[P.O.V. Fera]

Senti a luminosidade atravessar minhas pálpebras e acordei com alívio. Durante toda a noite, lutei com imagens desconexas e versões alterados do que vivera no dia anterior, desde a briga, até o tratamento inesperado que recebi e a conversa que se deu em seguida. Ainda precisaria de tempo para me tranquilizar totalmente em relação àqueles acontecimentos.

Talvez por influência da noite de sonhos perturbadores, julguei ver sob a luz do dia ainda alguns vestígios do conflito, e solicitei um banho quente tão logo encontrei alguém. Com ele preparado, me despi e tirei as bandagens que me envolviam, estudando a pele fina e sensível que recobria os ferimentos curados. Ainda achava aquela cura inacreditável.

Entrei na água, deixando o calor agir sobre as tensões e músculos castigados, relaxando aos poucos. Quis me lavar com cuidado, querendo remover qualquer resto de sangue nos pelos, cabelos ou nas garras. Não queria nem traço do cheiro, mesmo que fosse o único que pudesse senti-lo. Para não ficar melancólico, me concentrei no almoço que teria em breve. Em compensação, fiquei nervoso.

Como de hábito, fiquei diante do fogo para secar o corpo melhor do que conseguia fazer sozinho, e tomei café enquanto esperava. Estava com mais fome do que me lembrava em muito tempo. Madame parecia se divertir quando me serviu, mas partiu logo depois, possivelmente para ajudar com o almoço ou ficar com Bela, deixando-me na companhia de Horloge.

“Vejo que está em excelente forma, amo.” Comentou, sempre agindo de maneira simpática e bajuladora. “Tiveram uma boa conversa ontem à noite? A jovem princesa é adorável, não?”

Fingi que não sabia ou não me lembrava de que nossa conversa foi observada, e contei uma versão resumida do que conversamos.

“Então pretende mesmo deixá-la ficar?” perguntou-me, entre a surpresa e uma expectativa que não sabia disfarçar muito bem.

“Sim. Ainda não sei se compreendo as motivações de Bela, mas não me sinto capaz de lhe negar isso. Mesmo que viesse a me arrepender depois. Acho que o próprio Castelo tomaria providências no caso de perigo.”

“Sobre isso, senhor... o quanto diremos sobre os segredos do Castelo se ela vier a nos indagar?” o entusiasmo com a estadia de Bela não o distraía de seu trabalho.

Pensei no que dizer enquanto fazia uma maçã sumir por trás dos dentes.

“Estou cansado de viver escondido atrás de uma fortaleza de segredos. Não vejo como ela poderia usar essas informações contra nós ou o Castelo. Também nunca lidamos com alguém que compreenda a existência das forças menos visíveis no mundo e que tenha também seus próprios segredos importantes. Já não poderia mentir. Mas posso lhes prometer não dizer nada sobre a questão que lhes diz respeito. Vocês decidem, em consenso.”

O relógio não esperava essa manifestação tão grande de sinceridade de minha parte, e certamente não adivinhava o tamanho do meu cansaço quanto a esta questão. Como de hábito, não se oporia diretamente a uma decisão minha, e concordou, mesmo que hesitantemente, fazendo a ressalva:

“Certo, amo. Mas não se esqueça que a discrição é sempre aconselhável.”

Resmunguei em concordância, terminando a refeição. A conversa passou para os preparativos do almoço. Fui consultado sobre os pratos, possíveis exigências e até sobre qual roupa usaria. Respondi que não sabia preparar ou exigir nada em uma situação daquelas, e que nem tinha muitas opções de roupas.

“Não tenho muita coisa que me caiba ou em bom estado.”

“Bem, quando o senhor chegou, começamos a fazer adaptações nas roupas disponíveis e a preparar algumas especialmente segundo... suas necessidades. Interrompemos o trabalho quando nos solicitou.”

“Eu não... achei cabível eu me vestir como um nobre. Não sem ser um. Não com esta aparência. Qual seria o sentido?”

Um sorriso amigável e profissional apareceu sob seu bigode de ponteiros.

