A Bella e a Fera
8 Capítulo 8 - Lágrimas de Prata
"As lágrimas possuem uma força especial: derretem gelo e aquecem corações."
(Textos Judaicos)
Não deve ter demorado muito e os outros Cullen's voltaram.
Alice tinha um sorrisão que ia quase até a testa, por algum motivo desconhecido. Bom, pelo menos para mim era desconhecido. Edward parecia saber muito bem o motivo, já que tinha a cara emburrada para irmã. Mas por trás do sorriso enorme de Alice, ela tinha um ar de preocupação que era compartilhado pelos outros Cullen's. Todos eles por Lily.
Rosalie e Esme mal falaram quando chegaram, apenas se sentaram quietas ao lado de Lily, que não estava mais na sala esquisita, cheia de máscaras, e sim em seu quarto cor-de-rosa.
Emmett, quis matar Edward quando entrou pela porta da mansão, por ter me assutado, me feito fugir, quase me matado, e quase me deixado morrer por um leão da montanha, creio que Alice contou para ele os acontecimentos. Porque ele literalmente, chegou berrando com o maniaco. Mas Jasper mandou Emmett calar a boca, e ficar calmo, antes que ele perdesse o controle novamente. Deve ser dificil um poder como o de Jasper, eu não sei se aguentaria também.
Já Carlisle, bom, ele está cuidando de Lily há horas, enquanto todo o resto está em volta da cama dela. Todo resto...
MENOS A HUMANA IMPRESTAVEL AQUI!
Por que? Porque eles NAO me deixaram vê-la.
Claro que quando um bando de vampiros te manda ficar sentada e esperar, o que você faz? Você obedece. Mas realmente estava dificil. Ainda mais com uma curiosidade suicida como a minha.
Eu estava sentada há horas na cozinha, comendo bolacha de morango, enquanto esperava pacificamente.
Ok, nem tão pacificamente assim. Eu estava completamente inquieta. Queria saber porque ela estava quase morta, quando eu a vi. Queria saber o que era tudo aquilo.
Mas por incrivel que pareça, havia outra coisa além de preocupação e curiosidade em minha mente. E ele se chamava Edward Cullen.
Não era o horário mais apropriado para pensar nisso. Mas eu sabia que tinha algo de diferente, e de alguma maneira ele não saia da minha cabeça. Aquele rosto branco como mármore, coberto por aquela máscara queimada, que dava para ele um ar maior de mistério. E Deus, o que é aquele cabelo bagunçado na cor bronze? Parece ser tão fofo e macio.
Suspirei. Enquanto me levantava pra pegar um pouco de água. Mas parei estática enquanto segurava um copo.
EU SUSPIREI? Por quê eu suspirei?
Eu suspirei quando pensei em Edward Cullen. Não isso não estava certo. Ficar sozinha me remoendo de preocupação, havia danificado meu cérebro, só pode.
Dizem que a solidão pode nos levar a loucura. Deve ser isso.
Mas a imagem dele voltou a minha mente, me fazendo soltar outro suspiro involuntário.
Caramba. Realmente tinha que ter algo errado ali. Mas então por que a imagem dele não queria sair da minha mente?
Bom, havia uma explicação lógica: Depois de tudo o que aconteceu hoje, e de todas as outras vezes que ele tentou, e quase conseguiu me matar, então agora eu pensava nele, como uma vitima pensa em seu agressor.
Mas então a onde estava o medo?
Sim. Eu estava louca de preocupação, e imaginando coisas. Não podia ficar mais um segundo ali.
Me virei e segui para fora da cozinha, subindo rapidamente para o quarto de Lily, que estava com a porta fechada.
Ouvia murmúrios no lado de dentro, e não aguentei. Fui forçada pela minha curiosidade, a abaixar os olhos e espiar pela fechadura. Mas nem cheguei a ver nada, pois no mesmo momento a porta de abriu, dando espaço ao rosto mascarado de Edward.
-- Será que além de terem esquecido de lhe ensinar a se cumprimentar educadamente, esqueceram também de lhe avisar que é sem educação e decadente, espiar pela fechadura?
Eu ia perguntar como ele sabia, que eu estava na porta. Mas achei que seria besteira.
