A Bella e a Fera
15 Complicações - Parte I
"De todos os perigos, o maior é subestimarmos o nosso inimigo."
(Pearl Buck)
A noite passou quase arrastada.
Depois que Edward me deixou plantada na frente do quadro pintado detalhadamente dele e de sua família, eu voltei ao meu quarto.
Deitei na cama, e rolei de um lado ao outro, lembrando o que havia sido tudo aquilo. A conversa calma de Edward, e a reviravolta que o transformou novamente no maníaco. Tudo isso rodava em minha cabeça, me impedindo de pegar no sono.
Eu já havia perdido as contas de quantas vezes tinha pegado o livro de `Orgulho e Preconceito´ e tentado em vão decifrar a frase. Mas ela estava quase, completamente apagada pelo tempo e a tinta fraca.
No fim, desisti de tentar desvendar a frase e joguei o livro com força no chão, bufando de raiva.
Me ajeitei novamente na cama, tentando esquecer tudo aquilo, mas outras perguntas se formaram em minha mente.
Onde estavam os outros Cullen´s? Onde estava Lily? Por que todos saíram? Por que apenas Edward ficou?
Mas a cada teoria sem nexo que eu criava, mas milhares de perguntas surgiam.
Desisti de tentar achar respostas, para meu meio mundo de perguntas. E virei para a janela tentando pregar os olhos. E a ultima coisa de que me lembro, foi de ver o sol fraco, nascendo por trás das árvores.
Eu estava andando por Forks, e sorria porque estava fazendo sol, lembro de ter sorrido para o céu antes de trombar com Jacob Black. Mas no instante seguinte, ele não era mais o Jacob. Ele tinha garras, dentes afiados, e muitos pelos. Ele era literalmente um monstro.
Corri para a direção contrária enquanto ele vinha atrás de mim, gritando que eu iria me casar com ele.
Corri com todas as minhas forças, e me embrenhei na mata. Foi só então que notei que Jacob, ou sei lá o que era aquele monstro, não estava mais atrás de mim, e me apoiei na árvore mais próxima, respirando aliviada.
Mas então um grito baixo e fino, me fez perceber o motivo porque o monstro não estava mais atrás de mim. Ele tinha arranjado outra vítima.
-- Tia Bella. – a voz chamava, ali perto. Ela estava perto. E eu reconhecia aquela voz. Era Lily.
Jacob estava atrás de Lily.
-- Tia Bella, me ajuda, por favor. – eu podia ouvi-la perfeitamente, mas não conseguia vê-la.
E então percebi porque não conseguia vê-la. Porque ela estava embaixo de mim.
Olhei para a terra da floresta, e vi uma enorme figura, desenhada na terra lamacenta.
Era um coração esquisito.
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Um coração de duas pontas.
-- Tia Bella, por favor. Não me deixe morrer. – Lily tornou a pedir, e um uivo alto me fez tremer, e me abaixar rapidamente.
A voz continuava me pedindo ajuda, enquanto eu tirava a areia com as mãos. Mas antes que eu percebesse, já havia cavado tudo. E lá estava. O caixão branco, de adulto de Lily.
-- Vai ficar tudo bem Lily. Não deixarei você morrer. – murmurei, enquanto puxava a tampa do caixão.
Mas o que eu vi, me fez pular para trás e gritar desesperada.
Aquela não era a Lily. Não podia ser.
A imagem era horrenda. Era perturbadora. Torturante.
Seus cabelos loiros avermelhados, estavam embaraçados, e bagunçados, de um vermelho bem mais forte. Seus braços e pernas, estavam cheios de hematomas, arranhões e machucados.
Ela tinha sangue, barro e sujeira, por toda sua pele, e então eu notei porque seus cabelos pareciam mais vermelhos, porque eles estavam ensangüentados. Como tudo nela.
Mas foi então que seu rosto me chamou atenção. Porque ele não estava ensangüentado.
O rosto de Lily, estava limpo. Limpo até demais. Branco como a neve. Branco como mármore. Branco como... um morto.
A imagem me deu náuseas, raiva, pena e dor. Eu não sabia se ela ainda estava viva, não sabia se devia encostar nela.
Mas então, ela murmurou de olhos fechados.
-- Por favor Tia Bella, faça essa dor parar. Não me deixe morrer.
E isso foi tudo que precisei para querer mais do que tudo salvá-la, garatir que ela iria ficar bem. Cuidar dela. Protegê-la. Com a minha vida se fosse necessário.
-- Eu não vou te deixar morrer, Lily. Não vou. – murmurei, quando me preparava para pegá-la no colo.
Mas quando minha mão tocou seu rosto pálido como a neve, e gelado como gelo, seus olhos se abriram.
Não eram mais de seu verde esmeralda habitual. Eram vermelhos. Um vermelho bem vivo. Um vermelho de fogo. Um vermelho de sangue.
Abafei um grito, enquanto processava a imagem. Não era um vermelho igual os dos Cullen´s. Não era apenas a pupila.
Era toda a extenção de seus olhos.
Cada pequeno cantinho de seus olhos estava estampado com o vermelho mais vivo e sangrento que já havia visto. Eles pareciam brilhar.
