiores e mais cinzentos. Seus ombros se estreitaram um pouco e ficou levemente mais baixo. Por um instante, no lugar de Iruka, Kailina viu Uzumaki Goro.
Com os olhos cintilantes, a gennin assentiu sem ser capaz de encontrar sua voz. -Oyasuminasai! – ele começou a se afastar, virando-se para acenar.
Kailina acenou de volta, ficando parada diante da porta de casa com as sacolas penduradas em seus braços.
Vagarosamente, ela sentiu aquele vazio constante que lhe acompanhava como uma sombra na Vila diminuir em seu peito.
***
Já era tarde. Devia passar da meia-noite, mas Kailina não conseguia pegar no sono. Dedicara-se a ler alguns livros que pegara na biblioteca na Vila, mas ela mal se concentrava por causa de uma constante inquietação no estômago.
Ai, essa asia...
Ela virou uma página, e o som do papel juntou-se a um baque surdo no teto do seu telhado. Se ela não tivesse os sentidos bem treinados, talvez nem tivesse ouvido.
—O que foi isso? – ela olhou em volta.
Ficou em silêncio, apenas escutando. Subitamente, ela se deu conta que em momento algum ouvira Naruto retornando ao seu apartamento. Nenhuma batida de porta nem sons de passos. E era impossível não ouvir quando ele chegava...
Ela fechou o livro que folheava e se levantou.
Tem alguma coisa errada.
Na ponta dos pés, ela saiu de seu quarto e foi para o corredor do lado de fora. Abaixou-se nas sombras e esperou. Um som lhe chamou atenção. Era um burburinho que vinha da direção da casa do Hokage. Enquanto sua concentração aumentava, o barulho também aumentava.
Foi neste momento que o baque se repetiu. Só que foram dois.
Ela olhou rapidamente para cima e viu dois shinobis saltando sobre os telhados na mesma direção do barulho. Kailina voltou para dentro de seu quarto, armou-se com uma bolsa de ferramentas ninjas e tornou a sair.
Silenciosamente, seguiu a mesma trilha que os shinobis de agora a pouco. Como ela supôs, havia realmente uma confusão acontecendo exatamente na porta da casa do Terceiro.
—Não podemos considerar isso como uma mera travessura!
—Isso mesmo!
—Tem razão.
Kailina pousou num telhado próximo e se escondeu. Novamente se dedicou a concentrar sua atenção na audição.
—Sim. – ela ouviu a voz rouca do velho Sarutobi. – Aquele é um documento perigoso lacrado pelo Primeiro Hokage. Dependendo da forma como for usado, pode nos causar sérios problemas. Já faz mais de doze horas que o pergaminho foi roubado... Temos que encontrar Naruto com urgência!!
—Sim senhor! – gritaram os jounins em uníssono se dispersando.
Kailina arregalou os olhos e continuou olhando para o Terceiro Hokage que continuou parado em frente à porta. Um calafrio horrível percorreu-lhe a espinha. Sua boca ficou seca.
O-O Naruto... Roubou... Um pergaminho... da casa do Hokage!?
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