Notas iniciais
Falamos lá embaixo!

A carruagem rugia enquanto seguia a todo vapor pela floresta fria e nebulosa. Eu estava em busca de meu pai. Ele havia saído mais cedo para levar uma de suas invenções até o vilarejo, porém o cavalo retornou sozinho e assustado. Preocupei-me de imediato, isso nunca havia acontecido. Apesar de ser um inventor um pouco fora dos parâmetros comuns da sociedade, meu pai sempre fora cuidadoso em suas viagens. Não pensei duas vezes e parti a procura dele.

Até determinado trecho foi fácil seguir a trilha e o rastro das pegadas do cavalo, mas em certa bifurcação, as coisas se complicaram e ao invés das pegadas seguirem para o costumeiro caminho, desviou-se para outro. Um caminho estranho, escuro. Já era quase crepúsculo, e os diminutos raios solares que transpassavam a densa floresta minguavam gradativamente. Aos poucos percebi que meu corpo tremia; pelo frio e por medo.

Já estava pensando em voltar quando me deparei com a entrada de um imenso terreno. Era coberto por árvores, tão espessas, que quase escondia a majestosa construção de um castelo. Aqui no sul da França é muito comum vermos castelos de famílias nobres. Portanto, não foi isso que me intimidou. O que deixou-me apreensiva, foi a vibração estranha que senti na boca do estômago e de como minhas pernas bambearam sem qualquer motivo aparente.

Sentindo meu coração palpitar e minhas mãos suarem, olhei a imensidão a minha frente. Um portão alto e grandioso não era nada convidativo e como se não bastasse, um raio cortou o céu, anunciando uma tempestade. O que deixou tudo ainda mais sinistro que o normal. Meus olhos varreram a entrada, e um pouco mais a frente observei algo se mexer pelo vento forte. Era o chapéu do meu pai.

Não titubeei e comecei a esmurrar o portão na tentativa de abrir uma brecha suficientemente grande para que eu pudesse passar com meu cavalo. Só que não foi necessário tanto esforço, quase que sem força alguma o portão se abriu. Nessa hora já começava a chover. Deixei meu cavalo em um estábulo na lateral do castelo e corri para a porta na esperança de alguém estar em casa.

Bati fervorosamente a porta, mas ninguém respondeu. A chuva açoitava-me impiedosa e meu corpo tremia inteiro. Eu estava um tanto apreensiva e temerosa, mas respirei fundo buscando me acalmar e esquecendo-me dos bons costumes, girei a maçaneta, e a porta abriu. Entrei devagar, cautelosa. Era um lugar imenso, com um amplo hall de entrada. Estava tudo muito pouco iluminado, apenas uma lareira em uma saleta próxima iluminava a escuridão, além de algumas tochas acesas no corredor principal do castelo.

— Olá?! Tem alguém aqui? Por favor, eu preciso de ajuda!

Eu falava alto, tentando avisar sobre minha presença, mas o castelo parecia vazio. Água pingava do meu cabelo e minhas roupas úmidas impediam-me de sequer pensar com precisão. Assim que cheguei à saleta, a convidativa poltrona em frente à lareira chamou-me a atenção e sem pensar muito me sentei ali, buscando algum alento em frente ao fogo.

Foi quando ouvi um grito de socorro, distante. Mas parecia a voz do meu pai.

Eu quase não respirava, na tentativa de ouvir a voz novamente e distinguir de que direção vinha. Quando a ouvi de novo, saí correndo, era ele, eu tinha certeza. Os gritos de socorro vinham do final de uma enorme escadaria, ou assim pensei que fosse. Mas quando alcancei o topo da escada, ouvi o grito novamente e percebi que ainda não era ali, o grito vinha de muito mais acima.

Corri como se minha vida dependesse disso, passando por corredores e mais escadarias. O castelo tinha quase seis andares e o eco do grito ecoava pelas paredes, confundindo-me todo o tempo, deixando-me sem exatidão de qual direção vinha.

Até que por fim, alcancei o último andar, quase sem fôlego, escorei-me na parede tentando respirar. Minhas pernas bambas, mal deixavam-me de pé. Mas quando o grito ecoou de novo, deu-me um novo ânimo. Era de uma porta que estava praticamente ao meu lado. Eu a abri sem qualquer cautela e parei de súbito quando vi meu pai com os braços e pernas acorrentados a uma parede, sem qualquer chance de defesa. Meu pobre e indefeso pai.

— Papai! Meu Deus! O que aconteceu com você?

— Bela? – ele disse, com semblante assustado por me ver ali, quase como se estivesse desejando que eu não estivesse.

Corri em sua direção e o abracei forte.

— Preciso tirar o senhor daqui! Quem fez isso com você, papai?

— Bela, não! Para! Você precisar ir embora agora! Um monstro, uma fera... Um homem horrível... E-ele vai voltar a qualquer minuto. Você precisa sair daqui! – meu pai dizia aflito, seu semblante estava tão assustado que parei por um segundo, imaginando se não seria melhor eu me esconder em algum lugar.