Ela tinha os olhos de sangue, como se tivesse sangrando por eles.
-- A senhora está com medo de mim, Tia Bella?
A encarei apavorada, e um sorrisinho demoníaco surgiu em seus lábios.
-- Não vai mais me salvar, Tia Bella? A senhora não gosta mais de mim?
Seu sorrisinho sádico aumentou, me causando arrepios de medo por todo o corpo.
-- Bella... – ouvi a voz ao longe, mas não conseguia reconhecê-la.
-- A senhora vai me deixar aqui, Tia Bella? – Lily perguntou fechando o sorrisinho. – Não me deixe aqui!
Suas ultimas palavras, soaram sérias. Como uma ordem.
-- Bella... Bella... você está ai? Bella... – a voz foi se tornando mais próxima. E então eu a reconheci.
Era a voz de meu pai. A voz que eu não ouvia parecia fazer anos.
-- A senhora não vai me deixar! – Lily falou, virando a cabeça levemente para mim, e me encarando com seus olhos nadando em sangue.
E então eu percebi. Aquela não era mais a Lily.
Quando ela sorriu novamente, expondo dois caninos afiados prontos para o ataque, eu comecei a escalar o buraco, tentando sair dali.
-- A senhora não vai a lugar nenhum. Eu não vou deixar.
-- PAI! – gritei, enquanto tentava escalar a terra úmida.
Mas a voz de meu pai não respondeu mais. Nada respondeu.
-- Oi. – uma voz grossa e demoníaca falou, enquanto se abaixava ficando perto de meu rosto contorcido.
Ele tinha os cabelos negros, e os olhos vermelhos de fome. Mas eu nunca havia visto aquele o rosto. Nunca.
E quando eu fechei os olhos esperando pelo abate, escutei um grito fino.
O homem não estava querendo à mim. Ele estava querendo à Lily.
-- TIA BELLA! – ela gritou. – NÃO DEIXA ELE ME MATAR!
O homem agarrou Lily pelo pescoço, e a subiu até ela ficar no níveo de seus olhos.
-- Aonde você está? Diga-me aonde você está! – ele mandava apertando cada vez mais seu pescoço.
Lily engasgou, tentando respirar.
-- DIGA-ME ONDE TE ENCONTRO. COM QUEM VOCÊ ESTÁ? DIGA! – ele gritava a chacoalhando.
Lily tentou virar a cabeça para me olhar, e então eu vi. Seus olhos tinham voltado a ser verdes. Verdes como esmeraldas.
Percebi as lágrimas começarem a escorrer por sua face. As lágrimas de prata.
Não sei como, nem de que jeito, apenas que no segundo seguinte eu estava agarrada as costas do homem, tentando tirar a mão dele do pescoço de Lily.
Segurei sua mão branca e fria, e a puxei para trás.
Então notei que ele havia uma mordida em seu pulso. Uma mordia funda. Muito funda.
Mas então com a outra mão, ele me tirou de suas costas, me jogando com força para longe.
Senti meu corpo voar, e bater com força em uma árvore.
Percebi meus olhos se fechando, e uma dor cruciante, junto com um cheiro enjoativo, tomar conta.
-- Não o deixe. – uma voz disse perto de mim. E eu virei meus olhos quase se fechando para olhar quem era a pessoa.
-- Não o abandone, Bella. Ele precisa de você. – a voz doce e meiga dizia.
Ela estava com um vestido branco e comprido, e parecia ter uma luz saindo de seus poros. Ela tinha uma pele alva, não branca como a de um vampiro. Mas branca como a minha. Os cabelos castanhos avermelhados, caiam em perfeitas ondas por seus ombros, e seus olhos de chocolate pareciam ser profundos e ao mesmo tempo brilhantes.
E na mesma hora eu tive certeza.
Aquela era Isabel.
Eu queria abrir a boca. Eu queria falar com ela. Queria saber do que ela falava, porque de algum modo eu me sentia ligada à ela. Mas meus olhos foram mais fortes, e antes que desse por mim, eles já estavam quase fechados.
-- Você é a vida dele agora. Não o mate. – e foram as ultimas palavras que ouvi.
-- BELLA! MERDA, BELLA, ACORDA! – alguém gritava alto, enquanto me sentia sendo chacoalhada pelos ombros.
Abri meus olhos, sentindo todo o meu corpo tremer.
Demorei alguns segundos pra perceber que não estava mais sonhando. Que não estava mais na floresta, e que não era Isabel na minha frente.
Eu estava no meu quarto na mansão dos Cullen´s.
Edward estava ao meu lado, com o rosto contorcido. Pela primeira vez, eu vi medo em seus olhos.
Senti minha cabeça latejando horrivelmente, e tentei me levantar. Mas ele me empurrou novamente.
-- O que houve? – foi a única coisa que consegui pronunciar
O que havia sido tudo aquilo?
Foi quando levei minhas mãos pro lugar na nuca aonde estava latejando. E foi então que percebi que estava sangrando.
A minha batida na cabeça havia sido real.
Meu pesadelo havia sido real.
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