A Bella e a Fera
2 Capítulo 2 - Nossa Bella
"Uma mulher bonita não é aquela de quem se elogiam as pernas ou os braços, mas aquela cuja inteira aparência é de tal beleza que não deixa possibilidades para admirar as partes isoladas."
(Séneca)
Segunda-Feira.
Meu dia prefeiro.
As pessoas acham estranho eu gostar de segunda; já que a maioria delas apagariam o dia dos calendários se tivessem opção. Mas eu gosto.
Pois é o dia em que chegam livros novos na biblioteca da cidade. Toda segunda.
As pessoas também acham esquisito eu gostar tanto de ler.
Jacob diz que mulheres não devem ler, porque começam a pensar e ter idéias. Mas como ele ainda tem um cérebro primitivo, sua opinião não conta, já que para ele, mulheres servem para procriar, servir os maridos, e os esperar com a janta na mesa.
Mas pensando por um lado, toda Forks pensa assim, até mesmo a maioria das mulheres. Creio que isso se deva pelo fato de Forks ser uma cidade pequena, bem pequena.
Deve ser por isso que sou considerada a doce ovelha negra da cidadezinha. É estranho porque ao mesmo tempo que todos parecem me desaprovar, eles parecem me adorar.
Charlie diz que não existe uma única pessoa em Fork que não goste de mim. Ele diz que sou boa e doce demais para ser odiada. Mas não creio muito. Todos sempre olham com desaprovação explicita para minhas roupas simples; normalmente em cor Azul, ou tons claros.
Isso se deve ao fato de Forks, ser uma cidade esquecida pelo sol, e todos parecem adquirir o tom escuro que sempre é a cidade.
Não gosto de cores escuras, elas não tem alegria, não tem vida. Me deprimem.
-- Ei Bella — ouvi uma voz conhecida atrás de mim e me virei sorrindo.
Angela.
-- Oi Angie — respondi, enquanto ela se aproximava com um livro na mão.
-- Biblioteca, também? — perguntou reparando no livro que eu segurava.
-- Yeah ! Hoje é segunda né. — respondi voltando a andar, junto com ela.
Angie, também gostava de ler, não era tão fanática como eu, mas lia as vezes.
Eu sempre fui sozinha, e acho que gosto disso. Mas se tivesse que rotular alguém como melhor amiga, esse alguém seria Angie.
De algum modo, ela sabe tudo sobre mim, sem eu nunca ter falado. Ela sabe do que eu gosto e do que eu não gosto. Acho que é porque somos parecidas. Ela também é sozinha e reservada, simples, e na dela.
Nossa amizade é diferente, não tem aquelas saidas estridentes durante as sextas-feiras, e nem papos gigantes sobre garotos; é meio como se conversássemos em silêncio.
Sem falar nada, e sem nos constrangermos pela falta de som. Era quase reconfortante.
Mas Angie, nasceu para viver em cidade pequena, ela é doce, meiga e submissa. Tudo pra ela está sempre perfeito.
A sorte dela é que namora o Ben, um rapaz bom, e gentil, que a trata como se fosse uma pétala de rosa revestida de cristal.
Mas ele parece ser o único homem cavalheiro nessa cidade.
Entramos na biblioteca, e eu e Angie fomos devolver os livros para o Senhor Müller, um homem baixo e gordinho de meia idade, com um bigodinho muito bem desenhado. Um amor de pessoa.
-- Bom Dia Meninas!
-- Bom Dia Senhor Müller — respondi enquanto entragava meu livro.
-- Gostou do livro Bella? — perguntou.
-- Sim, realmente muito bonito. Só não gostei do final; não gosto muito de finais tristes.
-- Para mim são os melhores. Mais perto da realidade. — contrapôs o Senhor Müller ainda sorrindo.
-- Mas a realidade eu já conheço. Gosto de ler para viver fora dela.
Eu e o Senhor Müller, sempre tinhamos pequenas conversas como estas. Ele era um homem inteligente, e muito racional.
-- Sim, sim. Nisso você tem razão. E você Angela, o que achou do livro?
