A Biblioteca do Esquecimento - Dramione

3 Capítulo Final: Cinzas e Mármore


Notas iniciais
Atenção: Este capítulo contém inúmeros gatilhos.

O amanhecer sobre a Mansão Malfoy não trouxe o sol. Trouxe um céu da cor de hematomas antigos, roxo e cinzento, pressionando contra as janelas da biblioteca como se o mundo lá fora estivesse sufocando.

Draco não havia dormido. Ele passara a noite vigiando o corredor, o corpo tenso na poltrona, a varinha pronta para defender Hermione de inimigos que não existiam mais.

Quando a porta da biblioteca finalmente se abriu, Draco se levantou, esperando ver a garota decidida da noite anterior.

Mas quem entrou foi um espectro.

Hermione ainda usava o vestido preto, agora amarrotado. Ela caminhava devagar, arrastando os pés descalços, com uma mão apoiada na parede como se o chão estivesse instável.

— Granger? — Draco chamou, cauteloso. Ele foi até a mesa lateral e serviu uma xícara de chá fresco, tentando ancorá-la na rotina que haviam criado. — Sente-se. Você precisa comer algo.

Ela não respondeu. Ela caminhou até a poltrona e sentou-se, mas seus movimentos eram robóticos. Ela olhou para a xícara que Draco estendeu.

— É Earl Grey — Draco disse, tentando manter a voz leve, ignorando o pânico que crescia em seu peito ao ver o estado dela. — O seu favorito.

Hermione estendeu a mão para pegar a xícara. Seus dedos tremiam violentamente. Quando ela olhou para o líquido escuro dentro da porcelana, seus olhos se arregalaram em terror.

— Sangue... — ela sussurrou, recuando a mão como se tivesse sido queimada.

A xícara caiu no chão, estilhaçando-se. O chá quente manchou o tapete persa.

— Não é sangue, Hermione — Draco se ajoelhou rapidamente ao lado dela, ignorando os cacos. — É chá. Olhe. É só chá.

— Está em todo lugar — ela soluçou, encolhendo-se na poltrona, cobrindo os ouvidos com as mãos. — O cheiro... cobre e queimado. Eles não param de gritar, Draco.

— Quem?

— Todos eles. — Ela balançava o corpo para frente e para trás. — Ron está me chamando. Ele diz que está escuro lá embaixo. Ele diz que está com frio. E Harry... Harry está rindo, mas o rosto dele está derretendo.

— São alucinações — Draco disse firmemente, segurando os pulsos dela para que ela parasse de arranhar os próprios braços. — É o estresse pós-traumático. Nós podemos tratar isso. Existem Curandeiros Mentais na França. Eu posso te levar hoje. Agora.

Hermione olhou para ele. O foco em seus olhos ia e vinha, lutando contra a loucura.

— Não há cura para isso, Draco. Eu me lembro da tortura. Eu sinto a faca de Bellatrix na minha pele a cada segundo. Mas isso... a perda deles... é pior que a faca. É como se eu tivesse morrido, mas meu corpo fosse estúpido demais para parar de bater o coração.

Draco sentiu o desespero gelado tomar conta dele. Ele soltou os pulsos dela e segurou seu rosto.

— Escute-me. Se for dor demais... eu posso tirar. Eu posso apagar de novo.

Hermione parou de balançar. Ela olhou para ele, atordoada.

— O quê?

— Eu sou bom em Oclumência e Feitiços de Memória — Draco disse rápido, oferecendo a única misericórdia que conhecia. — Eu posso fazer você esquecer de novo. Esquecer Harry. Esquecer Ron. Esquecer a guerra. Você pode voltar a ser a hóspede sem nome. Você estava em paz ontem de manhã, lembra? Nós podemos voltar para lá.

Era uma oferta horrível — roubar a identidade dela novamente —, mas Draco preferia uma Hermione vazia a uma Hermione morta.

Por um segundo, ele viu a tentação nos olhos dela. A promessa do esquecimento. Mas então, uma lágrima escorreu, solitária e pesada.

— Não — ela sussurrou. — Eu não posso.

— Por que não? Dói, Hermione! Você disse que dói!

— Porque eles são tudo o que me resta — ela disse, a voz quebrando. — Se eu esquecê-los... é como se eles morressem uma segunda vez. Eu não posso traí-los assim. Eu tenho que carregar a memória deles. Mas Draco... — Ela olhou para ele com uma súplica devastadora. — ...é pesado demais. Eu não sou forte o suficiente.

Ela se levantou da poltrona, trêmula mas decidida.

— Eu tentei, Draco. Eu juro. Eu tentei ler os livros. Tentei encontrar uma razão. Mas cada página está em branco. O futuro é uma página em branco e eu não tenho tinta para escrever nele.

