Notas iniciais
Boa leitura!

— Deixarei seu pai ir.

Pisquei atordoada. Eu realmente havia entendido certo? Ele havia dito isso mesmo?

— Jura? – perguntei com uma chama de esperança renovada. Meu coração palpitou com a chance de poder ver livre aquele a quem tanto amava.

Ele pigarreou e respondeu com a sua voz rouca, seus olhos cravados no meu.

— Sim, mas apenas se você ficar no lugar dele.

—Perdão? – eu paralisei.

— Como minha escrava. Fará tudo o que eu mandar. Tudo MESMO! Se você aceitar ficar no lugar daquele homem esteja ciente que a partir do momento que ele sair dessa sala, eu serei seu dono. Irás me obedecer e realizar todos os meus caprichos, sem reclamar! Ouvistes bem? Fui claro? – seu olhar duro e aquela carranca fechada me sondava.

— Mas isso é um absurdo?! – eu me indignei — Você não pode simplesmente obrigar as pessoas a virar seus escravos!

— Ah não? – ele sorriu, aquele sorriso diabólico – Então pague para ver, vá embora e deixe esse velho aqui sob meu poder, sentirei um prazer imenso em vê-lo apodrecer dia após dia...

Meu corpo convulsionou perante a visão de meu pai sendo torturado até o fim de seus dias. Meu choro voltou forte. Coloquei as mãos no rosto em desespero. Foi quando ele falou:

— Serás minha? Ou ele será meu? Escolha agora, não tenho o resto do dia! Já sabe as condições, minha escrava para sempre, respeitando-me e obedecendo-me. Ouvistes bem?!

— Ouvi... – minha voz era fraca.

Seria a minha vida, ou a do meu pai.

Como pode da noite para o dia a vida de alguém mudar tanto? Meu Deus! Eu não tinha escolhas! Na verdade eu não sentia dúvidas, eu sabia o que precisava fazer, apenas me faltava coragem.

Olhei para trás e vi o olhar de desespero daquele pobre homem que dedicou toda uma vida em prol de sua filha. Ensinou-me o valor da inteligência, e o quanto era importante seguir o que se tinha vontade, seus sonhos... Aquele único homem que sempre me apoiou e me incentivou quando todo o vilarejo ria de mim, por conta da minha estranha mania de leitura. Uma mulher letrada era algo totalmente inaceitável.

Suspirei.

— E então, o que me dizes? – perguntou-me arqueando a sobrancelha e franzindo os lábios, como se minha demora o irritasse.

— Eu a-aceito... – disse com voz baixa, coração pesado, ânsia fazendo-me revirar por dentro.

— Bela! Não filha, NÃO! – meu pai gritou.

E a Fera riu, uma risada estrondosa.

— Muito bom! Ótimo! Que belo dia esse de hoje, não? – ele disse com olhos brilhando em uma sádica satisfação em ver meu pai se debater contra as correntes.

Eu vi no rosto daquele homem o que ele queria, ele era sádico, de verdade.

Meu pai já estava em idade avançada, não conseguiria sobreviver às torturas desse monstro. Contudo, eu ainda era jovem! Poderia ter alguma chance. Um dia, quando eu ganhasse a confiança do homem, poderia fugir. Mas meu pai, não, ele jamais teria saúde para isso. Seria morte garantida deixar meu pai aqui.

Eu poderia ter uma chance!

E foi nesse mísero resquício de chance que eu me apeguei e me agarrei com todas as forças!

— Levem-no! E nunca mais o deixem entrar! Ele não é bem vindo nesse castelo! – gritou a fera para os criados que haviam ficado a porta, esperando o veredito final.

Abracei meus joelhos e chorei com a dor que eu jamais havia chorado antes. A saudade que sentiria do meu pai e o medo do que o destino havia me reservado, deixava-me desolada. O que seria da minha vida?