Enquanto, ele falava com Angie, eu comecei a andar pelas varias prateleiras.
A biblioteca de Forks, não era grande; era bem simples e modesta, e bem esquecida também, já que metade da cidade não a utilizava. Quase nunca tem livros novos, normalmente os livros que chegam na segunda, são livros doados por pessoas da cidade, ou de cidades vizinhas. E eu os agradeço muito por isso.
O único problema, é que já havia lido quase todos. Virei-me de novo para o Senhor Müller, que ainda conversava com Angie sobre o livro que ela havia levado e perguntei quais eram as novidades.
-- Não tem muitos hoje Bella. — disse com um olhar triste, quase como se pedisse desculpas. — Mas os que tem, estão aqui. — completou apontando para um pequena pilha com uns seis livros na cadeira ao lado da que estava sentado.
Segui para lá, e mexi entre as capas.
Ouve apenas um que me chamou atenção, olhei a capa e reconheci. Era um dos livros que eu vivia levando. Orgulho e Preconceito.
Mas era diferente do que eu normalmente levava. Era quase como se fosse um manuscrito.
Era antigo, parecia realmente ter sido lançado na época em que foi escrito por Jane Austen. As folhas pareciam ser finas e amareladas, quase como se fossem de papiro. Mas não podia ser daquela época, que pessoa se livraria de uma relíquia daquelas?
Peguei-o na mão o estudando melhor. Não havia desenhos na capa. Apenas o titulo e o nome da autora embaixo. E realmente as folhas eram muito finas, fiquei com medo de rasgar só em toca-las
A voz de Angie me perguntando se tinha algo de novo me chamou a atenção, e eu olhei para encara-la, colocando o livro em cima da pequena pilha. Disse que não, e voltei a andar entre as estantes. Não havia nada de novo, ou de interessante. Passei novamente na frente da cadeira e o livro prendeu meus olhos mais uma vez. Não havia jeito eu adorava aquela historia.
O peguei novamente e entreguei ao Senhor Müller, que me levantou a sobrancelha.
-- De novo Bella? Você já leu esse livro umas cinco vezes.
-- Gosto da história. Romance, ódio a primeira vista, com amor embutido... reprimindo sentimentos... orgulho ferido... principes disfarçados... e final feliz.
-- Bom, já que gosta tanto assim, é seu! — disse sorrindo.
-- Oh não. Não posso aceitar. — neguei sentindo minhas bochechas corarem.
-- Mas é claro que pode, nós ja temos um desse em nosso estoque. E já que o aprecia tanto, peguei-o para você. — insistiu colocando os livros delicadamente entre minhas mãos.
Eu não gostava de receber presentes. Com exceção de livros. Por isso, nos meus aniversários não precisava de muito para me deixar feliz.
-- Sendo assim, muito obrigada Senhor Müller — agradeci sorrindo como uma criança que ganha um grande pote de chocolate.
Angie apareceu novamente com uma versão de Romeu e Julieta e nós nos despedimos do Senhor Müller, seguindo para fora da pequena biblioteca.
Mal saimos e eu quase trombei em algo grande e musculoso. Jacob.
-- Bom dia Princesa. — comprimentou-me todo sorridente.
-- Bom dia Jacob. — respondi educada, voltando a andar com Angie, a qual ele ignorou completamente.
-- A onde vai? — intrometido.
-- Creio que não é do seu interesse Jacob.
-- Creio que é sim. — retrucou segurando meu braço.
-- Hm, Bella, eu acho que já vou indo. — disse Angie sorrindo constrangida.
-- Ok, tchau Angie. — eu queria muito poder segui-la, e me livrar desse martírio que era Jacob ultimamente.
-- Bom, já que sua amiguinha chatinha já foi, nós podiamos aproveitar algum tempo sozinhos, não é? — IDIOTA !
-- Não chame Angie assim, e eu não vou aproveitar nada que venha de você Jacob, a não ser sua ausência. — respondi tentando manter a educação e o alto controle.
