A Bela e a Fera - Livro 1

2 Capítulo 2: O senhor-prisioneiro


[P.O.V. Fera]

A neve acumulada mal tinha tempo de derreter antes que uma nova camada se depositasse nos jardins, varandas e passagens externas. O clima era sempre mais selvagem ali, até a área que circundava os muros externos, de mata fechada cortada por um rio. Aquela área da floresta parecia um verdadeiro recorte no mundo, um lugar onde as estações seguiam regras próprias e imperturbáveis. O chafariz estava desligado e coberto de gelo. Todas as estátuas traziam sobre os ombros e as costas uma capa branca. As janelas e vitrais coloridos estavam em parte obstruídos pela neve acumulada, e filtravam a luz difusa que penetrava no Castelo.

Por isso não estava empoleirado do lado de fora como fazia com frequência, em algum beiral ou parapeito, onde praticamente me confundia com as gárgulas e esculturas elevadas. Da última vez que saíra, três dias antes, para buscar comida que só eu podia caçar, voltei com todos os dedos dormentes por falta de proteção.

Desde então praticamente não saíra dos cômodos caóticos que eram meus aposentos, sem conhecer outra luz além da lareira ou da claridade cinzenta dos vidros quando me motivava a abrir as pesadas cortinas. Um tédio inquieto consumia-me por dentro. Se, por um lado, estava farto de não fazer nada, por outro, não conseguia a disposição e concentração para dar cabo de qualquer atividade. Dos três livros que vinha lendo ao mesmo tempo, apenas dois ainda estavam inteiros sobre a mesa, ao lado da poltrona rasgada. Mais papel se espalhava um pouco por toda parte, intocado, rabiscado, rasgado, amassado. Eu, o habitante do quarto, ignorava a cama, preferindo um recanto de colchas, cobertas e almofadas semelhante a um ninho feito sobre o chão, onde me deitava há horas, remoendo as mesmas coisas.

Foi nessas condições que meu servo me encontrou.

Primeiro, ouvia passos estalados das curtas perninhas do relógio que se aproximava, hesitante, das duas portas. O longo silêncio indicava sua ´duvida, ou que estava reunindo coragem.

“Entre logo. Não estou dormindo.” A voz saiu rouca pelo desuso, mais parecida com um rosnado do que eu pretendia. Ouvi os passinhos sobressaltados e o rangido das portas quando conseguiu entrar. Elas não tinham maçanetas ou trancas, que foram arrancadas, os buracos sendo recobertos por pedaços de madeira. Bastava-se empurrá-las.

“Amo... de-desculpe incomodá-lo...”

“Seja breve no incômodo.”

“Bo-bom... ontem à noite recebemos outra daquelas visitas inesperadas, alguém perdido precisando de ajuda.” Ele começou.

Ainda me lembrava das outras visitas. Uma jovem senhora há dois anos. Um senhor idoso e ferido que chegou em uma tempestade semelhante à que passávamos, há quatro anos. Uma criança, que ficou vários dias até um adulto aparecer perto o bastante para encontrá-la rápido, há quase.... dez anos? Outra pessoa de quem já mal me recordava, há mais tempo do que poderia me importar. Em todas as vezes, aquela chegada causou uma comoção, uma mudança na rotina desgastada do Castelo. Um motivo para agir. Sempre acompanhei de longe. Esta última aparição, porém, não foi capaz de me despertar qualquer coisa. Continuei de costas para meu servo, e me limitei a mover a cauda para mais perto do corpo.

“É uma jovem nobre.” Ele continuou, talvez tentando cativar meu interesse. Apenas vi mais um sinal de que deveria me manter longe para não assustá-la.

“Cuidem dela e deem o que ela precisar. Quando estiver bem e a neve ceder, peça que se retire.” Foi tudo o que disse.

“Lumière e os outros têm conversado com ela. São tagarelas, como o senhor sabe, e preciso controlar o que dizem ou fazem. A moça tem uma história triste, e para que se sinta melhor, já fizeram convites para que ela passeie pelo Castelo....”

Senti que estava me testando enquanto contava as coisas, para ver até onde era seguro falar. “Deixe que ande um pouco. Sabe quais são as áreas proibidas.” Respondi. Sabia muito bem como evitar um encontro indesejado e, de qualquer modo, não me via motivado a sair andando tão cedo até os andares baixos.

“Muito generoso, meu senhor. Acho importante dizer que a jovem – que se chama Artemísia, aliás, mas seu apelido de Bela caiu no agrado de Lumière – já sabe que o senhor é o amo do Castelo...”

