NARRADO POR BELLA

Eu tinha que salvar Lily. Tinha que salvá-la.

Meu sonho havia sido real, tudo havia sido real. Lily estava em perigo, e meu pai estava na floresta.

Eu tinha que ajudá-los.

Não entendia como Lily poderia ter ficado com os olhos vermelhos, e nem como Isabel poderia estar ali, mas ela estava. Eu sabia disso. Eu havia visto.

Corri com Cavalheiro por entre a mata o máximo que ele conseguia correr.

Minha nuca latejava, e a água pingava por meu rosto, enquanto sentia os galhos das árvores me cortando conforme passávamos por eles.

Mas então Cavalheiro parou de correr abruptamente, enquanto dava passadas para trás e ficava inquieto.

Foi só quando um uivo alto soou ali perto, que percebi o motivo de Cavalheiro estar com medo. Eram os lobisomens.

Pensei em descer e ir até eles, pedir ajuda. Pedir para me tirarem dali, mas antes que tomasse qualquer decisão, Cavalheiro já tinha dado à volta e corria para o outro lado, se embrenhando ainda mais no coração da mata.

Cavalheiro corria disparado, enquanto eu tentava controlá-lo.

Os uivos se tornaram mais distantes, porém mais intensos, e junto com eles vieram rosnados.

Rosnados que eu conhecia.

Ouvi barulho de corpos de chocando, e um lamento de dor.

-- Edward! – murmurei desesperada.

Meu coração disparou quando pensei em Edward.

Era ele. Ele tinha vindo atrás de mim, e trombado com lobisomens. Era ele. Eu sentia que era.

Os gritos humanos junto com rosnados que eu ouvia agora, também eram dele. Eu reconhecia. Era ele.

Não. Não. Não podia ser.

Puxei as rédeas de Cavalheiro, fazendo ele frear, e virar.

-- Anda Cavalheiro. – pedi, puxando suas rédeas. – É Edward. Corre, por favor.

Cavalheiro pareceu ter me entendido, porque mesmo mexendo muita a cabeça e relinchando alto, continuou correndo a toda velocidade para o lugar de onde vinham os barulhos.

Percebi um vulto rápido passando por entre as árvores ao nosso lado, e Cavalheiro relinchou mais alto, enquanto dava uma virada rápida para o outro lado.

O vulto continuou correndo perto de nós, e a cada momento se aproximava mais, e foi nesse momento que algo grande cortou a nossa frente.

Cavalheiro parou tão bruscamente, que eu não consegui me segurar, e antes que conseguisse sequer gritar, já estava voando por cima dele.

A imagem de Charlie me chamando me passou pela cabeça, ao mesmo tempo que a de Lily que precisava da minha ajuda. Mas foi a ultima imagem que me fez tremer e sentir como se tivessem arrancando metade de mim.

E foi imaginar Edward precisando de ajuda. Foi imaginar Edward sendo atacado por lobisomens. Foi imaginar Edward literalmente morto. Mas o pior, foi me imaginar sem Edward.

E foi com esse pensamento desesperador, que eu senti meus sentidos se evaporando, junto com minhas esperanças.

-- Bella... — uma voz distante chamou.

Dor. Muita dor. Era tudo o que sentia. Meu corpo parecia triturado, como se tivessem passado um trator por cima de mim, mas nada se comparava a dor cruciante em minha nuca.

-- Bella... – a voz chamou novamente, mas eu não queria responder. Algo me dizia que iria doer para falar.

-- Bella, fala comigo... Bella – uma outra voz me chamou.

-- Acho que ela ainda está desacordada, Jasper.

Jasper?

-- Não. Eu consigo sentir a mudança de emoções, e seu coração está descompassado.

Senti minhas pálpebras pesadas, e doloridas, mas as forcei a se abrirem.

Me deparei com dois rostos super pálidos perto de mim, e com uma chuva forte caindo por entre as árvores.

Eu reconhecia aqueles rostos.

-- Que bom que você acordou, Bella. – Emmett comentou, sorrindo grande.

-- Você está bem? – Jasper emendou.

-- O que... o que... aconteceu? – perguntei, confirmando minhas suspeitas que falar doía.

Mas antes que eles respondessem, as lembranças dos últimos momentos entraram voando em minha mente.

Sonho real... Isabel... Charlie... Lily... Edward...

EDWARD!!

Meu coração disparou, e eu tentei me levantar. Minha cabeça rodou fortemente com minha força, e eu voltei a cair no chão.

-- Calma Bella. – Jasper pediu com sua voz serena.

-- Não... não... Edward...

-- O que tem Edward, Bella? – Emmett perguntou, ficando subitamente sério.

