A Batida do Coração 3: O Acorde final
18 A Vigília do Silêncio e as Linhas do Monitor
Os dias se arrastavam na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Regional, com o tempo medido não pelas horas do relógio, mas pelo bipe constante e mecânico dos monitores de suporte à vida. A notícia de que Logan Lâfrer era o pai do bebê que Kayla Drake perdera se espalhara pelas duas famílias sem a necessidade de grandes alardeamentos ou cobranças. A dor da perda e a gravidade do estado de Kayla silenciaram qualquer julgamento; restava apenas uma rede de apoio densa, unida pelo desespero de trazer a jovem guitarrista de volta.
Logan operava em um estado de quase transe profissional e pessoal. Ele se recusava a deixar o hospital. Quando os seus plantões oficiais terminavam, em vez de pegar o carro e ir para o silêncio de sua cobertura na Lúcio Costa, seus passos o guiavam de volta para o mesmo lugar. Ele entrava na UTI, lavava as mãos com o antisséptico no sensor automático e sentava-se na cadeira de vime ao lado do leito de Kayla.
Seus pensamentos costumavam andar em ondas tortuosas — lembranças do beijo no corredor, da intensidade da noite em que ela se entregara e da violência da última discussão. Mas todas essas ondas quebravam e terminavam ali, na calmaria dolorosa daquele quarto, onde ele segurava a mão pequena e cheia de acessos venosos da sua menina.
O Turno das Mães e o Alívio Clínico
Na tarde de sexta-feira, Rebekah Laurentis estava sentada do lado oposto da cama, com os olhos inchados e as bochechas pálidas pelo cansaço de ter passado a noite anterior em claro na poltrona do hospital. Ela escovava os cabelos negros enormes de Kayla com uma escova macia, com um cuidado extremo para não mover o colar cervical que a filha ainda usava.
A porta de correr de vidro se abriu suavemente e Lisa Lâfrer entrou, trazendo duas xícaras de café térmicas e um semblante carregado de compaixão. Agora, as duas mulheres partilhavam mais do que a vizinhança de anos na Barra; partilhavam a dor de uma perda que unira seus filhos de forma trágica.
— Como estão os parâmetros dela hoje, Bekah? — Lisa perguntou em um sussurro mansa, entregando uma das xícaras para a estilista e colocando a mão em seu ombro.
— O Logan disse que os médicos da neurologia estão diminuindo a sedação aos poucos, Lisa — Rebekah respondeu, a voz saindo fraca, mas com um fio de esperança. Ela olhou para a filha no travesseiro. — Eles querem ver como o cérebro dela responde. Os meus pais, a Anya e o Guga, não saem do telefone... estão em uma corrente de orações inabalável pela neta. O Garret também liga a cada hora.
Lisa olhou para o próprio filho, que havia acabado de entrar no quarto vestindo a roupa azul de centro cirúrgico, com os olhos escuros fixos no monitor.
— O meu filho está deixando a própria vida de lado para segurar a dela, Bekah — Lisa sussurrou, com os olhos marejados de orgulho e tristeza. — Ele não dorme, não come direito. Todo o orgulho daquela briga sumiu. Ele só quer que ela acorde.
Logan aproximou-se da cama, alheio aos sussurros das duas mães. Ele inclinou-se sobre Kayla, usando a lanterna clínica para checar a reatividade das pupilas dos impressionantes olhos azuis, que continuavam fechados. Seus dedos longos tocaram o pulso dela com uma carícia leve.
— A pressão intracraniana está completamente normalizada, mãe — Logan disse, a voz grave saindo rouca e pausada pelo cansaço extremo, mas firme na precisão médica. Ele olhou para Rebekah. — O pulmão dela está começando a tentar respirar por cima do aparelho. Se o ritmo continuar estável assim, nós vamos tentar tirar o tubo de ventilação mecânica amanhã de manhã.
Rebekah cobriu a boca com a mão, deixando uma lágrima de alívio escapar. — Obrigada, Logan. Obrigada por não sair do lado dela.
— Eu não vou a lugar nenhum, Tia Rebekah — ele respondeu em um voto silencioso, os olhos escuros nublados pela dor da perda do filho, mas obstinados na sobrevivência da mãe.
O Acorde de Apoio na Madrugada
A madrugada caiu sobre o hospital, trazendo o silêncio frio dos corredores da UTI. Jace Drake era quem dividia o turno da noite com Logan. O baterista experiente estava sentado na poltrona de canto, com os braços apoiados nos joelhos, observando o jovem médico ajustar a velocidade do gotejamento do analgésico na bomba de infusão de Kayla.
Jace levantou-se lentamente e caminhou até o lado de Logan, parando de frente para o monitor cardíaco.
— Você precisa ir para casa descansar um pouco, rapaz — Jace disse, a voz rústica e grave ecoando baixa no quarto penumbroso. — A Rebekah e eu podemos segurar o plantão dela aqui. Você vai acabar desabando antes dela acordar.
