Notas iniciais
Não escrevo há uns bons anos, perdoem-me por qualquer coisa ;)

“Olá Marinette, vamos entrando”

Marinette adentrou na sala receosa, tomando cuidado para não tropeçar em nada enquanto andava. Parou na frente do Mestre Fu e o viu apontar para a almofada a frente, agradeceu e sentou-se nela.

— Não precisa ficar com medo, não farei mal algum a você – Mestre Fu falou calmamente enquanto reenchia sua xícara de chá.

— N-não eu não estava pensando n-nisso! E-eu nunca pensaria que, hã, mataria você em mim. Não! Quero dizer, você é velho.

Mestre Fu a olhou de relance com um meio sorriso, mas não parou de encher sua xícara.

— Não velho sabe! É-é um senhor! Um senhor velho!

De repente formar frases coerentes tornou-se um grande branco em sua cabeça.

— Mestre Fu!

Era Tikki saindo da pequena bolsa de Marinette. Voou afobada até o velhinho e abraçou uma de suas bochechas.

— É muito bom te ver também Tikki e bem de saúde – ele riu – faz quanto tempo? 100 anos talvez?

Marinette arregalou os olhos surpresa.

— CEM ANOS?!

— Você mesma disse que eu era velho.

— Ai meu Deus! D-desculpa Mestre Fu é que e-eu n-não quis ofender o senhor sabe, e-eu não sei direito...

Marinette se calou quando ouviu o senhor e a Kwami gargalharem.

— Estou só brincando minha querida. Você está certa. Realmente estou velho.

Mestre Fu tomou um gole de seu chá e depois o pousou na mesa.

— Posso estar velho, mas é você que está com problemas de memória. Nós já nos conhecemos Marinette, inclusive nos encontramos mais de uma vez.

Marinette olhou confusa. De onde o conhecia? Seria um cliente da padaria? Ou talvez um parente distante de algum de seus amigos. Não, provavelmente não. Será que ela haveria costurado alguma coisa para ele? Um cachecol talvez? Não, o único cachecol que costurara foi o de Adrien, ele ficou tão bem de azul. Ah sim, azul era uma cor que definitivamente ficava muito bem nele...

— Marinette? – Tikki chamou.

— O-oi, desculpe – balançou a cabeça tentando refazer seus pensamentos. Dirigiu um olhar envergonhado para os dois – eu realmente não me lembro Mestre Fu.

— Não se sinta culpada querida.

Uma sequência de imagens vieram a cabeça. Um semáforo. Carros. Uma queda, claro sempre havia uma queda, Tikki doente.

— O senhor do semáforo que eu ajudei a atravessar e também o curandeiro!

Mestre Fu sorriu carinhoso.

— Sim, exatamente.

Mestre Fu se levantou e caminhou até um corredor.

— Wayzz, venha até aqui. Tenho uma surpresa.

Alguém respondeu ao longe desanimado, Marinette esperou apreensiva, seja lá quem estivesse vindo não estava de bom humor. A voz reclamava de ter que levantar de sua cama naquele horário e que provavelmente não seria nada surpreendente que o aguardava.

— Dá outra vez que você falou isso era apenas uma vassoura nova que o senh – Wayzz olhou para os três na sala – TIKKI!!!

Wayzz era um Kwami em forma de tartaruga. Marinette olhava-o admirada enquanto o pequeno abraçava fortemente Tikki. Ela nunca havia visto qualquer outro Kwami além do dela, no fim eles eram bastante parecidos no tamanho e assim como Tikki, Wayzz tinha sua dose de fofura.

— Pensei que nunca mais nos encontraríamos! Pelo menos não em menos de 200 anos – Tikki disse soltando-se do abraço – Wayzz quero te apresentar a minha amiga, Marinette.

Os dois Kwamis flutuaram até a garota e pararam na frente de seu rosto.

— Muito prazer em conhecê-la Marinette – Wayzz pegou a mão da menina e beijou num gesto cortês.