Vi meu pai sendo arrastado à força para fora da sala. Seus gritos puderam ser ouvidos até estar do lado de fora do portão de entrada do castelo. E depois não ouvi mais nada. Eu não o olhei nos olhos em nenhum momento mais, não queria ver a tristeza dele assombrando-me dia após dia. Eu tinha fé. Um dia meu pai entenderia minha decisão, quando estivéssemos ambos em casa, sãos e salvos.

— Levante-se! – ordenou-me a fera.

— O que aconteceu com meu pai? – perguntei ao homem, tentando controlar o choro.

— Primeiramente, chame-me de Senhor em qualquer frase que dirigir-se a mim. Seu pai está sendo escoltado até o vilarejo mais próximo. Não há necessidade de se preocupar, não o machucarei, eu cumpro com as minhas promessas. E eu prometo que ele chegará bem e que eu jamais o procurarei, afinal, já consegui uma recompensa muito melhor. Agora levante-se! Seu quarto não será aqui.

Pegou-me pelo braço, puxando-me para cima.

— Mas... Eu pensei que este fosse o local onde ficavam os prisioneiros. Não é isso?

— Não me questione! Você não é minha prisioneira, é escrava e digamos que um tipo diferente de convidada. E dê-se por satisfeita!

Disse a fera, de forma arrogante. Olhando-me perturbadoramente enquanto eu tentava me recompor com meu vestido rasgado.

Em seguida, fui levada a um quarto. Era um quarto grande, bem mobiliado. Uma das criadas tratou de dar-me um banho e vestir-me com uma camisola.

Eu estava torpe. Mas minha consciência estava em plenas condições de funcionamento e eu sabia que tinha que fazer tudo o que mandassem. Não adiantaria em nada uma rebeldia nesse momento. Não questionei, não falei com ninguém, não reclamei.

Entretanto ainda assim o meu instinto de sobrevivência gritava para que eu pensasse em uma forma de escapar dali, era uma confusão, parte de mim queria sair correndo, enquanto a outra parte sentia uma vontade insana de obedecer, de manter o meu acordo e de seguir as ordens dele e por mais absurdo que fosse, a parte que queria sair correndo perdia, pois até aquele momento eu estava apenas sendo levada, sem questionar. E não havia corrido para lugar nenhum...

Eu dei a essa confusão de sentimentos, e toda essa maluquice interna, a desculpa do medo e do cansaço e prometi a mim mesma tomar uma decisão concreta no dia seguinte e com a cabeça fresca, formaria um plano de fuga bom o bastante para que funcionasse.

Infelizmente meu sonho de descansar não aconteceu. Não consegui dormir, chorei a noite toda e meu coração não parou de palpitar um só instante. Eu sentia muito medo, a dor em meu peito não suavizou e a imagem daquele rosto sádico vagou por minha mente todas essas horas.

Na manhã seguinte, o meu novo “Dono” comunicou-me que gostaria de minha companhia na hora do café, foi o que disse um criado magrinho e simpático com sotaque carregado.

Foi difícil levantar, sentia-me fraca e enjoada. No entanto, respirei fundo e coloquei um vestido que me foi entregue. Mesmo com minhas pernas tremendo, eu desci.

Todos pareciam conversar tranquilamente quando parei na entrada do grande salão de jantar. A Fera parecia entretida ouvindo o que um mordomo rechonchudo dizia-lhe. Ele não sorria, balançava a cabeça afirmativamente, no entanto não tinha nos olhos aquele sadismo pesado que senti na noite anterior.

Pelo menos não até que olhasse para mim.

Quando me viu, fechou a cara em uma carranca, e inflou as narinas.

— Sente-se – ordenou.

— Agora coma. Enquanto viver aqui, permanecerá saudável. De nada irá me valer se estiver faminta e fraca, caindo pelos cantos – e apontou para as vastas travessas com comida que ornavam a mesa.

Eu assenti, tentando não arranjar uma confusão logo cedo. Afinal de contas, até o dado momento eu não havia sofrido qualquer penalização.

A Fera obrigou-me a comer muito mais do que estou acostumada, disse-me também que eu participaria de todas as refeições, querendo ou não, e que eu deveria me manter sempre higienizada e bem vestida. Eu apenas consenti, sem dizer uma palavra. Não queria brigar naquele momento, e meu plano de fuga sequer estava traçado. A última coisa que precisa era de mais conflito.