Ela levou a mão às costas, tateando o bolso oculto nas dobras do vestido.

— Eu sou um cemitério ambulante. E os fantasmas querem descansar.

Quando a mão dela voltou, não estava vazia. O brilho da prata antiga cortou a penumbra da biblioteca.

A adaga de Bellatrix.

Draco congelou. Ele se levantou devagar, as mãos erguidas.

— Hermione... me dê a faca. Nós podemos conversar. Nós podemos...

— Não há mais conversa — ela disse, a voz estranhamente calma agora. — Obrigada por tentar me salvar, Draco. Você foi a única coisa boa no meu final.

— NÃO!

Hermione fechou os olhos. Não houve hesitação, apenas a aceitação final. Com um movimento fluido e brutal, ela cravou a lâmina curva no próprio pescoço e puxou.

GRANGER!

Draco se lançou sobre ela. Ele amparou o corpo dela antes que tocasse o chão, mas o dano estava feito. O sangue jorrou quente e vermelho, cobrindo as mãos dele, o vestido preto, encharcando o silêncio da sala.

— MIPS! TINKY! — Draco berrou, um som que rasgou sua garganta. — AGORA!!!

O estalo da aparatação dos elfos foi imediato.

— Mestre! — Tinky guinchou, cobrindo os olhos grandes diante da cena de horror.

— A poção! — Draco rugiu, pressionando as mãos sobre o corte profundo, sentindo a vida dela escapar por entre seus dedos. — TRAGAM A WIGGENWELD! E DITAMNO! RÁPIDO!

Os elfos desapareceram e voltaram em segundos. Tinky trebia tanto que quase derrubou o frasco verde.

Draco arrancou a rolha com os dentes, cuspindo a cortiça.

— Fique comigo, Hermione! — ele implorou, derramando a poção sobre a ferida aberta. — Não se atreva a ir! Beba!

A poção sibilou ao tocar a pele. Deveria ter fechado a carne. Deveria ter estancado o sangue. Mas a adaga era de prata goblin, impregnada com a malícia de Bellatrix Lestrange e veneno de basilisco antigo. A ferida rejeitou a cura. O sangue continuou a fluir, diluindo o verde da poção em um vermelho escuro e inútil.

— Mais! — Draco gritou, pegando outro frasco. — Tinky, segure aqui! Pressione!

O elfo obedeceu, chorando, suas mãos pequenas tentando conter o rio de sangue.

Draco puxou a varinha, as mãos escorregadias de sangue.

— Vulnera Sanentur! — Ele traçou o movimento sobre a garganta dela, a voz falhando pelo choro. — Vulnera Sanentur! Por favor... por favor...

A magia tentou tricotar a pele, mas o corte reabria instantaneamente, como se a própria morte estivesse puxando as bordas.

Hermione gorgolejou. Ela olhou para Draco. O pânico inicial passara. Seus olhos estavam começando a ficar vidrados, o foco se perdendo.

Ela levantou uma mão fraca, manchada de vermelho, e tocou o rosto de Draco.

— Pare... — ela tentou falar, a voz um som úmido e borbulhante. — Está... tudo bem...

— Não está tudo bem! — Draco soluçou, jogando a varinha longe, voltando a pressionar as mãos sobre o pescoço dela, tentando desesperadamente manter o sangue dentro dela. — Eu não posso ficar aqui sozinho! Você não pode me deixar!

Hermione sorriu. Foi um sorriso pequeno, fantasmagórico. Ela olhou para além do ombro dele, para um ponto vazio no teto. A dor sumiu de seu rosto.

— Harry... — ela soprou, sem som. — Eles estão aqui...

O peito dela parou.

A mão que tocava o rosto de Draco escorregou e caiu no tapete com um baque surdo.

— Não... — Draco sussurrou. — Hermione?

Ele esperou. Esperou o próximo suspiro.

Mas só houve silêncio.

— Mestre Draco... — Tinky choramingou, recuando. — Ela se foi. A prata... a prata não deixa curar.

Draco ficou imóvel. Ele estava curvado sobre ela, coberto com o sangue da única pessoa que ele aprendera a respeitar, a única que o vira como algo além de um monstro.

Ele olhou para o rosto dela. Parecia em paz. A garota quebrada finalmente estava inteira, mas em outro lugar.

Draco soltou um grito. Não foi uma palavra. Foi um som animal, de pura agonia, que ecoou pela biblioteca vazia. Ele abraçou o corpo sem vida dela, balançando-se para frente e para trás, sujando o rosto no cabelo dela.

— Saiam — ele disse depois de um tempo, a voz morta.

— Mestre, nós podemos...

— SAIAM! — Ele rugiu.

Os elfos desapareceram.

