Notas iniciais
Bora ler?

— Sente-se aqui. No meu colo.

Eu engoli seco. Minha cabeça ficou confusa. Era sexo que ele queria, e não tortura? Que tipo de loucura era essa? Eu não era uma cortesã! Eu mal havia me acostumado com a ideia de tortura e morte, e agora isso?!

Meus olhos arregalaram-se enquanto eu o via batendo com a mão – agora livre, o copo ele havia depositado no chão — em sua coxa, esperando que eu sentasse. Instintivamente dei um passo atrás e seu semblante fechou-se na mesma hora, dando lugar a um olhar gélido.

— Aonde exatamente você pensa que vai? – perguntou-me, com a voz saindo entredentes. Em um tom ameaçador. Seus olhos fuzilando-me.

Eu não respondi, jamais conseguiria, apenas balancei minha cabeça negativamente e dei mais um passo atrás. Todo meu corpo dizia “Corra, corra... Corra!” e foi o que eu fiz.

Eu corri, até alcançar a porta novamente. Meus saltos cravando no chão com firmeza.

— NÃO SE ATREVA!

O ouvi gritar antes de girar a maçaneta e escancarar a porta. Saí correndo pelos corredores aos gritos.

— SOCORRO! ALGUÉM ME AJUDE! ESSE HOMEM É LOUCO!

Eu gritava desesperada.

Meus pés corriam o máximo que meus sapatos de salto permitiam, e era muito devagar para o meu gosto, logo ele estaria em meu encalço. Então os tirei e os joguei no caminho durante minha corrida. Sem os sapatos eu tinha mais agilidade e agora finalmente conseguiria manter um bom ritmo.

Esbaforida, errei o caminho ainda duas vezes antes de alcançar a porta de entrada, contudo, assim que eu a alcancei meu desespero foi extremo, ela estava trancada.

— Socorro! Alguém me ajude, pelo amor de Deus... – eu dizia desesperada, minha garganta estava seca e minha voz pouco saía entre os soluços.

Eu chorava ao mesmo tempo em que usava de toda a minha força na tentativa de abrir a maldita porta. Tentei forçar com meu corpo, mas a desgraçada não se movia e a maçaneta parecia emperrada.

— Achou mesmo que eu seria tolo a ponto de deixar as portas abertas, com uma escravinha nova e arredia solta por aí? Que tipo de idiota você pensa que eu sou?

Eu dei um pulo quando ouvi sua voz. Grudei-me com mais força ainda na maçaneta em uma tentativa vã de abrir aquilo a todo custo.

—SOCORRO! Fique longe de mim seu monstro! Socorro!

— Podes tentar o quanto quiseres, não vais a lugar algum – ele já estava no último degrau. E agora calmamente caminhava em minha direção. Seu olhar era de puro gelo. E em seus lábios defeituosos o sorriso era de sarcasmo.

— S-senhor, por favor, por favor... Deixe-me ir! Eu não sou um pedaço de carne, não mereço morrer assim dessa forma! Tenha piedade, não sou uma cortesã, tampouco tenho muito conhecimento em atos sexuais. Não me mate...

Eu implorava, enquanto minhas costas se apertavam a porta com tanta força, que a qualquer momento, com sorte, eu atravessaria para o outro lado.

— BASTA!

A Fera deu um grito, que ressoou em todo o saguão.

Eu senti tanto pavor que pensei que urinaria ali mesmo em minha roupa, o choro compulsivo também não ajudava nem um pouco a clarear minha mente. Provavelmente meu rosto devia ter demonstrado tanto o pavor em minha expressão e sobressaltado tanto o medo que eu estava sentindo, que por um instante, por um mísero ínfimo instante, eu poderia jurar que vi pena nos olhos da Fera.

