A Batida do Coração 3: O Acorde final

38 O Silêncio da Candelária e o Desabar das Estrut



​O Hospital Regional da Barra da Tijuca operava em seu compasso habitual de urgência. Corredores claros, o bip distante dos monitores e o som de passos rápidos ditavam o ritmo do final de tarde. Logan Lâfrer, trajando seu jaleco de linho impecável com o cargo de Médico-Chefe bordado no peito, caminhava em direção à sua diretoria após uma longa reunião de orçamento. Sua postura era a mesma de sempre: imponente, focada, a fortaleza clínica que o Rio de Janeiro respeitava.

​Ao passar pela ala de observação da pediatria, um som ruidoso vindo de uma pequena TV de suporte fixada no alto da parede do corredor fez seus pés travarem no granito. A vinheta urgente do plantão de jornalismo da TV Globo ecoou, cortando o ar condicionado do hospital.

​"Interrompemos a nossa programação para dar uma notícia que acaba de chocar o mundo da música e paralisa o país. Faleceu, nas primeiras horas desta manhã, em Los Angeles, nos Estados Unidos, a maior guitarrista e empresária do rock nacional, Kayla Drake..."

​O copo de café que Logan segurava escorregou de seus dedos longos, estourando no chão e espalhando o líquido escuro pelo piso claro. O Diretor Clínico ficou completamente estático. Seus olhos escuros dilataram, fixos na tela que exibia imagens de arquivo de Kayla: os cabelos negros enormes em camadas voando sob os refletores, os impressionantes olhos azuis cheios de audácia e a Gibson vermelha em seus braços.

​"Segundo as primeiras informações confirmadas pela assessoria da Som Livre, a artista de vinte e oito anos enfrentava uma batalha secreta contra um câncer agressivo. O corpo de Kayla Drake será transladado para o Brasil ainda hoje e, a pedido de seus pais, Jace e Rebekah, o velório será aberto ao público e realizado na histórica Igreja da Candelária, no centro do Rio de Janeiro..."

​Naquele milésimo de segundo, o teto do hospital pareceu desabar sobre os ombros de Logan. O ar sumiu de seus pulmões de forma violenta. A fortaleza de dez anos, o prontuário que ele jurara estar arquivado e a frieza gélida que ele ostentava ruíram como um castelo de cartas. Não era apenas uma notícia sobre uma celebridade internacional; era a morte de sua musa, a menina que ele recolhera do asfalto, a intensidade que um dia dera sentido à sua vida.

​Sentindo o peito queimar em uma taquicardia sufocante, Logan não olhou para trás. Ele ignorou os chamados dos enfermeiros, enfiou as mãos trêmulas no bolso, pegou as chaves do carro e correu em direção ao estacionamento, tomado por um pânico puramente humano.

​O Refúgio na Cozinha dos Lâfrer

​Logan dirigiu pela orla da Barra sem enxergar as curvas, movido apenas pelo instinto de buscar a sua âncora. Ele não foi para a sua cobertura vazia; ele precisava do abraço que o salvara dez anos atrás.

​Minutos depois, a porta da frente da casa de Garret e Lisa Lâfrer foi empurrada com força. Logan entrou como um furacão de dor, a respiração audível e sôfrega, os cabelos desalinhados pelo vento da janela do carro.

​Na cozinha ampla e iluminada, o cenário era de uma normalidade pacífica que contrastava brutalmente com o caos do mundo. Candy Lâfrer estava de pé junto à bancada de inox, vestindo um avental caseiro. Ela batia a massa de um bolo de cenoura com uma colher de madeira, cantarolando uma melodia mansa, enquanto o cheiro doce do forno preenchia o ambiente.

​Ao ouvir o estrondo da porta e os passos pesados, Candy girou o corpo com um sorriso. — Log? O que houve? Você não tinha plantão até...

​A frase de Candy morreu no ar.

​Logan parou no portal da cozinha. Ele olhou para a irmã caçula, a linha do seu maxilar tremendo de forma descontrolada. Suas mãos longas caíram ao lado do corpo e, sem que ele pudesse conter, as lágrimas finalmente transbordaram de seus olhos escuros, escorrendo livremente pelo rosto pálido do Médico-Chefe. O choro dele não tinha som no início; era o pranto devastador de um homem que havia perdido a sua última ligação com o passado.

​— Logan... pelo amor de Deus, o que aconteceu?! — Candy largou a colher de madeira dentro da tigela, os olhos castanhos arregalados de puro susto ao ver o irmão mais velho, a sua fortaleza, desabando daquela maneira.

​Garret e Lisa Lâfrer apareceram na copa imediatamente, atraídos pela voz alarmada da filha. O velho Garret estancou ao ver o semblante do filho, e Lisa levou as mãos ao peito, pressentindo a gravidade do cenário triste e emocionante. Nenhum deles disse uma única palavra; o silêncio da cozinha tornou-se sufocante.

​O Desabar de Candy

​Logan não conseguiu falar. Sua garganta estava travada por um nó de luto e dor. Com os dedos trêmulos, ele puxou o celular do bolso da calça, acionou o portal de notícias com a manchete em letras garrafais preta e estendeu o aparelho na direção de Candy.

​Candy deu um passo à frente, franzindo o cenho, e pegou o telefone. Seus olhos escanearam a tela por dois segundos.

​"LUTO NACIONAL: MORRE KAYLA DRAKE AOS 28 ANOS; VELÓRIO SERÁ NA CANDELÁRIA."

​O celular escapou da mão de Candy, batendo contra o tapete da cozinha. A colmeia de lembranças da adolescência, as risadas no quarto, as confidências e o confronto duro que as duas haviam tido no hall do elevador semanas atrás — onde Candy dissera que Kayla estava completamente sozinha — atingiram a mente da irmã como uma descarga elétrica. A culpa e a saudade estraçalharam a sua barreira.

​— Não... não, a Kayla não... — Candy sussurrou, a voz quebrando em um agudo de puro desespero.

​Ela deu um passo trêmulo e desabou para a frente, jogando-se contra o peito largo de Logan. O irmão mais velho a aparou no mesmo instante, envolvendo-a com seus braços fortes, apertando a irmã contra o seu jaleco de linho. Candy escondeu o rosto no pescoço de Logan, soltando um pranto sôfrego, alto e dilacerante, as suas lágrimas molhando o tecido branco do uniforme médico dele.

​Logan enterrou o rosto nos cabelos de Candy, fechando os olhos com força, deixando que o seu próprio choro se unisse ao dela na penumbra da cozinha. Garret aproximou-se devagar, abraçando os dois filhos por trás com seus braços largos de pai, enquanto Lisa cobria o rosto, chorando mansa pelo destino trágico da menina de olhos azuis que um dia frequentara aquela casa.

​A fumaça do bolo esquecido no forno começava a subir sutilmente, mas ninguém se moveu. Ali, no centro da dor familiar, o Doutor Lâfrer e a sua irmã choravam a perda da estrela de titânio que havia partido para sempre. A história deles havia encontrado o seu desfecho mais sombrio, e o eco dos solos de guitarra de Kayla Drake agora ecoaria apenas nas naves de pedra fria da Candelária, deixando para trás um rastro de saudade inesquecível e um amor que o tempo nunca conseguiu apagar.