A Batida do coração 2
27 A Linha do Horizonte e o Ritmo do Mundo
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O relatório médico de alta hospitalar indicava recuperação física, mas a alma de Rebekah Laurentis ainda estava em pedaços. Percebendo que os azulejos do hospital e as paredes da casa de praia em Angra dos Reis mantinham a mente da designer presa ao eco do disparo na coletiva, Jace tomou uma decisão drástica. Ele cancelou os compromissos remanescentes da banda por tempo indeterminado e usou os recursos acumulados em anos de turnês internacionais para planejar algo maior: uma jornada sem rumo definido, uma fuga terapêutica através dos continentes.
Eles não viajariam como astros da música ou executivos da moda; viajariam como duas almas feridas em busca de um novo compasso para o coração.
### Primeiro Destino: O Silêncio de Kyoto, Japão
A primeira parada foi o outono pacífico de Kyoto. Jace alugou uma pequena casa tradicional de madeira, um *ryokan*, cercada por florestas de bambu e templos budistas. Ali, a poluição sonora das grandes metrópoles dava lugar ao som do vento nas folhas e à água corrente das fontes de pedra.
Nas primeiras semanas, Rebekah ainda mantinha o olhar distante, mas a calmaria oriental começou a quebrar a rigidez de seus ombros. Numa tarde cinzenta, os dois caminhavam pelo Santuário Fushimi Inari, sob os milhares de portais vermelhos (*toriis*). Rebekah parou, observando uma folha seca de plátano cair lentamente no chão de pedra.
— Às vezes eu sinto que se eu der um sorriso longo, Jace... vai parecer que eu estou esquecendo o Caio — ela confessou, a voz saindo mansa, o cachecol de lã cobrindo metade de seu rosto pálido. Seus olhos azuis buscaram os dele. — Dá medo de deixar a dor ir embora.
Jace parou ao lado dela, ajustando a alça da mochila nas costas. Ele olhou para o topo dos portais e depois para a amiga, estendendo a mão para recolher uma folha que havia caído sobre os cabelos negros enormes dela.
— Sorrir não é esquecer, Bekah. É honrar — Jace respondeu com uma suavidade que só a maturidade dos palcos e das perdas lhe trouxera. — O Caio não compunha baladas tristes; ele gostava do som cheio, da pista pulando. A última coisa que ele iria querer era ver a sua vida virar uma melodia em tom menor. Deixa o vento daqui levar um pedaço desse peso. Eu estou segurando o resto para você.
Rebekah olhou para a mão de Jace, que continuava firme ao seu lado, e, pela primeira vez em meses, apertou os dedos dele com uma leveza genuína. Um pequeno e sutil sorriso de canto surgiu em seus lábios.
### Segundo Destino: As Cores de Marrakesh, Marrocos
Três meses depois, o cenário mudou drasticamente. Jace levou Rebekah para o coração do Marrocos, mergulhando-os na intensidade visual e sensorial dos mercados de Marrakesh. Ele queria estimular o lado criativo da designer, forçando sua mente a focar em texturas, cores e formas que estivessem longe do luto cinzento.
Eles passavam os dias caminhando pelos labirintos do *Souk*, cercados pelo cheiro de especiarias, tapetes tecidos à mão e luminárias de cobre. No estúdio de um artesão local, Rebekah passou horas tocando a textura de um rolo de seda azul-cobalto. Seus olhos, antes opacos, ganharam uma faísca de interesse técnico.
À noite, no terraço do hotel de frente para a praça Jemaa el-Fna, sob um céu estrelado e ao som distante de tambores marroquinos, eles dividiam um bule de chá de hortelã.
— Esse azul... — Rebekah começou, os dedos desenhando formas invisíveis na mesa de ferro. — O Caio tinha uma jaqueta exatamente dessa cor na nossa primeira viagem para Gramado. Eu passei a tarde pensando em como desenhar uma coleção inteira baseada na transição do azul para o dourado do deserto.
Jace deu um gole no chá, observando a animação contida na voz dela. — Então desenha, Bekah. Compra os blocos de notas amanhã. A moda sempre foi a sua voz. Se você não consegue falar o que sente, desenha. Deixa a sua arte sangrar no papel até virar ouro.
— Obrigada por me forçar a olhar para o mundo de novo, Jace — ela disse, inclinando a cabeça de leve para apoiá-la no ombro dele. — Se eu estivesse sozinha no Rio, eu ainda estaria trancada naquele quarto escuro.
— Eu prometi que não ia te deixar na escuridão, lembra? — Jace sussurrou, passando o braço pelos ombros dela, protegendo-a do vento frio do deserto que começava a soprar.
### Terceiro Destino: A Vastidão da Patagônia, Argentina
O fechamento da jornada, quase oito meses após a partida do Brasil, deu-se no extremo sul do continente americano. Jace escolheu a imensidão glacial da Patagônia. Diante do imenso Glaciar Perito Moreno, o silêncio era quebrado apenas pelo estrondo monumental de pedaços de gelo milenários se desprendendo e caindo nas águas azul-turquesa do lago.
Eles estavam em uma das passarelas de observação, isolados dos poucos turistas. O vento cortante batia nos rostos, trazendo uma sensação de pureza e recomeço. Rebekah respirou fundo, enchendo os pulmões com o ar mais puro do planeta. O monitor cardíaco do hospital e a dor física no peito haviam ficado definitivamente para trás.
Ela olhou para Jace, que estava com as mãos nos bolsos do casaco de neve, os olhos escuros contemplando a imponência do gelo.
— Sabe o que a imensidão desse lugar me ensina, Jace? — Rebekah quebrou o silêncio, a voz firme, madura, despida de qualquer traço de desespero.
Jace virou o rosto para ela. — O que, Bekah?
— Que nós somos muito pequenos diante do tempo — ela explicou, uma lágrima solitária descendo pelo seu rosto, mas não de dor, e sim de uma profunda aceitação. — O Caio foi um meteoro. Ele passou rápido, iluminou tudo, mudou a minha vida e a de vocês, e seguiu o curso dele no universo. Eu entendi que a minha história não acabou naquela coletiva de imprensa. Eu ainda estou viva. E eu quero viver.
Jace soltou o ar que segurava, um sorriso aberto e aliviado surgindo em suas feições. Ele se aproximou e segurou as duas mãos dela, os nós dos dedos de ambos já acostumados ao toque e ao apoio mútuo ao longo de milhares de quilômetros.
— Essa é a melhor composição que eu já ouvi você fazer, Laurentis — Jace disse, a voz firme e cheia de emoção. — A turnê do mundo curou a gente. O passado agora é uma lembrança bonita nas nossas fotos, e o futuro está bem ali, depois daquela linha do horizonte.
Rebekah não respondeu com palavras. Ela deu um passo à frente e abraçou Jace. Foi um abraço diferente daqueles do hospital ou do quarto destruído; não era um abraço de socorro ou de luto. Era um abraço de gratidão, de parceria e de uma lealdade inquebrável que havia sobrevivido à pior das tempestades.
O mundo havia girado, o carrossel do tempo havia assentado a poeira da tragédia, e a nova geração de Santa Bárbara, representada por Jace e Rebekah, estava finalmente pronta para voltar para casa com as cicatrizes fechadas e o coração pronto para ditar o ritmo de um novo recomeço.
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