A Batida do coração 2
20 A Última Nota do Passado e o Primeiro Acorde do
A madrugada avançava silenciosa sobre a casa de praia em Angra dos Reis. O eco das risadas da ceia de Natal havia se dissipado, dando lugar apenas ao som rítmico e reconfortante das ondas do mar quebrando na areia do lado de fora.
No andar de cima, Rebekah Laurentis já havia se livrado dos saltos altos e do vestido preto midi. Agora, vestindo apenas um pijama de seda leve na cor pérola, ela estava deitada de costas em sua cama de casal. Os cabelos negros enormes espalhavam-se pelos travesseiros brancos. Seus olhos azuis fitavam o teto de madeira do quarto, mas sua mente navegava longe, repassando cada segundo daquele abraço intenso e daquele olhar magnético que compartilhara com Caio na entrada da casa. Dez anos pareciam ter evaporado em uma única noite.
Um som suave de três batidas leves na porta cortou o silêncio do quarto. Rebekah sentou-se na cama, o coração dando um solavanco instintivo.
— Pode entrar — ela sussurrou.
A porta se abriu devagar, revelando a silhueta alta e robusta de Caio. Ele já não usava a roupa social da janta; vestia uma calça de moletom escura e uma camiseta preta básica que evidenciava seus ombros largos de homem feito. O olhar castanho dele buscou o dela na penumbra do quarto, iluminado apenas pela luz do luar que entrava pela varanda.
— Não consegui dormir — Caio confessou, a voz saindo em um tom baixo, rouco e calmo. — Fiquei andando pelo deque lá embaixo, mas a minha mente insistia em subir esses degraus. Posso?
Rebekah abriu um sorriso terno, aquele mesmo sorriso doce que guardara para ele durante uma década, e arrastou-se sutilmente para o lado, abrindo espaço no colchão. — Claro que pode, Caio. Venha aqui.
Caio fechou a porta com cuidado, caminhou até a cama e deitou-se de lado, de frente para ela. Ele apoiou a cabeça em uma das mãos, enquanto a outra repousava no espaço entre os dois. A proximidade física deles ali, depois de tantos anos de telas frias e oceanos de distância, fez o ar do quarto ficar subitamente denso, carregado de uma eletricidade familiar.
A Declaração na Penumbra
Caio estendeu a mão livre e, com a ponta dos dedos, afastou uma mecha dos longos cabelos negros do rosto de Rebekah, tocando a pele de sua bochecha com uma delicadeza extrema. Ele soltou um suspiro longo, os olhos brilhando com uma intensidade que desarmou qualquer barreira.
— Você mudou tanto, Bekah... virou uma mulher tão incrível, tão poderosa — Caio começou, a voz descendo para um registro íntimo, cheio de sentimento. — Mas quando eu olho bem fundo nesses teus olhos azuis, eu ainda vejo a minha baixinha. A garota que me fez tomar a decisão mais difícil da minha vida naquele loft em Nova York.
Rebekah engoliu em seco, sentindo o peito aquecer, os dedos dela encontrando os dele no lençol. — Aquela decisão foi necessária, Caio. Nós estávamos nos destruindo com o silêncio da distância.
— Eu sei. Foi o certo a se fazer na época — Caio assentiu, mas seu semblante tornou-se sutilmente mais sério, despido de qualquer pose de astro do rock. — Mas eu preciso que você saiba de uma verdade, Rebekah. Nesses dez anos... eu viajei o mundo inteiro. Toquei para estádios lotados, conheci milhares de pessoas, vivi a vida que a gravadora planejou para mim. Mas eu nunca, nem por um único dia, deixei de pensar em você.
Rebekah arregalou os olhos de leve, sentindo um nó de emoção apertar sua garganta.
— Teve outras pessoas, Caio? — ela perguntou, a voz num fio, a vulnerabilidade feminina vindo à tona.
Caio soltou um riso curto, sincero, balançando a cabeça negativamente enquanto acariciava o contorno do maxilar dela.