“Agora tem uma boa motivação, amo. Uma bela companheira incentiva alguns cuidados, se me permite a opinião, principalmente tratando-se de uma princesa. Além disso, o senhor não se lembra se é nobre ou não, e de qualquer forma é o anfitrião e senhor deste Castelo. É sua posição.”

“Ainda acho que não seria capaz de muita pompa...”

“Então comecemos pelo básico, e deixamos as roupas de baile para depois!” ele disse, com uma risadinha. “Por agora, opções elegantes e sóbrias. Posso pedir que sejam feitas?”

Concordei, inseguro. Olhando meu corpo nu, molhado e marcado, achava difícil imaginá-lo dentro de vestes chiques feitas sob medida. Daquela vez, ainda recorreria a alguma calça mais inteira, mesmo que curta e uma parte de cima de amarrar.

Quando já estava seco o bastante, procurei refazer as bandagens (com a ajuda de Chevet) antes de me meter nas calças pretas e no casaco verde escuro, sem muitos detalhes, aveludado. Estava um pouco quente.

Lancei um olhar para a Rosa antes de deixar meus aposentos. Perambulei por um tempo, lentamente, e mesmo assim me dirigi à sala antes do horário combinado. Quando fui me aproximando, procurei corrigir a postura.

A lareira já estava acesa com fogo baixo e a mesa estava com louça e talheres postos. Notei que procuraram me fornecer utensílios de servir delicados e brilhantes para que usasse como talheres; uma caneca de cristal ocupava o lugar da taça; meu guardanapo de mesa era um guardanapo de colo. Sorri com a delicadeza de todas essas adaptações, para que pudesse acompanhar Bela de maneira mais civilizada. Será que um dia me acostumaria com toda aquela cerimônia?

Sentei-me em meu lugar à cabeceira da mesa para esperar.

***

[P.O.V. Bela]

Madame de Garderobe acordou animada e cedo, abrindo suas portas soltando uma nota musical. Franzi o cenho, mesmo com os olhos ainda fechados. Algumas manhãs tornavam-se deliciosas para serem passadas na cama, mas ali eu não tinha muito essa opção.

“Bom dia, princesa!” disse animadíssima para me acordar por definitivo, e suspirei bem baixinho, estalando as costas, antes de responder.

“Bom dia, madame.” Falei menos animada, sentando-me segundos antes de o carrinho de Mme. Samovar adentrar o quarto com meu café da manhã, que pulou para perto do meu colo.

“Olá querida! Hoje estamos um pouco mais apressados na cozinha. Nos chame se precisar, estaremos lá.” A moça disse amorosa, perguntando rápido como estavam as coisas antes de correr para a porta mais uma vez, deixando as porcelanas comigo.

Toda a expectativa das senhoras deixou-me ansiosa. Comecei a sentir o coração bater na garganta enquanto toda a situação voltava à tona na minha cabeça. Incrível como ser rodeada por mulheres pode impedir de viver calmamente muitas vezes.

A senhora-guarda-roupa conseguiu permitir que eu tivesse uma manhã mais silenciosa. Acabei de comer conversando sobre coisas boas com ela, distraindo o nervosinho do peito ao falar sobre detalhes que eu ainda não havia reparado naquele quarto.

O tempo passou rápido entre escolher o vestido mais adequado, o banho, arrumar o cabelo, me arrumar e maquiar. A ansiedade tomava conta do meu corpo aos poucos enquanto colocava as vestes azul-celeste e os brincos, e Lumière apareceu com tranquilidade, vindo beijar minhas mãos:

Bonjour, chérie. Está maravilhosa!” como sempre, dei algumas risadinhas com sua fala. “O amo já se encontra no local do almoço. Quando estiver pronta, começaremos a servir!”

Merci, Lumière.” Ele se animou meigamente com minha tentativa de resposta em seu sotaque. “Descerei em breve. Faltam poucos detalhes.” Ele concordou, saindo pela porta.

