A Bella e a Fera
3 Capítulo 3 - Doce Sacríficio
"O sacrifício próprio deixa-nos com disposição para sacrificar-nos pelos demais."
(George Bernard Shaw)
Girei a maçaneta de prata, e entrei na enorme mansão.
Estava tudo escuro, mas não o bastante para que eu não soubesse a onde estava indo, ou o quão grande era aquele local.
Estava tremendo de frio e medo, e não sabia para que lado ir.
Segui para as imensas escadas de mármore e subi como se pisasse em cacos vidros. Eu sabia que a mansão era desabitada, mas mesmo assim, era como se eu não quisesse fazer barulho.
Quando cheguei ao último degrau, percebi como era grande os corredores. Havia tantas portas que eu achei que iria morrer se fosse abrir todas.
Sim, eu poderia ter gritado e chamado por Charlie. Mas algo me dizia para não gritar.
Talvez fosse o medo.
Depois de tantas lendas sobre o local, talvez eu tenha adquirido o medo pela mansão. Talvez fosse isso que estivesse trancafiando minha voz na garganta. Talvez.
Olhei para os dois lados do corredor, e para a escada que levava aos outros andares, tentando decidir que caminho seguir.
Olhei para o lado do sul, e vi que a última porta estava entreaberta. Por ser a única assim, eu segui para lá.
Estava quase chegando na porta, quando vi.
Perto da escada lateral que descia novamente.
Era pequeno e brilhava fracamente, mas ganhava destaque no chão escuro.
Foi então que meu desespero cresceu. Era o broche de pescaria do meu pai.
Eu havia dado de presenta à ele, no dia dos pais quando tinha sete anos. E desde então ele sempre usava para pescar. Era prateado, com um peixe florescente verde. Nao havia como me enganar. Era o broche dele. De Charlie.
Eu fiquei apática, sem saber o que fazer, ou o que pensar. Passei um bom tempo apenas olhando o broche. E sentindo que algo não estava certo ali.
Minha cabeça fazia teorias, e mais teorias, sobre o que poderia ter acontecido a Charlie. E todas levavam a ele machucado, ou... ou... morto.
Sem pensar duas vezes, desci pela escada lateral e virei pro único corredor que a escada levava. Estava mais escuro que o resto da mansão, e parecia muito mais frio.
Mas derrepende o corredor acabou. Na frente só havia a estreita e alta parede.
Comecei a dar várias passadas para todos os lados, enquanto olhava tudo ao redor, quando senti o chão afundar.
Por um momento achei que fosse morrer.
O chão estava simplesmente se abrindo? Não podia ser.
Foi quando percebi o estrondo de madeira sendo quebrada que estava fazendo. Me agarrei ao chão, enquanto o alçapão aos meus pais se quebrava.
Eu era muito idiota mesmo. Pisar em uma alçapão sem me dar conta. Não que eu visse muitos.
Ainda agarrada ao chão frio de mármore, com todas as minhas forças, tentava achar um local para encaixar os pés e subir novamente. E eu achei. Para minha felicidade, ou tristeza, era uma escada.
Voltei para o chão firme, ofegante, pelo susto, e olhei para dentro do alçapão que até então tinha uma pequena porta de madeira, que eu estraçalhei com meu peso. Pelos poucos vestigios de madeira que havia ainda ali, eu deduzi que ela estava bichada.
Não se via nada dentro do alçapão, era tudo escuro, como um túnel. Mas eu sabia conter uma escada.
Meu corpo ainda tremia, e o medo estava cada vez mais avassalador.
Sabia de algum modo, que devia descer pelo alçapão, mas a coragem simplesmente havia me deixado.
Mas eu tinha que ir. Era Charlie. Meu pai, que poderia estar em perigo, ou machucado.
Desci as escadas sentindo o ferro enferrujado ranger.
Quando meus pés tocaram no chão, percebi que estava molhado, tentei ver melhor no que estava pisando, mas a escuridão era quase sólida. Encostei as mãos nas paredes e segui devagar, tomando cuidado para não cair.
Nunca havia estado assim, sem poder contar com os meus outros sentidos. Porque ali eu só podia contar com o tato.