Mas eu não conseguia pronunciar mais palavra alguma, pois no mesmo instante uma enxurrada forte de lágrimas começou a salta de meus olhos, entre soluços.

Ele já devia estar morto. Ele, e Lily. Os dois.

Eu não havia conseguido salvá-los.

-- O que houve com Edward, Bella?

-- Lo-lo-bi-somens... – murmurei, e no mesmo instante, Emmett se levantou.

-- Você acha...?

-- Sim! – confirmou Emmett, olhando em volta. – Como não reparamos? Os rosnados, os pequenos gritos...

-- Pode não ser, Emmett...

-- Não vou pagar para ver. Ele é meu irmão.

-- Emmett... — chamei entre as lágrimas, queria que ele me levasse junto. Queria fazer alguma coisa, mas Emmett não estava mais ali.

-- Leve-a para casa. – seu grito soou de longe, e Jasper me pegou rapidamente no colo.

-- Não! Não! – exclamei entre soluços.

-- M-me coloque n-no chão.

-- Vou te levar para casa, Bella. – Jasper disse sério, ignorando meu pedido.

Engoli o choro, e o encarei, tentando parar de soluçar.

-- N-não, e-e-e-u preciso ajudar Edward e Lily.

Jasper olhou preocupado para mim.

-- Não há nada que você possa fazer por Edward agora, Bella.

E no mesmo instante Jasper começou a correr com toda velocidade em direção a mansão.

Eu queria responder, queria dizer que poderia fazer algo sim. Mas não consegui, pois as lágrimas voltaram com força total, me deixando com a visão completamente embaçada.

Nenhuma dor física que eu estava sentido no momento, poderia ser maior do que a dor que estava me matando por dentro. O medo de algo terrível ter acontecido com Edward. O medo de que seria minha culpa.

O medo de perdê-lo.

Eu não queria ficar ali, nos braços de Jasper, enquanto ele me levava para casa. Eu queria correr até Edward. Salvá-lo. Fazer qualquer coisa, por menor que fosse, apenas pqra não ficar parada, na expectativa.

Gritei com Jasper, disse para ele me soltar, me deixar ir até Edward, mas Jasper parecia irredutível, e então senti uma onda de calma me invadir.
No fim, encostei a cabeça em seu peito duro e frio, e deixei as lágrimas me tomarem de vez, enquanto implorava internamente para Deus protegê-lo.

Apenas Deus sabe o quanto implorei.

Mas a cada momento chorar se tornava mais cansativo. Muito cansativo, e a calma, me dominava, como se Jasper estivesse me dopando, e foi orando por Edward que mais uma vez meus olhos se fecharam.

Edward!

Foi a primeira coisa que pensei quando meus olhos se abriram. Me levantei rápido na cama, e notei que estava novamente em meu quarto. Corri até a porta e sai para o corredor vazio e escuro.

Sentia minha cabeça latejar, e todo meu corpo gritar em protesto. Levei a mão rapidamente até a nuca enquanto corria, e notei um curativo cobrindo onde eu lembrava estar meu machucado.

Meu coração batia rápido e forte, e eu orava para que tudo estivesse bem, mas a casa estava completamente escura. Como se não houvesse ninguém ali.

Senti o medo me tomando aos poucos, e minha respiração começar a ficar descompassada.

— ARRRG! – um grito alto de agonia preencheu meus ouvidos, me fazendo pular.

O que estava acontecendo?

Desci as escadas tropeçando em todos os degraus, enquanto procurava seguir o grito.

Foi então que eu parei em frente a porta aberta da pequena sala que eu estive inúmeras vezes. Onde, Edward havia me beijado pela primeira vez.

E o alívio me tomou quando notei que todos os Cullen´s estavam ali.

Dei um passo à frente, e já estava na porta da sala, quando senti meu alívio se esvaindo com a mesma rapidez com que veio.

Pois, sentado em uma poltrona com o braço esquerdo todo machucado e mordido, estava Emmett.

E ao seu lado, estirado em um dos sofás, estava Edward, parecendo quase desacordado. Mas não foi isso que me fez parar de respirar e começar a tremer de medo e angústia.

Edward tinha galhos e folhas presos em seus cabelos e suas roupas, e sua pele normalmente tão branca, estava cheia de mordidas e machucados. Mas o que mais me assustou foi o sangue que tomava seu corpo.

Eu queria chegar mais perto, colocar a mão em seus cabelos, mas quando dei um passo para entrar dentro do quarto, os olhos de Edward encontraram os meus, e ele rosnou baixo, como se não tivesse força para isso.