Por um segundo, era como se ele tivesse se arrependido de ter gritado. Mas foi apenas por um segundo mesmo, no momento seguinte, ele avançou feroz e eu senti sua mão segurando meu rosto com força, enquanto a outra mão segurava um de meus braços, de forma tão rude, que achei que fosse quebrá-lo. Sua boca se aproximou do meu rosto e posicionou-se em meu ouvido e quando sua voz saiu, era limpa, clara e objetiva, carregada de raiva. Senti seu hálito quente lamber meu rosto quando disse:

— Eu prometi segurança ao seu pai em troca de sua servidão e você aceitou. Então tenha em mente que eu não descumpro acordos, mas se descumprirem comigo, terei o maior prazer em reverter o que havia prometido. No caso, eu adoraria capturar seu pai novamente e tortura-lo em minhas masmorras de uma forma tão rancorosa e dolorida que você não fará ideia – ele desceu seu rosto e cheirou meu pescoço. Eu segurei um grito, minha respiração era ofegante pelo momento tenso e meu peito doía com as batidas medrosas do meu coração, eu ainda chorava baixinho quando ele tornou a falar – Então, Cadela, você irá subir até o quarto novamente, se ajoelhará em frente ao grande espelho, aquele em que tem uma mesinha com uma rosa vermelha em um vaso de vidro e me esperará. Como uma boa serva, ou caso contrário, já sabe as consequências.

Eu balancei a cabeça em afirmativa. Eu estava desesperada, não havia outro jeito, esse seria o meu fim e eu havia entendido o recado.

— Diga “Sim, Senhor meu Dono”

— S-sim... Senhor, m-meu Dono – minha voz saiu baixa e lamuriosa.

— Agora suba!

E me soltou.

Eu andei rápido em direção à escadaria, sem sequer olhar para trás. Acabaria por perder a coragem e tentaria fugir novamente se o fizesse. E então corri, até deparar-me novamente com a maldita porta.

Entrei no quarto dos horrores, desesperada e sem fôlego, temendo o pior. E logo que avistei o espelho com a mesinha lateral onde realmente havia uma rosa, eu me ajoelhei de frente a ele e fiquei esperando conforme a Fera havia ordenado. Esperando, esperando, esperando...

E nada! Simplesmente, nada!

Para o meu alívio ele não entrou no quarto naquela noite. Na manhã seguinte, logo que o dia clareou, meus joelhos estavam roxos e meu rosto pálido de cansaço, eu estava sentada no chão, com a cabeça baixa e o rosto seco, não havia mais lágrimas, já chorara tudo o que podia durante a noite.

Quando uma criada gordinha e de sorriso amável entrou pela porta com um recado do “Meu Dono” dizendo que era para eu descansar durante o dia, eu quase morri de felicidade, sobrevivi amais uma noite.

Ela levou-me de volta ao meu quarto, eu dormi quase que o dia inteiro e quando acordei tinha uma mesa preparada com uma bela refeição. Dessa vez eu não fiz pose, ou me desfiz da comida, eu estava morrendo de fome e precisava me alimentar. Comi até saciar-me. Estava anoitecendo quando uma outra criada banhou-me e vestiu-me camisolas limpas. Nessa noite, apesar da minha apreensão, a Fera não apareceu.

Nem no dia seguinte, nem no outro...

Uma semana se passou e eu não tinha qualquer notícia do meu “Dono”. O que de fato deixava-me aliviada, porém curiosa com o quê poderia ter acontecido.

Eu o vi pouquíssimas vezes. Em uma delas eu estava na varanda do meu quarto observando o céu azul quando o vi voltando em uma carruagem. Desceu e logo em seguida trouxe uma senhora no colo, aparentemente ela havia quebrado a perna pois estava enfaixada e com talas de madeira fixadas as bandagens. Ele a trouxe no colo e entrou. Fiquei curiosa com a cena, então saí do quarto e esgueirei-me pela grande escadaria, ficando atrás de um dos pilares para que não me vissem.

