A Batida do coração 2
12 Acordes de Sangue e o Eco do Passado
A tarde caía mansa sobre o casarão dos Laurentis. Na imensa sala de estar, Rebekah e Caio compartilhavam um momento de pura simplicidade. Sentados diretamente no tapete felpudo, cercados por almofadas, eles devoravam sanduíches naturais que a Tia Letícia havia preparado antes de sair para o hospital. Caio ria com a boca meio cheia, tentando explicar como quase perdeu o prazo de inscrição do festival de inverno, enquanto Rebekah limpava uma gota de maionese do canto da boca com um guardanapo, sorrindo de um jeito que há muito tempo não sorria.
O momento de leveza foi abruptamente interrompido pelo toque estridente do celular de Rebekah, largado em cima da mesa de centro. O visor brilhava com o nome que ainda fazia o coração da garota falhar uma batida: Jace.
Rebekah olhou para Caio, o sorriso sumindo instantaneamente. Caio engoliu o pedaço do sanduíche e assentiu com a cabeça, sutilmente sério. Pensando que Jace estava ligando para cobrar Caio sobre o ensaio perdido, Rebekah arrastou o dedo pela tela e atendeu, ativando o viva-voz.
— Jace? O Caio está aqui comigo, ele já vai... — ela começou, a voz mansa.
— Cala a boca, Rebekah — a voz de Jace cortou a linha como uma lâmina congelada. O tom dele não era apenas de irritação; era uma fúria destrutiva, envenenada por semanas de orgulho ferido e ciúme sufocado. — Eu não liguei para falar com o Caio. Liguei para dizer para você parar de ser essa criatura patética. Você não cansa de ser um parasita? Primeiro tentou estragar a minha vida, depois destruiu o meu namoro com a Letícia, e agora está usando o meu melhor amigo para tentar chamar a minha atenção de novo? Você é fútil, Rebekah. É vazia. O Caio só está do seu lado por pena, porque ninguém aguenta uma garota mimada e egoísta como você por perto. Cresce e me deixa em paz de uma vez por todas!
O clique do final da chamada ecoou na sala como um tiro de misericórdia.
Rebekah ficou estática, o sanduíche caindo de sua mão direto no prato. Seus olhos castanhos se encheram de lágrimas quentes que transbordaram instantaneamente, lavando suas bochechas pálidas. O peito dela subia e descendo em choques de humilhação.
Caio Souza respirou fundo. O ar saiu de seus pulmões pesado, carregado de uma indignação que ele nunca havia sentido na vida. Ele olhou para Rebekah chorando encolhida, quebrou o próprio silêncio e levantou-se do chão de uma vez. Seu semblante leve havia sumido; seus punhos estavam cerrados e os olhos faiscavam.
— Caio... não... — Rebekah soluçou, tentando segurar a barra da calça dele, mas ele se esquivou com suavidade.
— Fica aqui, Bekah. Come o seu sanduíche e descansa — Caio disse, a voz assustadoramente calma, o tom de quem havia tomado uma decisão sem volta.
Ele caminhou até a entrada, pegou o capacete, montou em sua moto e deu a partida. O ronco do motor rasgou o condomínio enquanto ele acelerava em direção à casa dos Telles, com o sangue fervendo sob a jaqueta de couro.
A Ruptura no Estúdio
Na casa da piscina dos Drake, o ensaio da banda continuava em um clima tenso. Jace estava atrás da bateria, batendo nos pratos com força excessiva, tentando expulsar a fúria que o fizera pegar o telefone minutos atrás. Lucas e Pedro seguiam o ritmo a contragosto, sentindo o peso do ambiente.
De repente, a porta do estúdio foi empurrada com tanta violência que bateu contra a parede acústica, quase saindo das dobradiças. Caio entrou como um furacão. Ele largou o capacete no sofá de qualquer jeito e marchou direto para a bateria.
Jace mal teve tempo de largar as baquetas. Caio segurou o baterista pelo colarinho da camisa social do colégio e o arrancou do banco com força bruta, jogando-o contra a parede do estúdio.
— Mas que porra é essa, Caio?! — Jace gritou, tentando se defender, mas o soco de direita de Caio já havia atingido em cheio o seu maxilar.
O impacto jogou Jace no chão, derrubando os pedestais dos pratos da bateria com um estrondo metálico ensurdecedor. Jace, cego pela adrenalina, levantou-se avançando contra o amigo. Os dois caíram na porrada ali mesmo, no meio do estúdio. Eram socos desajeitados, violentos, movidos por meses de sentimentos reprimidos. Eles rolaram pelo chão, batendo contra os amplificadores, o sangue de Jace já manchando o tapete do estúdio após um corte no supercílio.
— Para, caralho! Vocês enlouqueceram?! — Lucas berrou, tentando segurar Caio por trás, mas levou um empurrão que o jogou no sofá.
— Pedro, grita o Tio Guga! Vai logo! — Lucas berrou, desesperado.
Pedro correu até a porta, gritando a plenos pulmões. Segundos depois, Gustavo Telles entrou correndo no estúdio, seguido por Anya, que trazia as mãos na boca em sinal de puro pavor.
— Já chega! Separa isso agora! — Guga usou a sua força física e sua voz de comando, metendo-se no meio dos dois rapazes. Ele segurou Jace pelos ombros, empurrando-o para trás, enquanto Lucas e Pedro agarravam Caio, que ainda tentava avançar, a respiração ruidosa e a boca cortada.