Ergui a cabeça tão rápido para encará-lo que senti meu pescoço estalar. Pelo pulo que deu, devo ter sido uma visão assustadora com os olhos arregalados e as orelhas em pé, alerta.

“Não-não-não, não, ela não sabe o QUE o senhor é!” apressou-se a dizer em desespero, apenas para ficar ainda mais horrorizado com a possibilidade de me enfurecer. “Que-quero dizer, QUEM o senhor é, e, e, e, qual a sua... ‘condição’... ela apenas sabe que temos um amo de origem nobre! O senhor tem a minha palavra de que não dissemos mais nada!”

Relaxei um pouco, sem deitar novamente a cabeça. Vi o pequeno servo apavorado, tentando ler minhas reações, e lembrei-me do medo constante que habitava a todos naquele lugar. Aquilo me apiedou, ao mesmo tempo que me entristeceu.

“Está tudo bem, Horloge.” Quis assegurá-lo, virando meu corpo em sua direção e ficando recostado. “Confio em sua discrição. Só garanta a ela que não teremos um agradável almoço juntos.”

“Sim, amo, é claro!” seu alívio era perceptível. “Como ela estava ferida e se diz perseguida por um homem obcecado, pode ser que precise ficar um pouco mais de tempo.”

“Pois que fique.”

“Eu já contava com seu belo gesto, senhor!” exclamou, e novamente fiquei dividido entre a impaciência e a compaixão por uma dedicação tão grande a mim e ao Castelo, sem nunca saber quanto deste sentimento nascia apenas do medo. “Por falar no almoço, já comeu alguma coisa?”

“Nada desde ontem.”

“E o jantar estava a seu gosto?”

“Nada desde o desjejum de ontem.” Corrigi.

Vi seus ponteiros se agitarem. “Ora, isso não me parece aconselhável, senhor. Gostaria de comer alguma coisa? Madame Samovar ficaria feliz de mandar preparar sua refeição.”

Pensei por um momento, e acho que surpreendi a nós dois quando aceitei. “Sim.”

“Ótimo! Quer que eu mande trazer quando estiver pronto?” perguntou já se virando e tomando novamente o rumo das portas.

“Não.” Retruquei, interrompendo seu trajeto. Sentei-me sobre meu ninho, movendo os ombros doloridos, o pescoço, fazendo meu cabelo ou juba cair para frente, em total desordem. “Diga para levarem... à estufa superior.”

“Ah, o senhor quer tomar sua refeição em meio à natureza, apesar da neve! Ótima escolha. Farei isso prontamente.”

“Vou... ver se uma mudança de ambiente traz uma mudança de ideias.” Disse, erguendo-me finalmente, ainda apoiado de quatro, alongando a coluna até a ponta da cauda que ondulava. Mesmo nessa posição, Horloge já me parecia pequenino em toda a sua delicada decoração.

“Aconselharia o amo a se aquecer. Seus aposentos estão quentes por estarem fechados com a lareira, mas os corredores são propensos às correntes de ar.”

Enquanto cruzava o quarto, agarrei uma capa gasta avermelhada que largara sobre uma cadeira e joguei-a sobre o corpo, prendendo-a no pescoço. Além dela, uma calça rasgada que mal me passava dos joelhos era minha única peça de roupa. Cruzei as portas logo atrás de sua agitada figura. Seus passinhos estalantes ecoavam no corredor; eu, apesar do tamanho, não produzia outro som além do arrastar da capa, e do mínimo clique das garras sobre o piso.

“Gostaria que... eu pedisse a Plumette e à equipe de limpeza para que preparem seu quarto para o seu retorno?”

Era seu jeito de tentar evitar que eu transformasse o cômodo em um caos ainda maior. Suas preocupações comigo e com o Castelo mais uma vez se misturavam.

“Sim.” Respondi, e o relógio pareceu satisfeito.

“Vá para a estufa e sua refeição estará com o senhor em um piscar de olhos!” garantiu-me, antes de descer as escadas. Segui o corredor mais um pouco, até cruzar com os dois minotauros que seguravam as colunas da passagem. Trocamos olhares ameaçadores, carne contra pedra. Fui o único a continuar o trajeto.

***

Trocar um pouco de ambiente não trouxe toda a mudança que procurava; depois de anos, já não sabia o que fazer com a rotina para que se tornasse inspiradora. Minha natureza introvertida e humor inconstante fizeram com que me afastasse dos outros e, por respeito, não me procuravam. Nem sempre sabia o que fazer para tentar me reaproximar.