Na verdade... não faltava nada. Eu só queria descer sozinha daquela vez e quando estivesse pronta. Sempre ficava mais tensa com essas cordialidades, por mais acostumada que eu pudesse estar por ter vivido em situações assim por toda uma trajetória. Mas dessa vez parecia diferente, mesmo que eu não pudesse descrever os motivos.

Faltando uns dez minutos para a hora marcada, desci com vagar, procurando o equilíbrio entre o ser princesa e o ser eu mesma. Tudo no improviso parecia mais fácil. Desci as escadas e me dirigi ao salão, onde o encontrei sentado em seu lugar. Sorri. Estava arrumado para ter esse momento comigo. Fiquei feliz.

Fui até ele, fazendo uma pequena e nobre reverência antes de sentar-me no lugar já determinado a mim, levando o pano-guardanapo ao colo.

“Bom dia. Está bonito...” comentei meiga enquanto me arrumava em frente a todos aqueles utensílios. “Como está hoje? Sua pele está se recuperando bem? Qualquer coisa... posso promover outro tratamento. Não estou muito acostumada a curar corpos tão diferentes...”

Não queria tantas cerimônias ou silêncio naquele momento e comecei o assunto já vendo um carrinho aparecer com um prato cheiroso vindo em uma bonita tigela. Era a sopa inicial.

[P.O.V. Fera]

Ao menor ruído, voltei minha cabeça para vê-la entrar como um pedaço do céu que descesse para me fazer companhia. Mesmo que não a tivesse visto com tanta frequência, estava claro que se arrumara com mais cuidado para o evento. Seu olhar também passou por minhas roupas enquanto se aproximava, e acreditei que me aprovava.

Quando me fez uma reverência, levantei-me bruscamente para retribuir – não sabia quais regras da cortesia deveria seguir. Mas não cheguei a me curvar: ficando de pé, ameacei derrubar a pesada cadeira, que só reequilibrei com a cauda, por reflexo.

“Sinto muito.” Murmurei tão baixo que não sabia se fora ouvido ou não, recolocando a cadeira na posição. Vi que o incidente não trouxe nenhuma consequência, que Bela se instalara em seu lugar sem qualquer transtorno, e mesmo assim continuei um pouco envergonhado.

Demorei a perceber que o elogio se dirigia a mim; devo ter erguido as sobrancelhas e aberto um pouco a boca antes de responder “Obrigado. Você... está... linda.” Acabei dizendo, contando que minhas palavras não seriam interpretadas com intenções maldosas. Arrisquei olhá-la novamente (às vezes descia meu olhar para a louça à minha frente), admirando o delicado trabalho do penteado, dos adereços, da roupa. Podia notar que também seu cheiro estava diferente, assim como sua pele, mas não conseguia definir essas diferenças.

Quando questionou sobre a recuperação de meus ferimentos, levei automaticamente a pata ao focinho, a única marca que não conseguia esconder ou dissimular com as roupas ou por qualquer meio. Esperava que a aparência não a desagradasse. “Estou muito melhor. O que você fez foi... um milagre. Eu quase não tenho qualquer incômodo.”

A ideia de um novo tratamento me agitou discretamente. Senti os pelos se eriçarem por baixo da roupa, levemente, e troquei as patas de posição sob a mesa. Era o fato de ser tocado em uma situação diferente, sem urgência e sem dor, totalmente consciente desde o começo.

“Eu não poderia incomodá-la pedindo algo assim... nem sei se este tipo de...” o que era? Um dom? Uma magia? “...ação lhe traz algum cansaço ou exige esforço.”

A sopa de entrada chegou a esta altura do diálogo. A concha nos serviu por conta própria, a porção exata para ser generoso sem acabar com o apetite. A diferença entre nossos pratos não era tão chocante.

Enquanto deixava a sopa esfriar minimamente, tentei também puxar algum assunto. “Você disse que não... bom, imagino que não haja livros em seu reino. Todas as suas histórias são orais? São músicas? Não se sabe quase nada do seu povo, e o que existe é sempre algo com sabor de lenda. Imagino que saibam mais sobre o povo da terra do que o contrário. Talvez saiba mais do que eu!” emendei. Sentia-me desajeitado levando a colher à boca, que tentava não abrir demais. O sabor do alimento era excelente.

