A Batida do Coração 3: O Acorde final
19 O Reflexo na Ponte e o Despertar do Vazio
O mundo ao redor de Kayla Drake havia silenciado, mas dentro de sua mente, a música operava em um cenário completamente novo. Ela não sentia a dor do asfalto, o peso do colar cervical ou a invasão plástica do tubo de oxigênio. Ela estava caminhando por um imenso campo coberto por uma névoa mansa, onde o som do mar de Angra dos Reis parecia ecoar ao longe.
À frente, uma estrutura de pedra antiga se desenhava na bruma: uma ponte arqueada que cruzava um rio de águas calmas e cristalinas. Sentada no parapeito da ponte, balançando as perninhas descalças, estava uma menina de aproximadamente dez anos. Ela usava um vestido de algodão branco, muito parecido com a renda que Rebekah costumava desenhar, e trazia os cabelos negros enormes soltos, balançando ao vento. Quando a garotinha virou o rosto, Kayla sentiu o peito arder: os olhos da menina eram de um azul profundo e impressionante, exatamente iguais aos seus, mas o formato do sorriso de canto vinha da linhagem cirúrgica dos Lâfrer.
O Encontro no Horizonte do Sonho
Kayla deu passos lentos pela ponte de pedra, o coração no sonho batendo em um compasso leve. — Quem... quem é você? — ela perguntou, a voz saindo mansa, sem a armadura ácida de sempre.
A menina pulou do parapeito com uma leveza poética e caminhou até Kayla, estendendo uma mão pequena para tocar os dedos da guitarrista.
— Meu nome é Kyara, mamãe — a garotinha respondeu, abrindo um sorriso doce que iluminou a névoa ao redor.
O impacto daquela palavra fez o chão do sonho de Kayla tremer. Seus impressionantes olhos azuis se arregalaram em um choque puro, as lágrimas transbordando instantaneamente. — Kyara...? Não... não pode ser. Você...
— Se não fosse o carro e o asfalto, eu nasceria daqui a alguns meses — Kyara explicou com a sabedoria madura que apenas os espíritos livres possuem. Ela acariciou a mão de Kayla. — Eu era a sua filha. A sua menininha com o papai. Eu vim aqui porque precisava te ver antes de seguir o meu próprio arranjo.
Kayla desabou de joelhos na pedra da ponte, puxando a menina para um abraço desesperado, enterrando o rosto nos cabelos negros da filha. — Me desculpa... meu Deus, Kyara, me desculpa! A culpa foi minha, o meu orgulho, a moto... eu matei a nossa melodia...
— Não chora, mamãe — Kyara pediu, afastando-se um pouco para olhar no fundo dos olhos de Kayla, limpando as lágrimas da mãe com os dedos pequenos. — Não foi culpa sua. Era para ser assim. Eu só queria te dizer o quanto eu amo você e o quanto eu amo o papai. Eu assisti vocês dois da minha bolha. Vocês são tão lindos juntos, mas são tão cabeçudos... Vocês precisam parar de brigar, mamãe. Precisam quebrar essas amarras de orgulho e se entregarem ao amor de vocês. O papai está sofrendo tanto lá embaixo... cura o coração dele por mim.
Kayla chorava soluçando, segurando o rosto da filha. — Eu vou, meu amor... eu prometo que vou. Fica aqui comigo, não me deixa...
Kyara deu um passo para trás, o sorriso doce transformando-se em uma expressão de despedida terna. Ela caminhou até a beira exata do parapeito da ponte, onde o rio corria calmo lá embaixo.
— O meu tempo no seu compasso acabou, mamãe. Agora você precisa voltar para o palco do mundo — Kyara disse, estendendo os braços. — Eu sempre vou ser a sua música mais bonita. Te amo, mamãe. Dá um beijo no papai por mim.
Antes que Kayla pudesse correr, a menina estendeu as duas mãos e deu um empurrão firme no peito de Kayla. O corpo da guitarrista caiu para trás, despencando da ponte em direção ao vazio da névoa.
O Retorno Doloroso à Realidade
— KYARA!
O grito rasgou a quietude da Unidade de Terapia Intensiva como um solo de guitarra distorcido. Os monitores ao lado do leito começaram a apitar de forma frenética, as linhas verdes da frequência cardíaca saltando para cento e quarenta batimentos por minuto.
Kayla Drake abriu os impressionantes olhos azuis de supetão, o corpo arqueando contra o colchão do hospital em um desespero cego. As lágrimas jorravam por seu rosto pálido, e ela começou a tossir violentamente, o tubo endotraqueal machucando sua garganta enquanto ela tentava gritar pelo nome do sonho.
