A Batalha da Lua e do Sol - As Ilhas Assassinas
2 Parte I : Ilhas Assassinas | Capítulo I - O Garoto Do Penhasco
Notas iniciais
O menino admirava o mar a sua frente, cristalino e calmo naquela época do ano, sem uma onda qualquer para perturbar a clara visão dos coloridos peixes e da branca areia do fundo. Respirava longamente: queria ter seus pulmões ricos de ar puro cuja brisa arrepiava seus fios de cabelo loiro queimados pelos dias, acariciando a testa.
O sol finalmente termina de nascer, revelando um dia limpo, esquentando sua antes pele gélida e refletindo em seus olhos castanhos claros. Deu-se conta então que havia passado a noite meditando naquele penhasco, como fazia ao menos uma madrugada por mês, quando as coisas se complicavam mais que o normal em sua vida. Porém, desta vez, era uma data infeliz: completava-se um ano desde que sua mãe falecera e este era o motivo de sua meditação, que para ele também era uma forma efetiva de entrar em contato com os mortos ou ao menos sentir sua presença.
Levantou-se, grunhindo em sinal de alivio. Esticou seus braços, sentindo seus ossos voltarem ao lugar assim como seus tecidos serem alongados, e virou de costas para o mar. Sua casa ficava a alguns metros dali, uma pequena cabana com teto triangular para as épocas de inverno, com paredes espessas e irregulares – tudo da melhor madeira do continente. Costumava morar solitário pois, desde que perdeu sua mãe, decidiu se distanciar da cidade.
Ao longe, entre as verdes montanhas, percebeu um enorme felino andando imponente em direção ao penhasco, seguindo fielmente a pequena estrada de chão batido. Isso fazia-o sorrir em satisfação, já que era a única pessoa que o alegrava desde muito tempo.
— Noah! Bom dia! — Gritou a garota ao longe, montada em seu tigre de pelo menos um metro e oitenta em suas enormes quatro patas.
— Eu sei que você gosta do meu café da manhã, mas... vir aqui todo dia sem trazer pelo menos uma bebida é sacanagem, não acha? — Ele cruza os braços, esperando sua melhor amiga se aproximar.
Valquirie era uma guerreira imperial com a mesma idade de Noah, a qual se tornou uma das mais fortes lutadoras do exército continental, motivo pelo qual usava uma armadura dos pés até o pescoço moldando seu corpo com resistentes placas de aço prateado, juntamente com uma espada guardada em seu coldre, já que nunca costumava carregar nas mãos. Por cima de tudo isso costumava usar cachecol vermelho, combinando com a roupa que estava por baixo. Com cabelos lisos e morenos de franja bem definida até a altura das sobrancelhas, pele clara, olhos negros e uma estatura mediana, a garota costumava chamar a atenção de inúmeros rapazes por todo o continente, já que suas características a faziam uma das garotas mais belas de todo o império. Porém, desde muito jovem era conhecida pelo seu desinteresse em casamento, algo que todos compreendiam devido ao seu posto no exército.
— Não te devo satisfação moleque! — ela o intimida, rindo logo em seguida da expressão cômica feita por Noah.
— Deve sim! Pelo menos alguns sucos das plantações dos vilarejos ao redor da cidade...
Ainda sorrindo ela desce de seu tigre, este que era seu laço de alma. O enorme quadrúpede boceja, deitando na grama fofa. Assim como sua domadora, o felino usava uma armadura e cela apropriada, porém sem amarras até suas bocas como costumavam usar em cavalos sem magia – aqueles que não possuem laço de alma. Em sua cabeça havia um elmo com características felinas e detalhes dourados que bordavam os limites da proteção.
— Meu querido Khan já está cansado? Não está nem ao menos uma hora acordado.
— É preguiçoso igual a você — Noah sorri de canto, sapeca.
O tigre mostra os dentes, rosnando rouco, provocando uma longa risada na garota, que entendia perfeitamente cada gesto de sua alma.