Talvez um tanto ansiosos, percebi o carrinho com a primeira parte da refeição – massa recheada com legumes ou frutos do mar, a escolher, junto a um pote com molho grosso de especiarias – apontar discretamente pelas portas duplas. Ao lado, as bebidas: água fresca, suco de maçã, chá e vinho. Pareciam doidos para entrar.

[P.O.V. Bela]

“Não é nada mesmo. Claro que exige um pouco de mim esse tipo de ato, mas agora não seria nada comparado à primeira vez. Eu apenas terminaria o processo para você realmente ficar sem incômodo algum.” Insisti levemente, imaginando que ele poderia estar mais sem jeito do que não querendo o cuidado a mais. Pensei em pedir para ver o braço, mas achei demais para o momento e despistei o pensamento.

Agradeci imensamente a sopa que cheirava tão bem, virando os olhos para ele novamente já com a colher na mão, também esperando que a minha esfriasse um pouco, feliz por agora algo partir dele. Mais um sorriso me apareceu com sua preocupação em delicadeza para dizer as coisas. Como era gentil...

“Meu povo nunca teve livros e deve ser por isso que os considero tão sensacionais. Nunca vi muitos, mas já ouvi falar de construções enormes lotadas deles! Não conheço as cidades grandes do seu mundo. Não me afastei muito das praias até vir para cá... posso até te decepcionar ao não saber se conheço mais do mundo humano que você...” ri, tentando fazer alguma gracinha. “...mas pouco do que sei é realmente bom. Para nós, o povo da terra é o inimigo. Então são sempre orais, sim... ou cantadas como sugeriu... nossos registros estão na mente...”

Acabava de tomar a sopa tranquilamente para que os outros pratos, claramente ansiosos, pudessem entrar.

“Sabe? Podemos contar algumas histórias... eu gostaria de saber quais são os contos que rodam essas terras... e eu posso mostrar os cantos a você, se quiser... seria bastante divertido. Eu gostaria de contar para você e trocar ideias com alguém que entende, de alguma forma, o que é fazer parte de dois mundos.”

[P.O.V. Fera]

Quando ela insistiu na sugestão de fazer um novo tratamento, achei que já seria desagradável negar outra vez. “Então eu aceito, e agradeço imensamente. Para quando achar melhor.” Respondi, baixando a cabeça em reconhecimento, e as orelhas, vermelhas, por timidez.

Enquanto tomávamos a sopa, escutei o que tinha a dizer sobre sua cultura, bem como sua visão dos humanos. “Sim, os prédios de que fala, bibliotecas, podem ser imensos e muito bonitos. A desse Castelo é bem respeitável, e nós vamos vê-la logo depois do almoço, como prometi. Espero que goste. Para mim é fácil gostar, já que amo os livros...” comentei, sorrindo um pouco. “Claro, eu adoraria ouvi-la! Talvez eu não tenha tantos contos assim de cor, mas nada que a leitura não possa ajudar.”

Com os novos pratos a postos, aceitei um pouco de ambas as massas, o molho, e escolhi beber água e vinho. Esperava que a bebida pudesse me ajudar um pouco a relaxar. Há muito tempo não bebia das adegas do Castelo.

Refleti um pouco sobre sua opinião a respeito das pessoas da terra antes de tecer qualquer comentário. “Bom... não posso negar que os humanos se esforçam para ser os inimigos de todos os demais, além de si mesmos. Ao mesmo tempo, fizeram todas as coisas boas e bonitas que nos cercam agora, e criaram todas as estórias que eu vier a ler em sua companhia. Além dessas impressões e algumas... lembranças que não sei explicar, não sei o que dizer deles.”

Pensei em falar que me sentia, naquele lugar, ao mesmo tempo como prisioneiro e estrangeiro, sem sequer me lembrar das terras de origem; seria um assunto muito melancólico, e o evitei. Quantos silêncios se dão em primeiras conversas desse tipo? Também não tinha o direito de falar da condição dos outros moradores, só mencionando os segredos do Castelo conforme fosse questionado.