Depois de todo aquele tempo, ainda era frequente que me sentisse um estranho no Castelo. Era fácil lembrar-me de que era um prisioneiro, mesmo diante de todas as portas abertas.

Terminei a refeição, mas me demorei mais alguns minutos sentado na cadeira de metal da estufa, pensando. Sempre pensando. Percebi que piorava e me levantei, percorrendo com os olhos o espaço onde vasos, canteiros e floreiras de todos os tamanhos, no chão ou sobre as grandes mesas, eram o leito e a morada de algumas das vidas mais frágeis do lugar. Os objetos encantados faziam o possível para cuidar de cada muda, regando no tempo certo, fazendo podas necessárias, arejando e fertilizando a terra. Dos servos, Dubois era quem menos falava comigo, com um antagonismo claro e cristalino, ainda franco e quase ironicamente respeitoso. Seu trabalho era notável. Muitas plantas vicejavam naquele espaço protegido, a salvo das tempestades. Apesar do cuidado, alguns brotos morriam. Chegando perto de uma floreira, cutuquei com a garra o que sobrou de um deles. Senti vontade de enterrar os dedos no barro, e o cheiro característico invadiu minhas narinas.

Preferi sair dali antes que os pensamentos ficassem melancólicos demais. Saí pelas portas logo atrás da louça, que já ia embora sozinha. Não prestei muita atenção ao trajeto, deixando que meu corpo tomasse as decisões sozinho, e assim saltei sobre parapeitos, evitei escadas, subi colunas, sem jamais correr ou mesmo acelerar a respiração. Tudo recuava se eu chegasse um pouco mais perto, exceto as estátuas.

Em meio a essas andanças, o eco de vozes subiu por um corredor antes silencioso, pontuado por pequenas risadas. Não me foi difícil identificar Lumière, que falava com animação, e depois Madame Samovar e seu filho, falando um pouco menos. Quando se aproximaram, compreendi que comentavam algumas peças ou ambientes do Castelo, como guias turísticos. Um pequeno estalar os acompanhava, bem como uma voz que eu desconhecia.

Vi, do alto onde estava, uma luz se aproximando por um dos caminhos que davam no saguão. Estava no escuro, e mesmo assim preferi ficar parcialmente atrás de uma das amplas colunas que sustentavam os arcos. Lumière estava sobre o carrinho de chá junto a Madame e o pequeno Chip; ao lado, uma poltrona caminhava transportando alguém. Estava de lado, contra a luz, e não distinguia qualquer traço especial. Mas a voz estranha e o cheiro que não conseguia definir me diziam que era a jovem abrigada. Parecia bem, e os outros felizes em sua companhia. Para eles, o encantamento de uma pessoa nova não acabava, e talvez nunca acabasse. Eu só poderia imaginar o pânico ou... como já devaneei algumas vezes, mergulhado no absurdo... um adeus.

Aquela cena simples e doméstica tinha algo de morno. Acompanhei-os com os olhos, sabendo que não subiriam as escadas perto de onde eu estava; houve alguma explicação sobre a decoração do saguão e sobre os vitrais, não tão bonitos com a pouca luz daquele dia de neve. Passei para o outro lado da coluna, em silêncio, a capa deslizando no chão, os olhos sobre eles.

“O senhor está descontente com o que eles estão fazendo, amo?”

Horloge se dirigiu a mim com a voz baixa, mas estava tão concentrado no que via que a surpresa de sua presença arrepiou os pelos de meu corpo inteiro, e cravei as garras no chão para não saltar.

“Não. Não. Deixe-os se distraindo.” Consegui dizer, ainda ouvindo o coração bater dentro dos tímpanos. Respirei fundo e soltei o ar em um suspiro, novamente mais calmo. “Desde aquela criança não os vi animados assim. As visitas não costumam ser tão comunicativas.” Senti o menor dos sorrisos amaciar minhas feições das tensões que vinham carregando há vários dias. Horloge notou.

“É verdade, senhor. Estão contentes. E a moça é adorável.”

“Estão fazendo um tour. Podem precisar das suas informações sobre arte e sobre as estruturas. E assim pode vigiá-los sobre o que não pode ser dito.” Comentei. Era minha forma de dizer ‘vá, e divirta-se também’. O recado foi compreendido e o servo partiu logo depois de bater uma continência. Vi-o se afastar para se unir ao grupo, ainda com o sorriso alargando minha boca.