A Bela e a Fera

19 Capítulo 19 - Frances


Notas iniciais
Mabel vai mudar de ideia logo?

Dominic permaneceu calado por vários segundos, sério, a encará-la. Os olhos azuis não demonstravam a agitação, nem a decepção que sentia pelo que acabara de ouvir. Mabel fora totalmente sincera, e até certo ponto, ele agradecia por isso. Sua mente prática aceitava os argumentos expostos por ela, mas havia algo com o qual o marquês não sabia lidar. E esse algo eram as emoções. As emoções contraditórias que se debatiam dentro dele.

Talvez tivesse se enganado acreditando que a garota se sentiria satisfeita e sortuda em ser cortejada por ele. Especialmente depois do que acontecera com Elliot. Mas, esquecera com quem lidava, Mabel não via a vida social, o casamento, e até o amor como as outras moças viam. Se estava noiva de seu primo era porque o amava. E não porque um dia ele seria visconde.

E o que ele Dominic representava para ela? Nada além de alguém que sempre foi apenas um conhecido. Um conhecido que praticamente a ignorava.

Seu título, sua posição, sua origem que tanto atraiam outras mulheres não pesavam a seu favor na balança quando se tratava de Mabel. E na verdade Dominic não queria uma esposa que apenas se interessasse pelo que ele representava. Desejava ardentemente alguém que pudesse amá-lo acima de sua posição social. E acreditou ter encontrado essa pessoa na figura da senhorita Nagle. Porém, ela não o via como um possível pretendente e deixava isso bem claro sempre que possível.

Aceitar era tudo o que ele poderia fazer. E talvez guardar dentro de si a esperança de que em algum momento ela mudasse de ideia a seu respeito e o visse com outros olhos. E quem sabe pudesse lhe dedicar algo mais do que simples e cordial amizade.

Pensamentos racionais tentavam se sobrepor ao orgulho ferido. Ao coração magoado. A esperança desfeita. E com sucesso ele escondia tudo detrás de um olhar sério e de um rosto fechado. Mas, assim que percebeu o modo como Mabel o examinava, tratou de fingir um sorriso antes de tranquiliza-la:

— Compreendo e aceito seus motivos.

Ele era um homem inteligente, e apesar da certeza que Mabel trazia no coração de que sir Deeping jamais, em momento algum da vida ouviu uma recusa feminina, estava agindo como o cavalheiro que todos sabiam que ele era. Confirmando em gestos e palavras o que ela via nele nos últimos dias.

— Mas isso não quer dizer que deixarei de ter esperanças. – ele concluiu sem desviar os olhos dos dela.

Outra vez Mabel sentiu o coração bater mais rápido e um leve tremor cruzar por seu corpo.

— Vou me relacionar com a senhorita da mesma forma que tenho feito desde que chegamos aqui. Permitirei que fique livre para tirar suas próprias conclusões a respeito do que poderá ou não vir a sentir por mim.

Um sorriso maroto se desenhou nos lábios masculinos e sem querer Mabel o correspondeu. Naquele breve instante, foi impossível negar que não era totalmente indiferente ao homem diante dela, mas será que seria capaz de amá-lo como ele merecia?

Ele não se aproximou novamente, mas tocou a mão dela com a sua, num gesto delicado beijou a pele suave e antes que Mabel pudesse dizer qualquer coisa sugeriu acompanha-la até o local onde a garota pretendia ficar.

Mabel garantiu que voltaria para casa, ele se dispôs a ir com ela até a entrada principal, de onde seguiria para a cavalariça. O trajeto foi feito em total silêncio, um silêncio que pesou mais sobre a garota do que no marquês. As passadas curtas e cadenciadas sobre as britas brancas como o único som a acompanha-los tornava tudo ainda mais nostálgico e melancólico.

Quando eles finalmente pararam na bifurcação que conduzia à porta principal da casa, à cavalariça, e aos jardins de rosas, ele se despediu. Outra vez beijou a mão dela e com um meio sorriso se afastou. Mabel permaneceu no mesmo lugar, observando o homem caminhando ereto, seguro e determinado na mesma direção de sempre. E se perguntou porque ainda continuava acreditando que Dominic não era alguém certo para ela.