Foi nesse momento que todos olharam para mim. Eu não saberia explicar porque não notaram minha aproximação antes, ou se apenas não ligaram. Mas talvez estivessem tão preocupados com Edward e Emmett, que não tiveram tempo para sentir meu cheiro, ou prestar atenção nos meus passos.

— Bella... – Alice começou, vindo até mim, e colocando a mão em meu cotovelo como se quisesse me tirar dali.

Mas eu não ia. Não sairia dali.

Tirei meu cotovelo de suas mãos, mesmo sabendo que se ela quisesse eu já estaria fora da sala.

— O que houve? – perguntei, percebendo que minha voz estava baixa e engasgada.

Mas antes que qualquer um deles me respondessem, Edward rosnou novamente, e fez menção de se levantar, embora tenha sido aparado por Carlisle e Jasper.

Mas foi só quando Emmett também rosnou, que Rosálie e Alice me puxaram rapidamente para fora do aposento, fechando a porta em seguida.

Ouvi algo pular contra a porta, e pelo rosnado me pareceu ser Emmett.

Mas... o que estava havendo?

Rosálie me pegou no colo, e me levou rapidamente para o aposento mais alto e distante da casa.

O quarto de Edward.

— O que... – comecei. – Por que me trouxeram aqui?

— Porque é o cômodo mais distante daquela sala – Alice respondeu, entrando calmamente atrás de nós, e fechando a porta.

— Por...

— Porque nesse momento você não pode ficar à menos de 10 metros de Emmett e Edward. – Rosálie respondeu minha pergunta antes mesmo que eu terminasse. E eu que achava que apenas Alice via o futuro.

Olhei para elas, sem entender e me levantei.

— Não me interessa, quero vê-los.

Rosálie suspirou baixinho, e me puxou pelo braço, me forçando a sentar no único sofá que havia ali.

— Isso está fora de questão, Bella.

— Por que? – indaguei irritada, enquanto percebia o medo voltando. O que havia acontecido? O que iria acontecer?

— Por que eles estão fracos, muito fracos, e por isso muito famintos. Especialmente Edward, que não caça há algum tempo. – Alice explicou, se encostando na porta fechada.

Então me lembrei do corpo que havia batido contra a porta, aquilo realmente havia sido Emmett. Mas Alice respondeu antes que eu perguntasse.

— O seu sangue tem um cheiro irresistível para Edward, e isso faz com que ele, que está com mais sede e mais fraco, queira bebê-lo de qualquer maneira, mas Edward está fraco demais para tentar te matar enquanto tivermos por perto para impedi-lo. E mesmo que seu cheiro não seja tão irresistível para os outros, como é para Edward, ainda é apetitoso, e Emmett está um pouco mais forte que Edward, forte o bastante para tentar te atacar se você continuasse lá.

Mas eu já não estava prestando atenção. O medo de perder e a dor só de imaginar isso começavam a me tomar por completo.

- O que aconteceu? – perguntei sentindo minha voz fraca.

— Edward trombou com lobisomens quando estava indo atrás de você. Eram seis deles contra apenas um de nós. – Rosálie explicou com um tom vagamente irritado. – Teriam o matado se Emmett não tivesse chegado.

Senti meu coração parar e logo depois voltar a bater em uma velocidade alucinante.

Teriam o matado. Teriam o matado. Teriam o matado.

Eram as únicas palavras que rodavam em minha cabeça.

— Mas... mas... – mas eu não consegui mais falar, porque as lágrimas que estavam lutando contra meus olhos para saírem, enfim ganharam a batalha.

Rosálie se sentou ao meu lado e passou um braço por meus ombros, de uma maneira carinhosa, como se quisesse me confortar. Alice por sua vez se desencostou da porta e se ajoelhou na minha frente, pegando minhas mãos entre as suas e olhando em meus olhos.

— Vai ficar tudo bem, Bella.

— N-não... não vai... – respondi soluçando.

— Vai sim. – Rosálie discordou calmamente. – Edward e Emmett vão se recuperar.

Mas porque será que eu não conseguia acreditar nisso.

— Mas... mas... eles estavam cheios de – parei para respirar e tentei não gaguejar. – Mordidas, machucados e... e... san-gue.

— Os machucados vão se curar sozinhos – Alice começou sorrindo fraco. – Temos uma pele muito resistente, apenas uma força como a nossa, ou comparada a nossa seria capaz de nos machucar. Infelizmente, os lobisomens possuem uma força avantajada também, o que lhes proporciona poder nos machucar com suas unhas, ou objetos tacados em nós, mas irá sarar. Já as mordidas, lamento dizer que poderá demorar um pouco mais para sumir de vez.

— Por... por que?

