A Bella e a Fera
22 Capítulo 23 - O Maior Amor de Todos - Parte IIIII
Notas iniciais
Narrado por Esme Cullen
Eu sentia nos olhos de Bella a surpresa. O espanto.
E quem poderia culpa-la? Eu mesma sabia o quanto era difícil conhecer e suportar a história de minha família. E sabia muito bem.
-- Emmett? – Bella repetiu pasma. – Emmett não é filho de vocês?
-- Claro que é! – respondi mais fria do que pretendia e notei Bella se encolhendo. – Me desculpe, querida, não quis te assustar. Só que o simples fato de Emmett não ter saído da minha barriga não o faz menos meu filho do que aquele que saiu.
-- Claro, Esme... Eu não quis... Eu só...
-- Eu sei, Bella – a cortei gentilmente. Sabia que ela não tinha intenção de me magoar, porém, não há nada que me deixe mais magoada do que a mera alusão de que aqueles que mais amo não sejam meus filhos.
Bella soltou o ar e ficou olhando para o colchão pensativa, e antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ela me encarou, curiosa e temerosa.
-- E como foi? Como foi que o encontraram?
Suspirei e sabia que se pudesse chorar estaria derramando lágrimas agora.
-- Foi cruel a maneira como o encontramos.
-- Cruel? Por que?
Olhei profundamente em seus olhos e me lembrei das imagens que lutei anos pra conseguir esquecer e mesmo depois da transformação continuava relembrando. E doía como se tivesse visto tudo ontem. Doía porque ele era meu filho. E ninguém tinha o direito de lhe fazer mal.
[Flashback de Esme Cullen] 18 de Fevereiro de 1834.
Chicago, Illinois. Estados Unidos da América.
Margens do Lago Michigan. Com toda certeza não existia nada mais lindo que o pôr-do-Sol em Chicago.
O pôr-do-Sol na França era lindo e era também belissímo em Londres. Mas em Chicago parecia diferente. Parecia mais real. Parecia que o sol incendiava o mar para uma nova era. Para a modernidade.
E mesmo sentada na grama de frente para uma das coisas mais belas que eu havia visto, nada me fazia esquecer do porque estávamos ali.
-- Esme... – Carlisle murmurou em meu ouvido – Por favor, me diga o que eu posso fazer para te ver bem.
Dei um meio sorriso e encarei Carlisle. Meu marido. Ele era muito mais que lindo e inteligente, ele era perfeito. O homem ideial. Que eu sonhei minha vida toda encontrar. Muito diferente do asno, com quem eu deveria me casar na França.
Carlisle fazia de tudo para me ver bem e feliz. Porém não precisava de nada, só de uma coisa. Minha filha. E era a única coisa que eu não podia ter.
-- Você já faz tudo, meu amor. Tudo. – respondi, dando um meio sorriso. – Você não tem como ser mais perfeito, Carl.
-- Mas eu sei que nunca vou conseguir lhe deixar completamente feliz – lamentou, pesaroso. – Não existe nada que preencha o buraco que você sente.
Desviei o olhar e voltei a admirar o pôr-do-Sol.
Ele estava certo. Não havia nada que pudesse substituir o que me faltava.
Porém, mesmo assim estava tentando engravidar. Havia meses que tentava dar um filho a Carlisle. Mas não conseguia.
Sabia que Carlisle jamais me cobraria isso, mas eu queria dar uma família completa pra ele.
Ele merecia isso.
Mesmo que nada e nem ninguém fosse tomar o lugar do meu bebê, isso não quer dizer que não poderia amar outros filhos. Outros filhos com Carlisle.
Senti o braço dele passar por meus ombros e encostei a cabeça em seu peito.
Era quase todo dia assim. Carlisle saia do trabalho e vínhamos ver o pôr-do-Sol no lago. Menos quando ele ficava até mais tarde no hospital. O que acontecia com cada vez mais freqüência.
-- O Senhor gostaria de comprar uma rosa?
Olhei para cima e vi um garotinho de no máximo seis anos, parado em nossa frente com uma cesta cheia de rosas de todas as cores.
Não era a primeira vez que víamos esse menininho vendendo flores na margem do lago. Na verdade, Carlisle sempre comprava uma rosa branca dele e me presenteava.
-- Claro – Carlisle respondeu sorrindo. – Uma rosa branca, por favor.
O garoto sorriu, e nesse sorriso apareceram duas covinhas lindas.
Era a primeira vez que realmente reparava nesse menino.