Os dois caminham então lado a lado até a cabana. Valquirie invejava o lar de seu amigo: era simples, mas possuía uma varanda em um dos lados do telhado, na qual tomava seus cafés da manhã sempre que podia, mas, sem dúvidas, o motivo principal era poder observar o mar enquanto conversava com a única pessoa que não lhe decepcionava. Isso valia mais para ela do que realizar suas refeições no grande palácio imperial.
— Eu tenho alguns assuntos importantes para tratar hoje — Ela inicia, abrindo as portas para a varanda e deixando que a luz do sol incidir sobre toda a sala.
— Irão organizar outra reunião com o imperador sobre a expansão? — Ele a questiona, pegando dois copos de argila de uma despensa, se preparando para fazer o chá.
— Não. O voto para a expansão foi confirmado ontem pela da noite — A garota vira-se para o amigo, enquanto tira sua espada das costas, encostando-a na parede.
— Como?! Ontem? Me conte tudo — Ele abandona os copos sobre a mesa, olhando assustado para a guerreira.
Valquirie senta calmamente no chão da varanda, esperando Noah se juntar a ela.
— Os guerreiros tiveram seu impacto sobre a decisão do imperador, mas no fim de tudo os magos acabaram concordando em mandar alguns integrantes de seus clãs com a embarcação. Assim ele não teve outra escolha se não aceitar — Ela explica.
— Eles citaram-me na embarcação?
— Não...
O loiro olha para o chão, a insatisfação ameaçando tomar conta de sua expressão.
— Eu vou falar com o comandante. Sou um bom lutador, deve haver alguma maneira... — Noah é cortado por um grunhido vindo da guerreira.
— Eu não vou te impedir de embarcar... mas saiba: não quero perder meu melhor amigo, portanto, não quero que você se arrisque— Valquirie sorri fraco, como se estivesse fazendo algo a contragosto, o que era verdade— você sabe que a única sobrevivente foi sua mãe...
— E ela enlouqueceu.
— Não é necessário que vá, Noah.
— Você me treinou desde que tinha 6 anos de idade, e é somente alguns dias mais nova. Eu estou preparado, assim como você — Ele coloca as mãos sobre a mesa, sorrindo em vitória.
— Será o único em missão cuja arma preferida são machados. Não haverá muitos que compartilharão algo contigo, e apesar de mais nova, eu sou melhor em batalha — A garota diz em defesa.
— Só porque você tem o Khan.
Ela ri como se ele estivesse contando uma piada, levanta-se movendo sua cabeça em sinal de negação, olha para o mar através da varanda, pensando em seu amigo. Não haveria modo algum de impedi-lo, ela tinha conhecimento disso. Noah não conseguiria conviver consigo mesmo sem participar desta missão: era como um dogma para o jovem, uma verdade absoluta, era seu destino fazer parte da expedição, mesmo que o motivo principal fossem as curiosidades que quase o enlouqueceram por toda sua vida.
— Muito bem — Ela respira fundo, tomando sua decisão final — Partiremos em dois dias. Deves ir ao vilarejo comprar sua armadura, não pode trajar aquele latão que usa para treinar. Eu lhe acompanharei, se desejar — Ela sorri.
— Óbvio que você vai junto comigo — Ele se levanta, pegando novamente os copos — Vamos comer e partiremos... — Ele observa o grande tigre pela varanda, andando enquanto olha o mar — E eu não vou andar em cima do Khan!
