A Batalha da Lua e do Sol - As Ilhas Assassinas
3 Parte I | Capítulo 2 - Respeito
Notas iniciais
Arte Original "Noah Ezras" por: Isabela Ames

Noah mirava o céu naquela madrugada, observando as estrelas brilhantes, como milhares de diamantes, tão lindas que até pareciam inéditas para ele – o que não era verdade, obviamente. Aquele momento seria totalmente silencioso, se não fosse o estrondo das rochas do penhasco sendo atingidas pelas ondas. Em sua sala, Noah virou-se, prestando atenção lentamente em tudo aquilo que o rodeava, terminando no som do mar, seu companheiro por muitos anos. Esta era a última noite que passava em seu lar e não podia, portanto, evitar o sentimento de apreensão que surgia em seu peito.
Trajava sua armadura, junto com as vestes vermelhas do Exército Imperial. Segurou nas mãos um de seus machados, analisando-o de ponta a ponta. Fechou os olhos por fim e, apertando firme sua arma enquanto respirava fundo, lembrou-se de um dos momentos mais importantes de sua vida:
“Sua mãe, sempre com a doce expressão. Os olhos brancos e cegos pareciam conseguir ver o pequeno Noah contente com a caixa que havia acabado de ganhar. O menininho olhou mais uma vez para a mulher, observou ela arrumar sua franja castanha e o sorriso que costumeiramente se formava nos lábios. As mãozinhas da criança abriram a caixa, que era relativamente pesada para ela. O pano que cobria o tão esperado presente o deixou ainda mais eufórico para descobrir o que era. Por fim, o pano foi tirado e revelou um par de machados, deixando Noah chocado com tamanha beleza da arma: O cabo de madeira possuía algumas marcas negras, como cicatrizes causadas por chamas; a lâmina estava presente apenas para um lado do cabo, e estas possuíam marcas de batalha em algumas partes do metal. Contudo, seu corte parecia brilhar, impecável, perfeito, sem nenhuma uma falha. Tocou, então, na madeira da arma, tomando um susto ao perceber a cor que a mesma adquiria. As marcas negras agora estavam incandescentes como fogo; a lâmina parecia ter acabado de sair de uma forja, mas sem emitir calor algum. Noah não havia entendido o porquê aquilo aconteceu, até que decidiu olhar para sua mãe. O sorriso não habitava mais o rosto da jovem mulher, nem mesmo a doce expressão, o que a ocupava agora era uma concentrada expressão que focava em seu filho.
Noah, que havia se assustado e se distanciado da arma, tomou coragem para tocá-la novamente. Os machados começaram a perder o seu
brilho até que voltaram a sua aparência normal. Logo o menino entendeu: sua magia conseguia entrar perfeitamente na arma.
— Mãe, sei que não me escuta e que não me vê, mas espero que isso demonstre o quanto eu te amo — Ele a abraça, provocando um novo sorriso.”
Noah fechou as portas da varanda e andou em direção ao seu quarto, escuro devido à noite. A pouca luz que havia se originava do brilho da lua que costumava passar por uma fissura em sua janela, iluminando parte da cama na qual ele se sentou. Sua atenção voltava para uma caixinha do tamanho de um livro médio, posta em cima do travesseiro. Esticou o braço e a pegou com delicadeza pois sabe o tamanho valor que possuía aquele objeto. Desde pequeno pensa em abri-lo, mas a culpa que sentia por quebrar a ordem que sua mãe lhe dera de nunca fazê-lo era maior que sua curiosidade.
O jovem parecia não saber para onde olhar, sentindo o silêncio sombrio que habitava sua morada enquanto decidia se iria deixar ou levar o objeto. Foi então que levantou-se abruptamente, afastando-se do cômodo, antes que decidisse levar a caixinha consigo contrariando a ordem de sua mãe. Por fim, fechou a porta do quarto sem olhá-lo uma última vez e, apressado, pegou sua mochila de couro marrom na mesa da sala, passando-a por um dos braços, já que a mesma possuía apenas uma alça. Saiu então de sua cabana. Com a companhia de um céu estrelado e de uma suave brisa fria, Noah começou a trilhar o seu caminho. Tranquilizando-se, o jovem respirou fundo, liberando a mente dos pensamentos e preocupações, concentrando-se somente no ambiente pacífico e aconchegante da sua terra.