Percebi que a parede a qual eu me agarrava fez uma pequena curva, e logo que eu virei, pude me soltar dela, já que estava iluminado fracamente por velas.
Mas meu alivio durou pouco, muito pouco.
Pois ali, não era um local qualquer. Era como se fosse um calabouço.
Havia três grades de mais de dois metros, e cada espaço parecia ser maior que meu quarto.
Era um lugar amedrontador, sufocador.
Especialmente para mim que tinha claustrofobia. Senti minha respiração faltar, ainda mais.
Dei um passo em direção a primeira grade, respirando com dificuldade.
O pouco ar que eu tinha, sumiu. Meu coração disparou, e meu corpo tremeu como se eu fosse desmaiar.
Só havia corpos. Mortos.
Todos estavam mortos, brancos, e com os olhos arregalados de medo.
Não havia sinais de violência na maioria dos corpos. Mas havia um encostado na grade, com a cabeça pendurada, presa ao resto do corpo por um centímetro de pele.
Senti meu estômago rodar, e uma incrível vontade de vomitar pela visão.
Quis sair correndo dali. Fugir. Mas meus pés pareciam pregados no chão.
Meu coração batia de uma maneira que eu julgaria impossível, e meu corpo tremia compulsivamente.
Dei um passo para trás da visão dos corpos mortos, e senti que estava pisando em outra poça húmida.
Me arrependi na hora de ter olhado para o chão. Era sangue. Todas as poças daquele lugar eram de sangue.
O medo me dominava, e o desespero crescia mais e mais. Encostei na parede, sem conseguir respirar.
Quando a cabeça do homem que estava presa ao resto do corpo por um centrimetro, caiu.
Eu gritei.
Não pude evitar. O susto, nojo, e o medo pareciam ter despertado minha voz.
-- BELLA!
Gritei novamente. Não estava preparada para ouvir alguma voz vinda de um lugar cheio de cadáveres.
-- BELLA? É VOCE? BELLA?
E eu reconheci a voz, mesmo estando rouca e abafada.
Charlie.
Olhei em volta procurando da onde vinha sua voz, e eu o vi exprimido contra a grade tentando me olhar da ultima prisão.
Senti um imenso alivio por ele ainda estar vivo. Corri para ele, sem notar o que havia na segunda grade.
Me ajoelhei ficando do mesmo nível que ele, que estava largado no chão.
E comecei a chorar. De felicidade por saber que ele estava vivo. Mesmo estando machucado e com ar muito cansado. Vivo.
-- Oh Pai! — eu exclamava por entre lágrimas e soluços enquanto tentava abraçar ele por entre a grade.
Foi só então que a ficha caiu. Ele estava preso.
Quem havia feito isso?
-- Bella. Vá embora! Fuja! — ele começou a dizer em desespero. — Não aguentaria se eles te pegassem também. Vá!
O encarei, sem entender, e me levantei tentando abrir o enorme cadeado da grade. Estava trancado a sete chaves literalmente.
-- FUJA BELLA! — Charlie gritou chorando em desespero. Nunca o havia visto dessa maneira. — Não deixem eles te pegarem também!
-- Do que está falando Pai? — perguntei, tentando afastar as lágrimas e me concentrar no cadeado.
-- Eles vão... vá embora Bella... vá...
-- Não vou te deixar!
-- Você tem que me deixar... VÁ EMBORA ISABELLA!
Eu cheguei a conclusão que ele estava delirando, só podia.
-- Pai fica calmo nós vamos sair daqui. — tentei acalma-lo, sem entender o que ele falava.
-- Não vamos. Eles não vão me deixar sair Bella, mas você ainda tem tempo, vá!
-- DO QUE ESTA FALANDO? — gritei em desespero.
-- DELES! DAQUELAS FERAS DE CANINOS ENORMES!
Feras? Caninos? O que?
-- Pai você está delirando.
-- NAO BELLA, ME ESCUTA! VÁ EMBORA! Você ainda tem tempo, eles ainda não te viram.
-- ELES QUEM? — perguntei voltando a sentir o desespero.