— O prazer é todo meu Wayzz – ela sorriu – vejo que você é muito amigo da Tikki.

— Ah sim, nós Kwamis somos muito unidos, mesmo separados ainda conseguimos sentir nossos amigos. É quase como um sexto sentido.

Wayzz flutuou até o ombro do Mestre Fu, que já estava sentado novamente na almofada.

— Mesmo depois que o Mestre Fu entregou os Miraculous a vocês, sempre consegui saber se a Tikki e o Plagg estavam bem.

— Plagg? – indagou Marinette.

— Plagg é o Kwami do Chat Noir. – explicou Mestre Fu – Marinette fico muito feliz que nos reencontramos, mas sei que Tikki não a traria aqui se não fosse um assunto de suma importância.

Marinette concordou com a cabeça e retirou o livro de Adrien da mochila. Colocou-o na mesa cuidadosamente. Mestre Fu trocou um olhar rápido com Wayzz, semicerrou os olhos e abriu o livro. Passava os dedos enrugados levemente pelas páginas. A garotas viu as páginas de Ladybug, Chat Noir e Volpina.

— Marinette, estou atrás desse livro a um bom tempo. Na verdade, posso dizer que passei a vida toda em busca dessas páginas amareladas. E assim foi com o meu pai e meu avô.

Mestre Fu olhou triste para o livro como se suas páginas estivessem cobertas de algum veneno poderoso. Marinette achou sensato continuar calada, mesmo com a imensa quantidade de perguntas que borbulhavam em sua mente. Tikki havia sentado em seu ombro, ela também possuía um olhar entristecido. O velho continuou.

— Agora que ele está em minhas mãos tudo muda. Ladybug e Chat Noir não poderão ficar mais sozinhos. É chegada a hora Wayzz. Nós finalmente vamos convocar a Assembléia Lendária.

Marinette não conseguiu se conter.

— Desculpa, mas o que seria essa “Assembléia Lendária”?

— É a reunião de todos os Kwamis com seus donos. – disse Wayzz.

— Outros donos? Aqui em Paris? – Marinette estava cada vez mais perdida na conversa.

— Não aqui em Paris, mas há muitos outros espalhados pelo mundo. A Assembléia Lendária não é convocada desde o sumiço desse livro.

Marinette fez menção de iniciar outra pergunta, porém Mestre Fu levantou a mão indicando que ela esperasse.

— Obviamente você não está compreendendo quase nada do que estou falando. Isso é normal já que nunca chegamos num momento como esse e não havia necessidade de qualquer coisa ser revelada antes. Entretanto, para conseguimos prosseguir, vou ter que retroceder alguns séculos e lhe contar toda a história dos Miraculous.

Mestre Fu levantou-se novamente e parou em frente à janela deixando a brisa leve bater em sua camisa havaiana e os poucos fios de cabelos que lhe restava.

“Há muito tempo, ainda quando o mundo era uma única forma chamada Pangeia, uma guerra terrível começou. Humanos guerreavam entre si e destruíam tudo a sua volta. Rios secaram, árvores cortadas, espécies entrando em extição. Enfim, era o caos na Terra. O mundo não suportava mais tamanha violência e clamava por ajuda. Foi então que os Kwamis apareceram. Observe, falei “apareceram” e não “foram criados”, porque o que não sabíamos era que esses seres mágicos já existiam bem antes de nós, a raça humana. Todavia, havia um acordo entre eles de que nunca se revelariam como uma maneira de proteção não só a eles como também para nós. Afinal, ser possuidor de um Kwami é extremamente perigoso para alguém de coração sombrio.”

“Hawk Moth” Marinette pensou consigo.

“Os Kwamis não suportavam mais ver tanta tragédia acontecendo e decidiram se mostrar para alguns humanos, os “Escolhidos”. Esses Escolhidos eram pessoas de bom coração e que teriam genuinamente o desejo de por fim a guerra. Porém, havia algo que eles ainda não tinham esclarecido. A forma como os poderes dos Kwamis seriam transferidos para os escolhidos. E quem trouxe a solução foi a nossa querida amiga aqui, Tikki.”