— Porque embora a mordida de um lobisomem não contenha veneno e nem seja fatal para nós, como a nossa é para eles, ainda sim é uma mordida de lobisomem.

— Mas... e o san-san-gue?

Alice riu baixinho sem animo nenhum.

- Não é deles – respondeu. – Teoricamente não podemos sangrar porque estamos mortos. Não precisamos de sangue fluindo em nosso corpo para sobrevivermos, e para dizer a verdade, nosso corpo também não tem mais capacidade para gerá-lo.

Eu queria perguntar de quem era o sangue então, mas alguma coisa me dizia que em algum lugar havia um lobisomem seriamente ferido.

Esperei um pouco, tentando conter as lágrimas, e perguntei tentando manter a voz neutra.

— Então... Emmett e Ed-Edward, vão ficar bem?

— Perfeitamente bem. Prontos para outra.

Tremi só de pensar nessa possibilidade.

— Mas... eu quero vê-los...

— Desculpe Bella, como já disse, isso está fora de questão – Rosálie respondeu firme, e seu tom me avisou para não insistir.

— Depois, quando eles já estiverem um pouco melhores... e hm... bem alimentados, você poderá vê-los – me garantiu Alice.

— Eles vão ficar bem mesmo? – perguntei sentindo o alivio começar a voltar.

— Sim – Alice respondeu calmamente, e eu vi em seus olhos que ela não estava mentindo para me fazer sentir bem.

Infelizmente um outro sentimento se apoderava de mim, e era a culpa.

— Foi tudo minha culpa – murmurei baixinho.

Alice me olhou de um jeito estranho e Rosálie acariciou meus cabelos.

— Nada disso é culpa sua – Rose disse calmamente.

— É sim, se eu não tivesse saído correndo floresta afora, ele não teria ido atrás de mim.

— Você foi porque tinha um bom motivo para isso, mesmo que fosse um motivo sem fundamento, ainda era um motivo para se desesperar – eu a encarei brevemente, tentando entender do que ela falava, e então eu entendi. O meu sonho. Aquele sonho vivido.

E então as lágrimas voltaram, novamente.

— Foi tudo minha culpa – e eu já não falava mais apenas de Edward e Emmett.

— Não, não foi – Alice respondeu firme. – Se há alguém culpado aqui, esse alguém sou eu...

— Alice...

— Não Rose, você sabe que é verdade, eu deveria ter prestado atenção nos atos futuros deles, e deveria ter prestado atenção quando ele decidiu entrar na mente de Lily, e deveria ter prestado atenção quando Bella acordou decidida a salvá-la, e deveria ter prestado atenção quando o futuro de Edward sumiu, porque trombou com lobisomens, e deveria...

— Pare Alice. Você não tinha como saber, você estava ocupada, tinha que manter suas atenções voltadas para o perigo mais próximo.

- Não, eu poderia...

— Sim Alice, você PODERIA. Se fosse mais de uma. Mas quero que você se lembre, que mesmo sendo vampira e vidente, você ainda é apenas UMA. Não tente cuidar de todos à sua volta. Não há Alice suficiente para cada coisa que acontece nessa família.

O tom de Rosálie era tão firme, e tão claro, que até mesmo Alice ficou quieta olhando para o chão.

De todas as palavras que Rosálie e Alice haviam trocado, poucas delas eu havia entendido. Mas apenas outra palavra ocupava minha mente. Lily.

— Cadê a Lily? – perguntei temendo muito a resposta. – Ela está bem?

— Sim, ela está bem, um pouco abalada, mas bem. – Alice respondeu, ainda olhando para o chão. – No momento está dormindo em seu quarto. Um sono tranqüilo, finalmente.

Essa resposta me trouxe um imenso alívio, mas havia perguntas, muitas perguntas.

— O meu sonho... ele foi real... – comecei.

— Não, não foi – Rosálie respondeu calmamente, e eu me perguntei como ela sabia.

— Como você sabe?

Rose e Alice trocaram olhares misteriosos.

— Talvez está não seja a melhor hora para explicar os últimos acontecimentos, Bella

— Mas...

— Mais tarde, quando Edward, e Emmett já estiverem um pouco melhores, nós explicaremos tudo.

E eu percebi que era uma guerra perdida.

Ficamos em silêncio por um grande período de tempo, e eu percebi o sol nascendo, clareando o quarto de Edward, que até então estava escuro, e notei vagamente, que já haviam reformado todo ele. As várias prateleiras já estavam no lugar, e todo o sistema de som já estava novinho em folha, e o mesmo se diz sobre a enorme televisão.

