A Batida do Coração 3: O Acorde final

39 O Coro Silencioso da Candelária



​O centro do Rio de Janeiro havia parado. Desde as primeiras horas da alvorada, a imensa esplanada que circundava a histórica Igreja da Candelária estava completamente tomada por um mar humano. Fãs vindos de cada canto do Brasil, vestindo camisas pretas estampadas com o rosto de Kayla e empunhando faixas que diziam "A Guerreira de Titânio é Eterna", choravam sob o sol forte. O som dos soluços coletivos misturava-se ao eco dos sinos de bronze da catedral, que batiam em um compasso fúnebre. Toda a imprensa nacional e internacional cobria o evento em tempo real; helicópteros de emissoras de TV cortavam o céu e as lentes de transmissão ao vivo focavam nas imensas portas de ferro da igreja, registrando o luto de uma nação.

​Nas últimas duas horas do velório, o acesso ao público foi encerrado. Os portões monumentais foram fechados para que os amigos mais próximos e as famílias pudessem se despedir na intimidade do silêncio sagrado.

​Lá dentro, sob os tetos altos pintados com afrescos barrocos e a luz mansa das centenas de velas de cera, o caixão de mogno escuro repousava sobre um pedestal de mármore. Flores brancas e coroas de rosas cobriam o ambiente, perfumando o ar frio da nave central. As câmeras de televisão, agora posicionadas de forma discreta nas galerias superiores com autorização da família, transmitiam para milhões de lares o adeus definitivo à dona da Som Livre.

​A Vigília das Linhagens

​As famílias que haviam compartilhado o início, o meio e o fim da órbita de Kayla Drake dividiam os bancos de madeira da igreja. Jace e Rebekah Drake permaneciam abraçados na primeira fileira, o velho baterista com os olhos vermelhos e a postura rústica curvada pelo peso da perda, enquanto Rebekah chorava mansa apoiada em seu ombro. Ao lado deles, os avós Anya e Guga, os tios da linhagem Laurentis e Telles, além dos primos Lucas e Pedro, mantinham as cabeças baixas em um respeito doloroso.

​Diana Styles, com um vestido preto formal, revisava os últimos papéis de transição da gravadora com o olhar perdido, enquanto a Doutora Marina chorava em silêncio no banco de trás, segurando o terço entre os dedos.

​Do outro lado do corredor, a família Lâfrer mantinha a guarda. Garret e Lisa amparavam Candy, que não parava de tremer, com o rosto escondido em um lenço. E, de pé, encostado na base de uma das imensas colunas de mármore, estava Logan Lâfrer.

​O Médico-Chefe trajava um terno preto sob medida, a gravata escura perfeitamente alinhada e as mãos longas cruzadas à frente do corpo. Ele não se movera nos últimos quarenta minutos. Seus olhos escuros, profundos e experientes, estavam fixos na penumbra do caixão. Toda a sua imponência de diretor de hospital havia evaporado; o que restava ali era o homem que um dia gravara o próprio nome na alma daquela guitarrista.

​O Diálogo das Almas Feridas

​Sentindo que o tempo estava se esgotando antes do fechamento definitivo da urna, Jace Drake levantou-se devagar. Ele caminhou até o banco onde Logan estava, colocou a mão forte e calejada sobre o ombro do cirurgião e olhou bem no fundo de seus olhos.

​— Vai lá, meu filho... — Jace disse, a voz rústica descendo para uma nota de profunda dor e compreensão de pai. As lágrimas cortavam as rugas de seu semblante maduro. — Ela passou os últimos minutos de vida em Los Angeles tentando te poupar da ruína dela. Ela teve orgulho, sim, mas o último pensamento dela... o último arranjo, foi para que você ficasse em paz. Vai se despedir da sua musa.

​Logan engoliu em seco, sentindo o peito queimar. Ele assentiu com a cabeça, desovou as mãos e caminhou lentamente em direção ao pedestal de mármore. Suas botas batiam contra o piso de pedra da Candelária em um som mansa e pausado que ecoava pela nave silenciosa.