-- Nossa meu amorzinho da onde saiu tanto ódio? — preferi nem responder. Fechei a cara e voltei a andar, mas é claro, ele veio atrás. Notei que seus amiguinhos idiotas, estavam perto nos olhando.
-- Você costumava ser mais simpática quando eramos crianças.
-- E você costumava ser mais inteligente — retruquei. Porquê realmente só um retardado mental, pra não sacar que eu não queria nada com ele.
-- Parece que Nossa Bella esta de mal-humor. — ouvi Sam, o amiguinho irritante de Jacob, falando enquanto se aproximava mais.
Nossa Bella!
Odiava que se referissem assim a mim, mas isso era incrivelmente comum nessa cidade.
-- É os livros Sam. Eu disse que essas coisas iam dar idéias de independêcia e igualdade para ela. — disse Jacob pegando o livro de minhas mãos.
-- Me devolve isso Jacob. — pedi educadamente.
-- Não!
-- Jacob Black, eu te dou cinco segundos para você colocar esse livro em minhas mãos. — avisei sem me importar que algumas garotas, e mais os amigos de Jacob estavam em volta, apreciando a cena.
-- Se não vai fazer o que minha doçura? Me bater? Gostaria de ver você tentando. — respondeu zombeteiro.
Suspirei. Não queria fazer isso, seria golpe baixo.
-- Me devolva logo o livro Jacob, porfavor. — tornei a pedir.
-- Diz que casa comigo então.
Desde que havia me formado, Jacob andava bem insistente com esse assunto de casamento.
-- Jacob eu não vou me casar com você.
-- Vai sim, só não aceitou isso ainda. — irritante.
-- Não sei do que ela está reclamando. Eu aceitaria qualquer coisa com ele. — Jessica Stanley, comentou no meio da platéia, com inveja.
Revirei os olhos.
Jacob costumava ser um cara bem legal. Meu Melhor Amigo. Até Billy morrer. Desde então, ele se juntou com o grupinho de Sam, e ficou insuportável.
Ele e seus amiguinhos, ainda moram em La Push, mas vivem em Forks, aprontando e se achando os donos do pedaço. Nenhum dos garotos daqui mexe com eles. E as garotas suspiram quando eles passam.
Mas eu só os achava ridiculos, nada mais.
-- Apenas me devolva o livro Jacob. — insisti.
-- Vai casar comigo?
-- Não!
-- Mas pense comigo Bella. Eu e você em nossa casinha confortavel, eu chegando do trabalho, e você, minha esposinha, me esperando com a comida no fogo, enquanto as crianças brincam com o cão no tapete da sala. Teremos seis ou sete.
-- Cães?
-- Não Bella — respondeu impaciente — Garotos. Fortes e robustos como eu.
-- Quanta modéstia Jacob. — comentei indiferente.
-- Apenas digo a realidade.
-- Então você esqueceu do patético, egocêntrico, e palhaço. — respondi o encarando, e perdendo a paciência.
-- Assim você me magoa meu amor.
-- Não sou, SEU amor.
-- Ainda!
-- Nunca! — corrigi.
-- Sabe Bella, se você não fosse a garota mais linda de Forks, eu no mínimo já estaria te chingando. — ja disse que ele é idiota?
-- Realmente Jacob, esse é um ótimo jeito de convencer alguém a se casar com você. Agora me devolva o livro!
-- Não!
-- Ok. Você não me deixa outra opção. — comentei, e mirei no meio de suas pernas. Ele percebeu minhas intenções tarde demais.
No segundo seguinte ele estava no chão gemendo, com a mão em cima de seu aparelho de criaturas bizarras.
Cheguei perto dele e peguei meu livro.
Não queria ter feito isso. Era golpe baixo. Mas ele realmente não me deixou outra alternativa.
De um jeito que eu não entendia como, Jacob era incrivelmente resistente. Da ultima vez que ele me agarrou, eu dei um tapa na cara dele, e enquanto ele nem reparou, minha mão quase se quebrou.
Mas pelo jeito o único lugar nem tão resistente do seu corpo, eram as partes baixas.
-- Ela é realmente estranha! — Jessica comentou novamente.