Apenas uma hora depois Noah e Valquirie chegavam na cidade. A grande capital do Novo Império (que de novo não tinha nada), Traeth (ou simplesmente capital) é a casa de quinhentos e sessenta mil pessoas que vieram de todos lugares do império. Repleta de edifícios de mais ou menos quatro andares feitos com tijolos e madeira, as cores das ruas de paralelepípedo contrastavam com as bandeiras roxas, azuis, brancas e vermelhas que se misturavam com as roupas e panos nos milhares de varais que ligavam um prédio ao outro, demonstrando o patriotismo e fidelidade do povo. Bem ao centro da capital, encontrava-se um enorme palácio branco, com torres quadriculadas e muros de vinte e cinco metros, o qual é a casa do imperador Dourado. Traeth possuía um formato de círculo e encontrava-se rodeada por montanhas de norte a sul, cujas fauna e flora eram abundantes e diversificadas. As centenas de anos de paz trouxeram-lhe a fama de ser o melhor e mais bonito lugar do mundo para se morar, mas apenas Noah discordava.
— Já fazia algum tempo desde que não colocava os pés aqui — Disse, observando as centenas de pessoas transitando por todos os lados.
— Deveria visitar mais vezes, ficar isolado naquele penhasco te faz ser antissocial —Ela riu.
As pessoas se sentiam maravilhadas com Khan, mas ao mesmo tempo, era algo comum para elas, haviam diversos soldados do império que caminhavam pelas ruas da cidade, e alguns deles possuíam laços de sangue com animais excepcionais: corujas, elefantes, jiboias, até mesmo criaturas únicas vindas das ilhas – explicarei sobre as ilhas mais à frente. Ter um laço de sangue significava que seu destino era servir ao império como um soldado, mesmo em período de paz. As antigas profecias continuavam em vigor e pareciam permanecer até o fim dos tempos. Contudo não eram profecias que indicavam uma guerra ou algo que levasse ao derramamento de sangue, mas sim, o simples fato de ter seu destino selado aos cinco anos de idade, quando uma ilha se move até a praia de Traeth que ficava logo após a montanha leste, e em uma noite qualquer, um animal vem ao continente até a porta da casa onde há uma criança, e ao lado dela permanecerá para sempre.
— Então, onde compraremos a armadura?
— Fica mais ao centro, é uma loja do império. Minha armadura veio de lá, acredito que é o melhor lugar para escolher suas definitivas.
— Tem certeza que minhas moedas conseguirão comprar? — Ele segura em seu bolso, preocupado por um instante.
— Claro! — ela diz como se fosse óbvio — Você nunca gasta dinheiro com nada — Valquirie sussurra a última parte, mas não baixo o suficiente para que Noah não escutasse.
— Ei!— Ele reclama, mas como sempre, a garota acaba por rir.
Algumas quadras a frente os dois chegam à porta do estabelecimento, com um grande letreiro de madeira escrito “Armas e Armaduras do Exército Imperial, apenas para soldados cadastrados”. A expressão de Noah muda para uma duvidosa, em seus vinte anos de vida, nunca comprou nada naquele lugar.
Valquirie desce de seu tigre, andando até a porta, que ao ser aberta toca o sino para avisar o vendedor. A loja era simples, pequena e limpa, infestada de armaduras e armas penduradas nas paredes e teto, com um balcão pequeno ao fundo. Haviam duas portas atrás do mesmo, uma para o estoque, e outra para o provador, onde se necessário, tiravam-se as medidas.
— Senhor Morbom, quanto tempo — Ela saúda o vendedor.
Morbom era um velho careca e de barba longa, mago veterano na guarda imperial, possuía uma idade que beirava os noventa e cinco anos, mas ainda sim dono de um vigor invejável. Trajava vestes longas e roxas – cor que a divisão dos magos costuma usar no exército.
— Eu que o diga — Ele realiza uma pausa para observar o novo cliente que vinha logo atrás da guerreira imperial — Este não é o garoto do penhasco?
— Não o chame assim, sabe que é falta de respeito — Ela o repreende rapidamente.
— Mil perdões garoto, não foi minha intenção, é que sabe... todos o chamam assim e se tornou algo comum — O velho tenta, sem jeito, se desculpar.
— Não se preocupe, já estou acostumado — O garoto adquire uma postura calma, deixando o vendedor tranquilizado.
— Sintam-se à vontade.
— Na verdade, viemos aqui para escolher a armadura definitiva do Noah — Valquirie diz, parecendo causar espanto no senhor.