Eu simplesmente perdi noção das horas no tempo em que ficamos ali, mas deveriam ser umas 7:00 quando Esme entrou no quarto, me chamando para comer.

— Tem certeza que é seguro levá-la para baixo? – Alice perguntou preocupada, mas eu já estava em pé, saindo pela porta.

Não estava com vontade de comer, na verdade sentia um imenso embrulho no estômago, mas me pareceu que estar em baixo, seria estar mais perto de Edward.

— Eles já estão alimentados – ouvi Esme responder em tom baixo para Alice. E eu parei brevemente diante desta informação.

Isso queria dizer... queria dizer que alguém, ou melhor, mais de um alguém, havia morrido. Hoje. Ali. Enquanto eu estava olhando o sol nascer.

E por um momento eu lembrei exatamente o que eles eram.

Monstros. Sedentos por sangue, mas no fundo, nem eu acreditava mais nisso, ou pelo menos não queria acreditar, pois no instante seguinte estava voltando a andar como se não tivesse escutado essa informação.

Passei o dia inteiro na cozinha, não que eu estivesse comendo, embora as varias tentativas de Alice, Rose e Esme, eu apenas belisquei algumas besteirinhas. Esme e Rose saíram varias vezes para ver Lily, e levaram refeições varias vezes para ela, mas sempre voltavam com as bandejas intocadas, e olhares preocupados.

Mas foi apenas ao crepúsculo, que eu tive alguma noticia sobre o que estava acontecendo dentro daquela sala.

— Eles já estão bem melhores – Jasper informou, com cara de cansado. E eu deduzi que ele não saiu de perto de Edward e Emmett, porque estava ajudando Carlisle com seu poder de anestesia.

Nem Esme, Alice ou Rose, pareceram surpresas, e isso me indicou que elas estavam ouvindo tudo o que se acontecia na outra sala.

— Ótimo – disse, me levantando – Posso vê-los agora?

Jasper fez um cara preocupada, e eu tinha certeza que estava pronto para me dizer um não, quando Alice interveio.

— Acho que não faria mal algum, Jazz... posso ver que eles não vão atacá-la, e se algo der errado, estaremos todos lá.

Jasper continuou com sua cara preocupada.

— Eu acho que ela tem o direito de vê-los, Jazz – Rose opinou calmamente – Sem contar que ela também tem o direito de saber o que está acontecendo, e o que está vindo, uma vez que já ficou comprovado noite passada que ela também está sendo afetada.

Por fim, Jasper acabou concordando, e seguimos para a sala onde eles estavam. Percebi quando estávamos perto da porta que eles formavam quase um escudo em volta de mim.

Jasper ia na frente, enquanto Esme e Rose viam ao meu lado, e Alice logo atrás, murmurando baixinho, tão baixinho que eu não conseguia ouvi-la, mas tinha quase certeza que ela estava relatando suas visões para os outros.

Quando Jasper abriu a porta senti uma sensação de alívio, por enfim, poder vê-los, mas ao mesmo tempo, um medo que antes não havia me apoderado se fez presente. E era o medo da raiva.

E se Edward tivesse com mais raiva de mim por ter saído correndo, e se Emmett tivesse com raiva de mim por ter atraído seu irmão para junto dos lobisomens.

Mas todos os medos e incertezas se evaporaram quando eu encontrei os olhos castanhos de Edward por trás da máscara. Não havia raiva ali, apenas... alívio. Ele me olhava com alívio.

Olhei para Emmett, que estava sorrindo grande, e se aproximou de mim me abraçando pelos ombros.

-- E ai Bells... – disse animando, e eu sorri. Nada apagava o animo de Emmett.

Percebi que seu braço estava todo cheio de curativos, mas ele não parecia nem ligar, parecia nem incomodá-lo.

Carlisle que até então, estava quieto sentado na poltrona na frente da lareira, com sua maleta médica do lado, me olhou e sorriu, mas era um sorriso apagado. Um sorriso preocupado.

— Tudo bem Bella?

Assenti vagamente com a cabeça, mas meus olhos não se desgrudavam dos de Edward, que continuava sentado imóvel, me olhando.

Edward já estava com um ar muito melhor, já não tinha mais sangue por suas roupas, e nem gramas e folhas por seus cabelos. Ele tinha vários curativos por seus braços, pernas, peito, abdômen, e pescoço, mas fora isso parecia bem.

Eu queria me aproximar dele, tocar em seu rosto, no qual havia um pequeno arranhão em sua bochecha direita. Mas não sabia se devia, não sabia se podia, mas principalmente, não sabia se ele queria.

Todos os olhares pareciam concentrados em nós, e todos pareciam notar minha incerteza. Bom, pelo menos Jasper percebeu, porque estava sorrindo fraco, e olhava diretamente para Edward.

