A Batida do Coração 3: O Acorde final

37 O Último Acorde e a Transmissão da Guarda



​A madrugada em Los Angeles havia sido a mais longa e violenta de toda a jornada de Kayla Drake. Ela acordou sentindo um peso sufocante no peito, uma falência sistêmica que os bloqueadores neurológicos e a morfina do Doutor Feffer já não conseguiam anestesiar. Cada respiração vinha curta, fria, e a queimação na base de sua coluna indicava que a blindagem mecânica que a sustentara por uma década estava prestes a parar de pulsar. Olhando para o visor digital do monitor cardíaco, cujo bipe soava cada vez mais arrastado, Kayla sentiu o gênio Drake, aquele instinto primitivo de sobrevivência, dar lugar a uma clareza mansa e definitiva. Era o seu último dia. Ela sentia isso na medula, no metal e na alma.

​Ela não queria partir trancada no silêncio daquela suíte na Califórnia sem antes olhar nos olhos de quem lhe dera o ritmo biológico da vida. Com as mãos trêmulas e frias, ela alcançou o notebook sobre a mesa de cabeceira e iniciou uma chamada de vídeo de emergência para o Itanhangá.

​Dessa vez, não houve Diana Styles para trazer maquiadores de elite. Não houve roupas bonitas, filtros de imagem ou a Gibson vermelha posicionada para esconder a ruína de seu corpo. Kayla Drake apresentou-se ao mundo exatamente como estava: desarmada, com a pele de uma brancura transparente, as olheiras profundas e os cabelos negros enormes em camadas totalmente opacos e espalhados pelo travesseiro hospitalar. Os impressionantes olhos azuis, embora marejados, carregavam a lucidez de quem havia chegado ao acorde final.

​A Tela da Verdade no Itanhangá

​No Rio de Janeiro, já passava das primeiras horas da manhã. Jace e Rebekah Drake estavam na cozinha da casa grande, dividindo o compasso mansa de um café quando o toque estridente do computador ecoou pela sala. Ao verem a notificação de chamada de vídeo da filha, ambos correram para o escritório.

​Ao aceitarem a ligação e a imagem de Kayla preencher a tela de alta definição, o choque foi brutal. Rebekah soltou um grito abafado, as mãos voando para a boca enquanto as lágrimas inundavam instantaneamente o seu rosto de mãe. Jace travou o maxilar, dando um passo à frente, as mãos calejadas de baterista apoiando-se na mesa com tanta força que os nós dos seus dedos empalideceram. A mentira de Malibu havia desabado em um milésimo de segundo.

​— Kayla...?! — Rebekah clamou, a voz saindo em um pranto desesperado. — Meu Deus, minha filha, o que é isso?! Onde você está? Que lugar é esse?!

​— Oi, mãe... oi, pai... — Kayla pronunciou, a voz saindo extremamente mansa, pausada, rouca e interrompida por um leve sibilar mecânico do oxigênio em seu nariz. Ela forçou um sorriso fraco, o mais doce que conseguiu produzir em anos. — Me desculpem por ter escondido isso de vocês nas últimas semanas. Eu estava em Los Angeles... no Cedars-Sinai.

​Jace Drake aproximou-se da câmera, os olhos escuros fixos na palidez da filha, o peito largo subindo em um ritmo pesado de pura angústia. — Kayla, fala com o seu pai. O que aquela gravadora fez com você hoje? Que tubarões te colocaram nessa cama, minha guitarrista?

​— Não foram eles, pai... foram as minhas próprias escolhas — Kayla confessou, uma lágrima solitária escorrendo por sua bochecha branca. Ela puxou o ar com dificuldade, sustentando o olhar do pai. — Toda aquela engenharia de Tóquio... as placas de titânio que eu mandei colocar no meu quadril para não deixar a minha vida de artista parar... o meu corpo rejeitou. Eu desenvolvi um sarcoma agressivo e já estou com metástase avançada nos pulmões e na coluna. O doutor me colocou em tratamento paliativo. Hoje... eu sinto que o meu ritmo está chegando ao fim. É o meu último dia com vocês.