Ele tinha os cabelos curtos, pretos e enroladinhos. Olhos castanhos avelã. E o sorriso mais verdadeiro que já havia visto. Ele era magro, bem magro, porém, parecia ser alto pra idade dele. Usava roupas largas demais e surradas, embora seu rosto estivesse limpo.
O menino, então, pegou a mais bela rosa branca e me entregou sorrindo grande.
-- Muito obrigada – agradeci sorrindo. Ele era uma criança encantadora.
Enquanto Carlisle pagava o menino com algumas moedas, comecei a pensar qual seria a história por trás daquelas covinhas. Por que uma criança tão pequena estava vendendo flores, ao invés de estar brincando, como qualquer outra criança?
-- Obrigada Senhor. Tenha uma ótima noite. – o menino agradeceu, feliz e sorrindo grande.
Olhei para Carlisle e ele parecia completamente desligado dos meus pensamentos, sobre qual seria a história do pequeno garoto. Porém não demorou muito para mim descobrir a verdade por trás das covinhas. Na verdade, demorou bem pouco — minutos.
O céu já estava escuro e a lua já estava alta e brilhante, assim como as estrelas, e Carlisle e eu já estávamos levantando para ir embora.
Já não havia quase ninguém pela margem do lago, e os poucos que tinham estavam indo para suas casas também.
E foi enquanto estávamos quase chegando na rua que ouvimos um lamento atrás de uma grande e maciça árvore.
-- O que será que houve? – Carlisle perguntou curioso enquanto se movia rapidamente até a figura pequena que estava ajoelhada aos pés da árvore.
Era uma criança pequena, toda surrada e suja, não apenas de terra e grama como também de sangue.
-- Ei, ei... o que aconteceu? Você está bem? – Carlisle perguntou se ajoelhando.
A criança continuava de cabeça baixa, chorando impiedosamente.
-- Olhe para mim, por favor. Você está bem?
A criança continuou a chorar sem se importar com Carlisle.
-- Me diga o que aconteceu?
Nada.
-- Quem fez isso com você?
E então o garoto levantou o olhar, e com espanto eu reconheci o mesmo menino que vendia as flores.
-- O senhor quer comprar mais uma flor? – perguntou com a voz esganiçada enquanto tateava pelos lados atrás de sua cesta, que estava quase do outro lado da árvore.
-- Não, não quero comprar mais uma flor. Quero saber quem fez isso com você?
O menino balançou a cabeça e continuou como se não tivesse o escutado.
-- Por favor, Senhor. Compre mais uma flor. Por favor.
-- Não... eu...
-- Por favor, Senhor. Não posso voltar de novo pra casa só com cinco flores vendidas. Por favor, apenas mais uma.
Carlisle estava quieto e olhava atónito para o menino. E eu? O olhava cheia de uma angústia que não conseguia explicar.
-- Por favor, Senhor. Faço pela metade do preço. – soluçava o menino. E vendo que Carlisle não respondia nada, começou a se desesperar. – Ele vai me matar se eu não vender mais! Ele vai me matar! Eu não quero morrer! Não… Não quero!
O medo começou a crescer dentro de mim e, de repente, o desespero dele era o meu desespero.
-- Carlisle! – chamei alto para ver se ele despertava
Carlisle olhou para mim e pareceu voltar a si.
-- Vamos fazer um acordo. Tudo bem? — perguntou Carlisle, levantando o queixo do garoto até ele estar encarando seus olhos.
-- Tudo bem? – repetiu, enquanto o garoto afirmava com a cabeça.
-- Eu compro toda a sua cesta de flores. – o menino arregalou os olhos espantado – Se você me contar o que aconteceu.
O garoto ficou quieto por um minuto e depois secou as lágrimas e sorriu fraco.
-- Tudo bem.
Eu suspirei aliviada e me ajoelhei ao seu lado também, olhando os machucados em seus braços, pernas, pescoço e rosto.
-- Quem fez isso com você? – perguntou Carlisle, rápido e direto, porém, gentil.
O menino engoliu seco e olhou pra baixo.
-- Ele não fez por querer. Mamãe sempre diz que quando ele fica bravo ele costuma gostar de bater. Não é de propósito.
Olhei espantada pro menino. De quem ele estava falando?
-- A gente precisa do dinheiro. Minha irmãzinha é doente, e meu irmão grandão também não consegue vender muitas flores. E eu tinha que levar mais dinheiro pra casa, se não ele fica muito bravo.
-- Ele quem? – perguntou Carlisle, calmamente.
-- O meu pai – respondeu tristemente.
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