A Bela Fera
5 Prelúdio de problemas
Notas iniciais
O próximo será o ultimo, prometo.
Enjoy~
-O que há com eles?
A fera, ou melhor, Nathaniel, como devemos chamá-lo daqui para frente, andava de um lado para o outro em seus aposentos. Sabia, não... Sentia que tinha algo de errado com o misterioso grupo de jovens.
-São apenas irmãos fugindo da chuva.
Tentando apaziguar a inquietação de seu mestre havia um castiçal. O mesmo de antes.
-Não! Tem algo de muito estranho neles... Aquela garota... Ela..!
-Pode ser a garota a nos transformar em humanos.
-Eu sei! Mas aqueles olhos... Tem algo neles...
-São cegos.
-Mas tem algo de muito estranho neles, talvez uma magia ou... Bruxaria ou... Sei lá, alguma coisa.
Não conseguia explicar, mas era como se faltasse... Algo. Não sabia exatamente o que e sua cabeça doía de tentar lembrar, mas tinha algo que não se encaixava. Alguma coisa parecia estranha e sua mente estava entorpecida.
Sim, claro que tem um vazio. Ela mudou sua memória, mesmo que tenha sido apenas um detalhe. Dessa forma, não tem como evitar a dor de cabeça. Mas você não sabe disso. Nunca descobrirá.
E assim o dia passou. Os irmãos dormiam pesadamente e a fera se retorcia por dentro, tentando de maneira inútil descobrir qual o mistério do grupo. Se ele apenas tivesse esperado... Se ele não tivesse se preocupado e apenas esperado pela noite, descobriria tudo de forma muito simples e natural.
Cinco e meia, entardecer.
A garota se levantou, lenta e preguiçosamente. Sentou-se na cama, coçou os olhos, e se espreguiçou.
-Bom dia, minha querida. ♥
Se não foi possível perceber, foi a madame guarda-roupa que se pronunciara.
-Bom dia, madame.
-Dormiste bem?
-Fazia tempo que eu não dormia tão bem.
Sim, fazia muito tempo.
Ela não podia dizer com exatidão, mas eu posso.
É a primeira vez em quarenta e três dias que ela dormira durante mais de três horas sem interrupção. Sem contar que faziam sessenta e um dias que ela não dormia em uma cama quente e confortável, mas ai já é outra história.
-Que bom, criança. Está com fome? ♥
-Sim...
-Ouviram ela, meninas! Já ao trabalho!
Ela devia estar falando com um carrinho de serviço, pois este saiu imediatamente do quarto. É estranho pensar que todos os criado viraram mobília. Ainda mais quando não se vê, no caso da garota. Ela se perguntou mentalmente “quem”, mas resolveu ficar quieta ao ouvir a porta batendo.
-Agora, vamos dar um banho em você, sim? O nosso amo quer vê-la, então tratemos de ir bem vestidas e perfumadas, sim?
-Se a senhora diz...
-Ótimo, levante-se! ♥
Sem muitas opções, a garota obedeceu e se deixou ser guiada, banhada e vestida pelas várias peças de mobília do quarto.
Depois de quase uma hora, já devidamente arrumada, Celliny se dirigia para a sala de jantar. Arrastava a mão direita na parede do corredor e seguia o som metálico do andar do relógio.
Ah, que pena que ela não pode ver.
A sua esquerda, o corredor era composto em sua maior parte por vidraças que davam vista para o pátio interno. O céu, margeado pelo contorno do castelo, exibia belos tons quentes. Uma simples e delicada mistura de laranja, amarelo e rosa. O sol já não podia ser visto, havia nuvens cobrindo toda a paisagem aérea e, numa tênue linha, podia-se ver os topos de arvores da floresta.
Mas ela nunca conhecerá tal beleza.
Para ela, havia apenas a textura da parede e seus ocasionais quadros, o som do andar do relógio, a sensação do tapete em contato com seus pés descalços e a escuridão.