— Ora ora. Diga-me, que tipo de armadura gostaria? Algo que o proteja em cada canto do corpo?
— Se possível, algo leve que não me atrapalhe em minha movimentação — Ele olha para o próprio corpo, tentando entender uma armadura conforme as melhores que já havia usado.
— Certo certo... venham, vou tirar algumas medidas e fazer a armadura.
O senhor vira de costas e, no estalar de seus dedos, a porta se abre com um vulto amarelo, pegando Noah de surpresa. Ele não costumava ver a magia bruta dos magos, era a única que podia ser facilmente visível, não era como usa-la em seu próprio corpo.
Ao entrar no provador percebeu se tratar mais de um ambiente de alquimia, com um palco e um espelho logo ao lado, do outro havia uma mesa com várias placas de metais que não saberia dizer o nome devido a escuridão, além de diversos equipamentos dos magos que lhe chamavam a atenção.
— Vamos ver, vamos ver — o senhor analisa o garoto, mexendo seus dedos como se controlasse algo. E realmente estava.
Uma linha amarela de magia contornava o corpo de Noah, mexendo em seus braços, levantando-os para verificar o tamanho, percorrendo todo o seu corpo, e o mago, concentrado, parecia adquirir variadas informações.
A surpresa expressada pela face de Noah divertia Valquirie que olhava no canto da sala, fazendo-a pensar que seu amigo deveria estar indignado de existirem coisas assim tão perto de si – o loiro nunca havia entrado em uma loja de armaduras, suas armaduras de treino eram compradas pela amiga em lojas não oficiais, já que para comprar registrado precisa-se estar presente.
— Devo dizer que você é um jovem saudável e forte, se tivesse um laço de sangue seria um soldado excepcional — Ele diz, causando um grande silêncio na sala. Tudo o que se ouvia era Morbom mastigando algo.
— Você é um desastre em educação, definitivamente — Valquirie novamente ri.
— O que eu disse?
— Nada! Continue.
— Muito bem — o velho caminha até seus equipamentos, mexendo naquilo tudo com uma enorme habilidade em sua magia amarela.
Colocou, então, os metais para derreter em uma forja que ninguém havia notado antes de ele acendê-la, misturou diversos líquidos em cima do metal derretido, e por fim, caminhou até Noah, lhe pedindo uma gota de seu sangue – isso para que o jovem pudesse usar seu poder mágico na armadura. E como, literalmente, em um toque de mágica, as peças de sua armadura iam saindo da forja, já moldadas, deixando o loiro muito atento a tudo que estava acontecendo, impressionando-o cada vez mais conforme olhava tudo aquilo.
O mago as deixou esfriando em cima do chão de pedra, e alguns minutos depois, as poliu e fez os detalhes finais, para que Noah pudesse vesti-la. E assim se fez a sua armadura definitiva. O modelo logo ficou salvo no livro do mago, para que pudesse realizar manutenções futuras – mesmo que soubesse que não seria necessário. O jovem trajou a armadura e olhou-se no espelho, verificou uma ombreira em seu ombro direito, assim como o resto de seu braço que estava todo protegido pela armadura, até mesmo sua mão, ao contrário do lado oposto, que possuía todas essas partes nuas. Ele logo assimilou sua maior mobilidade com o braço direito, e o reflexo de se defender com o esquerdo. Seu peitoral, abdômen e costas estavam protegidos por um conjunto de placas metálicas que lhe permitiam uma perfeita mobilidade, mas suas pernas não possuíam nenhuma armadura, o que era perfeitamente compreensível: Noah abusava muito de suas pernas para se locomover rapidamente.
— Devo reconhecer que é uma das armaduras mais simples que já fiz, ela não tem nenhum ponto fraco onde está, mas infelizmente teve de ficar ausente na metade de seu corpo. Foi o melhor que pude fazer para você — O mago analisa.