À noite, depois da ceia forçada, constatei que meu – até então – quarto, agora estava forrado de vestidos novos, sapatos elegantes, perfumes e itens de higiene. Logo que entrei percebi a diferença. Todavia, o que mais achei estranho, foram os vários corsets em tonalidades diferentes que havia no armário. Era comum usarmos corsets, porém, as saias rodadas e as várias camadas de anágua sempre vinham com o conjunto. Só que com esses “novos” corsets, não existia qualquer saia para usar.

“Que coisa mais estranha”

Onde estão as saias rodadas e longas para compor com eles? Todas as mulheres da côrte usavam vestidos com muitas camadas, como eu usaria os corsets sem nada?

Supus que deveriam ter esquecido de comprar, ou talvez a encomenda com o costureiro não estivesse pronta ainda. Vai saber.

Achei estranho também a quantidade de meias 7/8, em várias cores e frufrus para serem colocados sobre elas.

“Que tipo de mulher ele achava que eu era para vestir-me daquela forma? Com frufrus? Por acaso julgava-me como a uma cortesã?”

Bufei irritada.

Havia também um bilhete em cima da cômoda que dizia: “Seu Senhor a aguarda no último quarto da ala oeste. Escolha um corset, meias, roupas íntimas e sapatos. Perfume-se e coloque um belo vestido por cima, sem anáguas. Não demores, Escrava. Tens uma hora”.

Meu sangue gelou.

Era agora que ele iria me torturar até a morte! E o pior, não havia nada que eu pudesse fazer! Amaldiçoei-me por não ter parado para pensar em um plano, agora seria a hora perfeita para colocar em prática.

Mal concluí meu raciocínio e uma criada apareceu, banhou-me e cuidou de meus cabelos. Após isso, ela retirou-se do quarto a fim de deixar-me a vontade para escolher minha própria roupa. Mesmo tremendo e esperando o pior, obriguei-me a controlar meu nervosismo, eu precisava estar bem e com a cabeça no lugar, para qualquer tipo de castigo que ele fosse me aplicar. Eu precisava sobreviver! Por mim e por meu pai.

Respirei fundo algumas vezes.

Criando coragem, vesti um dos corsets brancos, meias brancas, roupas íntimas na mesma tonalidade e por cima, um vestido rodado na cor rosa claro, bem diferente do vestido azul de camponesa, simples, que eu havia chegado ali. Era belo e bordado com fios dourados. Calcei um dos maravilhosos sapatos de salto e mesmo sentindo minhas pernas moles, eu consegui caminhar a passos lentos e obriguei-me a ir até a ala oeste, onde a criada que havia dado-me banho havia explicado que direção tomar.

Avistei o último quarto.

A porta estava fechada. Respirei várias vezes tentando me acalmar, mas não era o suficiente, meu coração palpitava tão forte que doía meu peito. Eu não era boa em sentir dor e saber que uma tortura iminente me aguardava, ou talvez, até mesmo a minha execução, deixava meus nervos em pânico. E pela primeira vez em minha vida, senti o medo da morte.

Treinei bater a porta várias vezes, porém sem sucesso.

“Fraca, você é fraca, Bela! Você precisa encarar isso, você mesma se colocou nisso para salvar seu pai, agora tem que ser forte para arcar com as consequências!”

Eu ralhava comigo mesma em pensamentos. Mas a probabilidade de poder ser torturada por aquele sádico até ver minha vida esvair-se não ajudava nem um pouco.

Quando finalmente consegui engolir minha angústia e meu nervosismo, bati a porta. Ouvi sua voz grave mandando-me entrar. Ainda hesitei por alguns instantes, contudo, era isso ou... Ou sei lá, não sabia mais de nada, não conseguia mais raciocinar.

E aproveitando esse momento de loucura, entrei.