​Ao parar na beira do caixão, Logan inclinou o corpo sutilmente para a frente. O visor da TV focou em seu rosto pálido e rígido.

​Ali estava a mulher de sua vida. O mundo inteiro a via na tela como a lenda bilionária de titânio, mas Logan só conseguia enxergar a sua Estrela. Kayla estava morta, a pele de uma brancura transparente desprovida das luzes dos palcos, os cabelos negros enormes em camadas perfeitamente espalhados sobre o cetim branco. No entanto, o semblante dela já não carregava a arrogância ou a soberba dos dias da Som Livre; o rosto de Kayla Drake exalava uma calmaria mansa, serena e angelical, como se o metal em seu quadril tivesse finalmente parado de brigar com a sua biologia.

​Candy aproximou-se devagar, parando do outro lado do caixão, desabada em lágrimas. Ela olhou para a amiga de infância e tocou a borda de mogno.

​— Me perdoa, Kayla... — Candy soltou em um soluço quebrado que ecoou pelos microfones da transmissão, cortando o coração dos telespectadores. — Me perdoa pelas verdades duras que eu te disse naquele elevador... Eu não sabia que você estava sofrendo sozinha. Eu nunca deixei de te amar, miga. A sua vaga no meu quarto vai ficar vazia para sempre.

​Logan estendeu a mão direita, os dedos longos e firmes de cirurgião tremendo sutilmente, e tocou a testa fria de Kayla, afastando uma mecha de seu cabelo negro. O toque biológico contra a pele sem vida fez as lágrimas de Logan caírem direto sobre o vidro da urna, um pranto silencioso e devastador.

​— Você venceu os tubarões, Estrela... — Logan sussurrou, a voz saindo absurdamente grave, pausada e trêmula por uma emoção que ele não conseguia mais conter. Ele inclinou-se mais, falando bem baixinho, quase colado ao ouvido dela, mas com uma intensidade que transparecia na imagem da TV. — Você comprou a gravadora, ditou as regras e colocou o mundo sob as suas botas de napa... mas o preço foi alto demais para o nosso compasso. Olha para você agora... tão serena. O titânio finalmente parou de doer, não é?

​Ele acariciou a bochecha pálida dela por um último e eterno segundo.

​— A nossa história foi um choque de alta voltagem, Kayla — Logan continuou, os olhos escuros fixos no semblante calmo da cantora. — Nós nos destruímos, nos amamos e nos perdemos nas linhas paralelas desse asfalto. Mas você tinha razão em uma coisa: nada acontece por acaso. Você foi a minha maior partitura, e eu vou guardar o som da sua guitarra vermelha trancado no meu peito a cada plantão, a cada cirurgia, pelo resto dos meus dias. Pode fechar os olhos agora, minha menina. A sua estrada solitária acabou. E você morre sabendo que, para mim... você sempre vai ser a mulher mais amada desse mundo.

​O Acorde Final

​Logan afastou-se lentamente, endireitando a postura e limpando o rosto com o dorso da mão, recuperando a sua armadura de homem maduro. Jace e Rebekah aproximaram-se do caixão para o último beijo de despedida antes que os funcionários da Candelária iniciassem o fechamento definitivo da urna de mogno.

​As luzes das velas projetavam sombras longas nas paredes de pedra da igreja histórica. As transmissões de TV começavam a encerrar o sinal ao vivo, mostrando os rostos emocionados dos Laurentis, Telles, Drake e Lâfrer unidos pela mesma perda monumental. Kayla Drake estava partindo. A guerreira de titânio havia deixado o seu império, o seu dinheiro e o topo do mundo para trás, assinando a sua alforria definitiva. Mas ali, sob o teto sagrado da Candelária, o silêncio que se instalou provou que, embora o metal tivesse calado o seu coração biológico, a melodia do amor inesquecível que ela vivera com o seu doutor continuaria ecoando no ar do Rio de Janeiro para todo o sempre.