— Está ótima — Ele verifica, movendo as partes de seu corpo.
Valquirie olhava para seu amigo como se ele fosse uma criança feliz comprando seu mais novo brinquedo, o que não deixava de ser uma verdade. Despediram-se de Morbom e traçaram caminho aleatório por Traeth, buscando encontrar almoço em algum lugar que os chamasse atenção.
— Não imaginava que sua armadura fosse tão barata — Ela o olhou melhor.
— Olhe bem... tudo que ela protege é meu braço esquerdo, minhas costas, peito e estômago. Talvez o material tenha ajudado.
— Material? Olhe a qualidade! É, sem dúvidas, ótima. A quantidade, é claro, que a barateou. Ainda acho que ele poderia ter feito algo em todo seu corpo, isso está muito exótico para você.
— No fim das contas, a armadura é minha última defesa. Não se preocupe quanto a isso — Ele sorri. Sabia que o único motivo para que Valquirie pudesse estar preocupada era a segurança dele.
— É, eu não sei o que iremos encontrar além do horizonte, mas espero que você seja rápido o bastante para eles.
Após vários metros chegam a uma taverna, conhecida por ser um ponto de encontro de vários soldados, especialmente lutadores e atiradores. Como era próxima a hora do almoço era compreensível a chegada de vários grupos de guerreiros. Khan ficou furioso por ficar do lado de fora. Era um animal muito grande para passar pela porta, isso já sabia, mas sua frustração aumentou ainda mais ao perceber que havia ficado junto com um cavalo chato e uma cobra gigante.
A energia contagiante que Noah e Valquirie perceberam ao entrar no lugar foi estonteadora: diversos homens e mulheres dividindo mesas com seus animais de médio e pequeno porte, tomando cervejas e sucos – isso inclui os animais – realizando suas refeições junto a uma boa conversa. Não resistiram ao encontrar uma mesa livre, sentando de imediato um em frente ao outro.
O estabelecimento era uma típica taverna, baixa, com pilares de madeira. Assim como o chão, as paredes eram de pedra sendo enfeitadas com espadas, escudos e algumas lanças. Pequenas janelas rentes ao teto iluminavam o lugar inteiro. Um balcão ocupava todo um canto e as mesas de madeira forte iguais as da estrutura encontravam-se dispersas pelo ambiente. Por todo lado se encontravam tochas apagadas, as quais eram acesas ao anoitecer.
— Valquirie! O escudo do batalhão! Um brinde! — Um dos homens gritou.
— Eles brindam por qualquer coisa... — Ela ri.
— Ora ora, soube que fará parte da expedição. Será uma grande honra para nós lutadores ter você nos representando — Dois homens com armaduras similares a de Valquirie se aproximaram, um deles ruivo de olhos castanhos, com uma pomba em sua cabeça, e o outro de cabelos negros e olhos azuis, com uma preguiça em seu braço.
— Obrigada — Ela responde, envergonhada.
Os dois jovens pareciam não saber o que dizer. Pelos cálculos nada precisos de Noah, provavelmente estavam tentando cantar sua amiga antes que ela partisse em missão. Os três ficaram parados olhando um para o outro enquanto o loiro olhava para a preguiça, que lhe estendia o braço, cumprimentando-o.
— Espera, você é o cara do penhasco?
— Acertou! — Noah respondeu, ainda olhando torto para aquele animal simpático.
— Gostei da armadura — O outro observou — Mas não é leve demais?
—Atenção! — Uma voz feminina grita, chamando a atenção de todos.
Se tratava de uma garota com idade aproximada a de Noah, talvez um ano mais velha, beirando os 22 anos, uma pele clara, cabelos curtos e loiros, olhos incrivelmente cinzas, e uma armadura que se destacava das demais por ser de cor ouro branco, com vestes azuis. Se tratava da líder dos atiradores, um dos poucos prodígios de sua geração e uma das mais jovens líderes de uma das forças imperiais. Liv era seu nome, e sua fama correu por todo o império ao derrotar o Imperador Dourado em uma competição de tiro ao alvo com obstáculos.