Mas eu criei coragem no segundo seguinte.

— Jamais o deixarei sozinho meu pai! Darei um jeito de tirar essas algemas.

— Bela, por favor, tens que ir, por favor, minha filha... – ele parecia fraco enquanto falava.

— Jamais, meu pai!

Foi quando ouvi um estrondo. Virei-me depressa para olhar para trás, ao mesmo tempo em que ficava na frente do meu indefeso pai, como que para protegê-lo. E deparei-me com um homem enorme. O estrondo fora causado pela porta fechada com violência. Eu levei minhas mãos à boca, para não gritar e acabar piorando ainda mais a situação já tão delicada.

— Quem ousa entrar em meu castelo? Invadir meu estábulo e ainda por cima tentar soltar meu prisioneiro? Quem você pensa que é? – gritou o homem com uma voz de trovão.

Meus pêlos eriçaram e minhas pernas amoleceram. Eu procurei a fala, mas não saía nada. Minha boca apenas abria e fechava como se eu tivesse desaprendido como pronunciar as palavras. Mas era a vida do meu pai que estava em jogo e eu precisava ter forças para falar, respirando rápido, o coração rimbombando de nervoso e com dificuldade até para raciocinar, reuni toda a minha coragem e falei:

— D-desculpe, senhor... – eu ordenei minhas pernas gelatinosas que andassem, embora elas não quisessem obedecer, eu fui insistente e me aproximei devagar, desesperada, eu precisava fazê-lo entender – A culpa foi minha, eu precisava achar meu pai, o senhor prendeu o homem errado, este senhor é um idoso, jamais faria alguma coisa para p-prejudicar a-alguém... – eu dizia com voz chorosa e soluçando. Eu não havia percebido que estava chorando, até minha voz falhar. Eu estava bem perto do homem. E foi quando o olhei novamente que pude enxerga-lo melhor pela primeira vez.

Cicatrizes marcavam todo seu rosto e braços, mas a pior de todas, era uma que descia de seu olho direito até o canto esquerdo da boca. Deformando-o nos lábios e dando-o uma aparência grotesca e maléfica. Olhos de azul cobalto profundo e intimidantes como um oceano a noite cheio de mistérios. Seus cabelos também eram castanhos e vastos, que desciam em uma trança por suas costas, como se ele fosse um guerreiro. Seu corpo era enorme, ele devia ter quase dois metros de altura e sua estrutura muscular era tão impressionante quanto sua altivez. A vestimenta de montaria apenas o deixava com ar ainda mais sinistro. Seu olhar furioso e sombrio, sua narina dilatada pela raiva que faiscava por seu corpo, a respiração densa e cadenciada, sua boca torta e deformada mostrando fileiras de dentes alvos e pontiagudos. Entendi exatamente o que meu pai quis dizer com “Monstro”. Ele era assustador.

— Este homem invadiu meu castelo. Estava roubando rosas em meu jardim, frutas em meu pomar e água em meu poço! Um dos meus criados o viu perambulando e me chamou. Eu o trouxe para cá! Ele agora é meu prisioneiro e sua pena será cumprida até que eu acredite que basta. O único problema, é que para mim, torturar nunca é o bastante.

Ele riu alto, com escárnio. Eu não teria chances com esse homem, ele parecia ser do tipo que não se compadecia com nada. Vi meu mundo desabar e vi um futuro distante e vazio sem meu pai. Perdi as forças, desabei. Implorando aos céus que poupasse o meu amado pai daquele tormento, aquele trágico fim. Meus joelhos despencaram no chão, desajeitada, um lado da alça do meu vestido havia rasgado e eu sequer havia percebido. Meu seio quase a mostra. Tentei esconder, segurando o fino tecido úmido de chuva com uma mão enquanto a outra secava minhas lágrimas, ao mesmo tempo em que eu pedia clemência pela vida do meu pai.

— Por favor, Senhor, não o torture, eu não conseguirei viver pensando nisso. Eu faço qualquer coisa que você quiser. Qualquer coisa! Qualquer coisa!

Percebi que ele me observava, seus olhos correram do meu rosto lamurioso para minha mão que tentava segurar a alça rasgada do vestido de linho, simples, que eu mesma havia feito com minha máquina de costura. Depois correu por minhas pernas, para apenas depois retornar ao meu rosto. Seu semblante mudou, como se uma ideia que o agradasse muito houvesse passado por sua mente. Sua boca entortou para o lado em um sorriso reservado e deformado. E sua voz estava rouca quando disse:

— Deixarei seu pai ir.

Notas finais
Será que deixará mesmo? Sei não, essa Fera aí tá com jeito de que não vai facilitar pra ninguém! hahahaha...Bom gente, depois de mil anos resolvi postar, espero que gostem e comentem, suas safadezas ambulantes... hahahaha sei que querem chegar na melhor parte, mas relaxa que chega...Beijos!Emme