************

A tarde transcorreu lentamente, pouco havia que fazer. Foram horas preguiçosas e desinteressantes para praticamente todos. Elliot surgiu pouco depois das duas da tarde, o braço preso por uma tipoia estava imobilizado. Foi então cercado por um grupo de pessoas que queriam saber o que acontecera. Com ar de importância, o rapaz contou sobre o acidente a cavalo, dando ao falso acontecimento detalhes e agravantes que irritaram Mabel. Ela mal conseguiu olhar para o ex noivo. Se sentia enojada pelo comportamento dele, pelo modo como falava, como se vangloriava. Algumas moças mais afoitas que durante a estada na casa já demonstravam certo interesse em Chowes, se desdobravam em atenções e risinhos nervosos a cada nova mentira contada pelo rapaz.

Zangada consigo mesma por ainda se perturbar pelo comportamento do futuro visconde, Mabel se ergueu e saiu da sala. No trajeto até o jardim viu Lilly, Sophie e um jovem que só poderia ser o senhor Hartnett conversando animadamente. Não quis atrapalhar mais do que a amiga já estava sendo atrapalhada pela presença da irmã, que com certeza fora imposta pela marquesa. E se conduziu ao local onde desejava estar a sós. Para pensar e quem sabe chorar sem plateia. Mas, antes que tivesse chegado ao ponto, viu alguém cruzar rapidamente a cavalo entre as árvores do bosque há mais de trezentos metros. Era Dominic que fazia o mesmo que ela. Se afastava do mundo social e passava muitas horas com os próprios pensamentos.

Constatar o proposital afastamento do marquês poderia lhe causar algum pesar se ela não soubesse que Dominic era dado a esse tipo de comportamento. Talvez até imaginasse que o motivo era ela, caso não tivesse a certeza de que imaginar isso seria dar a si muito mais importância do que realmente tinha. Mesmo assim, não conseguiu desviar o olhar do movimento produzido pelo animal e pelo cavaleiro. Até o momento em que não mais pode vê-los.

Sentou-se no banco do jardim, observando o leve balançar das folhas pela brisa do final da tarde. A temperatura lentamente se modificava a medida que as horas passavam, entretanto ela não conseguiu se afastar daquele lugar, se sentia bem ali, sozinha.

— Mabel... – alguém chamou em tom suave e meigo, erguendo os olhos ela viu a marquesa parada a alguns metros dela. Trazia uma cesta com rosas no braço esquerdo e uma tesoura na direita. Uma criada a acompanhava carregando mais um cesto de flores variadas. – O que faz aí sozinha? Pensei que Dominic estava com você.

— Não o vejo desde a manhã lady Deeping. – ela informou se erguendo.

A marquesa entregou o cesto e a tesoura para a criada ordenando que dispersasse as flores pelos vasos do hall e em seguida se aproximou de Mabel, para também se sentar.

— Posso? – perguntou retirando um avental todo bordado e apontando para o banco vazio.

— É claro. – a marquesa se sentou e ela ficou em pé.

— Sente-se comigo.

Mabel sentiu as pernas tremerem. O coração bater perturbado. O que Frances queria se sentando com ela? Apesar de tudo obedeceu, se sentou.

— Meu filho e eu conversamos longamente esta manhã. – a mulher informou sem fazer rodeios.

Apertando as mãos sobre o vestido Mabel confirmou que sabia do fato.

— Sir Deeping me contou.

A marquesa passou a mão sobre a de Mabel, gentilmente.

— Sinto muito você ter passado por todos esses desagrados sozinha. – e sem dar tempo para que Mabel se pronunciasse continuou: — Sei que a esposa de meu primo pode ser cruel muitas vezes... e peço desculpas pelo comportamento do filho dela. Bem como de meu filho.

Mabel contestou imediatamente o pensamento de Frances:

— Sir Deepping foi muito gentil comigo Lady Deeping. Ele tentou me ajudar.

— E você não aceitou a ajuda. – a marquesa retrucou rapidamente. – Qual foi o verdadeiro motivo da recusa?

Mabel encarou o rosto bonito da mulher. Havia pouco dela em Dominic, mas a firmeza no olhar com certeza estava lá.

— Sei que você se sentiu humilhada pelo que Dominic pretendia fazer, mas por quê?

Com o choro travado na garganta ela começou a explicar:

— Porque esperava que... Elliot e a viscondessa me aceitassem pelo que sou...