Quer dizer, eles todos no minimo ouviram meus passos, minha respiração, se duvidar até as batidas do meu coração. Sem contar que devem ter sentindo meu cheiro, e no minimo Alice deve ter me visto subir antes mesmo que eu o fizesse. E Jasper já devia estar sentindo toda minha curiosidade que estava enorme, assim que coloquei o pé na escada. Então pra que perguntar né?
-- Desculpe. — murmurei, abaixando a cabeça. Mas logo a levantei novamente, e tentei olhar dentro do quarto.
-- Já não te avisamos que não é para vir aqui?
-- Sim, eu sei. Mas eu quero saber o que esta acontecendo com Lily. — exclamei, tentando olhar por entre seus braços.
A unica coisa que consegui ver foi os cabelos loiros de Rosalie, de costas para a porta e a cara confusa de Jasper. Por quê ele estava confuso?
-- E você sabera. Mas antes precisamos deixa-la bem. — Alice respondeu se aproximando, e me empurrando, enquanto vinha junto comigo.
-- Mas... — tentei argumentar, enquanto ela fechava a porta e me puxava.
-- Mais tarde Bella.
Bufei baixinho e cruzei os braços, descendo as escadas com passos fortes, com ela ao meu lado, parecendo segurar o riso.
Sentei na mesma sala, que eu já começava a conhecer muito bem, e apoiei o queixo nas mãos, e os cotovelos nos joelhos.
Me sentia muito impaciente e curiosa, mas a imagem de Edward não desgrudava de minha mente. E eu não entendia o porque.
Alice ficou o tempo todo quieta e com o olhar desfocado.
Ela estava vagando pelo futuro. Só pode.
-- Estão descendo. — murmurou. E eu não sabia se ela tinha visto isso, ou ouvido os passos. Apenas que dali a meio minuto a porta foi aberta dando passagem, a um Emmett sorrindo fraco, uma Rosalie com o olhar desfocado, um Carlisle pensativo, e um Jasper ainda com a expressão confusa.
-- E então? — perguntei. Olhando pela porta. A onde estava Edward?
-- Não da mais para te esconder isso Bella. — Carlilse falou, como se não tivesse me ouvido, e sentando em minha frente.
-- Isso o que? Será que alguem se importa de me contar o que está acontendo?
Carlisle suspirou, e eu senti minha curiosidade e inquietação amenizar. Jasper era um anjo.
-- Bom, lembra-se que falamos que Lily é uma garota especial? — claro. Como iria esquecer? Foi só isso que eles me responderam até agora.
-- Sim!
-- Certo. Vou explicar de uma vez. Apenas peço que não fique com medo.
Concordei com a cabeça.
-- Lily tem um dom. — disse de uma vez.
Eu o encarei.
-- Como Alice, Jasper e Edward? — indaguei. Ele sorriu, feliz por perceber que eu nao fiquei com medo, apenas surpresa.
-- Sim.
-- Mas Lily é... humana. — comentei.
-- Exato. Mas os poderes de Alice, Jasper e Edward, já existiam antes deles se tornarem vampiros. Apenas se expandiu depois disso.
-- Sim, mas o que Lily... — eu estava é curiosa pra saber o que Lily fazia.
-- Lily faz o que chamamos de projeção astral. — Carlisle me interrompeu, de uma vez.
O olhei confusa.
-- "Ela é capaz de entrar dentro dos sonhos de outras pessoas, fazendo-as ver o que quer, por assim dizer. Bom pelo menos será isso."
-- Como assim 'será'?
-- No momento Lily, apenas recebe os sonhos dos outros. Mas isso porque ela é pequena. Esse poder vai aumentar. Já está aumentando.
-- Já está?
-- Sim, e não apenas esse. Há poucas horas descobrimos que Lily adquiriu um outro dom... um tanto peculiar.
-- E o que...
-- Você terá que ver. — murmurou, me interrompendo. — Não sabemos o que é ainda.
Então Carlisle se levantou, e eu fiz o mesmo, seguimos pela porta, acompanhados dos outros, que estavam em silencio total, e até então imoveis como estatuas.
Quando chegamos ao quarto de Lily, Carlisle me olhou.
-- Não toque. — e eu me perguntei em que.
Entramos e eu vi Edward e Esme ao lado de Lily, que ainda estava pálida como gesso, e suava frio.
