A Batida do Coração 3: O Acorde final
28 O Arquivo de Tóquio e o Peso do Titânio
Uma década havia se passado desde que as órbitas de Logan Lâfrer e Kayla Drake haviam se chocado e se rompido de forma definitiva. Dez anos de silêncio, de estradas paralelas e de reconstrução.
No Hospital Regional da Barra da Tijuca, o tempo havia transformado o jovem cirurgião obstetra no Diretor Clínico e Médico-Chefe de toda a ala de trauma avançado. Logan agora ditava as regras. Vestindo um jaleco de linho impecável com seu nome bordado em fios de prata, ele andava pelos corredores com a mesma imponência cirúrgica de sempre, mas com um olhar temperado pela maturidade e pela autoridade inquestionável de quem gerenciava centenas de vidas. Ele havia construído uma fortaleza ao redor de si mesmo; o amor impetuoso e doloroso da juventude fora sepultado sob uma rotina implacável de escalas de plantão e decisões administrativas.
O Relatório do Outro Lado do Mundo
Passava das dez da noite de uma terça-feira chuvosa quando Logan se sentou em sua ampla mesa de mogno na diretoria do hospital. A lâmpada de leitura iluminava a penumbra da sala enquanto ele revisava as últimas atualizações de congressos internacionais de medicina. Como tudo o que era revolucionário e de ponta costumava chegar por último ao Brasil, ele sempre mantinha contato direto com centros de pesquisa estrangeiros.
Entre as notificações de e-mail, um arquivo digital criptografado, vindo diretamente da Universidade de Juntendo, no Japão, chamou sua atenção. O remetente era o renomado Doutor Kenji Sato.
Logan clicou no arquivo. Na tela do computador, mapas tridimensionais e gráficos de engenharia biomecânica avançada começaram a rodar. O relatório clínico detalhava uma técnica cirúrgica revolucionária de reconstrução pélvica utilizando uma liga de titânio de grau médico adaptativo e sensores de fibra de carbono ancorados na base lombar. No corpo do texto, escrito em inglês técnico, o médico japonês exalava entusiasmo profissional:
"Esta intervenção representa o ápice da cibernética médica. Um verdadeiro milagre da engenharia ortopédica. Através desta estrutura de placas e pinos de titânio, conseguimos reverter um quadro de necrose avascular pélvica total. O protocolo foi um sucesso absoluto de engenharia e já temos uma paciente vivendo e performando em níveis de alta atividade física, sem qualquer manifestação de dor ou fadiga muscular crônica há alguns anos."
Movido pela curiosidade científica, Logan semicerrou os olhos escuros e acionou o link com os dados da paciente oculta do estudo de caso. Ao rolar a página e o sistema processar a tradução do nome civil da paciente internacional, o coração de Logan deu um solavanco violento contra o peito, uma batida desordenada que ele não sentia há dez anos.
Paciente: Kayla Drake.
Logan travou o maxilar, a respiração vindo curta e fria. Suas mãos longas, conhecidas pela firmeza inabalável no bisturi, começaram a tremer sutilmente na penumbra da diretoria. Ele começou a ler o prontuário de Tóquio com uma fome desesperada, os olhos escaneando cada linha, cada data, cada medição daquela armadura que a Som Livre havia construído em segredo.
Ele leu sobre as placas, sobre os parafusos na cabeça do fêmur, sobre a blindagem mecânica que substituíra a musculatura profunda da perna esquerda que ele tanto tentara salvar no asfalto da Barra. Mas foi ao rolar para a página quatro do relatório cirúrgico que o Médico-Chefe travou por completo, o ar sumindo de seus pulmões.
"...Procedimento adjuvante: Histerectomia total com anexectomia bilateral para acomodação da massa protética pélvica inferior. Órgão uterino removido em sua totalidade para evitar rejeição mecânica e infecção retroperitoneal."
Aquela palavra — histerectomia — bateu na mente de Logan como um bloco de concreto. O útero de Kayla não existia mais. O ventre que um dia carregara o fruto da intensidade deles havia sido descartado e substituído por uma liga de metal escovado. Naquele milésimo de segundo, toda a barreira que Logan construíra em dez anos ruiu. Toda a dor latente de perder Kayla, a culpa pelo acidente de moto e o luto pelo bebê que eles haviam perdido na sala de choque voltou a rasgar o seu peito com a mesma violência do primeiro dia. Ela havia escolhido o metal. Ela havia escolhido os holofotes.
Logan fechou o laptop com um estrondo que ecoou pela diretoria vazia. Ele levantou-se, pegou as chaves do carro e o casaco escuro, saindo do hospital sem dar nenhuma explicação à equipe de plantão.
A Nova Casa dos Drake
Enquanto a carreira de Kayla decolava pelo mundo, o gênio maduro de Jace Drake e a costura fina de Rebekah também colheram frutos. Eles haviam deixado o loft do sétimo andar e comprado uma casa grande, de arquitetura colonial e cercada por um gramado verdejante em um condomínio fechado de alto padrão no Itanhangá. Era uma casa que exalava paz, mas que carregava o peso da ausência de sua única herdeira.