-- Eu não sei o que são Bella. Mas vá embora porfavor! — Charlie disse perdendo a voz.
Olhei em volta procurando algo pra quebrar o cadeado, quando uma voz fina me fez pular de susto.
-- Vá embora garota! — olhei procurando da onde vinha a voz, e meu olhar caiu sobre a segunda grade.
A onde havia três mulheres. Vivas.
Estavam sujas e pareciam desoladas.
Duas delas tinham o olhar perdido como se estivessem loucas.
Mas a ruiva que falava comigo, parecia estar tentando encontrar sua racionalidade.
-- Fuja menina, antes que você seje a próxima!
Eu não conseguia falar, minha boca ainda estava aberta de surpresa e pânico. O que era tudo aquilo?
As outras duas pareciam nem ligar para a gritaria. Pareciam trancafiadas em uma loucura baseada no medo, pois a cada momento elas se encolhiam mais.
-- DO QUE VOCES TAO FALANDO? O QUE ESTA ACONTECENDO? — gritei tremendo de desespero.
-- Vá embora criança! — a mulher falava ao mesmo tempo que Charlie gritava para mim fugir.
O desespero me tomava, e minha cabeça rodava. Minha respiração ainda estava presa em algum lugar desconhecido, e minha fobia parecia querer me tirar do ar a qualquer momento.
Dizem que o desespero nos faz fazer coisas incriveis. E essa é a unica resposta pro que eu fiz logo em seguida.
Peguei uma pedra enorme, que provavelmente eu nunca iria conseguir segurar, mas de uma maneira que eu desconheço, naquele momento eu consegui.
Tirando uma força monstruosa de mim, enquanto Charlie gritava. Eu bati a pedra com tudo no cadeado de sua grade. Fiz isso repetidas vezes, sem me importar com a dor avassaladora de meu tronco e meus braços.
E então o cadeado se abriu. Eu ainda chorava em desespero e tremia.
Abri a grade, e já estava me preparando para pegar a pedra novamente e abrir o cadeado da segunda jaula, quando reparei que Charlie não se mexia.
Foi então que notei, o porque dele ainda estar largado no chão. Sua perna direita estava torta e sangrava absurdamente.
-- BELLA VÁ EMBORA! — meu pai berrava, e eu me aproximei dele olhando sua perna.
Era como se tivessem pisado ali, parecia... amassada. Como se algo muito pesado tivesse caido em sua perna.
-- Não vou sem o Senhor! — respondi, pegando seu braço e tentando levanta-lo.
-- VAI SIM! VÁ EMBORA ISABELLA! — Charlie gritava sem fazer esforço pra se levantar.
-- NÃO!
-- FUJA AGORA CRIANÇA! ELES ESTÃO VINDO! — gritou a ruiva olhando para entrada.
O desespero triplicou, e meu coração parecia que iria explodiar.
Quem eram eles?
E quão terríveis eles eram para matar todas aquelas pessoas da primeira jaula, e causar tanto pânico entre Charlie e essas mulheres?
E então a ficha caiu. E percebi aquilo que não havia percebido antes pelo medo e o desespero.
Havia maníacos naquela casa. Por isso os gritos que diziam ouvir.
Deviam ser assassinos. Torturadores.
Mas quem iria fazer tudo isso? Ou melhor por que? Prazer?
Será que realmente existiam pessoas que faziam isso por prazer?
-- VÁ EMBORA ISABELLA! — Charlie gritou me tirando de meus devaneios.
Os seus olhos estavam esbugalhados, e ele me empurrava.
Eu sabia que tinha que ir. Mas não podia deixa-lo. Não queria deixa-lo.
ELE ERA MEU PAI!
Uma das mulheres que olhava para o chão como se fosse louca, se movimentou, e começou a ficar agitada, se arrastando para trás, como Cavalheiro fez para entrar pelo portão.
Ela começou a gritar como se sentisse dor, e logo a outra mulher começou a gritar também, e a se encolher mais, de uma maneira que eu achava que ela iria se fundir consigo mesma.