Edward desviou os olhos dos meus e olhou rapidamente para Jasper, logo depois ele riu baixinho, e eu me senti calma por vê-lo sorrir.

— Pode se aproximar... – falou com sua voz cantada, voltando a me encarar nos olhos. – Não vou mordê-la, eu prometo.

No fim ele deu um sorriso torto que fez meu coração parar, e eu me vi indo até ele, mesmo estando incerta sobre esse `Não vou mordê-la´.

Eu só tinha olhos para o cara mascarado a minha frente, mas alguma coisa me dizia que os outros Cullen´s estavam tentando nos dar alguma privacidade, uma vez que vi Carlisle girar a poltrona de vez para frente da lareira, e Alice puxar Jasper para longe do sofá em que Edward estava.

Meu passos me pareceram lerdos e devagar, ou era apenas eu que estava usando a demora para memorizar cada traço de seus rosto perfeito.

Quando cheguei em sua frente, continuamos apenas nos olhando. Olhos no olhos.

Como se não houvesse nada mais importante, como se quiséssemos passar toda a angústia e medo que sentimos, um para o outro.

E com um gesto simples, ele fez sinal para eu me sentar ao seu lado. Mas eu não queria, não queria perder contato com seus olhos, que agora estavam de um castanho quase dourado.

Mesmo assim me sentei.

Ele não encostou nem olhou mais para mim, olhava para frente, para as costas da poltrona de Carlisle. Mas eu o sentia prestando atenção em mim, talvez na minha respiração descompassada, ou no meu coração que começava a bater alucinadamente.

Afinal, ele ainda era o Maníaco Mascarado.

- Pai... – ele chamou baixinho, mas todos pareceram ouvir, pois no momento seguinte todos estavam perto de nós, acomodados nos sofás, ou encostados na parede.

Carlisle foi o ultimo a se virar, e quando se virou sua expressão era séria.

Eu queria perguntar, queria saber o que estava havendo, mas antes que eu fizesse isso, ele já estava falando.

— Acho, que você deve saber da posição em que nos encontramos, Bella...

— Que posição? – indaguei sem conseguir me conter.

Mas Carlisle continou como se eu não o tivesse interrompido.

— Na província de Pisa, na Itália, em uma cidade chamada Volterra, existe um enorme clã de vampiros. Vampiros, fortes e super dotados, e infelizmente em grande quantidade. E há algum tempo esse mesmo clã ficou sabendo de uma criança no interior do estado de estado de Washington, com alguns dons... peculiares e esplêndidos. A capacidade de entrar na mente das pessoas e embaralhar seus pensamentos. O dom de fazê-los ver o que quiser. O dom que pode torturar alguém da maneira mais cruel, que pode levar alguém a loucura total, ou em certas vezes até a morte. Um dom que com toda a certeza atrai seres como eles – Carlisle parou, e me encarou mais profundamente. – Essa criança é a Lily.

Eu senti minha boca se abrindo ligeiramente.

Mas antes que eu pudesse sequer registrar tudo calmamente ele voltou a falar.

— E há algum tempo também, eles estão atrás dela. Mais ou menos na época em que você chegou a essa casa, eles também chegaram, por isso você encontrou a casa vazia naquele dia, porque precisamos nos esconder melhor, em um lugar em que eles já haviam passado. Por isso fomos a Port Angeles, enquanto alguns de nós ficaram aqui para manter os olhos neles.

— “No começo nós os subestimamos, achamos que eles não iriam tão longe por uma garotinha de 5, 6 anos, muito menos que pudessem chegar tão longe, mas agora vejo, que foi um enorme erro tê-los julgado tão cedo.”

- Por... por que? – forcei minha voz a soltar a pergunta, que saiu baixa e fraca.

— Porque os Volturi, — esse é o nome do clã de Volterra – possuem dons inimagináveis, e, creio, que nosso grande erro foi esse, não ter imaginado, não ter suposto. E um desses enormes dons é o de Demetri, por exemplo, que consegue rastrear as pessoas, se já tiver sentido a... `tenacidade´ de suas mentes, felizmente, ele nunca chegou perto o suficiente de Lily, para poder rastreá-la.

— Então... – comecei. – Como à encontraram?

Carlisle suspirou, e eu percebi que essa era a parte que mais o preocupava.

— Existe um outro. Um outro vampiro, com poderes tão, se não mais surpreendentes que metade do clã de Volterra juntos. Ninguém sabe como se chama, ou quantos anos tem, nem mesmo da onde veio, uma vez que ele já apareceu em Volterra transformado, apenas que esse é o guardião mais temido, o membro mais raivoso, e com toda certeza a mente mais fria, mais cruél, mais do que todos os outros Volturi, sendo que todos eles são cruéis.