A preocupação me tomou, mas Jasper colocou uma mão em meu ombro.
-- Não há com o que se preocupar. — murmurou, enquanto eu sentia uma calma me tomar.
Me aproximei da cama, e olhei para Lily, que estava com a cabeça virada para o outro lado.
-- Lily. — chamei. Ouvi ela soluçar. E encotei minha mão levemente na sua. — O que aconteceu Lily?
Ela não respondeu.
-- Olhe para mim, por favor. — pedi docemente.
-- Não. — ela disse em um soluço — Você vai me deixar.
-- Eu não vou a lugar nenhum anjo.
-- Mas você vai... — outro soluço. — Você vai, vai me deixar, quando ver...
-- Ver o que? — insisti.
-- Mostre para ela meu amor. Ela não vai te abandonar. — Esme incentivou.
-- Você promete? — Lily perguntou para mim.
Parei um segundo estatica. Como poderia abandona-la?
-- Prometo!
Lily então soltou um ultimo soluço e virou a cabeça para meu lado.
Ela tinha enormes olheiras embaixo dos olhos que a faziam ter um ar muito doentio.
Mas não foi isso que me fez dar um pulo para trás e arregalar os olhos. Foi o fato de que seus olhos estavam prateados, um prateado que brilhava, cintilava. E por suas bochechas, escorriam duas finas lágrimas.
Lágrimas de Prata.
Deus...
Como ela podia estar chorando PRATA?
Como podia ser?
Não. Isso não podia ser real. Vampiros já eram demais para acreditar. Mas lágrimas de prata em LILY? Era absurdo. Impossivel!
Quer dizer o que seria o proximo? O cachorro espirrando diamante?
Olhei para eles com a boca aberta. Mas antes que eu pudesse dizer, ou ouvir qualquer coisa, senti uma sensação estranha.
Como se meu sangue estivesse congelando. Literalmente. Como se tivessem introduzido pedaços de gelo em minha veia.
E percebi tarde demais que mal conseguia me mover.
-- TIREM A DAQUI! — Alice berrou em algum canto que eu não conseguia enxergar, enquanto Emmett que estava ao meu lado me puxava pela cintura me tirando do quarto, acompanhado de Jasper.
Eu ainda estava paralisada. Como uma estatua.
-- O que foi isso? O que ela tem? — Jasper perguntou do meu lado, enquanto Carlisle aparecia com Edward.
Será que Jasper sentiu a sensação de congelamento, que parecia estar parando meu organismo?
Carlisle tinha as mãos na cabeça e me encarava preocupado. Enquanto Edward apenas me encarava, sem reaçao alguma.
-- Você está bem Bella?
Senti minha boca congelada. Era como se meu corpo estivesse em um freezar.
-- Sim. — respondi em um sussuro, forçando meus lábios a se movimentarem. E percebendo que havia saido vapor de minha boca, como os que eu faço quando está muito frio.
Minha garganta estava latejando dolorosamente, e minha voz estava fraca e rouca, como se eu estivesse com um forte resfriado.
-- O sangue voltou a correr. — Edward murmurou, dilatando as narinas.
Como?
-- E a cor está começando a voltar. — Emmett comentou.
Minha cor?
Olhei minhas mãos. Elas estavam brancas como gesso. Como os dos Cullen's. Como se eu estivesse morta.
-- Vamos tirá-la de perto do quarto. — pediu Carlisle. Enquanto Emmett me pegava novamente no colo.
Eu ainda estava dura, como se tivesse virado um iceberg. E Emmett pareceu ter notado, porque me lançou um olhar preocupado.
-- O que foi isso Carlisle? — Jasper perguntou. — Senti uma emoção estranha. Nunca senti nada igual, nem se quer parecido. Nem sei se é uma emoção. Mas não foi muito prazeroso de experimentar.
Sim. Jasper havia compartilhado desse momento frio comigo. Ou quase.
-- Não tenho certeza. — Carlisle murmurou como se estivesse falando sozinho, enquanto Emmett me colocava deitada no sofá da sala, em que há minutos atrás, eu estava sentada impaciente para saber o que se passava.
-- Ela vai ficar bem? — Jasper tornou a perguntar, encostando sua mão em meu ombro, e me passando um sentimento de desleixamento. Como se eu não tivesse nada com o que me preocupar.