-- É tarde demais. Eles já estão aqui! — a ruiva murmurou com os olhos arregalados de medo, e se afastando até estar encostada na parede de fundo.
As duas mulheres continuavam berrando em pânico, e Charlie me mandava fugir. Mas eu me sentia apática, sem reação.
-- VÁ! ELES ESTÃO VINDO! VÁ!
-- QUEM? — gritei em desespero.
Mas nesse momento tudo ficou quieto, e eu senti um vulto parar atrás de mim.
-- Eu!
Meu coração parou, e minha respiração parecia realmente ter me deixado.
Eu podia sentir sua presença atrás de mim, bem perto, respirando frio em meu pescoço.
O medo me tomou, e meus olhos se arrelagaram. Não enxergava mais nada na minha frente; parecia que eu estava em estado de choque. Bem, eu ESTAVA em estado de choque.
Não queria virar para trás, mas a voz disse em um tom sensual e provocante em meu ouvido.
-- Não vai me olhar?
Meu sangue congelou, e eu ofeguei.
A curiosidade me cutucava para ver quem seria o dono de uma voz tão fria e ao mesmo tempo tão aveludada, como se fosse de algodão, quase dava para sentir o veludo de sua voz, mas o medo me dizia para não encara-lo.
-- Olhe para mim! — a voz ordenou respirando gelo em meu ouvido.
Não. Não. Não. Não olhe. Meu subconsciente dizia. Enquanto minha curiosidade pulsava. Eu estava curiosa para saber quem era esse homem capaz de fazer tantas maldades e ainda assim ter a voz mais sexy que eu já havia escutado.
-- Eu mandei olhar para mim!
Eu me sentia em estado de apatia para fazer qualquer coisa, a não ser procurar minha respiração. Já começava a sentir a falta de oxigénio em meu cérebro; o lugar me sufocava de uma maneira que eu jurava ser impossivel.
Pensei seriamente em sair correndo, mas minhas pernas pareciam ter virado geléias.
-- OLHE PARA MIM! — a voz rugiu em meu ouvido, me fazendo voltar a tremer.
Senti lágrimas de medo e desespero voltarem a escorrer de meus olhos. Mas me sentia incapaz de fazer qualquer coisa que não fosse tremer.
As três mulheres estavam quietas e encolhidas, de cabeças baixas, enquanto tremiam tanto quanto eu. Não conseguia ver Charlie, mas o ouvia ofegar.
-- Deixe-a ir, Porfavor! — ouvi a voz de Charlie, suplicante.
Percebi o vulto atrás de mim, se distanciar, e senti meu coração apertar.
Foi quando ouvi o grito de dor de Charlie quebrando em meus ouvidos
Meu coração voltou a bater acelerado, e eu ofeguei, tentando encontrar minha respiração perdida.
O grito dele me perfurava os ouvidos, minha cabeça começava a girar, e minhas pernas tremiam perdendo o equilíbrio.
-- Então a Senhorita estava tentando salvar esse Senhor? Por quê?- a voz fria perguntou em tom educado, enquanto meu pai berrava de dor.
Como ele podia torturar as pessoas e ainda ser educado?
Senti meu corpo querendo se apagar, e me puxar para o inconsciente, mas os berros de dor e agonica de Charlie, me seguravam ali, consciente
COVARDE! Eu berrava para mim mesma interiormente.
Eu deveria olhar para trás e acabar com a dor de Charlie Mas a coragem parecia ter ido quando a voz fria e aveludade chegou.
Eu já chorava em desespero de uma maneira que não enxergava mais um palmo na frente do rosto.
Os gritos de meu pai pareciam facas, que me perfuravam o peito cada vez mais fundo.
-- Mamãe não lhe ensinou que é feio ignorar quando lhe dirigem a palavra?
O QUE ELE ERA? UM MONSTRO?
Minha voz parecia presa na garganta, e eu a cada segundo sentia meu cérebro vacilando querendo me tirar daquele lugar sufocador.
-- Pelo jeito não. — a voz respondeu a própria pergunta.
-- DEIXE-A IR! PORFAVOR! ELA AINDA É JOVEM! DEIXE-A PARTIR! — Charlie gritava entre seus gritos de dor e agonia.
