A Bela Mentira

Vai ficar tudo bem.

A noite passa diante de seus olhos, a vida se esvai pelos seus pulsos. Os cabelos tingidos de vermelho se assemelham a cor de seu sangue, e descem longos por suas costas. As pálpebras pesam, mas ela resiste ao sono. Talvez, alguém a encontrasse desmaiada por aí.

Não era assim que ela queria que acontecesse. Queria algo glorioso. Queria versos fúnebres pronunciados docemente, queria pessoas queridas ao seu lado, queria luz, alegria e queria amor. Uma pena. Sua glória se transformara em escuridão, e ela jazia numa casa abandonada, com os uivos do vento passando pelas madeiras pregadas nas janelas. A única companhia que ela tinha era um gato. O gato estava faminto, magro, sujo e machucado. Ele chegou ao seu lado, um ânimo de vida animou-a, mas o gatuno somente queria lamber a poça de sangue que se formava ao seu lado. Seu amor esvaía-se pelas veias.

Lie awake in bed at night
And think about your life
Do you want to be different?

Os lençóis já estavam empapados, ela sabia que estava chegando ao fim. A lâmina desafiava-a a fazer mais profundo, em outros lugares; termine isso logo, dizia á garota. Olhe para você! Esse gato tem mais chances do que você. Ele terá sua carne para sobreviver. Faça algo bom alguma vez na vida, ela dizia. A garota olhou para o gato. Seu pelo malhado se pintava de vermelho nas patas e na ponta da boca. O gato parecia mais vivo, já. Quanto mais morta ela, mais vivo ele, ela deduziu.

Subitamente, se ajoelha e começa à beber do próprio sangue. Tem sede de vida, tem sim. Quer viver, apesar de ter terminado o trabalho que as pessoas começaram. Nega-se ao final de sua existência. Gatinho, diz ela, no maior sussurro que se permite. O gato observa-a. Ajude-me, ela implora. Ele parece perguntar como. O gosto metálico do sangue a impede de responder. Sua garganta fecha de pânico quando uma sombra negra entra no longo quarto que ela se encontra. A sombra anda até alguns metros dela, sendo seguida por outras muitas sombras. O quarto está cheio delas. Nenhuma tem olhos, mas todas a encaram. A garota se desespera. Seriam esses os espíritos da morte? Então acabou. Está tudo acabado.

Try to let go of the truth
The battles of your youth
'Cause this is just a game

Vozes sussurradas ocupam o silêncio ali instalado. Nomes, de diversas origens eram ditos ao pé da orelha dela. Um chamou-a atenção; Melanie. Seria esse seu nome? Já não se lembrava mais. Estava morta agora, tinha certeza. Não sentia mais a dor dos cortes, a garganta já não fedia à sangue. Sentia-se bem, como nunca havia sentido. Uma sombra saiu do meio das outras e chegou a poucos centímetros dela. Já não sentia medo. A sombra sorriu para ela, e as palavras saltaram-lhe a boca gentilmente.

Vai ficar tudo bem.

Tudo se dissolveu, girando, desordenadamente. As sensações boas sumiram. Ela se encolheu em posição fetal, aguardando as lágrimas chegarem, mas parece que seu sangue levou também isso. Tudo estava escuro, ela se sentia uma sombra. Abriu os olhos. Encontrava-se numa cidade vazia. Onde, exatamente, não era possível dizer. Andou um pouco, receosa de sabe-se lá o que. Uma placa à beira da rua dizia Melanie St. O letreiro de uma loja ali perto dizia Melanie’s. A placa de pare de rua berrava em letras garrafais MELANIE. Melanie não sabia mais o que fazer. Ela seria realmente essa tal de Melanie?

It's a beautiful lie
It's a perfect denial
Such a beautiful lie to believe in
So beautiful, beautiful
It makes me

Uma voz sussurrou em sua cabeça que ia ficar tudo bem. É claro que ia. Melanie sabia disso. Mas ela sabia? Estava em um cruzamento. As sombras voltaram, em maior número. Elas agora cercavam Melanie. A garota olha para o chão, em busca de algo para se defender, mas, a não ser que sangue seja o ponto fraco das sombras, não sabia o que fazer. Seus pulsos agora estavam mais magros do que poderiam parecer estar e ela pesava menos que 50 quilos. Todo seu sangue escorrera das mãos enquanto ela temia a morte, sem fazer nada. Estava pálida, com manchas de sangue por todo corpo. Um pequeno filete sangrava de sua boca, de onde bebera sua morte.