-- Creio que sim. — Carlisle respondeu se abaixando em minha frente. — A cor está voltando, isso quer dizer que o sangue já voltou a circular. Mas ela continua fria.
Como ele sabia que eu ainda estava fria, se ele também era frio?
-- Como... — comecei, forçando o sentimento de que eu não devia me importar com nada amenizar um pouco, pra conseguir matar a pequena curiosidade que crescia. Percebi que quase não havia saido vapor por meus lábios, dessa vez.
-- Por estar viva, você é naturalmente quente. Se eu te tocar, eu sinto essa quentura. Mas como você está fria, eu sinto como se estivesse tocando em meu proprio corpo. Não te sinto fria. Apenas como se fosse um nivel normal de temperatura. Como o meu é para mim. — Carlisle me interrompeu, como se lesse minha mente. Eu me perguntei se era realmente só Edward que fazia isso.
-- Emmett acenda a lareira, por favor. Ela precisa se aquecer. — Carlisle pediu, enquanto me olhava pensativo.
-- Carlisle? — Jasper chamou, como se pedisse por uma explicação.
-- Eu não sei Jasper. — Carlisle murmurou ainda me encarando. — Mas tenho uma pequena teoria.
-- Compartilhe. — Emmett pediu, se levantando da frente da lareira, enquanto eu sentia a quentura começar a me tomar. Isso era bom.
-- Creio que Lily tenha feito isso com ela. — Lily? Como?
-- As lágrimas? — Edward perguntou, e logo depois fez uma cara de compreensão. — Tem lógica.
Claro. Ele estava lendo a mente de Carlisle.
-- Er... eu não leio mentes sabe. Entao será que dava para explicar para os pobres seres sem poderes exuberantes em voz alta, por favor? — Emmett pediu sentando ao meu lado de cara fechada.
Fiquei feliz de não ser a unica boiando naquela historia.
-- Creio, e acho que estou certo em afirmar, que foram as lágrimas de Lily que causaram o congelamente sanguíneo de Bella.
-- Mas... — Jasper parecia tão confuso quanto eu. E percebi que o sentimento de desleixamento começava a me abandonar.
-- Nos não sabiamos os efeitos que aquelas lágrimas poderiam trazer. — Carlisle interrompeu. — Ela começou a chorar assim há pouco tempo, logo depois que sairmos para caçar. E no momento me parece a unica resposta plausível para esse efeito inesperado.
-- O Senhor está dizendo que Lily está chorando... veneno? — Emmett perguntou com uma expressão horrorizada. Bom... eu estava tão horrorizada quanto ele.
-- Basicamente isso. — respondeu. — Claro que ela não faz por opção. Mas o veneno está saindo em forma de lágrimas, e expelindo pelo ar. E creio que foi o cheiro que congelou o sangue de Bella. Talvez se ela tivesse tocado ou ingerido estaria morta no presente momento.
-- Mas por que apenas com Bella? Por quê conosco não acontece nada? — Jasper indagou.
-- Porque ela é humana. Não teria o que congelar em nós, uma vez que já estamos mortos. Pelo menos nosso organismo está. — respondeu.
-- E o cachorro? Ele esta vivo também. — Emmett insistiu.
-- Pelo que você me contou, ela começou a chorar assim quando foi procurar por vocês. Creio então, que ela não havia expelido veneno perto do animal ainda.
Emmett adquiriu uma expressão esperançosa.
-- Então ela ainda pode chorar perto do vira-lata? — ele murmurou baixinho.
-- Emmett! — repreendeu Carlisle. — Lily não é uma maquina de matar.
-- Certo! — Emmett concordou. — Desculpe.
Mas ele continuou com aquela expressão de esperança. Me perguntei porquê ele detestava tanto o animal.
-- Isso explicaria muita coisa. — Carlisle continuou, como se Emmett não tivesse o interrompido. — Mas...
Ele parou e eu percebi os olhos dele se arregalarem momentaneamente, para logo depois tomarem uma expressão muito preocupada.
-- Não! — Edward murmurou, olhando horrorizado para Carlisle.
Era a primeira vez que via uma feição igual em seu rosto.
-- É a unica explicação Edward. E se for isso mesmo, precisamos arrumar uma maneira de retê-lo.
