A Batida do Coração 3: O Acorde final

10 O Impacto do Acorde e a Toalha de Algodão



​A manhã de segunda-feira no Rio de Janeiro trouxe de volta a rotina pesada da Barra da Tijuca, mas o corpo de Kayla Drake parecia ainda carregar o calor do sol de Angra dos Reis. Passava das dez horas quando ela decidiu descer até o andar de baixo. Candy havia esquecido sua jaqueta jeans favorita na mala de Kayla, e como as duas tinham total passe livre e chaves reserva dos apartamentos uma da outra para emergências e convivência diária, Kayla nem se preocupou em interfonar.

​Ela abriu a porta social do sexto andar com suavidade. O loft dos Lâfrer estava imerso em um silêncio profundo, cortado apenas pelo zumbido baixo do ar-condicionado central. Garret e Lisa já haviam saído para resolver as pendências burocráticas do bar, e a calmaria indicava que o apartamento estava praticamente vazio.

​Kayla entrou caminhando devagar pelo piso de madeira escura. Ela usava os fones de ouvido brancos, isolando-se do mundo exterior ao som de um solo de guitarra pesado que vibrava em seu cérebro, e trazia os cabelos negros enormes soltos, balançando conforme ela dava passos lentos pelo corredor dos quartos. Seus impressionantes olhos azuis acompanhavam as mensagens no celular enquanto ela procurava pela cúmplice.

​Ela empurrou a porta do quarto de Candy com o pé. Vazio. A cama estava arrumada e não havia sinal da amiga.

​— Onde é que você se meteu, Lâfrer? — Kayla resmungou para si mesma, tirando apenas um dos lados do fone de ouvido, deixando-o pendurado no pescoço.

​Ela girou o corpo para voltar em direção à sala, decidida a deixar a jaqueta no sofá e subir. No entanto, sua atenção continuava dividida entre o corredor estreito e a tela do celular. Ela deu três passos rápidos para a frente.

​Ao mesmo tempo, a porta do quarto de Logan se abriu de supetão.

​A Queda e a Gravidade Zero

​O impacto foi inevitável e violento. Kayla bateu de frente contra uma estrutura que parecia uma parede de músculos rígidos. O celular voou de sua mão, ricocheteando no tapete do corredor, e o choque desequilibrou completamente seus pés descalços.

​Logan havia acabado de sair do chuveiro após mais um plantão extenuante na emergência. Ele não vestia absolutamente nada além de uma toalha de algodão branca, presa de forma apressada e frouxa na linha da cintura. O impacto repentino da garota contra o seu peito molhado o pegou totalmente desprevenido. Ele tentou segurá-la pelos ombros para evitar a queda, mas o piso liso de madeira fez os pés de ambos escorregarem.

​Em uma fração de segundo, os dois foram direto para o chão.

​O baque foi abafado pelo tapete de algodão do corredor. Logan caiu de costas, soltando um grunhido rústico quando o peso do corpo de Kayla desabou exatamente por cima dele. Mas o verdadeiro desastre físico e psicológico aconteceu no milésimo de segundo seguinte: o movimento brusco da queda e o atrito dos corpos fizeram com que o nó frouxo da toalha na cintura de Logan se desfizesse por completo.

​A toalha branca escorregou para o lado, expondo a nudez total e impecável do jovem médico.

​Kayla acabou caída exatamente em cima dele, com as pernas entrelaçadas nas dele, os rostos a milímetros de distância e as palmas de suas mãos espalmadas diretamente contra o peito nu, largo e ainda úmido de Logan. Quando ela piscou os olhos azuis, processando o impacto, a realidade a atingiu como um diagnóstico devastador. Ela não estava apenas caída sobre o irmão de sua melhor amiga; ela estava colada ao corpo dele, sentindo a pele quente, os músculos do abdômen rígidos e a intimidade dele completamente exposta contra a sua saída de praia fina.

​O Impasse do Silêncio e o Ardor dos Lábios

​O silêncio que se instalou no corredor era tão denso que era possível ouvir o tique-taque do relógio da sala. A respiração de Kayla travou na garganta, os olhos azuis arregalados, fixos nos escuros de Logan. Ela sentiu o rosto queimar em um tom vermelho violento.

​Logan manteve as duas mãos firmes na cintura dela, os dedos cravando-se na pele de Kayla por baixo do tecido fino. O maxilar dele estava travado ao ponto de a linha de sua mandíbula desenhar uma tensão perigosa. Ele era um médico, acostumado com a anatomia humana em todas as suas formas, mas ver aquela garota de dezessete anos — que na próxima semana seria mulher —, com os cabelos negros enormes espalhados pelo seu peito e os olhos azuis dilatados de choque, causou um colapso completo em sua barreira lógica de controle.

​— Kayla... — Logan sussurrou, a voz saindo em um tom absurdamente grave, rouco e arrastado pelo impacto e pelo desejo súbito que subiu por seu peito como uma descarga elétrica. — Sai... de cima de mim. Agora.

​— Eu... eu não consigo me mexer... — ela conseguiu balbuciar, a audácia clássica sumindo por completo de suas feições, dando lugar a uma vulnerabilidade puríssima. O calor da nudez dele contra o seu corpo estava fazendo sua mente entrar em curto-circuito.

​— Se você não sair em três segundos, Kayla... eu não vou responder pelas estatísticas desse corredor — ele alertou, os olhos escuros descendo fixos para os lábios trêmulos dela. A proximidade era uma tortura. O perfume de sândalo e sabonete preenchia o ar confinado.

