A Batida do coração 2
37 O Acorde de Kayla
O sol de outono entrava generoso pelas imensas janelas do loft no Rio de Janeiro, iluminando os tijolos expostos e fazendo brilhar o piso de madeira onde, anos atrás, tantas histórias haviam sido escritas. O apartamento, que já fora um santuário de silêncio e cura, agora transbordava o barulho mais gostoso do mundo: o da vida em movimento.
Cinco anos haviam se passado desde que Jace e Rebekah cruzaram os braços no altar. O casamento consolidara a união que nascera da tempestade, e a maior prova desse novo recomeço corria descalça pelo corredor.
Kayla Laurentis Drake, de apenas cinco anos, era uma força da natureza. Fisicamente, a menina era uma colagem perfeita das famílias: exibia os impressionantes olhos azuis herdados do avô Derick, que contrastavam lindamente com os cabelos negros enormes, pesados e brilhantes como os da mãe e da avó Letícia. Mas bastava cinco minutos de conversa para perceber que a alma da garota vinha do outro lado da árvore genealógica: ela herdara a determinação inabalável da avó Anya e o gênio absolutamente brincalhão, elétrico e irreverente do avô Guga.
Café da Manhã com Clave de Sol
A mesa do café da manhã era um cenário divertido de domingo. Havia panquecas pela metade, potes de geleia e canecas de café. Rebekah, vestindo um robe de seda longo sobre o pijama, terminava de prender os próprios cabelos enquanto tentava, em vão, fazer Kayla parar sentada na cadeira. Jace, com uma camiseta regata escura que deixava à mostra seus braços fortes e a clássica cicatriz no supercílio, servia mais suco de laranja com um sorriso coruja no rosto.
Kayla não usava os talheres para comer a panqueca; ela usava os dois garfos como se fossem baquetas, batendo ritmadamente na borda do prato de louça.
Taca-ta-pan! Taca-ta-pan!
— Kayla, meu amor, o prato não é o bumbo da bateria do papai — Rebekah chamou a atenção, com a voz mansa de mãe, mas segurando o riso diante da energia da filha. — Come a fruta, por favor.
A menina parou os garfos no ar, os olhos azuis faiscando com aquela determinação que fazia Anya parecer uma rainha. Ela olhou para os pais, jogou os cabelos negros para trás com um movimento dramático idêntico ao de Rebekah nas passarelas, e soltou a bomba de domingo:
— Mãe, pai... eu decidi. Eu não vou ser modelo e nem vou desenhar roupas. Eu quero cantar! E quero tocar violão! Não, violão não... guitarra! Uma guitarra vermelha bem barulhenta!
Jace quase engasgou com o gole de café que dava naquele momento. Ele colocou a caneca na mesa, limpando a boca com o guardanapo, e olhou para a filha com os olhos escuros brilhando de puro orgulho e divertimento.
— Guitarra vermelha, é? — Jace perguntou, inclinando-se para a frente no balcão, apoiando o queixo nas mãos. — E de onde veio essa ideia brilhante logo cedo, dona Kayla?
— O vovô Guga me mostrou um vídeo ontem no celular dele! — Kayla explicou, gesticulando com as mãos pequenas, a voz entusiasmada e rápida. — Tinha um moço de cabelo comprido fazendo shreeeeiwwwww nas cordas! E as pessoas pulavam assim, ó!
Para demonstrar, a menina ficou em pé em cima da cadeira da sala de jantar, fazendo uma imitação perfeita de um solo de rock, balançando a cabeça e usando o garfo como palheta invisível.
— Kayla, desce da cadeira, por favor, você vai cair — Rebekah pediu, embora já estivesse rindo abertamente, cobrindo o rosto com as mãos. Ela olhou para Jace com um olhar de "a culpa é da sua família". — Eu sabia que deixar ela passar o sábado com o Guga ia dar nisso. O seu pai é uma péssima influência para o silêncio dessa casa, Drake.
— Que isso, Laurentis? O meu pai é um visionário — Jace defendeu, rindo alto. Ele se levantou, caminhou até a cadeira da filha e a pegou pela cintura, tirando-a dali e colocando-a sentada de forma correta, mas dando um beijo estalado em sua bochecha. — Então a senhorita quer os palcos? Quer comandar a plateia?
— Quero! — Kayla exclamou, com o gênio brincalhão de Guga assumindo o controle. Ela pegou um pedaço de morango e apontou para o pai como se fosse um microfone. — E você vai ter que tocar bateria atrás de mim, papai! Mas eu sou a chefe da banda, tá? O vovô Guga disse que os cantores mandam nos bateristas.
Jace jogou a cabeça para trás, soltando uma gargalhada rústica e limpa que preencheu todo o loft. — Ah, o vovô Guga disse isso, foi? Ele vai ver só quando eu tirar o banco dele no próximo ensaio. Mas olha aqui, dona Kayla... para tocar guitarra vermelha, tem que treinar muito. Tem que comer toda a panqueca e escovar os dentes primeiro.
O Próximo Arranjo
Rebekah estendeu a mão por cima da mesa e tocou a mão de Jace. O olhar que trocaram era denso de significado. Eles olhavam para aquela menina de cinco anos, tão cheia de vida, música e personalidade, e viam ali o fruto mais bonito de tudo o que haviam plantado. A genética de Santa Bárbara havia se fundido de um jeito perfeito, e a música que Caio tanto amava continuava viva, correndo nas veias daquela nova geração.
— Tudo bem, futura estrela do rock — Rebekah sorriu, inclinando-se para dar um beijo na testa da filha, sentindo o cheiro doce de infância dela. — Se você comer tudo, o papai pode te levar lá na sala e te mostrar como funciona o violão antigo que fica na parede. Quem sabe você não aprende a sua primeira nota hoje?
Os olhos azuis de Kayla se arregalaram de alegria. — De verdade, papai?!
— De verdade, minha linda — Jace piscou para ela, os dedos grandes tamborilando levemente na mesa, ditando o ritmo do coração daquela família. — A gente limpa a cozinha e depois o palco é todo seu.
O café da manhã terminou entre risadas, planos de turnês imaginárias que Kayla faria pelo quintal da casa de Angra dos Reis e pequenas disputas sobre qual seria o nome da banda dela. No loft ensolarado do Rio de Janeiro, o passado era uma moldura bonita na parede, mas o presente e o futuro tinham o som de uma guitarra vermelha barulhenta e o riso livre de uma menina que nascera para garantir que a música daquela família nunca, jamais, perdesse o compasso.
Fale com o autor