-- Ei... — Emmett chamou. — Sou apenas um simples vampiro, então será que dava para pararem de se falar por pensamento, e me explicar com a boca, por favor?
Mas nenhum dos dois parecia estar escutando, estavam quietos, absorvidos em pensametos.
-- O que foi? — Jasper perguntou. — Não estou gostando desse sentimento saliente de preocupação.
-- Lily. — Carlisle respondeu. — É isso que está fazendo-a ficar doente. Por isso ela está pálida, e fria. Como se estivesse morta. O veneno está acabando com ela propria.
Demorei um segundo para conseguir absorver o que ele havia acabado de falar.
-- Mas... — Emmett começou, e já não havia mais um unico traço de bom humor em seu rosto. — Isso está a... matando?
-- Pelo que estamos vendo há algumas horas, infelizmente está sim.
Estava horrorizada demais para sequer falar.
-- E como iremos detê-lo? — Jasper perguntou com uma expressão concentrada como se estivesse se esforçando para conseguir manter a calma no recinto.
Carlisle passou as mãos nos cabelos, atordoado.
-- Não faço idéia. Creio, apenas, que tenha como retardá-lo. Talvez se ela parar de expeli-lo, o veneno se amenize dentro de si. Mas não posso afirmar por quanto tempo.
Antes que qualquer um pudesse falar alguma coisa, Alice entrou com uma expressão séria no rosto.
-- É verdade?
-- Sim! — Carlisle respondeu. — Talvez seje melhor voltarmos para o quarto e tentar acalma-la.
Eu tentei me levantar e Emmett me olhou como se eu fosse idiota.
-- O que pensa que está fazendo?
-- Indo ver Lily. — respondi como se fosse obvio.
Ele me forçou para baixo.
-- Nem pensar. Você quase morreu há poucos minutos atrás, e quer voltar para que? Terminar de morrer?
Eu estava abrindo a boca pra falar, mas Jasper foi mais rápido.
-- Você não pode ir Bella. — comentou. — Irá vê-la quando tivermos certeza de que não corre mais perigo algum.
Deitei novamente. Era uma luta perdida.
Acompanhei com o olhar, Jasper e Emmett se retirarem da sala, e suspirei, me aconchegando mais no sofá, para ficar mais perto do fogo. Ainda sentia o gelo dentro de mim.
Fechei os olhos, pensando sobre isso.
Lily não podia morrer. Não podia. Ela não chorava veneno por que queria.
Tudo isso parecia tão irreal. Tão impossivel.
Mas novamente a imagem de Edward apareceu em minha mente. Fazendo a confusão que havia amenizado retornar.
O que era aquilo?
Tentei desviar meus pensamentos. Mas a imagem dele voltava a aparecer como se fosse parte de mim.
Senti raiva. Por que eu estava pensando nele? Eu devia era ter medo dele.
Maniaco idiota.
Mas nada parecia afastar sua imagem de meus pensamentos.
Fechei os punhos, e trinquei os dentes.
-- Me deixa! — murmurei, como se falasse fosse tirar ele de minha mente.
-- E se eu não quiser?
Era ele.
Me sentei tão depressa que senti meus ossos — ainda fracamentos congelados — quase se partirem de dor.
Olhei para o canto de onde havia vindo a voz, e o vi.
Estava sentado em uma das poltronas mais afastadas como se nem respirasse. Na verdade, tenho praticamente certeza que ele não estava respirando.
Foi então que me toquei. Eu não havia o visto sair, junto com os outros.
Como não percebi antes?
Ele se levantou como se deslizasse e se sentou na poltrona que estava em minha frente, e de costas para lareira.
-- Não sabia que estava aqui. — murmurei. Sentindo uma pontada de medo começar a crescer. Mas o medo parecia muito pequeno, comparado há algum outro sentimento que eu não estava compreendendo.
-- Para dizer a verdade, você quase nunca sabe quando estou por perto. — eu o encarei confusa.
Mas ele não parecia que iria me explicar.
Bom. Acho que já estava me acostumando com a falta de explicação nesse lugar. Especialmente vindo dele.
-- O que está fazendo aqui? — murmurei encarando seu rosto mascarado.
-- Até onde me recordo, essa é minha casa. — respondeu calmamente.