O quarto tinha uma luz tênue, avermelhada, era um ambiente realmente grande, com muitas velas acesas. As paredes eram de pedra, várias correntes com algemas de ferro pendiam de vários lugares, inclusive das paredes e do teto. Um aparelho esquisito que lembrava um X, com algumas algemas fixadas deixou-me tensa e apreensiva, parecia algum método de tortura.

“Ai meu Deus!”

Olhando melhor ao redor pude ver uma avantajada gama de aparelhos estranhos, uma cama enorme com um dossel esvoaçante, cadeiras, poltronas, uma mesa bem grande, onde havia vários objetos estranhos depositados em sua superfície, coisas que eu jamais havia visto antes e que com toda certeza deveria fazer parte da tortura também.

Eu estava numa fodida merda! Muito fodida merda!

A única coisa que ainda não conseguia entender era porque esse homem sádico queria ver-me bonita e perfumada, para depois torturar-me até a morte? Engoli seco com esse pensamento. A morte.

“Deve ser algum jogo doentio, algum fetiche bizarro de ver uma mulher morrendo toda elegante. Deus meu!”

— Estás muito bonita, Escrava.

Dei um pulo quando ouvi sua voz, arrancando-me dos meus devaneios mórbidos.

— Alegra-me em ver que estás usando suas novas roupas – ele sorriu, pude ouvir sua risada mesmo estando de costas de onde provinha o som. Aquela risada gelada de escárnio.

Ouvir sua voz rouca vindo do outro lado do enorme quarto fez com que minhas pernas bambeassem de medo, um medo ainda mais aterrorizante e eu senti meu estômago revirar, como borboletas voando. Minhas mãos e meus lábios começaram a tremer. Virei-me cautelosa em sua direção.

Ele estava sentado em uma das poltronas, na verdade era mais como um trono, todo forrado em couro vermelho e a madeira em que era construído era tão grossa que parecia talhado nela. A trança da Fera caía na lateral do ombro esquerdo. Usava uma bata branca que estava com os cordões abertos, fazendo com quê um grande decote em V mostrasse todo o peitoral e boa parte do abdômen. A calça marrom e tradicional de montaria, costumeira, estava ali. E em seus pés, botas pretas. Em uma das mãos, pude ver um copo com alguma bebida.

Ele parecia assustador.

Sua cicatriz dava-lhe um ar sinistro sentado daquela forma, com pouca luz, encarando-me com aqueles olhos profundos e frios. Seus braços estavam um em cada lateral da poltrona. Uma mão segurava o copo, a outra, tinha algo que parecia ser de couro, mas não consegui identificar. E isso me assustou bastante.

“O que diabos era aquilo?”

— Estás apreensiva, posso ouvir seus dentes batendo daqui – ele bufou — Não precisas ter todo esse medo de mim. Eu não te farei tão mal quanto julgas. Agora venha aqui! Sem demora! – ordenou-me.

Meus pés vacilaram. Demorei muito mais o que deveria para me mexer.

— Anda logo! Não tenho a noite inteira para esperar por você. Acaso já esquecestes de que quem manda aqui sou eu? Achas mesmo que devo esperar por sua boa vontade? Não vais querer ver-me irritado, garanto-lhe isso! – disse com sua voz de trovão, mais alta do que quando havia falado antes, dando prévias de sua irritação.

Isso não era nada bom.

Trinquei meu maxilar, apertei minhas mãos em punho e antes que a coisa ficasse realmente feia para o meu lado, obriguei minhas pernas de gelatina a seguir em frente. Um passo, outro passo, mais um passo...

Quando finalmente encontrei-me frente a frente com meu algoz, ele cravou seus olhos nos meus e disse com voz rouca:

— Sente-se aqui. No meu colo.

Notas finais
Uiuiui.... agora a porra ficou séria! Seria que ela morrerá mesmo? hahahaha... O que vcs acharam do capítulo? Esse homem é muito bruto! Ou melhor, essa Fera... Espero que tenham gostado. Antes de falar Tangamandápio já terá capítulo novo para ler. Me deixem feliz e digam o que acham. Beijos enormes! Emme