A Bela e a Fera

2 Capítulo 2 - Dominic e Mabel


Notas iniciais
Mais um capítulo. Vamos conhecer nossos personagens com calma. Eles tem muitas nuances.

Dominic caminhou pela casa em passos lentos. O silêncio ali era quase constrangedor, sufocante, dolorido. Talvez fosse porque ele passava muito tempo afastado, mas não conseguia evitar de se sentir assim saudoso todas as vezes em que entrava naquela residência. Era como se fosse encontrar seu pai sentado na varanda lendo os jornais como fazia todos os dias pela manhã. Ou então, no escritório, revendo algum relatório, caderno de contabilidade, preparando alguma festa ou atividade social das quais tanto gostava.

Lily de repente surgiu diante dele em passos rápidos. A garota de quinze anos estava mais alta que na última visita. Ela lhe sorriu e passou correndo como se estivesse fugindo do irmão.

— Onde vai? – ele perguntou se voltando sério obrigando-a a lhe dar atenção.

— Amy e Mabel estão chegando. – ela informou sem parar a quase corrida. – Vou avisar Sophie.

Ele silenciou vendo a irmã correr em direção a sala particular da mãe, onde com certeza sua outra irmã estava e, continuou a caminhada. Não se sentia inclinado a topar ou conversar com as amigas de Sophie. Melhor era se trancar no escritório e revisar algum relatório ou as correspondências. Teria poucos dias em casa antes de voltar à universidade para os últimos dois anos.

Em passadas longas e firmes seguia pelo corredor quando ouviu passos rápidos e o som de vozes no hall, atrás de si, voltando-se viu um trio de garotas passando. Uma delas lhe pareceu familiar. Os cabelos castanhos, o corpo miúdo e ereto, a postura firme. Fechando levemente os olhos tentou recordar os nomes que Lily indicara ao passar por ele, mas não conseguiu. De qualquer forma, aquela garota não lhe era estranha. Talvez, só talvez pudesse dar uma passada na sala de sua mãe mais tarde para tirar a dúvida.

Mas, seus planos não conseguiram se realizar como o esperado. Acabou recebendo a visita do advogado e passou mais tempo no escritório do que gostaria e quando finalmente se desocupou, na saleta da mãe estavam apenas Sophie, Frances e uma tagarela Lily.

Ele parou a porta, vendo o trio interagir alegremente. Sentia falta daquele clima familiar e estava dando graças aos céus porque no dia seguinte Elliot e Floyd chegariam, entretanto, para aquela noite ainda precisava de alguma distração, provavelmente jogar um pouco no clube masculino.

— O que faz aí parado? – Frances perguntou ao filho e logo estendeu a mão chamando-o carinhosamente. Dominic era parecido com o pai, alto, elegante, esbelto, os cabelos eram mais escuros, mas os olhos tinham a mesma tonalidade de azul límpido. demonstrava um temperamento afetuoso apesar de impositivo, e era muito bom estar próxima a ele. – Venha sentar-se ao meu lado por alguns instantes.

Ele suspirou e deu os três passos que o separavam da mãe antes de segurar a mão que lhe era oferecida.

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Mabel se olhou no espelho pela última vez. A modista acertou os detalhes que faltavam e ela se considerou bela. Não tão bela quanto Sophie. Na verdade ninguém era tão bela quanto Sophie. Era certo que sua amiga logo teria uma longa lista de pretendentes a marido. Pensou suspirando revirando-se na frente do espelho para poder visualizar o outro lado.

— Você está linda! – a mãe comentou alegremente esperançosa. Se continuasse a mostrar a mesma beleza e delicadeza provavelmente sua menina faria um casamento melhor do que o esperado.

Com um olhar distraído ela encarou a mãe. Josephine Nagle estava sendo otimista demais. E tudo o que a garota magrela não queria era ser contagiada por esse espírito e depois se decepcionar. Até porque ela já estava apaixonada por alguém. E havia alguém apaixonado por ela. Não existia outra atenção que ela desejasse chamar além da de Elliot Chowes.

Cerca de meia hora depois as duas saiam da modista, de braços dados caminhariam até em casa quando a Lady Nagle viu alguém conhecido.

— Veja... sir Draytor já está na cidade.

— Sim, Sophie me contou que ele chegou há dois dias para sua festa de apresentação.

Josephine parou de caminhar e observou detidamente o rapaz, que sentado em sua carruagem aberta, seguia firme sem observar as pessoas ou outras carruagens ao redor.