Frances sorriu. Dominic acreditava que Mabel se incomodara apenas com a interferência dele. Mas ela, como mulher, percebia que havia algo mais. E conhecendo a esposa do primo e o filho deles, desconfiava que aquele não deveria ser o único motivo da irritação da moça.

— Conheço alguém que aceita você pelo que é. – aquela frase foi ainda mais surpreendente do que as perguntas e comentários diretos que a marquesa lhe dirigira desde que sentara ao seu lado no banco.

Com o coração batendo mais do que acelerado Mabel sentiu os olhos úmidos.

— Ser menosprezada, relegada a segundo plano pela pessoa que amamos é extremamente dolorido. – Frances continuou a falar como se a frase anterior não tivesse existido e Mabel acreditou que a marquesa tinha conhecimento da conversa que tivera com Dominic antes do almoço e fosse recrimina-la por afastá-lo. – E lhe sugiro que esqueça essas pessoas que não conseguiram perceber a preciosidade que você é. Pois tenho certeza de que a vida lhe preparou algo melhor. – outra vez o sorriso compreensivo passeou pelos lábios da marquesa. – Apesar das manias, do temperamento recluso e dos muitos defeitos que fizeram de meu filho alguém antissocial e antipático. Posso garantir que ele é um homem como poucos.

— Sim... eu sei... – Mabel confessou sentindo as primeiras lágrimas deslizarem pela pele do rosto. – E é por ter certeza disso que... – um breve momento de indecisão trancou a voz na garganta – não sei como agir...

Aquele comentário não fazia qualquer sentido para a marquesa.

— Acreditei que Dominic e você estavam tendo algum tipo de entendimento.

— Não quero abusar da boa vontade dele lady Deeping... e acabar por magoá-lo.

— É por esse motivo que você está aqui sozinha? – percebendo a tensão e a luta que Mabel aparentemente travava dentro de si, a marquesa decidiu usar de toda a sua experiência em prol da felicidade de seu filho. – Por medo de magoar Dominic? Pois saiba que se é assim, ele já está magoado.

O marquês não demonstrara isso, Mabel acreditava que ele compreendera seus motivos. Que os aceitara. Mas também poderia estar errada.

— Não sei o que fazer... – ela confessou baixinho, encobrindo o rosto com as mãos.

— Deixe a vida se encarregar de colocar as coisas nos devidos lugares. – olhando rapidamente para o céu a marquesa continuou: — Me parece que aquele encontro de vocês no jardim, aquele que desencadeou todos esses acontecimentos, foi promovido com algum motivo especial.

Mabel ergueu o rosto banhado pelas lágrimas em direção a Frances e percebeu que a mãe de Dominic ainda a observava com o mesmo olhar compreensivo.

— Não lute contra uma possível felicidade... nem retire de Dominic a chance de ser feliz ao seu lado.

— E se eu não vier a amá-lo? – de onde vinha tanta coragem para falar assim abertamente com a marquesa? Ela não sabia. Mas sentia que precisava colocar para fora todas as dúvidas que a atormentavam.

— Esse é seu maior medo? – a marquesa se acomodou no banco – Isso quer dizer que nada sente por meu filho?

Isso não era verdade. Mabel se calou. A marquesa compreendeu o silêncio da garota.

— Se há qualquer simples sentimento que seja, mesmo que aversão, tudo pode acontecer. – um breve suspiro e a mulher se ergueu do banco. – Vou deixa-la a sós para que possa meditar sobre nossa conversa. Não quero pressioná-la, nem Dominic gostaria de vê-la pressionada ou obrigada a aceita-lo. Conheço meu filho! Mas sinto que há algo entre vocês, percebi isso na noite do recital, enquanto tocavam e cantavam juntos. Permita-se descobrir o que é esse algo.

Mais confusão a vista. Era isso o que significava aquela conversa. E quando a marquesa finalmente se foi, a pergunta que mais pesou sobre a mente de Mabel foi: “Isso quer dizer que nada sente por meu filho?”. Ela sabia que essa pergunta não tinha uma resposta exata, não poderia dizer que o amava, ou que estava apaixonada, ou mesmo que sentia apenas amizade por ele. Entretanto, a felicidade de Dominic, naquele momento, lhe era mais cara do que a de Elliot jamais fora.

Notas finais
Frances, a típica mãezona! E agora Mabel? Faz o q? BJO garotas, amando a opinião de todas, obg.