A Bela e a Fera
17 Capítulo 17 - Dominic, Frances, Mabel
Notas iniciais

A marquesa cruzou pela porta do escritório do filho trazendo no rosto as marcas da preocupação e quem sabe, uma leve ou severa irritação. Algo alheio a ela estava acontecendo naquela casa. Algo grave. Algo que poderia comprometer não apenas os membros da família Deeping, mas também as de seus amigos e parentes.
Dominic se acomodou na cadeira, mandara chamar a mãe quando se sentiu pronto a lhe oferecer todas as respostas que sabia, a mulher lhe pediria quando começasse a contar sobre os últimos acontecimentos. Na casa corria a fictícia história de que ferimento de sir Chowes acontecera numa queda do cavalo durante uma disputa entre ele e o primo. Mas, habilmente, Frances não cria nesta versão. Mesmo que Elliot fosse dado a certas infantilidades, que nem quando criança cometia, ela sabia que o marquês não seria tão estúpido e imaturo ao ponto de aceitar tal brincadeira tendo conhecimento das implicações que sobreviriam à família caso algo de errado acontecesse. Como de fato aconteceu. Mal sabia ela que os acontecimentos eram bem mais sérios do que uma disputa a cavalo.
Assim que a mãe sentou-se diante dele com aquele olhar acusador Dominic voltou a ter nove anos e imediatamente desejou revidar mostrando que não era mais um menino. Mas, controlou o ímpeto de bancar o dono da razão sob pena de acabar não conseguindo o que pretendia: tirar de cima de Mabel as acusações que, poderiam ou certamente, cairiam sobre a moça caso a marquesa estivesse tão zangada a ponto de não conseguir ponderar a situação de forma imparcial.
— Finalmente consigo falar com você! – ela disse permanecendo ereta em postura determinada encarando-o determinada.
O marquês balançou a cadeira para a frente e para trás promovendo um breve suspense que tinha a intenção de indicar que Frances só estava ali, recebendo explicações porque ele assim desejava.
— Havia algumas pendências importantes para tratar – ele estivera reunido com os advogados boa parte da manhã, o que dava certa credibilidade ao seu álibi. – Mas agora, teremos tempo para conversar sem o perigo de sermos interrompidos.
Ali estava a deixa e a confirmação de que o assunto era mais sério do que estava sendo tratado por todos a marquesa pensou ainda encarando o filho mais velho.
— Estou curiosa. – foi tudo o que ele ouviu da mãe e esse pouco queria dizer muito. Ela esperava que ele lhe contasse tudo. Era assim desde criança.
— O que ouviu a respeito do “acidente” de Elliot? – perguntou encarando firmemente os astutos olhos femininos.
— Oras Dominic, não se faça de bobo, nem me considere uma boba, sei que essa historinha que andam contando por aí é mentira. Você não seria tão estúpido a ponte de...
— Eu fui. – ele concluiu interrompendo a mãe que imediatamente parou de falar para ouvir o que o filho tinha a dizer – Fui estúpido de aceitar duelar com Elliot.
Francês abriu a boca e empalideceu, mas manteve a postura ereta de sempre.
— Duelo? – a palavra saiu alta e áspera – Você perdeu a sanidade de vez? Isso é ainda mais grave do que uma aposta...
Ela imaginou a mãe de Elliot descobrindo a verdade e imediatamente soube os problemas que viriam dessa descoberta. Quantas e quantas vezes precisara intervir quando os dois eram meninos e aprontavam suas estripulias pela região. A marquesa sabia que o filho não era um santo, mas Elliot não ficava atrás, entretanto a viscondessa jamais admitia isso.
Diante do ar estupefato e zangado da mãe Dominic tentou manter a calma e prosseguir:
— Preciso lhe contar tudo, para que a senhora possa se defender, me defender e também... defender Mabel caso alguém venha lhe perturbar.
— Mabel... o que ela tem a ver com toda essa confusão?
Imediatamente Deeping percebeu que não deveria ter ido tão logo de imediato. Mas já era tarde, então prosseguiu:
— Praticamente nada, exceto que foi o centro de uma sucessão de equívocos e intrigas... – a marquesa abriu a boca para retrucar mas o filho não lhe deu tempo para que dissesse algo – Vou começar no dia em que encontrei Mabel no jardim...
— Você encontrou-se com Mabel no jardim?
— Não! – o modo como a frase fora colocada dava uma impressão errada do assunto – Não foi um “encontro”, foi um encontro casual. Advindo do acaso.
— Eu sei o que casual significa Dominic! Porém, de qualquer forma, isso quer dizer que a fofoca era verdadeira. – será que estava errada quanto a pessoa de Mabel? Frances se perguntou antes que Dominic continuasse.
— Só uma parte dela é verdade. Nos encontramos no jardim por acaso. Ela estava sozinha, distraída num dos bancos da rua que leva para a cavalariça. Eu vinha de um passeio noturno a cavalo.
