A Batida do Coração 3: O Acorde final
9 A Claridade das Velas e o Próximo Acorde
A noite em Angra dos Reis caiu trazendo uma calmaria profunda, daquelas em que o som do mar batendo no deque da piscina parecia ditar o ritmo de todo o casarão. Na imensa sala de estar, decorada com sofás de linho cru e luminárias de luz quente, as famílias e os vizinhos se espalhavam após o exaustivo e divertido dia de praia. Garret e Guga dividiam uma mesa de centro tentando montar uma estratégia de xadrez que sempre terminava em piada; as mães, com taças de vinho nas mãos, riam alto das lembranças dos velhos tempos de Santa Bárbara.
Kayla Drake cruzou a sala com passos mansos. Ela havia trocado a roupa de praia por um moletom oversized cinza e trazia os cabelos negros enormes soltos, caindo em ondas pelas costas. Seus impressionantes olhos azuis varreram o ambiente até encontrarem o canto do sofá maior, onde Jace Drake estava sentado com os braços estendidos no encosto, conversando de forma relaxada com Pedro.
Sem dizer uma palavra, a jovem aproximou-se e jogou-se de lado ao lado do pai. Jace, com o instinto protetor e coruja de sempre, nem precisou interromper o raciocínio: abriu o braço forte e a acolheu em um abraço apertado, colando a cabeça da filha contra o seu peito, onde ela se aninhou como fazia desde que era apenas uma menininha que temia o barulho do mundo.
Confidências em Tom Menor
Pedro se levantou logo em seguida para buscar mais gelo, deixando pai e filha em uma espécie de bolha particular no canto do estofado. Jace continuou acariciando o ombro de Kayla com o polegar, mas seus olhos escuros e atentos miraram o outro lado da sala.
Sentado em uma poltrona de couro escuro, afastado do barulho principal, Logan Lâfrer fingia ler um artigo médico no celular. Ele usava uma camisa de botão escura fina, com as mangas dobradas. No entanto, a tela do aparelho era apenas um disfarce; o foco do jovem médico estava, de forma cirúrgica e obsessiva, em cada movimento que Kayla fazia no peito do pai. A tensão latente do beijo na cozinha e das alfinetadas na areia ainda pulsava entre os dois.
Jace inclinou a cabeça sutilmente, abaixando o tom de voz para um sussurro que apenas a filha pudesse ouvir por conta do falatório do resto da sala.
— O compasso do Doutor ali na poltrona está completamente desordenado desde que você entrou nessa sala, Kayla — Jace brincou, a voz grave saindo mansa, carregada daquela sabedoria de quem já jogara muito aquele jogo. — Ele não tirou os olhos de você por um segundo. Tem certeza de que o que aconteceu na quadra de areia foi só vôlei?
Kayla sentiu as bochechas esquentarem sob o moletom cinza, mas manteve a postura altiva. Ela se mexeu no abraço do pai, erguendo o rosto de leve para sussurrar de volta, mantendo os olhos azuis fixos nas próprias mãos.
— Isso é coisa da sua cabeça de músico ciumento, pai — Kayla mentiu, a voz saindo em um fio firme, embora seu coração tivesse dado um salto violento no peito. — O Logan é só o irmão chato e engomado da Candy. Ele tem esse olhar sério com todo mundo porque provavelmente acha que o mundo inteiro é um paciente da emergência dele. Não tem nada acontecendo.
Jace deu uma risada baixa, rústica, que vibrou contra as costas de Kayla. Ele apertou o abraço, deixando um beijo carinhoso no topo da cabeça da filha. — Se você está dizendo, dona Kayla... mas o meu ouvido é treinado para captar notas fora do lugar. E a frequência cardíaca daquele rapaz está gritando mais alto que a minha bateria no palco. Só toma cuidado para não quebrar a estrutura dele antes do tempo.
Do outro lado do cômodo, Logan assistiu àquela troca de segredos entre pai e filha com o maxilar visivelmente travado. Ver Kayla tão protegida, tão mansa e sorridente nos braços de Jace — um contraste completo com a garota ácida, rebelde e sensual que o enfrentava no elevador e na cozinha —, causava uma agitação desconhecida em seu sistema. Ele queria ser o único a decifrar aquele ritmo, o único a desarmar aquela armadura de seda azul e moletom cinza.
O Próximo Arranjo: Os 18 Anos de Kayla
A bolha particular de pai e filha foi desfeita quando Rebekah Laurentis se aproximou da mesa de centro, batendo levemente com os nós dos dedos no tampo de madeira para chamar a atenção de todos. A estilista exalava elegância até usando uma roupa de linho casual de praia.