Os pratos principais vieram desfilando, orgulhosos e generosos, sobre a superfície da mesa, em baixelas de prata lindíssimas que reluziam: carne de caça assada e cortada em bifes de diversos tamanhos, acompanhada de sauté de legumes, e peixes grelhados com ervas e grãos cozidos. O cheiro era ótimo. Assim que terminei a massa, outro prato chegou até mim, limpo, para que um dos maiores bifes pousasse nele.

“É muito fácil ser mimado aqui...” falei, com humor, tentando cortar a carne mesmo sem jeito. “Acho que nunca vou me acostumar...”

[P.O.V. Bela]

“Hoje mesmo depois das aventuras propostas, ou amanhã... quero poder fazer mais um pouco para corresponder a tudo isso. Você poderá se sentir bem e poderemos fazer outras coisas... talvez...” acabei por beber um pouco do meu chá, sem jeito por ficar sempre insistindo em passar mais tempo no castelo e com ele. Resolvi tentar me segurar um pouco mais, mesmo que as propostas e assuntos fossem excitantes.

“A tarde de hoje será, então, muito agradável! Eu mal conhecia castelos e nossa... deve ser incrível ter uma... biblioteca, né?” falei devagar, tentando pronunciar bem a palavra “...dentro dele! Quero conhecer várias coisas... sinto que sei muito pouco daquilo que poderia aprender. Vou adorar ter sua ajuda!!” acabei batendo umas palminhas de empolgação.

Agradeci pelos pratos servidos e me permiti comer um pouco mais rápido do que o de hábito. Estava maravilhoso como tudo o que aquele castelo me servia. Ouvi-o com atenção.

“Sim, sim, são criaturas fascinantes. Eu gostaria de saber mais e até ver mais do que aquilo que eles podem fazer de mal a outros povos. O medo controla tanto que quase nada nos é permitido pelo receio dos superiores a nos aproximarmos. Sei que em livros também existem figuras do que eles fazem, não é? Será que existem alguns assim por aqui? Eu adoraria ver umas imagens também.”

Falava com a maneira mais meiga que me era possível. Já estava percebendo algumas coisas estranhas no castelo e por isso não quis mencionar sair para conhecer outros lugares ou pedir que me levasse, já que conseguia sair para caçar. Seria indelicado e eu não imaginava quais seriam as possíveis consequências... por isso contentei-me coma ideia das imagens para talvez deixá-lo mais à vontade até que eu conhecesse um pouco mais da realidade do lugar.

Abri um sorriso enorme quando os outros pratos vieram desfilando, pegando agora só um pouquinho de cada pela minha vontade de desfrutar da sobremesa quando esta viesse. Madame serviu um pouco mais de chá, satisfeita, antes de tudo se retirar mais uma vez.

“Não acha que vai se acostumar? Nossa... eu me acostumei bem rápido aos mimos.” Dei uma risadinha, já cortando o pequeno bife para experimentar. “Eles são realmente uns amores. Eu adoro conviver com eles. Acho que já ouviram isso mais de cem vezes!”

“Eu gostaria de te conhecer um pouco...” disse, depois de pouco tempo de silêncio enquanto comia. “...mas fico sem jeito de fazer perguntas que sejam invasivas e não sei muito o que perguntar. O que eu posso saber de você?” resolvi fazer a pergunta com mais um golinho de chá, esperando que o próximo prato já fosse a sobremesa para eu não estourar.

[P.O.V. Fera]

“Agradeço por sua generosidade.” Repeti, olhando para o bife, sentindo a pele queimar. Senti em suas palavras a curiosidade sincera pelas sociedades humanas, e temi que quisesse ir atrás delas. “Sim, há muitos desenhos, pinturas, descrições detalhadas. Os livros são a maneira segura de ir até esses locais...” Eu temia por sua segurança. Algo em mim dizia que eu temia outras coisas, mais egoístas.