A eterna escuridão.
Quando ela sentou-se a mesa, o senhor do castelo já estava presente.
-Boa tarde.
Ele forçava um sorriso. Fora isso que o mandaram fazer: sorrir, ser educado, gentil e fingir que se importa. Mas nada calava a dúvida em sua mente.
-Boa tarde, Nathaniel. Dormiu bem?
-Não dormi. Estava claro.
-Ah, claro. Sinto muito pela pergunta.
A fera se estapeou mentalmente. Droga, ele fizera isso pela segunda vez no mesmo dia!
-Quer dizer! Eu... Foi minha...
Não, ele não estava acostumado a se desculpar. Muito menos com um intervalo tão pequeno de tempo. Mas ela se adiantou e, com um sorriso doce e voz gentil, o impediu de fazer um Record pessoal.
-Não precisa se preocupar ou ficar se desculpando. Estou acostumada com esse tipo de engano.
Ele ia dizer alguma coisa, mas se calou. Ela fez uma prece baixa e começou a comer. Sem ideia do que fazer a seguir, a imitou.
Foram dez minutos de silêncio. Para Celliny, foi uma pausa agradável. Para o nosso senhor... Foi um inferno.
Estava nervoso e cheio de ansiedades. Quando ele estava prestes a fazer um comentário fora de hora, foi salvo pela voz da garota.
-Já está escuro lá fora?
Nathaniel olhou pela janela.
O céu estava azul, num tom escuro ameaçando enegrecer.
-Quase.
-Então eu preciso ter uma conversa séria com você.
Estavam um em cada ponta de uma enorme mesa de jantar. Ela sabia, pela distancia da voz do outro. Acompanhando a borda da mesa com a mão, ela chegou ao lado de uma hesitante e ansiosa fera. Chegou perto de encostar a mão nos pelos castanhos, mas parou e estendeu a mão.
Se estivessem num salão, esse gesto poderia claramente significar um “dança comigo?” mudo. E era quase isso.
-Podemos ir para o jardim?
Sim, o jardim. Ela presumia que existia um. Afinal, o castelo tinha um suave e quase imperceptível odor de rosas.
Ele a levou, hesitante.
Por que lá fora?
Sentaram-se num banco de pedra belamente esculpido entre duas macieiras, mais perto um do outro do que a fera achava confortável.
Irrequieto, brincava com as próprias mãos e tentava olhar para frente. Sem muito sucesso, porem. Seu olhar estava terminantemente atraído a encarar os belos olhos cegos.
E não se arrependeu.
Ela estava sentada com a postura perfeita. Mantinha os dedos suavemente cruzados apoiados sobre a coxa e os belos e finos traços de seu rosto eram suavemente iluminados pela tímida lua que surgia sobre eles. O vento balançava os longos fios, dando-lhes um ar leve. E, para complementar, um sorriso doce nos lábios e os olhos que procuravam a lua acima, mas jamais a encontrariam.
Sim, foi neste momento.
Exatamente neste momento que a fera começava a sentir algo pela menina.
Esta, depois de sentir o olhar do outro sobre si, abaixou a cabeça e passou a fitar o vazio a sua frente. Esperou mais um momento e, sem tirar o sorriso do rosto, começou.
-Está agradável a noite, não?
Na verdade, ele sentia frio. Mas estava hipnotizado demais pela garota para notar.
-Sim, muito agradável.
Ela alargou o sorriso, mas o fechou em seguida. Simplesmente não era fácil o que tinha de dizer.
-Eu agradeço toda a sua gentileza, mas acredito que você não vá mais nos querer aqui.
-Eu... quer dizer, por que não? Não estão incomodando nem nada do tipo.
-Não vai nos querer aqui por que vou lhe contar uma história. E você não vai gostar nem um pouco dela.
Notas finais
Que história será que ela vai contar?
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