Era normal comentários assim. Não que eu ligasse muito para eles.
-- Você ainda vai ser minha Bella. Somente minha, não importa o que eu tenha que fazer, mas você será! — Jacob disse ainda gemendo no chão.
-- Em outra vida quem sabe Jake! — respondi rindo e me virando para ir embora.
Já estava bem longe de Jacob, quando avistei Lauren e me aproximei.
-- Oi Lauren, como você está? — perguntei sorrindo.
Lauren, me olhou assustada, e logo depois sorriu também. Nós não nos davamos no colégio, ela era um ano mais velha que eu, e vivia implicando comigo.
Ela com certeza, seria a ultima pessoa a quem eu perguntaria se estava bem, nessa cidade. Já que fez da minha vida um inferno na escola.
Mas não tem como eu ter raiva dela. Não depois de tudo que ela passou.
Os pais dela morreram de acidente de carro, quando eu estava no 2° ano do colegial, e ela no 3°. Deixando ela e a irmã mais nova sozinhas.
Claro que Lauren, por pior que fosse, não iria abandonas a irmã. Então ela dispensou a faculdade, para poder cuidar da pequena.
Mas depois de menos de um ano, a menina morreu, de ataque asmático.
Foi um baque enorme para Lauren, além de ter perdido os pais, ainda perdeu a irmã, pouco tempo depois.
Lily, era como a menina se chamava. Era uma criança muito doce e meiga, vivia atrás de mim, quando eu a encontrava no parque.
O mais engraçado, é que o cachorro de Lily, que nunca a abandonava, também sumiu. Eu acho que ele pressentiu a morte da dona e se exilou. Porque ninguém nunca mais o viu.
Chorei muito no enterro. Ela era tão pequena, tão doce. Foi uma grande tragédia. O pior foi ver o corpo sem vida de Lily dentro do caixão. Nunca vou esquecer aquela cena.
Mas desde então, Lauren ganhou toda minha simpatia.
-- Indo, indo. — Lauren respondeu. Realmente, eu também não superaria tantas perdas como essas. — E você?
-- Acho que bem. — respondi me sentindo mal. Queria tanto fazer algo por ela.
-- Que bom Bella. Bom eu acho que já vou, tenho que passar na farmácia ainda. — informou.
-- Por que? Você está mal Lauren? Quer que eu te leve em um médico ou algo assim? — perguntei preocupada.
-- Não. Eu estou bem Bella, Obrigada. Preciso de anticoncepcional apenas.
-- Ah! Então nós se vemos por ai.
-- Claro! — respondeu se afastando.
óbvio. Anticoncepcional --'... e eu já estava preocupada.
Esqueci que desde que Lily morreu, ela passou a morar junto com o namorado. Na real nunca fui com a cara daquele homem. Mais enfim. Não é eu quem deve ir com a cara dele não é? E sim ela. E já que ela gosta, então que faça bom proveito.
Passei pela mulher que vendia rosas na frente do parquinho, e peguei uma sorrindo para a Senhora e pagando.
Ok. Ali tinha muito mais do que o preço da única rosa vermelha que peguei. Mas eu sabia que ela tinha dois filhos pequenos. Só queria ajudar.
Segui para casa, e encontrei Marie. Uma mulher de meia-idade, que trabalha em casa.
Desde que minha mãe, morreu a seis anos. Eu tomei conta das tarefas domésticas e da cozinha. Mas há dois anos Charlie disse que não queria mais me ver fazendo trabalhos domésticos, e contrarou Marie.
Marie, era muito energética e alegre. Desde o primeiro momento em que há vi, sabia que ela e meu pai se dariam bem.
No começo Charlie negava, dizendo que seu coração seria sempre de Renée.
Mas ele como eu, decidiu seguir a vida. Renée vai estar sempre em nossos corações, mas não havia como continuarmos vivendo naquele ar de tragédia. Ela iria detestar isso.
-- Oie Marie — disse dando um beijinho em sua bochecha.
-- Oi querida. Você demorou.