“Levaremos vários dias para explorar a biblioteca, mesmo escolhendo um tema só. Estou aqui há anos e estou muito longe de esgotá-la, mesmo que falasse todas as línguas.”

O vinho de fato ajudava a soltar um pouco minha língua e estava surpreso comigo mesmo, com o quanto estava interagindo. As taças e canecas cheias esvaziavam, as vazias eram repletas de novo... quando notaram que não nos servíamos mais (eu já havia repetido), os pratos principais se retiraram, cruzando-se na saída com a tábua de queijos, que já se adiantava. Notei pela porta que a sobremesa já aguardava a sua deixa, e fiz um gesto largo com o braço para que entrasse de uma vez. Depois de alguma hesitação (ela estava quebrando o protocolo!), acabou por me obedecer: chegaram as mousses de frutas silvestres, uma tortinha de gemas e crème brûlée. Madame e a cozinha provavelmente perdoavam minha intromissão.

“Sim, eles são bastante atenciosos... devem estar muito felizes de produzir e exercer tudo isso com alguém que... valoriza tanto.” Respondi, aceitando um pedaço de queijo e algumas colheradas de mousse em uma tacinha de cristal. “Não sou muito receptivo e decepciono nesse quesito. Entre outros.” Não estava com paciência de formular uma desculpa, e era incapaz de mentir.

Estava com creme na boca quando ouvi sua última pergunta e nossos olhares se cruzaram. Engoli devagar, refletindo no que deveria fazer.

“Receio que... terei de deixar muitos assuntos e informações em aberto, não porque não queira responda-los, mas apenas porque não sei como fazê-lo. Farei o melhor que posso.” Pousei a colher, procurando em meu interior os fragmentos que tinha a oferecer daquilo que era também meu enigma e minha maior questão. “Acredito que estou no Castelo há cerca de duas décadas, mas posso estar enganado, já que nunca me distancio dele, não tenho contatos frequentes e as estações do ano aqui não parecem muito confiáveis. Além disso, várias vezes perdi o interesse em manter as contas. Não me sinto nem um dia mais velho desde que cheguei, mas certamente estou mais cansado. Sei que vivi fora daqui e tenho estas... lembranças, sonhos e sentimentos que contam uma história de outro tempo e outro lugar , ou deveriam contar. Elas são imprecisas, vagas e sequer sei se são reais. Tudo o que me lembra com clareza já vem deste Castelo, mesmo que eu não me lembre perfeitamente de como cheguei. Ou, como acho mais provável, como fui preso aqui. Havia mais alguém... acho que o responsável por isso. Esse alguém se foi, me deixando aqui como punição. Desde então fui tratado por todos como o senhor, mas me vejo antes como um prisioneiro. Seria visto como monstro e morto se deixasse esse lugar... Sei que não há outros como eu nesta terra de humanos, e nem posso dizer como tenho essa certeza! Nunca descobri nem ao menos se sou de fato assim ou fui transformado e largado aqui desta forma...”

Enquanto falava, amargura nascia e fluía do meu peito, contraindo cada vez mais os músculos da minha cara, de minhas patas fechadas. Minha cauda já se agitava de tensão, enquanto a voz ficava mais gutural. De repente, saí e mim mesmo tempo suficiente para me lembrar da jovem meiga perto de mim, e do almoço que eu estava estragando com meu humor que piorava. Voltei a medir as palavras, mas já sem conseguir reverter totalmente a disposição de espírito.

“Não tenho ninguém com quem sanar minhas próprias dúvidas, e por mais que tente permanecer ocupado... é difícil fazer isso por anos. Sem saber os motivos. Sem saber como ou por que ou até quando. Não sou a melhor das companhias. Fico feliz que os servos do Castelo possam oferecer mais gentileza e entretenimento do que posso fazê-lo a longo prazo. Ainda posso proporcionar esta... tarde de leitura na biblioteca. Ou quantas quiser. Você merece isso.”