​— Não! Não diz isso, Kayla! — Rebekah desabou no ombro de Jace, soltando um choro sôfrego, estendendo a mão em direção à tela como se pudesse tocar a face da filha através do vidro. — Nós estamos indo para o aeroporto agora! Eu vou fretar um avião, nós vamos te trazer de volta para a Barra, o Logan vai cuidar de você, ele dita as regras daquele hospital...

​— Não dá mais tempo, mãe... e eu não quero o Logan aqui — Kayla a cortou, a voz descendo para uma nota gélida e firme, o último traço de sua soberba Drake se manifestando para proteger o passado. — O Logan merece a paz que ele construiu no Regional. Eu causei pânico demais na vida dele. Eu quero que a nossa história termine exatamente onde parou, como algo inesquecível, mas intocado pela minha ruína. Deixem o meu doutor seguir sozinho.

​A Assinatura do Império

​Kayla Drake fez uma pausa longa, fechando os olhos azuis por alguns segundos para concentrar o resto de energia que lhe restava. Ao abri-los, ela deslizou o dedo pelo trackpad do notebook, compartilhando um documento jurídico digitalizado na tela da chamada. Era o seu testamento oficial e a ata de reestruturação societária da Som Livre, já chancelada pelos advogados de Los Angeles.

​— Eu chamei vocês porque eu precisava passar o bastão — Kayla explicou, olhando bem no fundo dos olhos de Jace. — Eu passei os últimos anos engolindo a indústria fonográfica, comprei os tubarões e me tornei dona de tudo. Mas o metal não compra a eternidade. Pai, mãe... vocês dois são os meus únicos e legítimos herdeiros bilionários. Tudo o que eu conquistei, cada ação da Som Livre, cada direito autoral das minhas músicas, pertence a vocês a partir deste segundo.

​Jace Drake balançou a cabeça negativamente, as lágrimas rústicas cortando as rugas de seu rosto maduro. — Eu não quero ações de gravadora, Kayla... eu só queria o seu violão de volta na nossa sala, minha filha. Eu só queria o seu compasso.

​— Eu sei, pai... e é por isso que o império tem que ser de vocês — Kayla Drake sibilou, o queixo erguido na tela, as lágrimas limpando o rastro da palidez de seu rosto. — Tudo da Som Livre vai ter a assinatura de vocês agora. Eu mudei o estatuto. Nenhuma jovem promessa, nenhum garoto com uma guitarra na mão vai precisar se dopar em um camarim ou arrancar o útero para conseguir tocar em um estádio lotado. Vocês vão ser a guarda da música real. Vocês vão ditar as regras que eu não soube seguir.

​Rebekah aproximou-se da câmera, colando o rosto na tela, soltando um sussurro quebrado de amor infinito. — Nós temos tanto orgulho de você, minha guerreira... a nossa menininha de olhos azuis. Nós te perdoamos por cada silêncio, por cada estrada. A sua música nunca vai parar de tocar na nossa casa.

​Kayla Drake sorriu, um sorriso real, mansa e preenchido por uma paz profunda que o titânio nunca fora capaz de proporcionar. O monitor cardíaco ao fundo começou a emitir um som contínuo e mais lento, indicando que o sistema elétrico do seu coração biológico estava entregando os pontos.

​— Obrigada por me recolherem de volta no arranjo de vocês... — Kayla Drake sussurrou, os olhos azuis piscando de forma arrastada, começando a se fechar sob o efeito do descanso definitivo. — Digam à Candy... que eu sinto muito. E digam ao mundo... que nada acontece por acaso. A minha estrada foi solitária... mas eu morro sabendo... que um dia eu fui alguém muito amada por vocês.

​A tela do notebook permaneceu aberta por mais alguns minutos, exibindo a imagem mansa e estática da maior guitarrista do país fechando os olhos para o mundo, enquanto no escritório do Itanhangá, os prantos de Jace e Rebekah Drake selavam a alforria definitiva da estrela de metal, cujo acorde final ecoaria para sempre no silêncio do império que ela construíra com o próprio sacrifício.