Ela sabia que o filho costumava fazer isso. Mas Mabel estar sozinha no jardim? Por quê?
— Ela me disse que não conseguira dormir e por isso saíra para caminhar, isso fez algum sentido para mim porque costumo fazer isso... a senhora sabe... mas depois compreendi claramente o motivo da insônia dela.
— E qual era?
— Já chego lá.
A marquesa se empertigou novamente apertando os lábios e as mãos nervosamente.
— O fato importante é que nós mal nos falamos, eu entrei, ela ficou ali por algum tempo mais e creio que depois entrou também. – ele continuava a falar sempre encarando a mãe na tentativa de perceber o que ela pensava a respeito do que contava — Naquele mesmo dia ficamos sabendo da fofoca, uma fofoca com agravantes já que havia um beijo nesse encontro.
— Esse beijo não aconteceu? – a marquesa perguntou em dúvida.
— Lhe garanto que não.
— E quem contou a fofoca?
— A senhorita Abigail Strang. – Deeping falou alto e claro.
— Como você soube?
— Através de Mabel...
As dúvidas começavam a borbulhar na mente da marquesa.
— Como sabe que não foi a própria Mabel quem espalhou tudo e depois colocou a culpa em outra pessoa?
Ele suspirou sem realmente culpar a mãe por pensar assim sendo que ele mesmo já pensara de tal forma.
— Porque a senhorita Strang tentou me obrigar a casar com ela usando esse artificio.
Agora a história incluía outra senhorita, mas continuava a ser sobre o encontro no jardim. Aquilo estava muito confuso.
— Não compreendo como ela conseguiria realizar esse intuito já que você estava com Mabel e havia quem soubesse disso.
— Então, aí está, apenas ela sabia.
— Dominic! – a mulher ergueu a mão diante do rosto e fechou os olhos pedindo – Seja mais claro, não estou entendendo essa confusão.
Ele sorriu, era assim que deveria ser. Primeiro confunde, depois explica.
— Vamos recomeçar e você não mais irá me interromper. Está bem?
A marquesa indicou que o filho seguisse em frente.
— Encontrei Mabel no jardim por acaso, mal nos falamos e esse encontro casual virou um encontro romântico pela fofoca maledicente de uma pessoa que depois chantageou Mabel e a mim, no intuito de se tornar a marquesa. – outra vez a mulher abriu a boca, mas Dominic não permitiu que falasse – Elliot, meu primo, era secretamente noivo de Mabel, e Abigail ameaçou contar isso à todos se ela não garantisse que quem estava comigo no jardim era a própria senhorita Strang, quando o nome tão buscado fosse descoberto.
— Mabel e Elliot? – a marquesa estava embasbacada com a informação – Mas...
— Sim mamãe, eu sei... Elliot jamais se mostrou interessado nela porque a titia o deserdaria, já que a garota não tem dote. Também fiquei surpreso quando soube – na verdade, mais do que surpreso, mas isso ele não falou – e ao mesmo tempo compreendi o motivo da insônia que a acometia no dia do encontro. Sugeri então ajuda-los a resolver esse problema do dote, mas não falei com Mabel, me dirigir prontamente a Elliot que no começo pareceu reticente, mas depois aceitou a ajuda.
— Você daria um dote a ela para que eles pudessem se casar? Por quê?
Ele suspirou, se ia falar tudo, ia falar tudo.
— Porque queria ver Mabel feliz, e ela me pareceu verdadeiramente inclinada por Elliot.
A marquesa logo compreendeu a motivação do filho e se ressentiu ao perceber que Dominic fora capaz de passar por cima do interesse que sentia por Mabel para ajuda-la a ficar com quem amava.
Ele prosseguiu:
— Porém, quando ela descobriu sobre minha ajuda ficou furiosa, encerrou o noivado com Elliot e me acusou de manipulador. Depois disso a situação ficou mais complicada porque a senhorita Strang tentou me obrigar a aceitar sua chantagem. – a marquesa bateu com a mão no encosto da cadeira mostrando a irritação que o comportamento da jovem lhe provocava, enquanto isso, Dominc continuava – De alguma forma, Elliot descobriu que era Mabel quem estava comigo no jardim, e Abigail o induziu a crer que o encontro fora mais do que casual.
— Isso parece um conto fantástico Dominic...
— Nem me diga. Mas ainda há mais. Ele me desafiou a um duelo, e antes que reclame de meu comportamento, tome conhecimento de que tentei evita-lo, mas não consegui. O doutor Hall me ajudou em tudo, Elliot sempre foi péssimo de mira e levei isso em consideração. Eu o feri no braço para que a contenda tivesse um fim e depois disso... bem, depois disso, contamos todas essas mentiras sobre o incidente e eu...
— E você?
— Aceitei tudo, as recriminações dela, dele, e até o duelo porque precisava me ver livre desse sentimento ruim que se apossou de mim desde que descobri sobre o noivado secreto. Estivesse disputando Mabel com Elliot em segredo, e me sentia mal por isso. Pelo meu comportamento desleal.