-- Encontrei Jacob pelo caminho. — ela bufou. Claro que já sabia o pesadelo que Jacob estava sendo.
-- Rapaz insistente. — reclamou em tom de desaprovação.
-- Concordo.
-- Ele tem que tirar o pé da idade medieval, e perceber que você acabou de se formar no colegial, que agora você ira para uma faculdade, procurar sua independência, pra não ter que depender de homem. — realmente Marie era parecida com minha mãe.
-- Concordo novamente. — disse sorrindo. — Charlie já chegou?
-- Não, e estou ficando preocupada. Ele disse que iria passar o fim de semana pescando, mas que voltaria para casa no domingo de noite, e até agora não voltou.
Eu a encarei, também sentindo a preocupação.
-- Vou ver se alguém o viu. Talvez ele esteja jogando cartas com seus antigos colegas na polícia. — respondi tentando acalma-la.
Peguei minha mochila pequena que continha as cheves do carro no bolsinho lateral. Coloquei meu livro dentro dela e segui para minha velha e vermelha caminhonete.
Enquanto andava pela cidade, as preocupações invadiam minha mente.
Será que aconteceu algo? E se ele estiver machuado? Não Bella, não fique pensando nisso, seja positiva. Ele está bem. Ele está bem.
Parei na frente do posto policial e entrei.
Meu pai havia se aposentado há pouco tempo. Mas ainda frequentava muito o posto, e ainda era chamado de Chefe Swan, pela maioria dos habitantes da cidade.
-- Olha quem deu o ar da graça Lenon, a Nossa Bella. — o sucessor de meu pai. Chefe Welson, comentou alegre.
-- Achei que iria morrer e não iria mais te ver Bella. — Lenon disse sorrindo.
-- Exagero é mal de policial nao é? — perguntei sorrindo.
Lenon e Welson riram.
-- Sim, mais o que te trás aqui Bella? Alguém fez algo a você? Algum idiota tentou te agarrar a força né? É só dizer que eu coloco o infeliz agora no xadrez... — começou Chefe Welson, mas eu o cortei.
-- Nao é nada disso. É só que... meu pai, não passou por aqui, passou?
-- Não vejo Charlie desde terça-feira, quando ele veio jogar cartas. — respondeu Lenon, me olhando desconfiado.
-- Eu também não o vejo desde de terça. — concordou Chefe Welson. — Por quê?
-- Bom, ele saiu para pescar sábado de manhã, e disse que estaria de volta domingo à noite, mas até agora não voltou.
Chefe Welson e Lenon se entreolharam preocupados.
-- O que foi? — perguntei, tentando esconder o desespero que crescia dentro de mim.
-- Bom, Bella, andou tendo denúncias sobre enormes lobos andando pela floresta, perto do lago. Mas não acho que ele tenha ido para aquele lago, ele sabe que está perigoso. — Chefe Wilson respondeu.
O medo me invadiu, e meus olhos se encheram de lágrimas.
-- Calma Bella. — disse Lenon, provavelmente notando meus olhos marejando. — Ele deve estar bem, nós vamos encontra-lo.
Concordei com a cabeça, e sai correndo, indo pra minha picapé. Andei sem rumo pela cidade, até estar na parte desabitada, a onde só havia mato e mais mato.
Para minha grande surpresa, vi Embry e Seth saindo do meio da floresta, ambos descalços e sem camisa. Eles notaram minha caminhonete, já muito conhecida na cidade, e acenaram sorrindo para mim.
Encostei o automóvel perto deles, e desci enquanto eles caminhavam para mais perto.
-- O que Nossa Bella faz por essas bandas? — Embry perguntou sorrindo grande.
Embry e Seth são os únicos do grupinho de Jacob e Sam, que eu gosto. Embry é totalmente encantador, e Seth totalmente ingénuo.
Gosto muito de Quil e Jared também, mas os dois são puxa sacos demais de Sam e Jacob.
-- Eu é que pergunto. O que vocês dois fazem com esse trages — ou a falta deles — Saindo da floresta? — perguntei.
-- Estávamos correndo. — Seth respondeu rápido demais. O encarei com uma sobrancelha erguida.