Draco estava sozinho. O frio da casa parecia ter entrado em suas veias.

Ele a deitou no tapete com cuidado. Ele fechou os olhos dela.

Ele olhou para as próprias mãos vermelhas.

— Eu não consegui — ele disse para o silêncio. — Eu falhei.

Ele olhou para a adaga de prata, caída ao lado da mão inerte de Hermione.

Ele não sentiu medo. Não sentiu hesitação. Sentiu apenas a certeza absoluta de que o mundo sem ela era um lugar onde ele não queria estar.

Ele se deitou ao lado dela. Puxou o corpo frio de Hermione para seus braços, aninhando a cabeça dela em seu ombro. Ele entrelaçou seus dedos nos dela, manchando a pele pálida dela com o sangue que ele não conseguiu estancar.

Draco pegou a adaga.

Ele olhou para o teto da biblioteca, imaginando se, do outro lado, Potter e Weasley o deixariam entrar apenas para ficar com ela.

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Draco não morreu imediatamente. A covardia, ou talvez uma autopunição cruel, manteve seu coração batendo.

Ele ficou sentado no chão da biblioteca por um tempo que não soube medir. O sangue de Hermione, antes quente em suas mãos, agora estava frio e pegajoso, secando em sua pele como uma segunda camada de culpa. O corpo dela estava pesado em seus braços, vazio daquela faísca elétrica que a tornava Hermione. Agora, era apenas matéria. Carne, osso e a ausência absoluta de futuro.

Ele olhou para a adaga de prata caída no tapete. Seria fácil. Um movimento rápido, como ela fizera, e ele a seguiria.

Mas Draco olhou ao redor. Olhou para as estantes altas de carvalho escuro, repletas de conhecimentos que não salvaram ninguém. Olhou para os retratos de seus ancestrais nas paredes, que fingiam dormir mas que ele sabia estarem observando, julgando o último herdeiro chorando sobre o cadáver de uma sangue ruim.

Não, pensou Draco, uma raiva fria substituindo o desespero. Se eu morrer aqui, esta casa vence. Se eu morrer aqui, seremos apenas dois esqueletos encontrados daqui a cem anos nas ruínas de uma família maldita.

Hermione merecia mais do que apodrecer no chão da casa que a torturou. E o mundo merecia menos um Malfoy e menos uma Mansão Malfoy.

Draco depositou o corpo de Hermione suavemente no chão. Ele beijou a testa dela uma última vez — um toque casto, reverente — e se levantou. Suas pernas tremiam, suas roupas estavam rígidas de sangue seco, mas sua mente estava afiada como vidro quebrado.

— Tinky. Mipsy.

Os elfos apareceram. Eles estavam tremendo, os olhos grandes fixos no corpo de Hermione, choramingando baixinho.

Draco olhou para eles. Eram criaturas que serviram sua família por gerações, presas por magia a um legado de crueldade. Eles viram torturas, limparam sangue, esconderam segredos. E ainda assim, olhavam para ele com lealdade.

Draco começou a desabotoar as abotoaduras de prata de sua camisa manchada. Depois, tirou a gravata de seda preta que usava frouxamente. Ele tirou os sapatos de couro de dragão. Por fim, tirou o próprio relógio de pulso.

Ele jogou os itens aos pés dos elfos.

— Mestre Draco? — Tinky sussurrou, confuso.

— Roupas — Draco disse, a voz rouca e terrível. — São roupas. Peguem.

Os elfos recuaram, horrorizados com a implicação.

— Mestre não pode... Tinky quer servir...

— PEGUEM! — Draco gritou, o som ecoando como um trovão. — Eu não sou mais o mestre de vocês! Esta casa não tem mais mestre! Vocês estão livres. Peguem as roupas e saiam daqui. Agora.

Mipsy, chorando, pegou a gravata. Tinky, com as mãos trêmulas, pegou as abotoaduras e uma meia que estava dentro do sapato.

A magia do vínculo se partiu. Draco sentiu o estalo no ar, como uma corda de violino arrebentando.

— Vão para longe — Draco ordenou, mais baixo agora. — Vão para Hogwarts, se ela ainda estiver de pé. Vão para onde quiserem. Mas nunca mais obedeçam a ninguém que lhes trate como escravos. E nunca, jamais, voltem para este lugar.

— O que o Mestre vai fazer? — Mipsy perguntou, apertando a gravata de seda contra o peito.

Draco olhou para o corpo de Hermione.

— Eu vou limpar a bagunça.

Os elfos, percebendo a finalidade na voz dele, deram um último olhar de pesar para o jovem bruxo que viram crescer e desapareceram com estalos sonoros.

Draco estava finalmente, verdadeiramente sozinho.