— Ele se parece com o pai. – a mulher comentou – É tão parecido que chega a ser assustador.

Mabel o encarou brevemente. Para ela Dominic ainda era a mesma criança com a qual ela não tinha muita afinidade. E com certeza se sentiria estranha ao ter de chamá-lo pelo título a partir de então. Afinal, ele agora era tratado como marquês de Deeping.

Fixou os olhos no rosto comprido, no nariz reto, nos cabelos bem penteados. Nos lábios contraídos. Apesar da expressão fechada ele lhe parecia bonito. Mais bonito do que era quando criança.

— Você já teve a oportunidade de falar com ele quando esteve na residência dos Deeping? – a mãe perguntou voltando a caminhar.

— Não... ele parece ser muito ocupado. – explicou ajustando o braço no da mãe.

— Deve realmente ser. – a outra concordou para imediatamente oferecer uma nova posição sobre a pessoa do marquês – Talvez por isso seja tão carrancudo. Nesse aspecto ele é totalmente diferente do pai, sir Deeping, que Deus o tenha, era um homem sorridente e muito alegre.

Ela lembrava, lembrava dos doces que o homem lhes oferecia, das risadas divertidas todas as vezes em que encontrava o grupo de meninas a brincar e sentava junto delas para conversar com as filhas e suas amigas.

— Dominic... – ela começou e logo remendou – sir Deeping – não poderia esquecer jamais que a intimidade mantida quando criança se fora – nunca foi muito risonho mãe. Algumas vezes era ranzinza e mal criado.

— Oh! Não diga isso Mabel! Dominic foi uma das crianças mais carinhosas que conheci. Era gentil e muito cortês. Tal qual seu pai.

Não querendo desfazer a ideia que a mãe fazia do garoto, Mabel não voltou a fazer novos comentários. Permitiu que a mulher continuasse com seus pensamentos e ilusões a respeito dele. Talvez isso mudasse no dia do baile. Quando ela teria a oportunidade de estar diante do novo marquês e percebesse pessoalmente sua visão equivocada.

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O clube não estava tão atraente quanto ele gostaria que estivesse. Os homens mantinham apenas conversas sérias, assuntos mesquinhos. Falavam sobre as amantes, sobre orgias, sobre gente falida. Pouco mais de meia hora foi tudo o que Dominic conseguiu ficar por ali. E logo tomou um novo rumo. Um rumo menos bem afamado, mas certamente bem mais divertido. Logo encontrou os irmãos Floyd e Elliot sentados à mesa de jogos. Outros dois colegas de faculdade bebiam em um canto, acompanhados por mulheres.

— Dominic! – Floyd lhe gritou assim que o viu, atraindo-o para perto.

Mas, ele não queria jogar, acenou brevemente para o outro recusando o convite e tomou a direção do segundo andar. No trajeto cruzou com uma garota magra e ruiva que ao lhe sorriu de maneira familiar.

— Sua senhora está ocupada? – perguntou antes que tivesse cruzado.

— Para o senhor nunca milorde. – a garota respondeu em tom de submissão.

— Então avise-a que estou aqui.

— Sim milorde. Imediatamente.

Correndo a garota subiu os degraus que acabara de descer e entrou na primeira porta enquanto ele ainda esperava parado no mesmo lugar. Segundos depois a mesma porta se abriu e a garota veio em sua direção com o recado de sua senhora.

— Ela o espera... – falou animada. Sabia que sempre que o marquês de Deeping aparecia, sua senhora era generosamente recompensada e com isso, ela recebia mais do que nos outros dias.

O quarto de Sabine era o maior, mais confortável, mais aconchegante e mais bem organizado do lugar. Ele penetrou rapidamente fechando a porta atrás de si. A mulher sentada em uma espreguiçadeira de veludo lhe sorriu breve e sensualmente estendendo a mão em sua direção.

— Meu menino!

Sabine, uma francesa que vivia desde a infância na Inglaterra, tinha quase dez anos a mais do que Dominic. E fora com ela que o novo marquês perdera a virgindade há muito tempo, quando ainda contava a tenra idade de catorze anos, sob a orientação de seu tutor. Os cabelos negros e muito longos escapavam do coque frouxo e caiam sobre os seios volumosos mal escondidos pelo espartilho.

— Como você está? – ele perguntou se ajoelhando perto dela. Não havia mais a mesma relação entre eles, e de vez em quando, quando vinha à cidade, o marquês a visitava e eles conversavam bastante.