O Cordão Rompido
Anya correu para o lado de Jace, ajoelhando-se ao lado do filho que estava jogado contra o bumbo da bateria, com o supercílio sangrando e o lábio partido, o uniforme todo desalinhado.
— Meu Deus, Jace! O que é isso?! Vocês são irmãos! — Anya chorava, limpando o sangue do rosto do filho com a manga do próprio casaco.
Caio desvencilhou-se de Pedro e Lucas com um solavanco, ajeitando a jaqueta. Ele olhou para Jace com um nojo e um desprezo que calaram o estúdio por completo.
— Irmão? Eu não sou irmão de um moleque covarde — Caio cuspiu as palavras, limpando o sangue da própria boca com as costas da mão. — Você acabou de ligar para a Rebekah no viva-voz, na minha frente, e disse coisas que nem um monstro diria para uma garota. Você chamou ela de parasita, Jace! Humilhou ela até ela chorar no chão da sala! Tudo porque você é orgulhoso demais para admitir que está morrendo de ciúmes!
Jace tentou levantar, o olhar fustigado pela dor e pela raiva. — Ela mereceu! Ela acabou com o meu namoro, ela...
— Ela se declarou para você, seu idiota! — Caio gritou, silenciando Jace no mesmo segundo. Lucas e Pedro arregalaram os olhos. — Ela abriu o coração dela para você e a única coisa que você soube fazer foi pisar nela para se sentir superior. Você não é homem, Jace. Você é só um menino mimado brincando de ter poder.
Caio levou a mão esquerda até o pescoço. Com um puxão violento, ele arrebentou o cordão de prata com o pingente de clave de sol que todos os quatro membros da banda haviam mandado fazer juntos no início da carreira como símbolo de lealdade. Ele jogou o metal com força contra o peito de Jace. O cordão bateu no baterista e caiu no chão ensanguentado.
— Eu estou fora da banda. E estou fora da sua vida. Limpa o sangue do teu estúdio, porque a minha amizade você não tem mais — Caio sentenciou, virando as costas e saindo do estúdio a passos largos.
Anya continuou socorrendo Jace, que chorava de raiva e dor física, enquanto Guga olhava para o filho com uma mistura de tristeza profunda e decepção. Guga deu meia-volta e saiu do estúdio, correndo atrás de Caio pelo jardim.
O Reflexo no Passado
— Caio! Espera, garoto! — Guga gritou, alcançando o baixista perto da garagem onde a moto estava estacionada. Guga segurou o ombro de Caio com firmeza, forçando o rapaz a parar. — Calma, respira. Eu sei que você está furioso, mas quebrar a banda e a amizade de vocês não vai resolver...
— Não tenta passar a mão na cabeça dele, Tio Guga! — Caio virou-se, os olhos cheios de lágrimas de revolta, a voz trêmula. — O seu filho é ridículo! Ele não sabe o que é ser homem, não sabe o peso das palavras que usa! Ele humilha a Rebekah dia após dia só porque ela cometeu o erro de se apaixonar por ele. Ele faz ela se sentir um lixo, e eu não vou ficar assistindo a isso enquanto toco baixo do lado dele como se nada estivesse acontecendo. Eu cansei!
Guga escutou as palavras de Caio e, por um instante, o mundo ao seu redor silenciou. Olhando para a fúria protetora daquele rapaz de dezessete anos, para o sangue nos nós de seus dedos e para a determinação em defender Rebekah a qualquer custo, Gustavo Telles viu a si mesmo. A memória o transportou anos para trás, para o tempo em que ele cruzara o mundo, enfrentara preconceitos, brigara com amigos e dera o próprio sangue para proteger Anya Drake quando ela era apenas uma garota assustada e rejeitada por todos. Caio estava vivendo o mesmo compasso que ele vivera.
O olhar de Guga suavizou, o papel de pai do Jace dando espaço para o homem que entendia as leis do coração. Ele desceu a mão do ombro de Caio para o braço do rapaz, apertando-o com carinho paterno.
— Você está certo, Caio — Guga confessou, a voz mansa e madura, pegando o baixista de surpresa. — O Jace errou feio. O orgulho dele cego a visão, e ele vai ter que arcar com as consequências de ter perdido o melhor amigo e a banda que ele tanto amava. Eu vou lidar com ele lá dentro, pode ter certeza de que o sermão dele hoje vai ser o pior da vida dele.
Guga respirou fundo, olhando fixamente nos olhos de Caio.
— Mas agora, esquece o Jace. A Rebekah está sozinha e destruída naquela casa, não está? — Guga perguntou, e Caio assentiu em silêncio. — Então monta nessa moto, vai até lá e cuida dela. Ela precisa de alguém que tenha a coragem de ser o porto seguro dela quando o mundo inteiro parece estar contra. Seja o homem que ela precisa agora, Caio. Deixa o Jace comigo. A conta dele eu mesmo vou cobrar.
Caio olhou para Guga, sentindo o nó em sua garganta aliviar sutilmente diante do apoio do veterano. Ele assentiu com a cabeça, colocou o capacete e subiu na moto. O motor roncou alto e Caio partiu, deixando para trás a poeira e os estilhaços da banda, focado apenas em resgatar a garota que precisava de sua melodia para voltar a respirar em Santa Bárbara.
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