Calei-me por mais um momento. Depois de já ter dito tanta coisa, ocorreu-me que talvez a princesa apenas quisesse saber se eu tinha um hobby, o que eu gostava de comer ou se apreciava música, e não tivesse pedido por esse desabafo indigesto e pesado demais para acompanhar a sobremesa. Sentia uma mistura de arrependimento e alívio. Suspirei.

[P.O.V. Bela]

Sorria animada e até mesmo aliviada quando a sobremesa apareceu. Até cheguei a bater palmas quando vi o que apareceu à minha frente. “Nossa! Eu sempre quis provar esse doce! Nem acredito!!” Peguei uns dois potinhos do crème brûlée e um pouco da tortinha de gemas. Infelizmente precisaria deixar as mousses para mais tarde.

A ideia de precisarmos de vários dias para explorar a biblioteca inteira também me animou. Eu estava me sentindo uma pilha! Só havia alegria naquele lugar? De que tamanho ela seria se nem mesmo ele, que estava no castelo há tanto tempo, conseguia? Mas não teci mais nenhum comentário... apenas mordi o lábio antes de beber o chá com o sorriso que não me saía e provavelmente ele conseguia ver o brilho nos meus olhos com tudo aquilo.

Sua resposta para a última pergunta foi longa e eu não esperava por isso. Prestei toda a atenção que podia. Podíamos realmente nos tornar amigos após essa revelação? Eu esperava que sim... havia um mistério grande que envolvia tudo aquilo... mas até eu mesma achava engraçado não me assustar... mas, sim, querer saber mais. Aquilo podia me dar problemas... mas algo bem no fundo do meu coração dizia que não. Dizia também que algo ainda mais extraordinário poderia acontecer.

Percebi que tinha o rosto apoiado na mão enquanto ele falava, o cotovelo apoiado na mesa, os olhos quase não piscando. Era fascinante. Eu escreveria essa história se pudesse... percebi o quão angustiado ele era com essa situação... e eu só conseguia me deslumbrar com tudo aquilo. Não quis mostrar esse interesse... mas eu não pude deixar de dizer algo quando ele pareceu arrependido por ter dito, mesmo que eu sentisse que podia estar precisando justamente daquilo.

“Então... alguém te prendeu aqui por alguma razão... como uma maldição... como se fosse um feiticeiro. São eles que lançam essas coisas, não é? Temos bruxos nas profundezas... sei que existem. Mas você não sabe se esta é sua forma ou foi transformado... e você tem essas vagas lembranças.” Mexi nos lábios enquanto pensava. “Pode ter feito alguma coisa no passado para ser castigado... e perdeu a memória para ter mais uma chance sincera... ou está sendo protegido de algo... ou os dois...” eu não sabia se aquilo podia incomodá-lo, mas enquanto não era interrompida, continuava minhas teorias com base naquele mínimo que pude saber.

“Minha pequena ‘sabedoria’ sobre essas coisas diz que nada se enfeitiça sozinho. Ou há algo do mundo espiritual envolvido, ou feitiçaria mesmo. Esse lugar não me parece realmente mal-intencionado, entende? E não me parece coisa dos elevados... então eu apostaria nessa pessoa aí que você disse haver...” levei a mão aos lábios novamente e fiquei poucos segundos em silêncio antes de continuar. “Olha... deve ter alguma pista, alguma coisa escrita, escondida... qualquer coisa... que possa ajudar. Este castelo é imenso... pode ser qualquer coisa. As estátuas... daquelas que te trouxeram até mim... parecem saber. A própria biblioteca é um lugar perfeito para esconder algumas dessas pistas. Todo feiticeiro precisa de bases para que algo se mantenha por tanto tempo... uma maldição se dissipa rápido sem pilares. Eu posso te ajudar a encontrar esses pilares! Como ela foi lançada em você... pode ser que não encontre... por fazer parte. Mas eu estando de fora... se o próprio castelo não se voltar contra mim... pode ser que consigamos respostas! Mais uma coisa que podemos descobrir tentando... é se essa pessoa espera que você encontre ou se determinará ela mesma o tempo da maldição.”