Senti minhas bochechas esquentarem.
-- Não. — falei rapidamente. — Quis perguntar por que não está junto com os outros? Com Lily?
Ele parou um segundo e me encarou como se decidisse se responderia.
-- Não quero ficar perto dela. Não no momento, pelo menos. — respondeu.
-- Por que? — perguntei antes que pudesse me controlar.
Ele me lançou um olhar frio, como se dissesse que não era do meu interesse.
-- Não que eu te deva satisfações. — começou com um tom arrogante. — Mas como sei que sua curiosidade é o dobro do seu tamanho, vou responder.
Eu o encarei esperando que ele continuasse. Até que enfim alguma resposta viria dele.
-- "Não quero ficar perto dela, porque não quero ler sua mente." — terminou, e eu o encarei confusa.
-- Por que não? — indaguei.
E ele suspirou como se eu fosse retardada.
-- Não quero ter que escutar seus pensamentos. Ela está triste, e já sabia que estava morrendo, antes mesmo que nós soubéssemos... — ele parou, como se estivesse perdido em pensamentos.
Edward colocou uma das mãos no cabelo, enquanto olhava para outro direção.
Quando seu olhar voltou em mim, seus olhos estavam torturados. Um olhar que eu só havia visto uma única vez em seu rosto. Até agora.
-- "... É doloroso... — ele parou, como se estivesse escolhendo as palavras certas. — ... presenciar seus pensamentos em momentos como esses. São tão puros; tão inocentes; tão corajosos; tão humildes; tão... desesperadores. Não suportaria mais um minuto os ouvindo. — completou em um murmúrio tão rápido, que eu tive que concentrar todas minhas forças para conseguir ouvir.
-- "Eu a amo. Não quero ter que presenciar que em sua mente, ela já esteja aceitando a morte. Mesmo que inconscientemente." — completou olhando para um ponto desconhecido no chão.
E naquele momento, minha vontade era de abraça-lo. Conforta-lo. De alguma maneira.
Ele parecia tão... humano. Era como se ele tivesse sentimentos. Como se ele fosse capaz de sentir dor.
Era angustiante, vê-lo daquela maneira.
Mas nem por um momento, pensei que ele a considerasse. Nem por um minuto, achei que ele a amasse. Nem por um segundo, acreditei realmente que, talvez ele tivesse sentimentos.
E o pior de tudo era que eu entendia o que ele estava sentindo. Mas vê-lo expressando um milésimo de angústia, fez tudo parecer pior.
Eu não sabia o que falar. Com toda a certeza ele não iria aceitar tão facilmente que eu o abraçasse. E palavras de conforto provavelmente soariam como mentiras para ele.
Então apenas fiquei quieta. Abracei meus joelhos, colocando o queixo em cima deles, e encarei as chamas.
Não saberia dizer por quanto tempo ficamos naquele silêncio. Não constrangedor. Apenas silencioso. Como se cada um estivesse perdido nos proprios pensamentos.
-- Ela ouviu você falando enquanto dormia. — Edward comentou de repente, me fazendo assustar, e encara-lo.
-- O que? — perguntei, para ter certeza que não tinha entendido errado. Eu não falava dormindo. Falava?
-- Quando Emmett te levou ao quarto dela, e você adormeceu em sua cama. Você falou. Você sonhou. E Lily viu tudo. — respondeu. E eu o encarei sem entender.
-- Como assim?
-- Lily consegue ver os sonhos de outras pessoas. — respondeu. Assim. Carlisle já havia me dito. Mas depois das lágrimas de prata, eu esqueci tudo que havia escutado antes. — Provavelmente isso irá aumentar. Mas por enquanto ela só consegue receber os sonhos.
-- O que eu sonhei? — perguntei, por que nem eu lembrava. — Você viu na mente dela, não viu?
Ele me encarou demoradamente, e assentiu.
-- Você sonhou com seu pai. Com ele aparecendo e lhe dizendo para voltar para ele. Para logo depois aparecerem morcegos com enormes dentes, e começarem a atacar os dois. Mas eles apenas te machucavam. Em seu pai, por outro lado, eles estavam tirando a pele, como se o estivessem transformando em outra pessoa... — e então ele parou.
E eu lembrei.
Eu sabia o que vinha depois.