Marinette olhou surpresa para Tikki, que corou imediatamente.

“Tikki sugeriu aos amigos que houvesse algo que pudessem concentrar seus poderes, poderia ser qualquer coisa, desde que tivesse imenso valor para o Escolhido. Com o poder da criação, Tikki concedeu todos os Miraculous existentes, um a um.

Obviamente uma magia poderosa como essa veio acompanhada de um preço. Os Escolhidos poderiam apenas ter um poder especial e após usá-lo teriam pouco tempo até se transformar de volta, na sua forma real. Além é claro do desgaste do Kwami que precisaria alimentar-se para mais em diante voltar a ativa. Formada esta aliança a guerra foi vencida, mas com muita luta. Tribos foram dizimadas e alguns Escolhidos foram mortos.

Após o fim da grande guerra, houve uma imensa explosão que separou a Pangeia e formou os continentes. A paz voltou reinar na Terra. Infelizmente, não durou por muito tempo.”

Mestre Fu deu uma longa inspirada e baixou a cabeça, seu corpo parecia tão frágil como se qualquer coisa que pronunciasse resultaria na sua queda ao chão. Wayzz foi até ele e recomendou que o mestre voltasse a se sentar. O senhor aceitou. Andou até a cadeira próxima da mesa redonda e deixou seu corpo cair-se sobre ela.

“Naquele tempo não existia a regra da identidade secreta dos Escolhidos. Todos se conheciam e partilhavam muitas aventuras juntos, não só na forma transformada. Mas, ainda somos humanos não é? Temos desejos egoístas e sombrios em nossos corações esperando por uma oportunidade. Diz à lenda que um grupo de “Não Escolhidos” invejavam o fato de somente alguns possuírem os poderes dos Kwamis. Tomados pela ambição, esse grupo principiou ameaças a familiares e amigos dos Escolhidos, estabelecendo um acordo de troca: Miraculous X Família/Amigo. A partir daquele dia em hipótese nenhuma, o Escolhido poderia revelar sua identidade secreta, os únicos que deteriam tal conhecimento seria ele próprio e seu Kwami.

O mal no mundo não foi extinto. Porém, sempre houve Escolhidos para lutar contra ele e trazer a paz de volta, mesmo que temporariamente. Com o tempo, os Escolhidos foram envelhecendo e os seus Miraculous foram passados adiante, não necessariamente hereditário, as vezes acontecia, outrora não.

A cada geração tornava-se cada vez mais complexo explicar toda a história dos Miraculous, então fizeram este livro.”

Marinette olhou para o livro como se ele fosse uma bomba relógio.

“No livro dos Miraculous consta tudo sobre cada um deles, suas habilidades, poderes e fraquezas. Toda a história descrita em páginas e mais páginas. E, para evitar que esse objeto caísse em mãos erradas, os Escolhidos fundaram um templo para escondê-lo que foi protegido com inúmeros feitiços e somente um mestre selecionado pelos Escolhidos teria acesso a ele.

Nos últimos trezentos anos o livro foi roubado do santuário. Não se sabe ao certo como, apenas quem. Ou melhor “quems”. Descendentes daquele primeiro grupo de anos atrás que desejava acabar com os Escolhidos e ficarem com os Miraculous. A caçada pelos Kwami começou. Muitos Escolhidos foram mortos por não cederem seus Miraculous e seus Kwamis foram obrigados a obedecer seus novos donos. Esse combate continua até os dias de hoje, enquanto o livro estivesse perdido jamais os Kwamis estariam protegidos. Minha família acompanhou pistas, boatos, tudo que pudessem levar ao paradeiro do livro. Fomos a Tailândia, Jamaica, China, Brasil, Austrália...E a última notícia que tive é que estaria aqui na França. E veja só, não é mais um boato.