A expressão dele me fez dar uma pequena risada. “Ah, você deve estar se perguntando como eu posso saber tudo isso ou está desconfiado de mim... mas eu tenho uma surpresa. Ser da realeza traz realmente umas boas vantagens... e a minha tia é uma das maiores bruxas do mar... então eu sei umas coisinhas. Com ela aprendi a fazer essas curas.” Sorri a ele com gentileza.

Toquei sua pata, que era claramente tão maior do que minha mão, e sorri frente ao seu espanto: “Se me permitir, posso mesmo ajudar, e ainda que demore um pouco... enquanto me permitir ficar no castelo... terei empenho, sabe? Eu amo mesmo esse lugar... e eu quero poder ajudar mais... eu quero poder retribuir esse carinho.”

Madame Samovar e Lumière trocaram olhares esperançosos para além da porta, os olhos da bule brilhavam em alguma emoção. Limpei os lábios com tranquilidade após todo o discurso que fiz.

“Estou pronta para ir. O almoço foi mágico...”

[P.O.V. Fera]

Ouvindo sua voz mansa e bem-intencionada mesmo depois de tudo o que eu dissera, ergui meus olhos para seu rosto, e não vi nele nenhuma das expressões que teria esperado. Não imaginava encontrar aquele interesse, e até alguma simpatia.

Seu resumo da história mostrava que tinha prestado atenção. As primeiras hipóteses que levantou estavam bem próximas do que eu havia imaginado ao longo dos anos, repassando na mente, sem chegar a qualquer resposta definitiva. Enquanto acompanhava seu raciocínio, provavelmente com uma expressão cada vez mais estúpida, sentia crescer em mim duas tendências opostas. Uma pessoa tão lúcida e com tamanha boa vontade poderia mesmo ajudar, fazer diferença... ou mesmo encontrar algumas respostas. Ao mesmo tempo, sentia uma resistência a envolvê-la nisso. Queria, sim, protegê-la... De quê? Do Castelo? Desse possível feiticeiro? Não saberia dizer... Só estava consciente dessa insegurança, da provável exposição. E ainda, reviver esperanças depois de tanto tempo! Já havia vivido aquela obsessão antes e quase enlouquecera. Quantas coisas sofrera querendo entender, quantas coisas destruíra.

“As estátuas... não devem colaborar.” Não consegui segurar, a boca se repuxando em um meio sorriso cínico. “Até podem saber de alguma coisa, mas não vão falar. São como... guardas do Castelo. Protegem os que estão aqui, até de si mesmos. Só se movem quando necessário e são a única coisa do local que se regenera, em pouco tempo. Acredite, eu já testei.” Concluí.

Minha desconfiança apenas cresceu quando explicou seu envolvimento e conhecimento com a magia ou feitiçaria. Aquilo parecia tão conveniente. Primeiro, um comportamento tão tranquilo diante de tudo o eu o Castelo trazia em si; agora, a magia era não só normal, como até familiar... Não teria ela alguma ligação com a situação que vivíamos ou com seu criador? Algum dos servos sabia ou teria notado?

Percebi que novamente minhas feições me traíam – não apenas não conseguia mentir, como costumava ser extremamente fácil de ler, e incapaz de esconder direito minhas emoções. Passei a pata no rosto para disfarçar o que pensava e sentia. Logo, não havia sensação outra que a surpresa, quando a jovem tocou a outra pata sobre a mesa.

Não parecia mentira. O rosto de Bela transparecia a mesma sinceridade de suas palavras. Aquilo exigiria muita dissimulação... ou sua voz teria o mesmo encanto que tinha na música para me enganar tanto. Sentia-me frustrado e estúpido por não saber: se caía tão facilmente em seu jogo, ou se acusava de maneira tão injusta uma inocente disposta a fazer tanto.

“Obrigado...” disse, depois de uma longa hesitação. Não sabia o que acrescentar. “Podemos... ver isso com calma... depois.”

Olhei para o resto de sobremesa que havia deixado antes de começar a falar. Num impulso, lambi o que sobrou diretamente nos potes em um instante, antes de me levantar. “Siga-me. Vamos para a biblioteca.”