No lugar aonde estava meu pai, havia aparecido ele. Edward. Com caninos expostos e olhos vermelhos, vindo em minha direção. E foi quando Emmett apareceu do outro lado me esticando a mão e pedindo para mim não ter medo, que ele não deixaria nada me machucar, mas então Emmett desapareceu como névoa, e Jasper apareceu em seu lugar, tentando me acalmar, mas para logo depois perder o controle e tentar me atacar como Edward. E quando os dois saltaram, eu acordei.
Só que havia algo mais. Eu gritava no sonho. Mas o que?
-- O que eu gritei? — perguntei com a voz abafada. — No sonho? O que eu estava gritando?
Ele me encarou como se quisesse que eu lembrasse sozinha. Mas então por fim respondeu.
-- Meu nome.
Não posso dizer qual foi minha reação. Já que eu não estava exatamente surpresa. Apenas completamente, confusa. Não entendia porque havia pronunciado seu nome em meu sonho, e não entendia porque ultimamente ele não saia de minha mente.
Nada parecia certo. Estava tudo confuso demais para minha cabeça.
Lancei um olhar de esguelha para Edward, que me olhava concentrado, como se estivesse esperando uma explição ou uma reação para o que ele havia dito.
-- E o que eu falei enquanto dormia? — perguntei, tentando mudar de assunto. Espero que não tenha sido seu nome também.
-- Você também pronunciou meu nome. — respondeu, e eu percebi que estava mordendo o lábio inferior. — E disse que queria ir embora. — terminou, ficando completamente indiferente nessa ultima parte.
Certo, porque eu não gritei que queria ir embora no sonho também?
Mas de repende uma luz se fez em minha cabeça.
-- É por isso que Lily achava que eu iria embora? — perguntei, como se estivesse descobrido a América.
Ele concordou com a cabeça.
-- Depois de ver seu sonho, escutar você implorando para ir embora, e depois de todos os incidentes que aconteceram, que ela presenciou. Ela deduziu que você iria juntar suas coisas e a abandona-la. Foi isso que a fez vir até mim, e começar a chorar... lágrimas de prata.
Era tão ridiculo. Quer dizer, mesmo que eu quisesse, não me deixariam ir. Seria mais facil se eles dissessem logo pra ela, que eu era prisioneira, não visita.
-- Você disse que ela cortou o pulso. Por quê? — indaguei, me lembrando do sangue no sofá.
Ele me olhou, parecendo cansado.
-- Delirio. — respondeu. — Quando foi atrás de mim, ela já estava pálida, e fria. Chorou lágrimas de prata por algum tempo até pegar no sono. E então começou a delirar. No começo ela estava assistindo ao seu sonho ainda. Mas depois ficou tudo confuso. Foi... torturante. E então ela começou a se debater, e se morder, enquanto murmurava palavras desconexas. — respondeu um pouco confuso.
-- "Foi bem rápido para dizer a verdade, coisa de segundos. Em um minuto ela estava vendo o final de seu sonho. No minuto em que, parece que você acordou, ela começou a ver pessoas desconhecidas sendo torturadas, e um homem sem rosto tentando agarra-la. Foi quando ela mordeu o pulso do homem no sonho. Enquanto mordia o proprio pulso. Ela mordeu tão forte, que cortou realmente a pele, pegando uma veia. — comentou, pensantivo, como se estivesse se lembrando. — E então Rose precisou pular janela à fora para não mata-la pelo cheiro de sangue. E Emmett foi atrás de Carlisle, depois de convece-lo, que eu havia um alto controle melhor. E quando desci para pegar a maleta médica de Carlisle, percebi você descendo as escadas. Achei que você iria para a cozinha. Mas larguei a maleta no meio do caminho, quando percebi que você estava no mesmo aposento que Lily."
Certo. Realmente deve ter sido um pesadelo muito pertubardor, para ela causar um ferimento daqueles no proprio pulso.
Pelo que ele estava falando, parecia que havia sido tudo rápido demais. E eu realmente devia ser azarada. Pois no momento em que acordei, os dois vampiros que poderiam me salvar, saem pela janela.
-- Ela estava quieta. Como morta, quando cheguei naquela sala. — disse em voz baixa.
-- Sim. E eu não entendi o porque. O pesadelo parece ter terminado no instante em que você pisou no recinto.