Ele saiu da biblioteca. Caminhou pelos corredores longos e ecoantes. Ele passou pela Sala de Estar, onde o lustre de cristal pendia torto.

Ele ergueu a varinha.

Incendio Maledictum.

Não foi um fogo comum. Foi um fogo alimentado por seu ódio. As chamas surgiram roxas e douradas, lambendo as cortinas de veludo, devorando as tapeçarias antigas.

Draco caminhou de cômodo em cômodo.

No escritório de seu pai, ele queimou os livros de contabilidade e os artefatos das Trevas.

No quarto de sua mãe, ele queimou os vestidos de seda e os espelhos de prata.

No seu próprio quarto, ele queimou a vassoura de Quadribol e as vestes de Sonserina.

A fumaça começou a encher os corredores, densa e negra. O calor aumentava, fazendo o papel de parede descascar como pele queimada. Os retratos gritavam agora. Seus ancestrais, presos em suas molduras de ouro, berravam maldições e imploravam por salvação.

— Queimem — Draco sussurrou, passando por eles sem olhar. — Queimem com o seu orgulho.

A estrutura da casa gemia. Vigas de madeira estalavam. O teto começava a ceder em alguns pontos. A Mansão Malfoy, que resistira a séculos de guerras e tempestades, estava morrendo pelas mãos de seu último filho.

Draco tossiu, a fumaça ardendo em seus pulmões, mas ele não parou. Ele fez o caminho de volta para a biblioteca. O fogo o seguia como um animal leal, rugindo atrás dele, consumindo o passado.

Quando ele entrou na biblioteca novamente, o calor já era sufocante. As estantes mais distantes já estavam pegando fogo. Os livros — milhares de anos de conhecimento, mentiras e histórias — estavam virando cinzas.

Draco caminhou até o centro da sala, onde o ar ainda estava respirável, protegido por uma bolha temporária de oxigênio.

Hermione estava lá. O fogo iluminava o rosto pálido dela com um brilho alaranjado, fazendo parecer, por um breve momento cruel, que ela estava apenas dormindo diante de uma lareira acolhedora.

Draco se ajoelhou. Suas forças o abandonaram.

Ele se deitou ao lado dela. O chão estava ficando quente.

— Acabou, Granger — ele disse, a voz arranhada pela fuligem. — A casa está morrendo. O nome está morrendo. Ninguém vai encontrar nossos ossos. Ninguém vai usar sua morte como propaganda.

Ele puxou o corpo dela para si uma última vez. Era difícil respirar. A fumaça preenchia a sala, trazendo uma escuridão misericordiosa antes das chamas.

Draco tossiu violentamente, sentindo o gosto de cinzas na boca.

Ele olhou para o teto abobadado da biblioteca. As vigas estavam em chamas, caindo como estrelas cadentes.

Ele pensou em tudo o que não disse. Pensou em como, em outra vida, em outro mundo, talvez eles pudessem ter se encontrado em uma biblioteca sem guerra. Talvez ele pudesse ter lhe oferecido um livro em vez de uma atadura. Talvez ele pudesse ter sido corajoso o suficiente para amá-la antes que fosse tarde demais.

— Sinto muito — ele chorou, as lágrimas evaporando no calor intenso. — Sinto muito por ter demorado tanto.

O fogo alcançou o tapete persa. As chamas lamberam seus pés, mas Draco não se moveu. Ele segurou a mão fria de Hermione com força, entrelaçando seus dedos manchados de sangue e fuligem nos dela.

Ele fechou os olhos.

O rugido do fogo se tornou o único som no universo, abafando os gritos de sua memória, abafando a culpa.

O calor se tornou insuportável, e então, num instante de graça final, tornou-se nada.

A Mansão Malfoy caiu sobre si mesma naquela noite, uma implosão de pedra, vidro e história. Não restou mármore. Não restou ouro.

Restaram apenas cinzas, brancas e puras como a neve que caía lá fora, cobrindo os corpos de dois inimigos que encontraram, na destruição de tudo, a única forma de ficarem juntos.

Notas finais
Algumas considerações sobre os elementos que introduzi na história; Draco não guardou a adaga intencionalmente. A própria Mansão Malfoy, uma entidade viva e maligna, "preservou" a adaga para que Hermione a encontrasse. É uma metáfora para dizer que o passado sombrio da casa se recusava a ficar enterrado. Hermione a encontrou sozinha enquanto explorava a casa (provavelmente na Sala de Estar ou em algum cômodo onde Bellatrix a deixou ou perdeu), e a escondeu no bolso do vestido antes de ir para a biblioteca confrontar Draco. Portanto, não era um item que Draco mantinha como lembrança ou arma; foi um artefato trágico que "sobreviveu" à batalha para selar o destino deles.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!