A Batida do coração 2
16 O Último Voo de Santa Bárbara
O saguão do Aeroporto Internacional estava mergulhado no caos habitual das manhãs de fim de ano. O som mecânico dos painéis de voos mudando as informações, o barulho das rodinhas das malas contra o piso de granito polido e o murmúrio constante de centenas de vozes criavam uma atmosfera de transição. Para a nova geração de Santa Bárbara, aquele era o dia do acorde final. O dia em que os caminhos, até então cruzados nas mesmas ruas e escolas, iriam se espalhar pelo mapa do mundo.
Caio Souza havia sido aceito na renomada University of Toronto, no Canadá, para cursar Produção Musical. Enquanto isso, Jace, Lucas e Pedro arrumavam suas malas para o mesmo destino nos Estados Unidos: Boston, onde ingressariam em Harvard. Mas ali, perto do balcão de check-in da companhia aérea internacional, o mundo parecia resumido a apenas duas pessoas.
Rebekah estava completamente agarrada a Caio. Seus braços envolviam o pescoço do namorado com força, o rosto enterrado na jaqueta de couro dele, tentando gravar na memória o perfume de lavanda e o calor daquele abraço. Caio a segurava pela cintura, enterrando os dedos nos cabelos escuros dela, os olhos fechados enquanto tentava segurar a onda de saudade precoce que já inundava seu peito.
Afastados a poucos passos, os pais de Caio, Dona Eleonor e Senhor Paulo, observavam o casal com feições orgulhosas, mas carregadas daquela ansiedade típica de quem está prestes a soltar o filho no mundo. Paulo, um homem de postura firme, ajeitou os óculos e pigarreou, quebrando o silêncio para dar os últimos conselhos ao rapaz.
— Caio, preste atenção no que vou te dizer — Senhor Paulo começou, a voz grave mas cheia de afeto paterno. — Toronto não é Santa Bárbara. O frio lá não é brincadeira, e a liberdade que você vai ter exige o dobro de cuidado. Você está indo para estudar, para construir o seu futuro. Quero ver responsabilidade com os horários da faculdade, com os gastos do cartão e, principalmente, com as suas escolhas. Você não é mais o garoto que toca baixo na garagem dos Drake. Você agora é um homem representando a nossa família lá fora.
Dona Eleonor limpou uma lágrima discreta com um lenço de papel e sorriu, tocando o braço do filho.
— E coma direito, meu amor. Nada de viver apenas de sanduíche artesanal e energético. Cozinhe aquela sopa que eu te ensinei. E ligue para a Rebekah todos os dias, ouviu? Não deixe o fuso horário esfriar o que vocês construíram.
Rebekah ergueu o rosto do peito de Caio, soltando uma risada doce e melodiosa que iluminou o semblante sério do namorado. Ela olhou para ele, os olhos castanhos brilhando com uma maturidade nova.
— Você ouviu a sua mãe, seu cabeça-dura — Rebekah brincou, ajeitando a gola da jaqueta dele. — Juízo. Se eu souber que você está pulando aulas para ficar compondo até de madrugada no estúdio da faculdade, eu pego o primeiro voo para o Canadá e puxo a sua orelha.
Caio sorriu, aquele sorriso leve e seguro que curara a alma de Rebekah nos últimos meses. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, colando suas testas.
— Eu vou contar os dias para as férias de inverno, minha baixinha — Caio sussurrou, a voz sutilmente trêmula. — O meu coração continua em Santa Bárbara, na sua mão. Não esquece disso. Eu te amo.
— Eu também te amo, Caio. Mais do que tudo — ela respondeu.
“Atenção passageiros do voo 842 com destino a Toronto, com conexão em Nova York. Embarque autorizado no portão 7.”
O anúncio ecoou potente pelos alto-falantes do aeroporto. O estômago de Rebekah deu uma reviravolta. Caio deu um último beijo apaixonado, demorado e sôfrego nos lábios dela, um pacto silencioso de fidelidade. Ele se despediu dos pais com um abraço forte, pegou sua mochila de mão e caminhou na direção do controle de passaportes. Antes de cruzar a linha, ele virou-se e sorriu, acenando para ela com os dedos em formato de "V". Rebekah sorriu de volta, acenando até que a silhueta do seu príncipe sumisse na multidão do portão de embarque.
O Encontro no Saguão
Ao se virar para caminhar em direção à saída, com o peito apertado pela despedida, Rebekah travou o passo. Vindo da área do estacionamento, carregando malas pesadas de rodinhas e vestindo casacos pesados, o resto da antiga banda caminhava em sua direção. Pedro, Lucas e Jace estavam chegando para o voo deles, que decolaria duas horas depois para os Estados Unidos. Clara Santos vinha logo atrás, de mãos dadas com Pedro, já com os olhos vermelhos de tanto chorar.
Ao verem Rebekah sozinha, os meninos pararam. O clima de rivalidade e as dores do passado pareciam sutilmente amortecidos pela grandiosidade daquele dia de despedidas.
Pedro Lima largou o carrinho de malas e abriu os braços. — Ei, Laurentis. O Caio já embarcou?
— Acabou de entrar, Pedro — Rebekah respondeu, forçando um sorriso simpático.
Pedro a puxou para um abraço rápido e carinhoso. — Cuida da minha Clarinha aqui enquanto eu estiver em Harvard, tá? E não deixa o Caio esquecer de mandar os arranjos novos por e-mail.