-- Descalços?
-- É bom sentir a terra fria nos pés Bella. — Embry respondeu, olhando emburrado para Seth. — Mas a onde você estava indo?
Resolvi não responder e ir direto ao ponto.
-- Hm... vocês por acaso não viram meu pai, né?
-- Por que? Chefe Swan ainda não apareceu? — Seth perguntou sem se controlar.
Eu e Embry o encaramos. Eu por uma reação curiosa, e ele para mandar a Seth um olhar raivoso, do tipo 'cala boca, seu idiota'.
-- O que você quer dizer com 'ainda não apareceu' Seth? Você o viu?
Seth engoliu em seco, e eu não entendi o motivo. Será que eles estavam sabendo de algo? Será que REALMENTE havia acontecido alguma coisa?
Embry desviou o olhar irritado de Seth e me encarou com um meio sorriso.
-- Nós o vimos saindo para pescar sábado de manhã Bella. — eu ainda continuava desconfiada.
Mas a preocupação não me deixou investigar esse pequeno deslize no que eles haviam falado.
-- Estou preocupada. Ele disse que iria voltar ontem a noite, e até agora nada.
-- Calma Bella, nós iremos ajudar a procura-lo. — Seth disse sorrindo... culpado? Por quê ele estava sorrindo culpado?
-- Obrigado. — respondi, me virando e entrando novamente em minha caminhonete.
-- Qualquer coisa, é só nós procurar. — Seth disse sério.
-- Ok. E não fiquem indo na floresta sozinhos. Chefe Wilson disse que houveram denúncias de lobos enormes. — aconselhei, e vi os dois abaixarem a cabeça prendendo o riso. Falei alguma piada?
-- Qual a piada? — perguntei emburrada.
-- Lobos são legais Bella. — Embry respondeu rindo. — Mas seria bom se VOCE não ficasse andando por esses lados sozinha; nem sempre os lobos são as piores coisas por aqui.
O encarei sem entender e perguntei.
-- E o que há de pior?
-- Nada com que você deva se preocupar no momento, apenas mantenha distância da floresta Bells. Você é importante demais para todos nós, para te perdermos. — Seth respondeu sorrindo de um jeito meigo, mas com preocupação estampada nos olhos.
Sorri fraco, e dei partida na caminhonete.
Olhei pelo espelho retrovisor e vi Embry e Seth conversando preocupados, e logo depois se embrenharem novamente na floresta.
Continuei meu caminho, indo reto, e tentando por tudo não pensar que algo de ruim havia acontecido.
A chuva começou a cair, para minha grande tristeza.
Não que chuva fosse coisa rara em Forks. Mas depois da tempestade de ontem, eu tinha esperanças que houvessem se esgotado o armazém de gotas das nuvens.
Doce sonho.
Isso era Forks, SEMPRE havia mais gostas de água.
Não sei quanto tempo eu continuei rodando, só que passavam das 16:00 quando eu parei novamente no acostamento, e deixei o desespero me tomar.
Sabia que se Charlie tivesse voltado para casa, Marie já teria me ligado no celular avisando.
Senti as lágrimas jorrando de medo e preocupação, e percebi que a chuva só aumentava.
De algum modo eu sabia que algo havia acontecido a Charlie.
Ouvi meu celular tocando e o peguei orando para que fosse Marie.
-- Bella? — era a voz de Jacob.
-- O que é? — perguntei com a voz abafada.
-- Onde você está?
-- Não te interessa Jacob! E diga logo o que você quer.
-- Quero saber a onde você está!
-- Ja disse que não te interessa! — repeti começando a ficar com raiva.
-- Está procurando seu pai, não está?
-- E se eu estiver?
-- Então eu quero que você volte agora mesmo para casa e espere lá. Nós iremos procura-lo. E nesse 'nós' contém apenas eu e os garotos.
-- Jacob, ele é MEU PAI e eu vou procura-lo até te-lo encontrado.
-- Bella, isso não é coisa para você, apenas volte para casa, para que eu não tenha que te procurar também.