As sombras se aproximavam cada vez mais e ela não conseguia se manter de pé. Era mesmo Melanie? Onde estava o gato? As sombras se aproximavam. Uma mão agarrou-a, e Melanie deixou toca-la. Todas as outras a agarraram. Ergueram-na do chão, levando para algum lugar.

Melanie não se importou. Estava sem sentimentos. Não havia nem sentido o toque de cada mão. Não tinha medo, não sentia dor. Se alguém lhe desse um soco, ela cairia no chão e não perceberia.

It's time to forget about the past
To wash away what happened last
Hide behind an empty face
Don't have too much to say
'Cause this is just a game

As sombras a soltaram na frente de uma casa. Uma luz estava acesa, onde um grande número de pessoas comia alegremente a mesa de jantar. Um grande peru se encontrava assado no centro, já metade somente no osso. Melanie reconhecera cada uma daquelas pessoas. Elas eram aquelas que ela confiara a vida, e agora estava naquela posição. Todos estavam felizes, despreocupados e de barriga cheia. Pareciam tão bem... Mas então Melanie notou um assento vazio. Seria este para ela? Não haviam convidado-a, por que estariam a sua espera?

It's a beautiful lie
It's a perfect denial
Such a beautiful lie to believe in
So beautiful, beautiful
It makes me

Uma porta a direita abriu-se. Saiu de lá mais uma pessoa que Melanie confiara. Sentou-se na cadeira vazia. Uma navalha imaginária destroçara o resto do coração de Melanie. Ela estava mais sozinha que nunca. Não havia mais sombras ao seu redor. A janela estava se fechando. Ninguém parecia vê-la. Estava sozinha, mas tudo ia ficar bem, não ia? As sombras disseram.

As pessoas na casa pararam subitamente de conversar e olharam para Melanie. Congelou. Ninguém falou nada, mas uma música tocava ao fundo. Melanie absorveu a letra e finalmente as lágrimas chegaram. As pessoas entoaram silenciosamente os últimos versos da música. Melanie chorou e sentou-se longe da vista deles, agora não queria ser vista. Deixou-se ser levada pelas sombras novamente, ao som da música se repetindo em sua cabeça. Nada mais havia por fazer. Era o fim.

Everyone who's lookin' at me
Are running around in circles, baby
Acquired desperation's building higher
I've got to remember this is just a game

Era tudo só um jogo, não é?

É uma bela mentira dizer que tudo vai ficar tudo bem.

Melanie encontrava-se de novo na casa onde se sentenciara ao fim. O gato ainda estava lá, o vento ainda uivava e ela ainda sangrava. Ela cantava levemente o fim da música escutada nos seus sonhos. Desafinava, a voz falhava, mas ela tinha que cantar. Tudo girava em torno dessa música. Não sabia quem cantava, não sabia o nome da música, mas sabia que era tudo o que deveria ter sido dito para ela à anos, talvez.

It's a beautiful lie

Uma sirene irrompe sua cantoria. Passos vagueiam, chamando-a. Uma mulher de branco à encontra. Ah meu deus, a mulher exclama. Chama por mais gente e pega Melanie no colo, segurando seus pulsos, onde sangue ainda escorre. Ela é levada do prédio e a colocam numa ambulância. Tudo muito claro, Melanie pensa. Sua vista já estava embaçada, ela já não queria mais viver. Por que eles a salvaram justo agora que ela sabia a verdade? Não ia ficar tudo bem. Nunca vai ficar tudo bem.

It’s a perfect denial

Na ambulância, a mulher de branco pronuncia palavras que Melanie não entende. Seu cérebro parou de processar as coisas. Ela mal sabe para onde está indo. Eles colocaram curativos em seus machucados, mas ela já perdeu muito sangue. Não vai sobreviver, eles sabem. Não têm sangue o suficiente para ela. Já com o reanimador em mãos, eles aguardam que seu coração descanse.

Such a beatiful lie to believe in

E ele descansa, com um clique desafinado que pode ser ouvido à muitos quilômetros dali.

So beautiful, beautiful
It makes me

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