Esse grupo cruel nomeou-se “Kõ Kiseki” que traduzindo para a nossa língua é “Anti Miraculous”. Nosso objetivo após recuperar o livro seria de reunir todos os Escolhidos com seus Miraculous e por fim nesta guerra.”

Mestre Fuu deixou os ombros caírem, libertando-se do peso que carregava em suas costas por tanto tempo. Wayzz gentilmente trouxe-lhe sua xícara de chá, o senhor bebericou um pouco e agradeceu ao amigo.

Marinette sentiu-se pequena. Até o momento achava que tudo que estava acontecendo em Paris já era terror o suficiente na vida de qualquer ser humano, mas não. Ouvindo toda a história de Mestre Fu soube que houve tempos muito piores e caóticos do que ela enfrentava agora. Uma pedra caiu em seu estômago. Reclamava demais da vida, o dilema de ser Ladybug e Marinette não parecia 1/10 do que os Escolhidos originais haviam passado durante todos esses anos. Fora por causa deles que agora ela podia ter uma vida “normal”. Estava com medo, a dimensão dos problemas era bem maior que imaginara. Contudo, tinha uma certeza, que depois da Assembléia dos Lendários, nada mais seria como antes. Todos estariam em perigo. Seus pais, Alya, Nino...Adrien. Sim, embarcando nessa jornada atrás do Kõ Kiseki, provavelmente não o veria por um bom tempo. E SE NUNCA MAIS O VISSE? Seus planos de conquistá-lo e construir uma vida juntos estavam sendo jogados descarga abaixo. Adrien ficaria. E ainda pior, ficaria em Paris com Chloé.

— Marinette? – Tikki olhava a amiga preocupada – está tudo bem?

Marinette olhou para sua Kwami atentamente. Tikki era sua confidente, mais que isso, sua melhor amiga, um pompom rosa que não passava a altura de um pão francês sabia de seus desejos e sentimentos mais profundos.

— Está sim. É muita coisa para absorver.

— Marinette – chamou Mestre Fu – entrarei em contato com os outros Escolhidos para marcar a Assembléia, mas posso te adiantar um dos assuntos que será discutido. Nós só podemos confrontar o Kõ Kiseki com a presença de todos os Miraculous e Kwamis. E no momento, dois dos nossos estão perdidos nas trevas. Um deles sabemos que está aqui em Paris, Nooroo, a borboleta.
— Hawk Moth – disse Marinette concluindo o pensamento de Mestre Fu.

— Exatamente. Enquanto não encontrarmos Hawk Moth não poderemos salvar Nooro.
— E quanto ao outro Kwami? Também está aqui em Paris? – perguntou Marinette.

— Não. Infelizmente, o paradeiro do outro Kwami está incerto ainda, achamos que foi raptado junto com seu Escolhido e vive em cativeiro. Wayzz diz que ainda está vivo. É o Miraculous do Pavão, Kujaku.

— A Assembléia Lendária decidirá quais Escolhidos irão atrás de Nooroo e Kujaku – disse Wayzz – enquanto isso os outros não podem se afastar das suas regiões provisoriamente. Devem continuar protegendo suas cidades.

Marinette ainda sentia medo, mas ao mesmo tempo uma chama de justiça inflou em seu coração, fora escolhida, era seu dever aniquilar a maldade.

— Está certo. O que eu faço agora?

— Telefone para o Cat Noir e marque uma reunião aqui amanhã às 20:00.

Marinette concordou com a cabeça, despediu-se do Mestre Fu e dirigiu-se a porta com Tikki já guardada em sua bolsa.

— Marinette – chamou Mestre Fu.

— Sim? – ela se virou ainda com a mão na maçaneta.

— Independente do que aconteça daqui pra frente, ninguém pode saber quem a Ladybug é.

Mais uma vez a garota concordou com a cabeça e foi embora pensando em comer um bom pedaço de bolo de chocolate e quem sabe assim, conseguiria digerir todo aquele dia.

Notas finais
Essa é a minha primeira fic de Miraculous. Obrigada a todos que leram esse capítulo :D