-- Jacob, eu não vou ficar sentada no sofá esperando agoniada que VOCE o traga de volta. Eu vou ajudar.
-- Não Bella. Volte para casa.
-- Não.
-- Volte AGORA Bella.
-- Já disse que não.
-- CARAMBA ISABELLA, APENAS FAÇA O QUE EU ESTOU MANDANDO, E VOLTE PARA CASA.
A raiva que até então estava sob meu controle, cresceu e eu quis mandar ele pra um lugar nada legal, ou educado de se dizer.
-- VOCE NAO MANDA EM MIM JACOB! — berrei, desligando o celular na sua cara.
Mal havia jogado o aparelho no banco ao lado, e ele já estava tocando novamente.
Atendi a chamada, e desliguei em seguida.
Mas o idiota continuava me ligando. Peguei o celular irritada e o desliguei, o jogando dentro da mochila novamente.
Ainda parada no acostamento, eu olhei para a estrada, e ao longe vi um vulto grande no meio da chuva.
Senti o medo me tomar.
E se fosse um dos enormes lobos?
Fiquei parada, sentindo o medo me tomar; quase não respirava, enquanto a criatura se aproximava.
Só quando ela já estava há poucos metros, que eu notei que não era um lobo, era um cavalo, grande e branco.
Era Cavalheiro. O cavalo de Renée. Que ela havia comprado dois anos antes de falecer.
Charlie sempre ia com ele pescar. Acho que era um meio dele não se sentir sozinho, e ter algo de Renée consigo. Já que ela adorava esse cavalo.
Só que não havia ninguém montado nele.
Ele parou na frente da caminhonete, e olhou para mim, como se quisesse que eu saisse e fosse até ele.
Não pensei duas vezes. Limpei as lágrimas de meu rosto, saindo do carro, e sentindo a chuva me enxercar.
Cheguei até ele, que colocou o enorme focinho embaixo de minhas mãos. E ali eu tive certeza, que algo havia acontecido.
Só havia tido uma única vez em que Cavalheiro colocará o focinho embaixo de minhas mãos como se estivesse carente.
E foi quando Renée morreu.
Olhei em seus grandes olhos negros, e senti as lágrimas voltarem a escorrer com força total em meu rosto.
-- Aconteceu algo com Charlie, não foi Cavalheiro? — perguntei.
Talvez algumas pessoas me julgariam por louca se me vissem falando com um animal. Mas eu nunca subestimei a inteligência de um ser vivo, muito menos quando se trata de alguém que se ama.
Ele mexeu a enorme calda, e relinchou, como se tivesse falando comigo.
Corri de volta para a caminhonete, e peguei minha mochila, a pendurando nas costas. Fechei a porta deixando a chave ainda no painel do carro, sem me importar, e corri de volta para Cavalheiro.
Peguei seu enorme focinho entre as mãos novamente, e fiz pequenos carinhos, enquanto olhava fundo em seus olhos.
-- Me leve até ele Cavalheiro. Porfavor. Me leve até Charlie. Eu não posso perde-lo também. Não suportaria! — Cavalheiro relinchou mais alto dessa vez. E eu o montei.
Mal havia subido em suas costas, e ele já estava correndo para o meio da floresta.
Com a velocidade e a preocupação, eu não sentia mais as gotas frias em minha pele.
Apenas o vento forte que balançava meu cabelo, congelando minha face, e incomodando meus ouvidos.
Cavalheiro praticamente voava por entre as árvores, e ao longe eu ouvi um uivo.
Senti um arrepio percorrer meu corpo, e Cavalheiro começou a correr mais rápido, se é que isso era possivel.
Estavamos em um ponto em que eu não sabia mais qual era o norte e qual era sul; não sabia nem de que lado eu tinha vindo. Em prática eu estava perdida. Mas na teoria, eu sabia que Cavalheiro estava me levando para o lugar certo.
Não saberia dizer quanto tempo o cavalo correu por entre o verde.
Meu desespero pareceu se reduzir, com a velocidade, e meu coração ao mesmo tempo em que batia acelerado pela adrenalina da corrida, parecia mais calmo.