-- E o que ela é sua?
Ouvi barulho de algo se quebrando, e um grito mais alto de meu pai.
-- Minha filha. Ela é minha filha.
-- Que coisa bonita. O amor paternal! — a voz disse zombeteira, enquanto meu pai soltava mais um berro de dor.
-- DEIXE-A IR!
O homem riu, e Charlie berrou mais alto, de uma maneira que ecoava nas paredes do lugar.
-- Se a Senhorita quiser seu Pai vivo, creio que terá que me encarar! — a voz mandou, entre berros de Charlie.
-- OLHE-ME! — a voz berrou, enquanto Charlie gritava cada vez mais alto.
Meus olhos estavam embaçados pelas lágrimas, e eu não enxergava nada. Passei a manga do casaco neles, enxugando-os.
Meus sentidos pareciam ter me deixado, mas o desespero por Charlie me tomava, e me segurava em pé.
Não sei como, mas de uma maneira que eu desconheço, tirei a força e a coragem do fundo da escuridão que ameaçava acabar comigo, e me virei lentamente.
Nada no mundo havia me preparado para imagem que vi a seguir.
Meu pai no chão se contorcendo de dor, enquanto o homem pisava em sua perna ensanguentada.
Não. Ele não era um homem!
Não havia palavras para descreve-lo. Mas não podia ser humano.
Sua roupa era preta, e sua capa comprida, sua pele era branca como papel, e seu cabelo era de um tom de bronze, que eu nunca havia visto.
Seu rosto era coberto do nariz para cima por uma máscara branca e preta, com varias queimaduras em sua volta. Seus olhos eram de um vermelho sangue que pareciam cintilar em sua pele branca como a neve.
Sua boca tinha um formato definido, e era de um vermelho convidativo, e seu sorriso sarcastico seria o mais perfeito que já havia visto, se não fosse pelos caninos expostos que saiam dele.
Mas não era isso que fazia ele parecer sobrenatural. Não.
Era o fato de mesmo com uma máscara tampando metade de seu rosto, os olhos vermelhos, e os caninos expostos. Ele era irrevogavelmente a criatura mais linda que meus olhos ja haviam visto.
Perfeito. Como se tivesse sido esculpido por Anjos.
Algo parecia me atrair como imã para aqueles caninos.
Mas, logo que meus olhos chocolates encararam os seus vermelhos cintilantes, ele tirou o pé de cima da perna de meu pai, dando grandes passos para trás, enquanto me encarava... assustado?
-- Não pode ser! — ele murmurava, como se tivesse medo de mim.
Talvez eu tenha entendido errado. Mas era ele quem havia caninos expostos ali.
Ele dava passos para trás enquanto me olhava com os olhos chocados.
No minuto seguinte ele pareceu se recuperar, e seus olhos se transformaram em um mar de ódio e repulsa.
Não conseguia desviar meus olhos de seu rosto perfeito. Mas o grito de meu pai implorando para ele me deixar ir, pareceu me acordar.
Me ajoelhei ao seu lado, com as lágrimas voltando ao ver todo o seu desespero.
-- Vá embora Bella! — ele murmurava para mim, enquanto tremia compulsivamente.
O homem sem pena, pisou novamente na perna de meu pai.
Charlie berrou.
-- PARE! PARE! — de algum modo, o desespero de ver meu pai urrando de dor, havia despertado a voz trancafiada pelo medo.
-- DEIXE-A IR! — Charlie tentava berrar, enquanto o homem apenas pisava na sua perna e me encarava com ódio.
-- PARE! PORFAVOR! PARE! EU SUPLICO! PARE DE TORTURA-LO!
Eu estava praticamente de joelhos a seus pés.
Minha cabeça parecia latejar dolorosamente, e meus pulmões quase berravam em protestos pela falta de oxigénio.
Charlie continuava berrando, e meu desespero estava quase me matando.
-- PORFAVOR! TORTURE-ME! MATE-ME NO LUGAR DELE! — gritei tirando fôlego da única coisa que parecia tomar conta de meu corpo. O desespero.