— Eu tentei, Bekah. Juro que tentei seguir em frente. Tive alguns encontros, conheci mulheres bonitas na Europa e nos Estados Unidos... mas não dava. Nenhuma delas tinha o teu riso. Nenhuma delas fazia o meu peito vibrar como a corda do meu baixo vibra quando você está por perto. Eu não conseguia me relacionar de verdade com ninguém, porque o meu coração nunca saiu daquela varanda do clube de golfe, na noite dos teus quinze anos. Eu continuei completamente apaixonado por você durante cada segundo desses dez anos.
As lágrimas que Rebekah havia segurado a noite inteira finalmente transbordaram, quentes e limpas, lavando seu rosto pálido. Ela abriu o maior e mais radiante sorriso de sua vida adulta.
— Eu também te amo, Caio Souza — ela se declarou, a voz embargada pela emoção pura, aproximando-se dele até que seus corpos quase se tocassem. — Eu também tentei. Foquei na minha carreira, desenhei coleções inteiras tentando preencher o vazio que você deixou quando aquela chamada de vídeo caiu. Mas nenhum homem em Santa Bárbara ou no Rio chegou perto de me dar a paz que você me dava. Eu me guardei para você, Caio. Em todos os sentidos.
Caio olhou para ela com uma mistura de reverência e adoração. Ele aproximou o rosto, colando suas testas, sentindo a respiração descompassada da mulher à sua frente.
— Tem certeza disso, minha linda? — ele sussurrou, os lábios roçando nos dela.
— Eu nunca tive tanta certeza de nada na minha vida — ela respondeu, fechando os olhos.
Caio inclinou-se e selou os lábios deles em um beijo que carregava o peso, a saudade e a fome de dez anos de espera. Era um beijo calmo no início, mas que rapidamente transformou-se em uma entrega profunda. Naquela noite de Natal, no silêncio daquele quarto em Angra dos Reis, Rebekah — que havia guardado sua pureza através do tempo e do orgulho da juventude — entregou-se por completo, com corpo e alma, ao amor de Caio. Foi um ato de amor maduro, terno e definitivo, onde as notas de duas vidas separadas finalmente se fundiram em um acorde perfeito.
O Sentinela do Destino
Do lado de fora do quarto, o corredor da casa de praia estava imerso na escuridão. No entanto, encostado na parede de madeira ao lado da janela que dava para o mar, a poucos metros da porta de Rebekah, estava Jace Telles Drake.
Ele havia subido para pegar um copo de água e acabou parando ali. Através da madeira fina da porta antiga da casa de praia, o som abafado das confissões de amor de Caio, os sussurros trêmulos de Rebekah e a entrega apaixonada dos dois haviam chegado limpos aos seus ouvidos.
Dez anos antes, aquela mesma cena teria feito Jace arrombar a porta, cego por uma fúria possessiva e destrutiva que quase acabara com a sua banda e com a vida de seus amigos. Mas o homem que agora vestia a camisa de linho escura não era mais aquele garoto.
Jace fechou os olhos escuros na penumbra do corredor. Ele escutou o riso abafado de Rebekah e a voz protetora de Caio. Ele respirou fundo, o ar saindo de seus pulmões de forma lenta, pesada, mas completamente controlada. Seus punhos continuaram relaxados ao lado do corpo.
A dor que ele sentiu não era mais o ciúme corrosivo; era o respeito absoluto pela ordem das coisas. Jace havia aprendido, ao longo de uma década de solidão e palcos mundiais, que o amor verdadeiro não pode ser forçado e que o orgulho cobra um preço que ele já havia pago por completo. Ele entendeu, ouvindo os dois ali dentro, que Caio era o verdadeiro dono daquela melodia. Caio merecia aquela felicidade. E Rebekah merecia o porto seguro que Jace, em sua imaturidade, nunca soubera ser.
Jace abriu os olhos, encarando o reflexo da lua no vidro da janela do corredor. Ele deu as costas à porta, caminhando com passos firmes e silenciosos em direção ao seu próprio quarto no fim do corredor. Ele controlou o próprio coração, aceitando que tudo na vida precisava seguir o seu próprio fluxo. A nova geração havia se tornado adulta, as feridas estavam cicatrizadas, e Jace Telles Drake estava finalmente pronto para deixar o passado descansar no fundo do mar de Angra dos Reis, enquanto o amor de Caio e Rebekah começava a escrever o refrão mais bonito de suas vidas.
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