A chuva batia forte nas vidraças da sala de estar quando a campainha tocou de forma insistente. Jace, que estava sentado em uma poltrona lendo uma biografia musical com seus óculos de leitura, franziu o cenho. Ele levantou-se, caminhou até a imensa porta de madeira e a abriu.
Ao dar de cara com Logan Lâfrer, o velho baterista estancou. Logan estava com o casaco molhado da chuva, o rosto pálido e os olhos escuros carregados de uma densidade assustadora.
— Logan...? — Jace pronunciou, a voz rústica descendo para uma nota de surpresa. — Aconteceu alguma coisa no hospital? Entra, rapaz.
Rebekah, que descia as escadas de madeira trazendo uma xícara de chá, parou no último degrau ao ver a expressão do ex-genro. — Logan? Meu Deus, você está pálido. O que houve?
Logan entrou na sala ampla da casa nova, mas recusou o convite para sentar. Ele parou no centro do tapete, com os punhos cerrados nos bolsos do casaco, mantendo uma postura rígida, a voz saindo absurdamente grave, pausada e trêmula pelo impacto do que descobrira.
— Eu recebi um arquivo confidencial de Tóquio hoje à noite — Logan começou, olhando bem no fundo dos olhos escuros de Jace e depois para Rebekah. — Um laudo de engenharia biomédica de última geração que acabou de chegar ao Brasil. Um prontuário cirúrgico completo sobre a filha de vocês.
Rebekah largou a xícara na mesa de centro, as mãos cobrindo a boca instantaneamente. — A Kayla...? O que aquela gravadora fez com a minha menina, Logan? A Som Livre diz que ela está em turnê pela Europa, que ela está ótima...
— Ela está ótima se vocês considerarem um robô como algo ótimo, Tia Rebekah — Logan disparou, o veneno e a dor da decepção de dez anos atrás misturados em seu tom de voz. Ele puxou a respiração com força. — O quadril dela colapsou no Japão há alguns anos. A cabeça do fêmur esfacelou por causa do esforço e das drogas que aquele empresário dava para ela. Os médicos de Tóquio refizeram o corpo dela. Por fora, ela continua sendo a grande Kayla Drake das capas de revista... mas por dentro, da cintura até a metade das coxas, ela é feita de placas, parafusos e engates de titânio puro. Ela virou uma máquina de fazer dinheiro para aquela Som Livre.
Jace Drake travou os dentes, aproximando-se de Logan, o peito largo do baterista subindo em um compasso pesado de pura indignação. — Placas de titânio...? Mas e as dores? Ela está sofrendo, Logan?
— Ela não sente mais nada, Tio Jace! O titânio não tem terminação nervosa! — Logan gritou, a voz quebrando, expondo a ferida sangrenta em seu peito de médico. — Mas os médicos japoneses deram uma escolha para ela antes da cirurgia. Eles disseram que ela podia manter a biologia dela intacta, aceitar o limite do corpo e se tratar como um ser humano para tentar ser mãe no futuro, mesmo que precisasse descer do palco... Ou ela podia escolher o metal, arrancar o útero e continuar a turnê mundial sem restrições.
Rebekah Laurentis desabou no sofá de couro, as lágrimas inundando o seu rosto maduro ao compreender a extensão da escolha da filha. — Não... o útero não... A nossa menininha...
— Ela escolheu o palco, Tia Rebekah — Logan sentenciou, as lágrimas de pura raiva e luto brilhando em seus próprios olhos escuros na sala iluminada. Ele encarou Jace Drake com uma frieza mortal. — A Kayla desistiu de tudo. Desistiu da própria humanidade, desistiu da chance de gerar uma vida, desistiu do ventre... tudo pelo maldito sucesso. Tudo pelo orgulho Drake de não aceitar uma derrota. Como ela já não me tinha mais, e como ela preferia os aplausos de um bando de estranhos à nossa realidade, ela preferiu nunca ser mãe. Ela mandou arrancar o próprio útero para conseguir solar uma guitarra vermelha por mais duas horas em um estádio lotado.
Jace Drake fechou os olhos, abaixando a cabeça lentamente. O velho lobo do rock, que passara a vida inteira defendendo a liberdade e a arte da filha, sentiu o peso do silêncio daquela revelação esmagar os seus ombros. Não havia mais música ali; havia apenas a constatação de que a estrela deles havia se transformado em uma lenda de metal, fria, oca e indestrutível.
— Ela escolheu o arranjo dela, Logan... — Jace disse, a voz saindo em um sussurro rústico, quebrado e sem forças, olhando para a janela que exibia a tempestade lá fora. — A nossa menina preferiu virar titânio a aceitar o compasso do coração.
Logan Lâfrer não respondeu. Ele apenas ajeitou o casaco molhado, deu as costas aos Drake e caminhou de volta para a chuva da noite. Ele voltaria para o seu hospital, voltaria a ditar as regras da ala de trauma e continuaria sendo o Médico-Chefe inabalável que o Rio de Janeiro respeitava. O prontuário de Kayla Drake estava trancado em uma gaveta de metal em Tóquio, provando que, embora ela tivesse conquistado os holofotes do mundo como uma guerreira invencível, ela havia deixado a sua alma e o seu compasso mais real perdidos no asfalto da juventude que eles nunca mais conseguiriam recuperar.
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