— Queria pedir um brinde à nossa grande guerreira! A mais exímia lutadora de todo o império, que irá me acompanhar na expedição. Um brinde para Valquirie!
— Você realmente é bem conhecida — Noah observa entre os gritos.
— Faz parte — Ela comenta.
— Talvez... Então Liv irá para a expedição? — o garoto pergunta para a amiga, ao observar que os dois intrusos haviam se distanciado da mesa.
— Sim, ela irá com mais alguns atiradores, sem contar o líder dos magos, Wendel, que também será o líder geral. Mas quem comandará os lutadores provavelmente será eu, Vlad não irá na expedição, portanto, sou a próxima no cargo.
— Isso significa que eu vou ter que seguir suas ordens? — Noah debocha.
— Você vai ser o faxineiro do navio — Ela o intimida.
— Somente nos seus sonhos.
— Hey grandalhão... — A voz de Liv aparece atrás do loiro, segurando em seus ombros.
— Grandalhão? — Valquirie ri alto.
— Noah é grandalhão, só não é alto. Olha só esses braços, não se encontram soldados por aí com essa força. Irá conosco? — Ela dirige a pergunta a Noah, sentando ao seu lado.
Liv era uma das únicas pessoas que não se referia a Noah como o garoto do penhasco, o que deixou uma boa impressão no jovem desde que a conhecera há muito tempo, e apesar disso, quase nunca se falavam.
— Está bem animada para ir à expedição — Ele olha para a loira, que o encarava ainda esperando sua resposta — Irei sim.
— Será bom ter sua ajuda — Ela lhe dá um soco no ombro.
Noah e Valquirie ainda nem haviam realizado seu pedido para a garçonete quando a porta se abriu bruscamente, causando um barulho enorme e consequentemente virando o centro das atenções de todos ali. Logo uma figura se revela através da porta, a qual era tão conhecida quanto Valquirie, porém muito mais temida pelo gênio forte que possuía. Se tratava de uma mulher de cabelos brancos e perfeitamente escovados em um penteado que o repartia na lateral, olhos de cor lilás pareciam pertencer a algum canino, e uma pele muito clara para uma pessoa comum. Seus cabelos chamavam a atenção mais do que tudo em seu corpo. Vestia uma armadura leve que ocupava o corpo inteiro, vestes vermelhas, que a denunciavam ser uma lutadora.
— Samantha? O que faz aqui? — Valquirie se espanta.
— Estava te procurando pela cidade e senti seu cheiro, sem contar daquele gato gigante do lado de fora — Responde a albina, se aproximando da mesa em que estavam.
— Sua irmã é uma fofa — Liv comenta baixinho para a morena, que sorri.
— O que disse? — Samantha levanta as sobrancelhas.
— Que estou com fome — Noah ri da resposta da atiradora.
— Que seja... preciso que venha comigo irmã. Wendel convocou-nos para uma reunião em alguns minutos.
— Eu nem almocei ainda — Lamenta a lutadora.
— Se lhe serve de consolo, a reunião será com um banquete.
Valquirie olha para o amigo como se pedisse desculpas pelo que estava acontecendo, mas Noah apenas sorri em resposta, revelando que não ficaria triste com a partida da garota. Ela se levanta, indo em direção da irmã.
— Então vamos logo — Rosna Valquirie, fechando a porta da taverna.
— Xiii, parece que ela ficou brava — A atiradora comenta.
— Talvez... Espera! — Noah se levanta, lembrando de algo — Ela ficou com meu dinheiro, não tenho como pag...
— Senta o bumbum na cadeira e relaxa, eu pago um almoço pra gente — Liv o segura pelo braço.