-- NÃO!! NÃO!! BELLA NÃO FAÇA ISSO! NÃO BELLA! NÃO FAÇA ISSO!!
Não podia deixa-lo morrer de dor ali. Justo agora que depois de tantos anos tentando superar a morte de Renée, Harry e Billy, ele estava começando a deixar o amor entrar novamente em sua vida, com Marie. Não podia deixa-lo morrer. Não podia.
O homem apenas me olhava com os olhos vermelhos, enquanto eu estava de joelhos em sua frente suplicando entre lágrimas.
-- EU FICO! FAÇO QUALQUER COISA! MAS DEIXE-O IR!
-- Pare! — uma voz doce e fina disse atrás de mim.
O homem a olhou com olhos confusos, e tirou seu pé de cima da perna de Charlie.
Senti a escuridão começar a se fixar em minha mente, enquanto eu me esforçava para continuar consciente.
Fui até o rosto de Charlie, que murmurava para mim fugir. Enquanto a voz fina e doce dizia em alto e bom som.
-- Ela fica! — ouvi a voz.
-- Não à quero aqui! — o homem respondeu me mandando um olhar de repulsa.
-- Você não é o unico morador dessa casa Edward! — respondeu a voz de maneira doce.
-- O que você quer com ela? — o homem perguntou olhando para a figura atrás de mim, que eu ainda não havia visto.
Só tinha olhos para meu pai, e as lagrimas que caiam.
-- Ela se ofereceu para fazer o que quisermos, em troca de deixarmos o homem ir. — a voz disse quase dando saltinhos de entusiasmo. — E eu acho uma idéia excelente.
Não entendia o porque do entusiasmo, ou como ela sabia que eu havia suplicado que faria qualquer coisa se deixassem Charlie ir. Mas não me importava muito. A unica coisa que parecia me importar, é que estavam considerando deixar Charlie livre.
-- NÃO! NÃO! — meu pai berrava, olhando para o homem na minha frente e a mulher atrás de mim. — NÃO! TUDO MENOS ISSO! DEIXE-A IR! DEIXE-A IR!
-- O que você está escondendo de mim Alice? — o homem perguntou ignorando os gritos de meu pai. — DEIXE-ME VER!
-- Não há nada para ser visto Edward! Apenas acho que ela pode nos servir mais do que o homem.
-- NÃO!! NÃO!! NÃO!! FIQUEM COMIGO! EU SOU VELHO! JA VIVI MINHA VIDA! NÃO ACABEM COM A VIDA DELA!! NÃO A TIREM DE MIM!!
Charlie berrava, mas eu já não ouvia os gritos a minha volta, minha cabeça rodava e rodava, pela falta de oxigénio, e a escuridão me invadia.
-- Tarde demais! — uma voz rouca e sensual falou enquanto puxava meu pai do meu lado.
Não tive forças para olhar e ver o dono da voz, apenas percebi pela sombra que as velas faziam no chão que ele parecia ser grande, forte, e musculoso.
Eu sabia que estava me entregando a morte. Sabia que ali poderia ser meu fim.
Mas eu não me importava, contanto que Charlie estive livre e a salvo.
Não me importava o que teria que passar para que ele voltasse a ficar bem. Não me importava.
Porque esse era meu Sacrifício. Meu Doce Sacrifício.
E eu estava feliz em faze-lo. Em libertar meu pai, não importando o que fosse acontecer comigo. Minha felicidade de saber que ele estaria bem, já era o suficiente.
O homem de máscara rosnou alto, e se tacou com uma força monstruosa na segundo grade que se quebrou em varios pedacinhos.
Ouvi os gritos de desespero e medo das mulheres.
-- NÃO!! NÃOO!! NÃOO!! BELLA!! BELLA!! FIQUEM COMIGO!! FIQUEM COMIGO!! BELLA NÃO FAÇA ISSO!! BELLA!! — Charlie berrava enquanto o homem o pegava no colo.
-- Eu Te Amo Pai! — murmurei com as ultimas forças que ainda restavam em meu corpo, e logo em seguida senti a escuridão tomar conta de mim, e não vi mais nada.
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