Ele a colocou no sofá, eu a reconheci como sendo a criada simpática e rechonchuda que havia me tirado do quarto do horror na noite da minha quase fuga. A Fera pegou uma das cadeiras próxima e posicionou embaixo da perna da senhora de forma que a mesma ficasse em posição reta. Sorriu-lhe e beijou-lhe a face.

Ele Sorriu?!

Não sabia que aquele desgraçado tinha capacidade de sorrir, quanto mais beijar ou dar qualquer sinal de afeto a alguém. Fiquei pasma de ver.

Minha boca escancarada e meus olhos arregalados observaram a doce senhora acariciar o rosto da Fera. Parecia lhe dizer coisas amáveis que o fez sorrir novamente. Depois disso, ele levantou e chamou um criado, ordenando-lhe algo.

Eu estava tão absorta na cena, que não percebi quando o criado magro e de sotaque carregado se aproximou.

— Precisa de algo, Madame?

— Eu?! Não, err... Não, obrigada – dei um sorriso fraco e fingi que estava descendo a escadaria.

Pega em flagrante. Droga! Agora teria que passar por onde a Fera estava. Engoli seco.

Quando me viram, a senhora abriu um sorriso e disse em uma voz amável:

— Ora, vejam! Que maravilha vê-la pelo castelo fora dos horários de refeição! Venha, sente-se aqui, vamos conversar um pouco. Parece que essa mulher aqui não poderá subir escadas tão cedo – ela sorriu, batendo no assento ao lado dela no sofá de três lugares.

O que indicava que eu teria que sentar ao lado dele.

Eu pisquei sem saber o que responder, o procurei com os olhos para saber se era bem-vinda ou se por acaso ele iria rechaçar-me. No entanto, ele não me olhava. Fitava o outro lado do aposento, como se eu fosse invisível. Limpei a garganta e respondi no tom mais amável que consegui:

— Claro, sentarei de bom grado.

Quando me aproximei a Fera levantou-se de um pulo.

— Com licença, senhoras. Tenho assuntos importantes a tratar – e saiu a passos largos.

Fiquei sem entender nada e confesso que por dentro deu-me um estranho misto de alívio e raiva. Afinal, ele havia me tratado da pior forma possível e agora se achava no direito de me ignorar e correr como se eu fosse um pedaço de esterco? Ignorando minha presença como se eu fosse um fantasma? Era o cúmulo da deselegância. Homem asqueroso, horroroso, arrogante!

Apesar da minha raiva inicial, passei uma tarde muito agradável com a Madame Samovar, tomamos chá e ela contou-me um pouco sobre sua vida e seu filhinho Zip, que a ajudava na cozinha. Disse-me que o criado gordinho era o Sr. Horloge e o magrinho com sotaque carregado que havia me descoberto na escadaria há pouco tempo era o Sr. Lumiere. Foi uma tarde fascinante!

Depois desse dia, eu o vi algumas vezes pelos corredores, no entanto não falou comigo. E outra vez eu o vi levar o Zip filho da Madame Samovar para cavalgar, eles davam risada e conversavam alegremente. O garotinho parecia o adorar! Como podia isso?! Como ele parecia tanto um cavalheiro com todas as pessoas, um homem inclusive amável com senhoras e crianças, e comigo era como se eu representasse todo o mal naquela casa? O que eu havia feito a ele para que me odiasse tanto? Ao menos ele havia me deixado em paz, ainda bem... Eu achava, ou parecia achar.

Os dias passavam-se tranquilos, eu era bem alimentada, bem vestida e bem tratada por todos os criados da casa. Que agora eram meus amigos, sempre foram muito gentis e eu retribuía a gentileza lendo alguns livros de contos a todos eles. Havia um cachorrinho no castelo também e este, passou a dormir aos pés da minha cama todas as noites, tão amistosa a forma como nossa amizade intensificou-se em apenas algumas semanas. O castelo tinha a mais incrível biblioteca que eu já havia visto em toda a minha vida! Eu li mais livros naquelas semanas do que havia lido em toda a minha vida. Eu tinha acesso a todas as áreas do castelo, menos a ala oeste, onde eu era terminantemente proibida de entrar sem consentimento do Senhor.