Pensei sobre isso. Como todas as coisas naquele lugar. Eu não entendia.
Preferi deixar esse detalhe de lado, por enquanto. E ir ao assunto que estava me incomodando.
-- Por que te incomodou eu estar no mesmo aposento que ela? E o que é aquele lugar? — indaguei me mordendo de curiosidade.
Ele abafou um rosnado baixo. E eu me encolhi.
-- Não era para você ter ido naquela sala. — respondeu rispido.
-- Por que não era para mim ter ido lá? O que é aquela sala de máscaras? — eu sei que deveria ter ficado quieta. Mas isso estava me matando de curiosidade.
-- Isso não é do seu interesse. — murmurou pausadamente, em um tom ameaçador. — Nunca mais quero vê-la perto daquela sala. Apenas que queira morrer. Entedeu bem?
Eu não conseguia responder. O tom dele havia me paralisado.
-- Eu perguntei se você entendeu bem? — exclamou em um rosnado, ficando de pé.
Minha respiração acelereu, e meu coração disparou.
Meu instinto de preservação me dizia para sair daquela sala agora. Mas estranhamente, uma parte de mim, queria continuar na presença dele. Não importando como seu humor estivesse.
Quando ele rosnou mais alto, esperando por uma resposta. Eu me levantei em um pulo, correndo com toda a velocidade para a porta.
Mas antes que eu chegasse secar no meio do caminho, ele já estava na minha frente me pegando pelo pescoço, e me prensando na parede.
E então eu reparei nos caninos, agora expostos.
Será que ninguém ouviu os rosnados dele? Será que Jasper não sentiu as emoções alteradas? E Alice? Ela não via o futuro?
Então porque ninguém entrava pela porta?
-- Entendeu bem? — perguntou novamente, com o rosto a centimetros do meu.
Mas eu mal conseguia respirar com sua mão apertando meu pescoço. Quem diria falar.
-- Responda. — rugiu com um rosnado, enquanto me prensava mais na parede, e batia com o punho da outra mão na parede ao lado da minha cabeça, abrindo um buraco ali.
Senti minha visão começar a escurer pela falta de oxigênio no cérebro. Ele iria acabar me matando sufocada.
Com uma mão apertei seu pulso, que prendia minha garganta, enquanto com a outra puxei sua camisa, sentindo seu peito frio por baixo do tecido.
-- P-o-o-r f-a-a-vor E-e-d-w-a-a-r-d. — gaguejei sem ar, com todas as forças que conseguia reunir.
Forcei meus olhos a focarem seu rosto, e senti o aperto em minha garganta afrouxar.
Não havia mais aquela raiva explícita em seus olhos. Havia algum tipo de confusão. Angústia. Não saberia descrever.
-- Do que me chamou? — perguntou com a voz calma. Eu realmente não conseguia acompanhar suas mudanças de humor.
Puxei todo o ar que consegui, tentando não engasgar com o proprio oxigênio.
-- Ed-ed-ward. — respondi ofegante.
E antes que eu pudesse sequer pensar em qualquer coisa. Senti ele prensando meu corpo novamente na parede. Mas não pela garganta. Pela cintura, enquanto seu corpo grudava completamente no meu, e a mão que estava em meu pescoço, subia para meu rosto, segurando meu queixo, e encostando seus lábios frios urgentemente nos meus.
Senti sua lingua invadir minha boca. E seus lábios me causarem arrepios.
Era a melhor sensação que já havia experimentado. Meu mundo parecia estar girando. Mas nada parecia importar, enquanto seus lábios frios estivessem grudados nos meus, e sua lingua dançando com a minha.
Me senti como se estivesse completa. Senti explosões por todo o corpo. Como se meu organismo estivesse em época de carnaval.
Sua mão deslizava por meu rosto, enquando a outra me segurava fortemente pela cintura, prensando mais ainda, seu corpo ao meu.
Minha mão direita ainda segurava sua camisa, e eu me vi inconscientemente o puxando para mim.
Era um beijo urgente. Como se ambos quisessem fazer isso há muito tempo.
Mas isso não estava certo. Não podia estar. Ele era um monstro. Um maníaco psicopata.
Isso não podia estar certo.
Pois, como poderia existir romance em uma história de terror?
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