— O q-que ele faz?

— Para ser sincero, um dos poderes dele se assemelha em muito os de Lily. O poder de entrar nos sonhos das pessoas, ou, no caso dele, até quando estão acordadas, ele já levou muitos à loucura com o que os deixa ver. Com os pesadelos reais que planta em suas mentes. E nesse exato momento, ele está em uma casa em Seattle, depois de ter passado o dia inteiro por Forks, procurando por Lily.

Eu não sei se ficava feliz por ele está em Seattle, ou se ficava horrorizada por ele ter estado em Forks.

— Mas isso é bom, não é? Quer dizer, se ele está em Seattle quer dizer que não encontrou nada aqui.

Carlisle balançou a cabeça em discordância.

— Ele sabe que Lily está pelas redondezas. Por isso saimos rapidamente com ela daqui ontem, porque ele estava se aproximando e precisávamos afastá-lo.

— Mas... como ele poderia saber que ela estava aqui? Não é o outro que é rastreador?

Carlisle sorriu fracamente, contente por eu estar prestando atenção.

— Sim, ele não consegue rastrear uma pessoa, mas ele pode fazer algo... parecido. Ele pode forçar à pessoa a dizer.

— Mas como?

Carlisle desta vez ergueu uma sobrancelha, como se esperasse que eu já tivesse juntado as peças.

— Entrando na mente delas. Quando estão acordadas se torna mais difícil achar uma beira para penetrar a cabeça de alguém, porque quando estão despertas estão movimentando os pensamentos. Mantendo a mente alerta, e normalmente atenta, se tornando, algumas vezes, quase impossível de se penetrar, mas quando estão dormindo, e sua mente relaxada, se torna tão fácil quanto tirar doce de criança.

E então eu me lembrei. Me lembrei do homem que apareceu no meu sonho, do jeito que ele gritava para saber onde Lily estava. Me lembrei do dia em que Lily parecia morta, e havia mordido o próprio pulso pensando que fosse o homem.

A compreensão penetrou minha mente, e eu arregalei os olhos.

— É ele? É ele que esteve atormentando os sonhos dele Lily? É ele que esteve no meu sonho?...

— Na verdade ele não esteve em seus sonhos.

— Mas...

— Foi Lily quem esteve em seus sonhos.

Eu olhei para ele abismada, e sem entender.

— Como?

— Os poderes de Lily estão evoluindo, há alguns dias atrás ela não conseguia entrar nos sonhos de ninguém, apenas recebê-los. Mas como pudemos constatar, ela esteve no seu sonho ontem à noite.

— Por que?

- Infelizmente, não sei responder com precisão. O que eu deduzi, pelo que Edward me contou, e Lily e Alice relataram. Foi que o vampiro estava no sonho de Lily, a atormentando, fazendo ela ver coisas horríveis, passando por torturas psicológicas agonizantes, e ela como qualquer ser humano, queria desesperadamente sair dali, mas como se sai da própria cabeça? Como se pode abandonar a própria mente? E acho que então, foi por isso que ela entrou em seu sonho. Estávamos bem distantes daqui, e eu não diria que fosse capaz, de que a primeira vez que entrasse na mente de alguém fosse de tão longe, como ela penetrou a sua.

— Mas porque ela entrou em meu sonho? Pra que?

— Por ajuda. Ela queria que você a ajudasse. Ouso dizer, que ela nem sabia o que estava fazendo, apenas fez. Um ato desesperado, impensado de um ser completamente torturado.

E eu me lembrei de Lily gritando para mim ajudá-la, para não deixá-la morrer.

— Infelizmente, não deu certo, e apenas deu uma arma que nosso caçador não conhecia.

— Que arma?

— Você!

E se tinha um momento no qual eu estava mais confusa e amedrontada, esse momento era agora.

Olhei rapidamente para todos os Cullen´s e todos eles se encontravam quietos e com os olhos fora de foco.

— Calma... isso não faz sentido... como?

— Você não percebe, Bella? – Carlisle perguntou me olhando sério. – Ninguém sabe que existe um grupo de vampiros em Forks. Ninguém sabe da nossa presença aqui, para os Volturi nós estamos em algum lugar da Antártida nos castigando pelo nosso passado e pelo que somos. Eles não fazem idéia de que estamos pelas redondezas, e muito menos que Lily está conosco.

— Eles não sabem que Lily está com vocês? – perguntei abismada.