Logan terminou o ajuste no maquinário e negou com a cabeça, os braços caindo ao lado do corpo de moletom escuro. Ele encarou o rosto de Kayla.
— Eu não consigo dormir na cobertura, Tio Jace — Logan confessou, a voz trêmula pela primeira vez em dias, revelando a ferida aberta em seu peito. Ele olhou para o baterista. — Aquele apartamento está cheio de silêncio... e cheio das coisas que eu disse para ela. Eu fui um arrogante. Eu tentei encurralar a Kayla porque tive medo do tamanho do talento dela. Tive medo de como o mundo ia olhar para ela. E o preço disso... o preço foi esse asfalto. Foi o nosso bebê.
Jace Drake suspirou profundamente, colocando a mão forte e calejada pelas baquetas no pescoço de Logan, puxando o rapaz sutilmente para que ele olhasse em seus olhos.
— Escuta aqui, Logan — Jace começou, o tom mansa, mas cheio daquela autoridade protetora que fizera a realeza do rock o respeitar. — O erro de vocês dois foi o excesso de intensidade. Duas forças brutas batendo de frente sempre causam um estrondo. A Kayla herdou o meu gênio orgulhoso, ela não aceita amarras. Mas eu vi o jeito que ela cantou para você naquele bar, e vi o estado em que você entrou nessa ala de choque para salvar a vida dela. Você é o pai do filho que nós perdemos, e você é o homem que está mantendo o coração dela batendo agora. Ninguém aqui está te julgando. Guarda a sua energia para quando aqueles olhos azuis se abrirem, porque ela vai precisar do seu compasso para caminhar de novo.
Logan engoliu em seco, as palavras de Jace funcionando como um curativo bruto em sua culpa. Ele assentiu com a cabeça, apertando a mão do sogro em um cumprimento silencioso de respeito mútua.
A Visita da Cúmplice
No sábado pela manhã, Candy Lâfrer conseguiu uma permissão especial para entrar na UTI durante o horário de visita rápida. Ela entrou de passos vagarosos, usando uma roupa casual despojada, mas seu rosto mudou ao ver a melhor amiga cheia de fitas e fios adesivos na cama.
Logan estava de pé no canto, revisando o gráfico de exames do laboratório clínico. Candy caminhou até o leito e segurou a mão livre de Kayla, os olhos castanhos transbordando de lágrimas.
— Oi, amiga... — Candy sussurrou, a voz embargada, apertando os dedos de Kayla. — Eu vim aqui te dizer que você precisa acordar logo. O estúdio da Som Livre está vazio e o Roberto Albuquerque ligou para o seu pai dizendo que a vaga do seu álbum está trancada e guardada para quando você voltar. Todo mundo está te esperando, Kayla. Eu sinto tanta a sua falta no quarto do sexto andar...
Candy limpou uma lágrima na bochecha e olhou de lado para o irmão mais velho. Logan mantinha os olhos fixos na folha de papel, mas sua postura estava tensa.
— Ela vai voltar, não vai, Log? — Candy perguntou, a voz implorando pelo diagnóstico do irmão.
Logan guardou a prancheta no suporte de metal e caminhou até a cabeceira da cama, parando ao lado de Candy. Ele estendeu a mão e acariciou a testa de Kayla, afastando uma mecha dos cabelos negros enormes com uma doçura que fez Candy engolir em seco.
— O efeito dos sedativos zera nas próximas duas horas, Candy — Logan explicou, os olhos escuros brilhando com uma seriedade profunda. — O cérebro dela está limpo, sem sangramentos. A partir de agora, o ritmo depende exclusivamente dela. Ela tem a estrutura de um espírito livre... e eu sei que ela não vai deixar essa música terminar assim.
Candy sorriu em meio às lágrimas, deixando um beijo na mão da amiga antes de se afastar para dar espaço ao irmão.
Quando a porta de vidro se fechou novamente, deixando o quarto no habitual silêncio da UTI, Logan inclinou o corpo sobre Kayla. Ele colou os lábios na bochecha pálida dela, deixando um beijo demorado e quente ali, enquanto sua mão esquerda se entrelaçava de forma definitiva nos dedos dela por cima do lençol do hospital.
— O prazo acabou de verdade agora, minha Estrela... — ele sussurrou contra o ouvido dela, a respiração vinda curta. — Acorda. Eu prometo que nunca mais vou tentar calar a sua música. Só me deixa fazer o backing vocal do seu coração.
No monitor de sinais vitais, a linha verde da frequência cardíaca de Kayla Drake deu um salto sutil, mudando o compasso estável para uma batida ligeiramente mais rápida, como se o espírito livre da jovem guitarrista estivesse, finalmente, começando a escutar o chamado do seu doutor na escuridão do asfalto.
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