Ele se admira com a atitude da guerreira, e acaba aceitando a oferta. Ao contrário do que pensava, acabaram conversando por alguns minutos além de comer. Acabou por conhecer melhor Liv, que se mostrava ser sempre espontânea e assustadoramente concentrada. Ela contou-lhe de como chegou ao posto de líder dos atiradores e o porquê aceitara a suicida missão de fazer parte da expedição. Mas foi uma frase que atingiu em cheio Noah: “Aqueles que irão para a missão, em sua maioria, são filhos dos que nunca voltaram da primeira expedição”.
O garoto não perdeu tempo quando saiu da taverna: foi direto para sua cabana no penhasco pois estava ansioso para arrumar suas coisas. Lá passou o resto da tarde limpando alguns cômodos e móveis. Já havia retirado sua armadura quando resolveu limpar – depois de muito tempo – suas vestes vermelhas do exército imperial, além de suas botas marrons que não viam água e sabão havia muito tempo. Por fim resolveu olhar um pouco para suas armas. Noah costumava usar dois machados mágicos que lhe foram dados pela sua mãe quando ainda era uma criança: eram de uma madeira resistente e um metal reforçado, forjado por um dos melhores magos de Traeth, falecido há alguns anos. A qualidade era tão excelente, que mesmo após uma vida inteira de treinamentos nem a madeira ou a lâmina se desgastaram, se encontrando em perfeito estado, além de a magia do garoto fluir perfeitamente por toda a arma.
Ao anoitecer, Noah retirou seus trajes, ficando apenas com uma calça de couro velha, andou até perto do penhasco, no lugar onde costumava meditar, segurou seus machados calmamente, girando-os em suas mãos e aquecendo sua destreza. Golpeou o ar, utilizando uma forte magia na ponta da lâmina, a qual adquiriu uma aura laranja, como vapor. Seus golpes consecutivos criavam um som grave, junto a uma ventania coordenada pela direção dos ataques. Noah não treinou apenas seus golpes, mas também seu físico. Por não possuir um laço de sangue com um animal, o jovem não possuía nenhuma vantagem em seu corpo, o que lhe obrigava a se dedicar mais do que o habitual em cada músculo, assim como sua elasticidade.
A lua já estava em seu auge quando ele chegou a exaustão, após 4 horas de treino contínuo e explosivo. Deitou-se na grama gélida, olhando para as estrelas que marcavam o céu, cortando-o como um véu levemente roxo. Aos poucos o cansaço tomou conta, o fazendo fechar os olhos. Possuía um sono pesado, o que lhe ajudava a dormir facilmente. Seu sono as vezes lhe reservava uma visita, e a única que sabia deste fato era Valquirie, mas pela estranheza do assunto, até mesmo ela evitava de falar sobre isso, e com o tempo, Noah acabou nunca mais comentando sobre seus sonhos.
—Talvez essa viagem lhe traga algo novo, conhecimentos... seu mundo parece um lugar interessante, gostaria de viver nele — Dizia-lhe uma voz feminina.
— É sem graça, mas eu gosto de estar em minha casa. Sentirei saudades, confesso.
— Tenha uma boa sorte.
— Obrigado.
— Foram dois meses até conseguirmos conversar, demorou pouco tempo desta vez.
— Sim...
— Bem — ela se levanta — Acho que vou ir.
— Até... mas como está você?
— Fazendo as mesmas coisas de sempre — ela responde, antes de desaparecer.
Por algum motivo, Noah nunca a olhou, não conseguia. Nem mesmo ela sabia como ele era, pois tudo que utilizavam para conversar eram as vozes ecoadas que saiam de suas gargantas, enquanto miravam um lago negro, cheio de rosas em sua beira, e a estranha sensação de que havia uma brisa tocando-os. Não conseguiam olhar para o céu, mas sabiam que era branco, estavam sempre sentados em um chão de terra batida olhando para aquele lugar.
O garoto continuou ali por alguns instantes. Por mais estranho que pareça, tinha consciência de que quando acordasse, esqueceria boa parte de sua breve conversa.
De fato, ele nunca entendeu porque esses sonhos ocorriam com ele. Ainda.
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