— Estava chateada acreditando que meu menino não viria me visitar.

Dominic se ergueu, tirou a casaca antes de se acomodar junto dela na espreguiçadeira.

— Sempre venho não é?

A mão fina de dedos e unhas longas cruzaram pelo rosto bonito enquanto os olhos negros o avaliavam detidamente.

— Mas não está bem como estava na última visita... me conte o que está acontecendo?

Ele suspirou de leve. Havia muitas coisas acontecendo. Depois da morte do pai sua vida se transformara em uma sucessão de cobranças e exigências, de responsabilidades e de obrigações. Algumas vezes ele acreditava que em lugar de vinte, tinha trinta anos. Seu corpo pesava, sua cabeça doía e seus pensamentos não tinham sossego.

— Sabe o que meu menino precisa? De uma boa noite ao lado de uma bela mulher... – a mulher sugeriu afagando os cabelos dele carinhosamente.

Ele não estava com cabeça para isso. Na verdade não vira uma única mulher que lhe interessasse naquele lugar.

— Então... que tal uma boa dose de rum...? vamos nos embebedar e esquecer de tudo o que nos perturba.

Dominic sorriu. Há muito tempo que não ficava bêbado. E decididamente era disso que precisava. Estava cansado de ser correto, sério, seguro, determinado e aquilo tudo que os outros esperavam que ele fosse.

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Quando colocou os pés em casa pela manhã, Dominic percebeu o olhar atravessado da mãe a lhe fuzilar e passou direto em direção ao quarto, precisava de um bom banho, alguns minutos de sono, mas não escapou do sermão feito pela mãe.

Alguns bons minutos se sucederam enquanto a marquesa falava, falava, falava sobre suas responsabilidades, sobre suas obrigações, sobre seu comportamento que poderia atrapalhar a apresentação da irmã.

— Como poderá reclamar de um possível pretendente inadequado quando você, o próprio irmão dela, se comporta de maneira inadequada!? – foi a última frase que a mãe lhe cuspiu na cara enquanto ele estava sentado na beirada da cama silencioso.

— Desculpe... – foi tudo o que conseguiu dizer sem mostrar toda a irritação pela situação.

Mas sua mãe ainda tinha coisas a dizer;

— Sua irmã precisa de você. Precisa confiar em você. Precisa ter em você alguém em quem possa se apoiar, e principalmente, dar créditos a sua opinião... – irritada a marquesa continuou: – Você não imagina o que pode acontecer a mocinhas como Sophie se caem de amores por homens que não servem para ser seus maridos.

Essa ideia apavorava a marquesa.

— E, se você não for confiável, ela nunca aceitara sua opinião a respeito de qualquer homem.

Ele teve vontade de gritar. Estava tão cansado disso! Mas, apenas suspirou, ficou em pé e prometeu se comportar como deveria até o dia em que voltaria para a universidade.

— Não vejo a hora de você encontrar uma boa moça e também se casar... – gesticulando abertamente a mulher falou pela primeira vez em um assunto que lhe desagradava profundamente: — Desde que sir Wignall o levou aquele bordel não tenho mais sossego.

Dominic encarou a mãe. Ele não imaginava que a mulher soubesse.

Os olhos dos dois se fixaram firmes um no outro e finalmente Frances se achegou de maneira menos irritada, passou as mãos pela casaca amarrotada do filho antes de falar:

— Eu quero o seu bem... eu o amo... seu pai foi o único homem que amei. – os olhos dela se encheram de lágrimas e Dominic travou na garganta as próprias lágrimas – e é isso o que desejo para você. – ela observou os olhos azuis do filho – Alguém que o ame como você merece ser amado.

— Eu sei... – ele completou baixinho. Foi a única coisa que conseguiu dizer.

A mulher passou as mãos pela lapela da casaca ajeitando-a no lugar mostrando um sorriso sem graça regado a lágrimas antes de mudar de tom:

— Tome seu banho e desça... faça uma refeição descente, depois vamos acompanhar os decoradores no salão principal.

A apresentação de Sophie seria naquela noite. Ele ainda lembrava disso, mesmo que na noite anterior estivesse tão bêbado que mal conseguisse lembrar do próprio nome.

Notas finais
E então? O que pensam a respeito de nosso Dominic? E de Mabel? Bjjjjjjjjjjjjjjjjjjjj e muito obrigada a querida lahi pelo review, amei. espero que continue acompanhando. Até!