Com relação a este, ninguém se pronunciava. Quando eu lhes perguntava onde ele estava, ou o que andava fazendo, ou até mesmo o motivo pelo qual eu não o via há muito tempo, todos desconversavam. E isso apenas aguçava minha curiosidade de forma arrebatadora.

Em mais um dia comum, eu simplesmente não suportei a curiosidade e decidi me arriscar a ir até a ala oeste para entrar naquele quarto estranho novamente. Algo me aguçava quando eu pensava nisso e apesar de ter sentido um terror absurdo a última vez que estive lá, sentia que precisava voltar e averiguar direito. A visão de todas aquelas coisas não saíam da minha mente. Era assustador, no entanto, dava-me um frio na barriga, que eu não conseguia entender.

Andei devagar, tentando não ser vista por ninguém e quando eu me aproximei da sala, senti comichão dentro de mim, me instigando a entrar, me aguçando os sentidos. Girei a maçaneta devagar para não fazer barulho, e entrei, fechando a porta atrás de mim em seguida. Dei uma bela olhada ao redor e revi o espelho com a rosa vermelha – uma nova rosa havia sido colocada — na mesinha onde eu havia passado a noite de joelhos.

Senti um arrepio nessa hora e uma sensação estranha de estar sendo observada.

— Acho que eu escolhi uma péssima escrava no fim das contas. Você não sabe o significado de FICAR LONGE DA ALA OESTE?

Eu dei um pulo para trás de susto. Virei-me rápido e ele me encarava através de ao que parecia, uma passagem secreta na parede que dava para algum outro local. A Fera me encarava com raiva e seus olhos faiscavam.

— Me desculpe, senhor! Eu não queria incomodar, eu só fiquei curiosa p...

Ele se aproximou em dois passos, tão rápido que eu não tive como escapar. Em um segundo suas mãos estavam em meus ombros, empurrando-me contra a parede. Seus olhos azuis luziam furiosos e quando seu rosto se aproximou do meu eu tremi. Seu nariz foi para a lateral da minha bochecha, cheirando-me e então desceu para meu pescoço. Deu uma longa inspirada, exalando o ar em seguida, fazendo-me sentir seu hálito que cheirava a uma mistura de morango. Seu nariz pousou em minha boca, e cheirou meus lábios entreabertos.

Toda essa aproximação me fez respirar mais rápido, senti uma fisgada no meio de minhas coxas, saindo de minhas partes íntimas, tão estranha, que me fez exclamar.

— Ah!

Seu corpo colou ao meu e eu pude sentir algo duro roçando em minha barriga. Ele roçou seu corpo com mais força e me fez ainda mais ciente de sua ereção. Suas mãos foram para o meu traseiro e me puxou com força contra sua dureza... E eu tremi, ao mesmo tempo que fiquei mole.

Sua língua fez carícia no meu pescoço e subiu pelo queixo, parando exatamente em minha boca. Passou a língua devagar e gemeu.

E de forma ríspida, simplesmente afastou-se de súbito.

— Agora vai embora, deixa-me maluco com seu atrevimento, Bela. E não volte mais aqui até segunda ordem. Entendeu? – disse com voz rouca, largando-me a deriva e mais uma vez olhando para o outro lado da sala, como se eu voltasse a ser invisível para ele.

Maldito seja!

Recompus-me, fechei a cara e saí daquele lugar com passos duros até alcançar meu quarto.

Notas finais
ÉEE.... as coisas estão ficando bem confusas com a nossa Bela. Fera, um cara estranho que nem parece tão mal assim... Qual será o problema dele? Gostaram? Mereço um review? Beijos a todos. Emme