Lucas Silva também se aproximou, dando um beijo na bochecha dela. — Boa sorte no seu primeiro ano do ensino médio, Bekah. Juízo em Santa Bárbara.
Os dois se afastaram para dar atenção a Clara, que chorava no ombro de Pedro. Foi nesse momento que Jace Telles Drake deu um passo à frente. Ele vestia uma calça jeans escura, uma jaqueta preta e trazia os cabelos cortados de forma mais madura. Ele esperou que os outros se afastassem sutilmente, deixando Rebekah sozinha no centro do corredor do saguão.
A Trégua da Maturidade
Os olhos escuros de Jace cruzaram com os castanhos de Rebekah. Não havia mais o gelo daquela tarde no posto de gasolina, nem a fúria cega da briga no estúdio, e muito menos o desprezo. O último ano de isolamento e estudos havia transformado o baterista impulsivo em um homem que aprendera a respeitar o silêncio das próprias perdas.
— Oi, Rebekah — Jace começou, a voz saindo mansa, pausada. Ele colocou as mãos nos bolsos da jaqueta.
— Oi, Jace — ela respondeu, mantendo uma postura calma, desarmada.
Jace olhou para o chão de granito por um segundo, buscando as palavras certas na partitura de sua mente. Ele respirou fundo e voltou a encará-la, o semblante limpo de qualquer arrogância.
— Eu vi o Caio indo para o portão lá de trás... — Jace disse, apontando sutilmente com a cabeça. — Ele é um cara de sorte. E ele é um homem de verdade, Bekah. O que ele fez por você... o jeito que ele te protegeu e te fez bem neste último ano... ele provou que merecia ser o seu compasso. Eu fui um idiota completo com você no passado. Meu pai me deu o pior sermão da minha vida depois daquela briga, e ele estava certo. O orgulho me cegou feio.
Rebekah escutou as palavras dele, sentindo um alívio antigo e tardio flutuar pelo seu peito. A ferida que Jace abrira finalmente havia se fechado, deixando apenas a cicatriz da maturidade.
— Está tudo bem, Jace — ela respondeu, com um tom de voz suave e sincero. — O passado ficou em Santa Bárbara. O Caio me deu a paz que eu precisava, mas eu nunca esqueci que foi você quem me estendeu a mão primeiro, lá atrás, quando eu era só uma menina assustada na rua. A gente errou muito, mas o respeito pela nossa família nunca morreu.
Jace esboçou um meio sorriso de canto, o primeiro sorriso sincero que direcionava a ela em quase um ano. Ele tirou a mão direita do bolso e a estendeu na direção dela, em um gesto de encerramento definitivo e maduro.
— Obrigado por isso, Laurentis. De verdade — Jace disse, os olhos brilhando com uma ponta de emoção contida. — Eu estou indo para Harvard hoje. Vou focar na minha carreira, na minha música, e tentar encontrar o meu próprio ritmo bem longe daqui. Eu só queria subir naquele avião sabendo que a minha irmã de alma não guarda mais nenhuma mágoa de mim na mala.
Rebekah olhou para a mão dele e, em vez de apertá-la, deu um passo à frente e o envolveu em um abraço breve, mas carregado de história, perdão e trégua. Jace retribuiu o abraço, sentindo o peso do último ano finalmente deixar seus ombros.
— Boa viagem, Jace Telles. Quebra tudo em Harvard — ela sussurrou, afastando-se com um sorriso maduro. — Encontra a sua música por lá.
— Pode deixar, princesa — Jace respondeu, usando o antigo apelido familiar uma última vez, mas agora com o tom de um irmão mais velho que se despede. — Te vejo nas festas de fim de ano.
O Caminho de Volta
Minutos depois, após os últimos acenos e despedidas do grupo, Rebekah caminhou sozinha em direção à saída automatizada do aeroporto. O vento fresco da manhã bateu em seu rosto quando ela pisou na calçada do desembarque.
Ela estendeu a mão e sinalizou para um táxi amarelo que estava parado na fila. O motorista guardou sua pequena bolsa no banco de trás, e ela se acomodou contra o estofado, olhando pela janela de vidro enquanto o carro começava a se mover, deixando o aeroporto para trás e pegando a rodovia em direção a Santa Bárbara.
Rebekah encostou a cabeça no vidro, observando as árvores e as placas da estrada passarem em um borrão. O peito dela carregava uma mistura complexa de sentimentos. Ela estava deixando no aeroporto o amor de sua vida, Caio, que voava naquele momento em direção a outro país, cruzando as fronteiras para construir um futuro brilhante; e também estava deixando o seu antigo amor, Jace, o rapaz que um dia habitara todos os seus pensamentos e que agora seguia o próprio rumo em busca de redenção.
Ela estava sozinha no banco de trás daquele táxi, voltando para uma casa silenciosa e para um colégio que pareceria vazio sem os ensaios da banda na piscina. No entanto, ela não sentia mais o frio da solidão de Angra dos Reis ou o calor da febre do orgulho. Rebekah Laurentis agora tinha quinze anos, um namorado que a amava do outro lado do continente e a certeza de que a música de sua juventude havia aprendido, finalmente, a fluir no compasso mais bonito de todos: o da própria liberdade.
Fale com o autor