Logan Lâfrer, que estava sentado na poltrona ao lado com a cabeça baixa, imerso em uma oração silenciosa e exausta, saltou da cadeira no mesmo milésimo de segundo.
— Kayla! Kayla, calma, olha para mim! — Logan pediu, a voz grave preenchida por um pânico misturado com o alívio clínico. Ele segurou os ombros dela com firmeza, impedindo que ela arrancasse os acessos venosos. — Não tenta falar, respira. Eu estou aqui.
— Ky... Kyara... — ela tentava articular entre os engasgos do plástico, os olhos azuis dilatados de pavor e dor, fixando-se no rosto de Logan.
— Eu vou tirar o tubo, confia em mim, relaxa a garganta — Logan comandou, agindo com a precisão cirúrgica de sempre, embora seu peito estivesse explodindo. Ele cortou a fita adesiva com agilidade, aspirou as vias aéreas dela e, com um movimento mansa e contínuo, puxou o tubo de ventilação para fora.
Assim que o ar do quarto invadiu seus pulmões sem barreiras, Kayla não segurou a avalanche psicológica. Ela agarrou as lapelas da camisa escura de Logan com uma força descomunal, puxando-o para cima do seu corpo, desabando em um pranto convulsivo e dilacerante que ecoou pela ala de UTI.
— Kyara! Eu sinto muito, Logan... me desculpa, por favor! — Kayla gritava, a voz saindo rouca, arranhada e trêmula pelo tubo e pela dor da perda. — A nossa menininha... o nome dela era Kyara, Logan! Ela estava na ponte... ela disse que amava a gente... me perdoa por ter perdido a nossa filha! Me perdoa por ter quebrado o nosso ritmo!
Logan sentiu o impacto daquelas palavras quebrar a última barreira de sua rigidez de hospital. Ao ouvir o nome que a filha deles teria, ele se jogou na cama, envolvendo o corpo de Kayla em um abraço desesperado e protetor. Ele colou o rosto nos cabelos negros enormes dela, deixando suas próprias lágrimas lavarem o ombro do moletom escuro.
— Shh... não pede perdão, minha Estrela... a culpa não foi sua — Logan sussurrou, a voz embargada, chorando junto com ela em uma sintonia de dor que eles nunca haviam compartilhado. Ele apertava o corpo dela contra o seu peito largo, sentindo as batidas desordenadas do coração de Kayla. — Eu estou aqui. Eu nunca mais vou te soltar. Me desculpa por ter sido um covarde. A Kyara sabe o quanto a gente ama ela... cala a boca e me abraça.
Eles se fundiram naquele abraço na cama do hospital, duas forças brutas que finalmente haviam quebrado o orgulho pelo sofrisso da perda, entregando-se ao diagnóstico definitivo do amor que os unia.
O Flagramento na Porta da UTI
Vlap.
A porta de correr de vidro da UTI foi empurrada com pressa. Jace Drake e Rebekah Laurentis entraram correndo no quarto, alarmados pelo disparo inicial dos bipes do monitor, seguidos de perto por Candy Lâfrer, que trazia as mãos no peito.
Ao cruzarem o batente, os três estancaram no lugar.
A cena era de uma intensidade avassaladora: Kayla estava acordada, sentada na cama com os cabelos negros enormes bagunçados, chorando de soluçar com o rosto enterrado no pescoço de Logan. E o jovem médico, conhecido por todos pela frieza e pelo distanciamento clínico, estava agarrado a ela no leito, com os ombros de moletom subindo e descendo pelo choro pesado, sussurrando palavras de conforto diretamente no ouvido da guitarrista.
Rebekah cobriu a boca com as duas mãos, as lágrimas de alívio inundando seus olhos ao ver a filha respirando por conta própria. Candy encostou as costas na parede do corredor, sorrindo em meio ao choro, sabendo que a barreira de gelo entre seu irmão e sua melhor amiga havia sido derretida da forma mais dolorosa e verdadeira possível.
Jace Drake deu dois passos lentos para a frente, parando na beira da cama. O baterista experiente olhou para os dois corpos entrelaçados naquela vigília de dor e amor. Jace estendeu a mão forte e a pousou no topo da cabeça de Kayla e, logo em seguida, nas costas de Logan, unindo as duas famílias no mesmo compasso.
— Bem-vinda de volta, minha estrela — Jace disse, a voz grave falhando pela emoção, os olhos escuros brilhando com a certeza de que, apesar da perda trágica de Kyara, a música de Kayla e Logan havia apenas encontrado a sua introdução mais real e indestrutível.
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