​Em vez de se afastar, o magnetismo que os atraía desde o primeiro encontro no elevador operou uma força maior. Kayla engoliu em seco, olhando para a boca dele. A tensão latente do fim de semana em Angra implodiu.

​Logan perdeu o controle que passara anos construindo nos hospitais. Ele usou a força de seus braços para puxar o corpo dela ainda mais para cima, eliminando qualquer fresta de ar entre eles, e colou seus lábios nos dela com uma brutalidade passional e urgente.

​Foi um beijo completamente diferente dos outros. Não havia alfinetadas, não havia ironia; era pura eletricidade, necessidade e posse. Os lábios de Logan se moveram contra os dela com uma intensidade faminta, ditando um ritmo avassalador que fez Kayla soltar um gemido baixo contra a boca dele. Ela enterrou os dedos nos cabelos castanhos e ainda úmidos dele, entregando-se por completo àquela sensação absurda de tê-lo nu sob o seu controle. O coração dela batia na frequência cardíaca mais alta de sua vida, uma melodia selvagem que quebrava todas as estruturas de hospital.

​O Diagnóstico e a Retirada

​O beijo durou o que pareceram horas de uma Inversão Térmica completa, até que a falta de ar se fez necessária. Logan afastou os lábios sutilmente, a respiração vinda em jatos curtos e quentes contra o rosto de Kayla. Seus olhos escuros estavam nublados de desejo, mas a mente cirúrgica voltou a operar com uma precisão cortante.

​Ele olhou para a posição em que estavam, sentindo a maciez do corpo dela contra a sua nudez, e tomou a decisão mais difícil de sua vida.

​Com uma agilidade controlada, Logan segurou Kayla pelos ombros e a moveu de lado, colocando-a sentada na madeira do corredor de forma firme. No mesmo movimento, ele se virou, puxou a toalha branca do chão e a envolveu novamente na cintura com um nó rápido e preciso, recuperando a sua armadura de linho e algodão.

​Ele se levantou, ficando de pé acima dela. A exaustão do plantão havia sido completamente varrida, substituída por uma rigidez imponente.

​— O seu tempo está acabando, Kayla Drake — Logan disse, a voz saindo pausada, fria e carregada de uma promessa que fez o estômago de Kayla dar um nó definitivo. Ele a olhou de cima, os olhos escuros cravados nos azuis dela. — Falta uma semana para o seu aniversário. Falta uma semana para você deixar de ser a menininha protegida pelo Jace e passar a responder pelas suas escolhas como uma mulher de verdade.

​Kayla continuava sentada no chão, com os cabelos bagunçados e os lábios visivelmente inchados e vermelhos do beijo. Ela o encarava, desarmada, sem conseguir encontrar nenhuma resposta ácida em seu repertório.

​— Quando a próxima sexta-feira chegar... — Logan continuou, dando um passo em direção à porta do seu quarto, parando antes de entrar. — ...eu não vou mais parar o elevador ou me afastar na cozinha. Então acho bom você usar esses próximos dias para decidir se tem estrutura suficiente para aguentar o ritmo do meu diagnóstico, ou se vai continuar se escondendo atrás da guitarra do seu pai.

​Vlap.

​A porta do quarto de Logan se fechou com um estalo seco, deixando apenas o som do trinco ecoando pelo corredor vazio.

​O Refúgio no Sétimo Andar

​Kayla Drake levou quase dois minutos para conseguir se levantar do chão do corredor. Suas mãos tremiam tanto que ela quase não conseguiu pegar o celular no tapete. Ela não procurou mais por Candy; girou o corpo e saiu do loft dos Lâfrer como se estivesse fugindo de um incêndio florestal.

​Ao entrar em seu próprio loft no sétimo andar, a segurança do lar pareceu sufocá-la. Jace estava na área de serviço limpando os pratos da bateria com uma flanela, e Rebekah revisava alguns croquis na mesa de jantar.

​— Kayla? Você já voltou? A Candy não estava lá embaixo? — Rebekah perguntou, erguendo os olhos e estranhando a agitação evidente da filha.

​— Não... ela tinha saído com a mãe para o mercado — Kayla gaguejou, a voz saindo aérea, os olhos azuis focados em um ponto invisível na parede. — Eu vou... eu vou para o meu quarto. Preciso trocar de roupa.

​Jace Drake parou o movimento da flanela na louça do prato de condução, os olhos escuros capturando na hora o descompasso da filha. O baterista experiente notou a respiração curta dela e a forma como seus dedos apertavam o celular com força excessiva.

​— Tudo bem por aí, filha? — Jace chamou, a voz mansa, mas preenchida por aquela seriedade protetora que Logan mencionara no corredor. — Você parece que correu uma maratona.

​— Está tudo ótimo, pai! Só... o calor do elevador — ela respondeu de forma automática, soltando uma mentira boba antes de caminhar apressada pelo corredor do loft.

​Ela entrou em seu quarto, bateu a porta e girou a chave na fechadura com um clique definitivo. Kayla largou o celular na cama e encostou as costas contra a madeira da porta, deixando o corpo escorregar lentamente até o chão, exatamente como fizera lá embaixo.

​Suas mãos foram até os lábios, que ainda queimavam com a força do beijo de Logan. A fragrância de sândalo parecia impregnada em sua pele e em suas roupas. O doutor careta e engomado havia acabado de quebrar todas as cláusulas do contrato de distância que ela criara. Faltava uma semana para os seus dezoito anos, e Kayla Drake, pela primeira vez na vida, estava com medo de descobrir que o ritmo do coração de Logan Lâfrer era o único compasso que ela jamais conseguiria dominar.