Cavalheiro diminuiu a velocidade, e eu voltei a sentir as gotas frias da chuva.
Olhei em volta. Nunca havia estado ali, nem sabia o que haveria no meio de tanto mato.
Continuei olhando, vendo se achava um sinal de Charlie, qualquer coisa. Mas Cavalheiro me distraio quando começou a se agitar e dar grandes passos para trás.
-- Ei, calma Cavalheiro! — tentei o acalmar, mas ele continuava dando passadas para trás.
Olhei para o que amendrontava Cavalheiro, e senti meus pelos se eriçarem, e meu coração disparar.
Nunca havia estado ali, mas depois de tantas lendas que se contavam sobre aquele lugar, não havia como não reconhece-lo.
Era a Mansão dos Cullen's.
Ninguém se sabe o que realmente aconteceu a eles. Só que em 1.849, todos os maradores da casa foram encontrados mortos.
Todos. O Pai; a Mãe; os três Filhos; todos os empregados; e até pelo que contam, a Noiva de um dos filhos e seu Irmão.
Ninguém sabe porque morreram. Não havia sinal de violência, ou qualquer outra coisa. Alguns dizem que foram envenenados.
Mas desde então, a mansão é considerada mal-assombrada.
Pessoas que se acham corajosas e chegam perto da casa, dizem ouvir gritos. E os que se arriscam a entrar, nunca mais são vistos.
Bom, é o que falam.
Eu pelo menos, não acredito em histórias mal-assombradas, contadas para colocar medo em adolescentes metidos a corajosos. Mas mesmo assim, é dificil não sentir um calafrio quando se olha a grande mansão em cor escura por trás dos portões de ferro.
Desci do cavalo, e tentei abrir o portão, enquanto Cavalheiro parecia estar em um forte dilema consigo, para ver se ficava comigo ou saia correndo.
Continuei forçando o portão, mas parecia enferrujado.
Pensei em pular, mas não iria deixar Cavalheiro sozinho na mata. Havia lobos por ali.
Juntei todas minhas forças para abrir o portão, mas nada parecia surtir efeito. Percebi então o porque. Não era apenas porque estava enferrujado, mas também pela enorme pedra encostada pelo lado de dentro. Eu me perguntei como eu não havia notado na pedra antes.
Pulei o portão com a maior agilidade que tinha, ou seja, pouca. E cai levemente no chão, sem me machucar. Pelo menos isso.
Peguei a pedra e a empurrei. Mas era pesada demais, sentindo que meus esforços não trariam resultados, olhei em volta, em busca de algo que me ajudasse.
Achei um pedaço de madeira grande e grosso perto de uma enorma macieira, e o peguei.
Coloquei o pedaço de pau embaixo da pedra, e empurrei com toda minha força. A pedra se moveu, como se tremesse, e eu coloquei mais força, sentindo meus braços berrarem em protestos.
A chuva molhava a mim e ao pedaço de madeira, fazendo ele deslizar por minha mão. Continuei colocando toda minha força ali, e por um milagre divino, a pedra saiu rolando. Soltei o pedaço de madeira, cansada, e mexi os braços pra ver se ainda tinha sensibilidade neles.
Ofegando, abri o portão que se abriu, com uma certa dificuldade. Puxei Cavalheiro pelas rédeas, enquanto ele ainda estava agitado, e eu me perguntei rapidamente o motivo.
Logo que consegui o conduzir para dentro, encostei novamente o portão para que ele não corresse o risco de sair correndo. Eu realmente não queria que ele trombasse com um lobo faminto por ai.
Cavalheiro estava realmente amedrontado, e se arrastou para trás até ser impedido de continuar pelo portão.
Olhei para a enorme mansão, que eu julgaria ser quase um castelo, e segui para as imensas portas de madeira rústica.
O que Charlie estaria fazendo ali? Eu não saberia dizer. Mas eu sabia que ele estava ali.
Só não sabia que estaria acompanhado.
Notas finais
Espero que etejam gostando, paulinha obrigada por tudo !
Fale com o autor