— Pessoal, um minuto da atenção de vocês, por favor! — Rebekah pediu, abrindo um sorriso radiante enquanto olhava diretamente para o sofá onde Kayla estava. — Nós precisamos resolver uma questão crucial de calendário antes do fim de semana acabar. Na próxima sexta-feira, a nossa futura estrela do rock aqui faz dezoito anos. Dezoito! A maioridade chegou.
— Meu Deus, o tempo voa mais rápido que um solo de guitarra! — Guga exclamou da mesa de xadrez, jogando as mãos para o alto com seu gênio brincalhão de sempre. — Ontem mesmo ela estava batendo garfo nos pratos de louça e dizendo que ia mandar na banda do Jace!
— Pois é, Guga — Rebekah continuou, rindo da interrupção do sogro. — E eu já estava conversando com a Lisa e com a Letícia sobre organizar uma recepção linda no salão de festas do prédio. Pensei em uma decoração minimalista, um DJ bacana...
— Nem pensar, mãe — Kayla interveio imediatamente, cortando o fluxo do planejamento com aquela determinação inabalável que Anya tanto conhecia. Ela se sentou ereta no sofá, jogando os cabelos negros enormes para trás. — Sem festas. Sem salão, sem decoração e, por favor, sem DJ tocando remixes bregas do colégio.
Rebekah franziu a testa, surpresa. — Mas filha, são dezoito anos! É um marco. Você não quer comemorar com o pessoal da escola?
— Eu acabei de me formar daquela escola, mãe, tudo o que eu menos quero é ver aquela pista de dança de novo — Kayla respondeu com um sorriso de canto, os olhos azuis faiscando de forma audaciosa. Seu olhar, por um milésimo de segundo, escorregou até a poltrona de Logan, desafiando a presença dele. — Eu prefiro mil vezes algo direto ao ponto. Quero ir para aquele rodízio de carnes bem requintado e tradicional lá na Barra da Tijuca. Só a gente. As famílias, os tios da banda... comida boa, conversa de verdade e nenhuma futilidade de salão de festas.
A mesa silenciou por um instante, até que Jace soltou uma gargalhada limpa, batendo a mão no joelho.
— Puxou totalmente ao pai! Homem de verdade e mulher de verdade comem carne, Rebekah! — Jace defendeu na hora, apontando para a filha com orgulho puro. — Eu assino embaixo. Aquele rodízio da Barra tem a melhor costela no bafo do Rio. É muito melhor do que ficar comendo salgadinho fino de bico de mesa.
— Eu também assino embaixo! — Guga gritou, levantando-se e erguendo o copo de cerveja. — Se tiver pão de alho e carne de primeira, a velha guarda está confirmada! Salão de festas é para quem não tem ritmo no estômago!
— Olha, eu tenho que concordar com a Kayla — Garret Lâfrer interveio, rindo junto com Lisa. — Um bom rodízio na Barra une as famílias de um jeito muito mais gostoso. Sem formalidades.
Rebekah olhou para o marido e para a filha, dando-se por vencida com um suspiro divertido e cheio de amor. — Tudo bem, tudo bem. Vocês venceram pelo estômago. Vai ser o rodízio na Barra, na sexta-feira à noite. Eu faço a reserva para o grupo todo amanhã mesmo.
A Frequência da Promessa
Enquanto todos voltavam a conversar alto, comemorando a escolha do cardápio e combinando os carros para a sexta-feira, Kayla relaxou o corpo de volta no sofá.
Ela ergueu o olhar e, dessa vez, não desviou. Logan Lâfrer continuava na poltrona, mas havia largado o celular definitivamente sobre a mesa de canto. Ele se inclinou ligeiramente para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, mantendo os olhos escuros cravados nos azuis dela.
Não havia nenhuma palavra sendo dita, mas a intensidade no olhar do médico funcionava como um prontuário aberto. Ele a parabenizava em silêncio pela maioridade que estava por vir, mas seu olhar carregava uma promessa muito mais perigosa: a de que, a partir da próxima semana, ela não seria mais uma adolescente aos olhos do mundo. Ela seria uma mulher de dezoito anos. E a distância que ele tanto tentava impor a si mesmo estava prestes a expirar junto com o prazo daquele aniversário. Kayla engoliu em seco, sentindo a batida do seu coração acelerar no moletom cinza, sabendo que a comemoração na Barra da Tijuca seria o início do arranjo mais definitivo de suas vidas.
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