A marquesa não soube o que dizer para o filho. Se o recriminava pelo comportamento ou se aceitava sua posição. Dominic há anos pensava mais nos outros do que em si mesmo. E por isso acabara tão endurecido com a vida. Ele continuou:
— E agora que Mabel encerrou o noivado... eu...
— Você pretende cortejá-la abertamente. – ela concluiu pelo filho.
A mãe não estava perguntando aquilo, ela estava afirmando porque já percebera o claro interesse do rapaz na amiga de suas filhas.
— Sim. Pretendo. Você se opõe?
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Eles se encontraram na entrada da copa, havia poucas pessoas à mesa, mas o café estava servido. Estendendo a mão Dominic segurou a de Mabel e carinhosamente a beijou. Desde que largara o primo no quarto depois de fazer curativo no machucado, ele só pensava em tomar um banho para poder encontrar decentemente com a senhorita Nagle, no desjejum.
Mabel fixou o olhar no rosto de Dominic, percebendo o sorriso destacar-se como um raio de sol na face masculina. Ele ficava muito bonito quando sorria. Seus olhos se iluminavam mais, seus traços se suavizavam, sua postura parecia mais leve.
— Como está se sentindo? – a voz era doce e profunda, perdera bastante daquele tom seco que ele costumava usar diariamente.
— Confusa. – ela confessou, desde que regressara ao próprio quarto ficava se perguntando se estava vivendo em alguma espécie de sonho.
— Posso compreender isso. – ele concordou ficando ereto, obrigando-a a erguer o rosto.
— É como se estivesse vivendo dentro de um sonho, um sonho com situações e acontecimentos inesperados e improváveis.
— Também me senti confuso quando percebi que estava interessado na senhorita... – ele fechou o sorriso e balançou o rosto – Mabel... nós nos tratávamos pelo nome quando crianças, não podemos voltar a informalidade daquela época?
— Sua mãe não irá gostar se souber.
Ela tocou talvez na única palavra que não deveria. Ele ainda não tivera a oportunidade de conversar com a marquesa, e estava apreensivo quanto ao teor e ao resultado desse diálogo.
— Então, faremos o seguinte, — Deeping acreditava que tinha a solução para o empasse – Vou conversar com ela sobre esse assunto.
— Vai contar a ela? – Mabel perguntou se agitando e Dominic tratou de acalmá-la.
— Vou contar tudo a ela. Mamãe precisa saber a verdade por mim. Creia que assim evitaremos problemas que línguas maledicentes podem provocar.
O marquês tinha razão ela pensou e tentou se acalmar. Dominic tomaria a frente na resolução desse problema, como aliás vinha fazendo com todos os problemas dos últimos dias. E lembrou:
— Devo pedir desculpas pelo meu comportamento de ontem... depois de muito meditar percebi que suas intenções se resumiam a uma tentativa de ajuda, mesmo que fosse uma ajuda equivocada. – ela continuava a considerar a atitude dele como uma intromissão – mas fui muito grosseira com o senhor quando metade da raiva que sentia era pelas atitudes de Elliot.
Dominic voltou a segurar a mão entre as suas aproximando-a de si levemente, apenas o suficiente para poder sentir o calor do corpo feminino, mas não o bastante para serem vistos. Ele não queria colocar mais confusão naquela história. Mas, precisava ser sincero.
— Minha intenção era ajudar... eu disse a mim mesmo exatamente isso, que desejava ajudar... porém, durante todo o tempo me debati entre o desejo que vê-la feliz com meu primo e o desejo... de ser feliz ao seu lado. – os olhos azuis se detiveram sobre os dela – O que me segurava era a certeza de seu amor por ele...
Mabel sentia as mãos levemente trêmulas diante das palavras calorosas de Deeping. Ele parecia sincero. Todos os seus atos queriam mostrar isso. O que suas palavras diziam tão claramente. Ela decidiu colocar as cartas na mesa:
— Nosso rompimento é recente sir Deeping, entretanto, as decepções com Elliot vem de longa data. O que um dia senti por ele, já não existe mais... entretanto, não sei como me sinto com relação ao senhor... como lhe falei, preciso de tempo.
Ele lhe concederia esse tempo.
— Sim. Não a pressionarei, mas gostaria de pedir autorização para ficar mais próximo... para que possamos nos conhecer melhor e assim estreitar nossas relações.
Ela sorriu. Ele retribuiu o sorriso. O trato estava selado. Com calma eles se dirigiram à mesa, sentaram e realizaram o desjejum entre um pequeno grupo de jovens praticamente alheios as suas presenças, conversando amenidades. Naquela altura dos dias, já havia muitos apaixonados felizes, apaixonados desiludidos, apaixonados amantes para que Mabel e Dominic fossem realmente observados com curiosidade. Afinal, já se tornara quase comum vê-los perto um do outro.
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