- Não, ninguém sabe. Por isso o caçador ainda não a encontrei, porque ele não tem nem a remota idéia de com quem a menina esteja, quem são, e porque são tão complicados de ser encontrados. Mas quando Lily entrou em seu sonho, lhe mostrando o sonho dela, ela não foi sozinha.

E então eu entendi. Quando Lily havia entrado no meu sonho para pedir socorro, o caçador havia ido junto, e ele havia me visto. Ele me viu tentando ajudá-la.

— E agora ele sabe... ele sabe que de alguma maneira você está junto com Lily. Ele não sabe quem você é, nem o que é. Mas não demorará muito para descobrir, uma vez que ele já sabe que tem outra mente para entrar.

Aquelas palavras começaram a entrar por minha cabeça, me fazendo pensar em tudo aquilo. Eu estava ferrada.

— E agora? – perguntei – Ele vai entrar em minha mente, e me torturar até eu contar onde estamos?

Ninguém respondeu.

— Não sabemos o que fazer, Bella – Jasper comentou baixinho, e eu o encarei. – Ele é apenas um, mas tem poderes imagináveis, e muitos amigos que vão lhe dar apoio. Sei que isso não é o que você quer ouvir, mas precisamos que resista à esses sonhos, resista muito, até acharmos uma solução.

E eu sabia que teria que fazer isso.

— O que... o que... acontece se eles pegarem Lily?

— O plano inicial é para transformá-la. Mas, eu vejo, que o caçador não está nada feliz, com a possibilidade de uma criança com poderes que podem vir a ser superiores que os dele. Ele quer matá-la. – Alice respondeu de olhos fechados, como se estivesse descansando em pé.

Fiquei um minuto pensando sobre tudo isso. E uma coisa me veio a cabeça.

- Quando... estava sonhando, Lily estava de olhos vermelhos, e por vezes parecia me ameaçar...

— É o que o caçador fez à Lily naquela noite. Fez ela se ver como um monstro, como alguém sedento por sangue, que mataria até alguém de quem gosta, como você. Lily estava ali, em algum lugar dentro dessa menina que queria matá-la e ela queria muito sair dali.

E a imagem de Lily sendo agarrada pelo homem, e não estando mais com os olhos vermelhos, e sim com seus verdes, me fez acreditar.

Por isso ela me pedia ajuda ao mesmo tempo que parecia querer me atacar, porque ao mesmo tempo que era ela, não era.

— Mas como ele pode...? – comecei

— Pessoas com o dom dele, tem controle absoluto da mente da pessoa, consegue fazê-las ver e ser o que quiser. Mesmo que pessoas como a Lily resistam, ainda sim, ele consegue torturá-las.

Fixei o olhar na lareira atrás de Carlisle, e me coloquei a pensar. Não havia sentido, nada disso tinha. Mas não havia como negar.

Meu sonho não havia sido real, mas havia sido vivido, por isso minha nuca estava machuca, porque me auto machuquei.

Mas havia uma única coisa que eu não conseguia entender, e era a aparição de Isabel.

Isso não tinha nada haver com Lily. Nada haver com o momento. Então porque Lily a colocara em meu sonho.

Mas alguma coisa me dizia para não falar sobre isso. Então perguntei sobre uma coisa que embora não fosse importante, me chamou atenção.

— Carlisle – chamei – O senhor disse que ninguém sabe da onde esse caçador veio, nem o seu nome, então como o clã de Volterra o chama?

Carlisle me encarou rapidamente antes de responder.

Pesadelo. Ele é conhecido como O Pesadelo.

E alguma coisa só na pronúncia desse apelido se referindo à uma pessoa como aquele ser, me fez arrepiar.

Ao meu lado, Edward pareceu ter percebido, porque virou a cabeça para me olhar. E alguma coisa em meus olhos fez os dele se tornarem quase que amáveis.

E então para a minha surpresa, ele esticou sua mão branca e fria, e a colocou delicadamente sobre a minha que estava parada em minha perna.

Edward continuou me encarando ainda com a mão ali, e eu me senti segura mesmo sabendo que esse sentimento repentino não estava vindo de Jasper, estava vindo de Edward.

E foi com sua mão sobre a minha, que eu me senti preparada. Preparada para o desse e viesse.

Porque de alguma maneira, mesmo sem saber como, eu sabia que eu tinha um motivo pra me sentir confiante. Porque eu tinha Edward.

E naquele momento parecia ser tudo o que eu precisava.



Notas finais
N/A: Enfim, todo o cap. no site. Fico feliz em saber que alguém vai querer participar do concurso, sei q vão escrever teorias maravilhosas.Volto em breve, comum novo cap.Beijos;)Deb.