Pouco antes de chegar em Traeth há uma pequena vila, e mesmo que o sol ainda não brilhasse no céu, alguns moradores já estavam em pé na porta de suas casas, portando uma xícara de leite na mão com as filhas e filhos cuidando obedientes de algumas hortas particulares que estavam do lado das casas. As chaminés já soltavam fumaça, o que lembrava a Noah o aroma do pão sendo feito. A vila era simples e as casas medianas e confortáveis, feitas de tijolos, pedra e madeira, assim como a maioria das construções de Traeth. Os habitantes eram trabalhadores agrícolas do império e cultivavam alguns alimentos em grande escala nas áreas próximas da área urbana, para abastecer a cidade. Esses trabalhadores rurais eram respeitados pelos habitantes da capital em forma de agradecimento pelo cuidado com os alimentos.
Ao passar por ali, o rapaz se lembrou deste fato, e em poucos segundos, todos estavam a olhar para fora a fim de vê-lo, pois sabiam o que o aguardava. E, em um sinal de extremo respeito com os soldados e acompanhando uma antiga tradição, os moradores se ajoelhavam perante Noah, que se arrepiou com o ato. A surpresa tomava o seu corpo, de modo que somente seguiu o seu caminho, observando os olhares que se sucederam. Ele certamente jamais se
esqueceria daquilo, e ao deixar para trás o vilarejo, olhou de volta mais uma vez, guardando os detalhes da vista, ciente de que talvez fosse a última vez a percorrer aquele trajeto.
Em pouco tempo chegou à capital junto com o sol que acabara de aparecer no céu, até então um pouco escuro. O movimento de pessoas pela rua era fraco naquele horário e, por esse motivo, o caminho até o palácio branco, no qual fora intimado a comparecer, seria mais rápido. Noah não demorou muito para encontrar seu destino, que estava com o enorme portal aberto, revelando uma área imensa e perfeitamente limpa. O chão daquele enorme hall era totalmente calçado com pedras brancas e cinzas. A imponente construção que ali estava era algo assustadoramente lindo. Possuía uma arquitetura semelhante à de um forte, porém com muitas janelas. As torres resplandeciam com seus parapeitos quadriculados e todas as paredes brilhavam em seu orgulhoso branco, além de uma pequena sacada ao centro com vista para o imenso hall de entrada, onde o jovem estava. É ali que os habitantes do império se reuniam quando o imperador festejava alguma data especial ou fazia algum anúncio importante.
Noah ficou impressionado com o longo tempo para chegar à escadaria que precedia a entrada, e, apenas quando a subiu por completo, percebeu os guardas postos ao lado da luxuosa porta do castelo, prontos para abrí-la. Ele ficou inevitavelmente boquiaberto ao ver a entrada do palácio lotada de guerreiros de todos lugares do império. O salão era grande, o chão constituído com as mesmas pedras brancas do lado de fora, porém, coberto por alguns tapetes vermelhos. Pilares de mármore cinza com detalhes em dourado formavam um corredor até a escadaria que levava para o segundo piso.
Os magos vestiam-se muito diferentes do que o louro estava acostumado a ver pela cidade: os ali presentes também usavam armaduras, porém leves e de uma cor um tanto parecida com o bronze; as vestes não eram diferentes do habitual, roxas escuras assim como todos os magos sempre usavam, e, exceto por três ou quatro senhores, todos ali eram mais jovens que 30 anos, seus laços de sangue eram todos animais pequenos: gatos, aves, e ratos — que não serviam de comida para os demais.
Noah percebe que era o único dos soldados que não estava usando capa em suas costas, o que lhe fez engolir em seco. Não se lembrava de ter que usar capa e nem mesmo se precisava comprar uma. Os magos à sua frente mostravam orgulhosos as capas roxas escuras, os atiradores exibiam as suas de cor azul marinho, e os lutadores as formosas capas coloridas de vermelho sangue.
Ao caminhar, os jovens magos olharam para Noah, que, por sinal, não se sentia nem um pouco constrangido, até escutar um baixo murmúrio dizendo
“olha a armadura desse cara, que estranho...”. Bufou então, andando em passos acelerados e mais duros, demonstrando sua total irritação.
— Ei ei! — Escutou uma voz conhecida poucos metros de onde estava. Ao olhar para a direção de onde o som provinha, constatou que era Liv, arrumando briga com o que parecia um lutador do Sul, já que as vestes vermelhas do mesmo se confundiam com a calça marrom, e sua armadura se resumia a uma couraça.
Tratava-se de um homem negro, alto e extremamente forte. Não era algo que uma pessoa do tamanho de Liv poderia lidar sem utilizar magia, mas a jovem não era o tipo de pessoa que se importava com o tamanho do inimigo.
— Desculpe-me menina, não foi minha intenção pisar no seu pé — Ele se vira, desculpando-se, amargamente arrependido, encurralando Liv com a gentileza de um homem que quer voltar atrás com o erro cometido.
— Esquece, acontece — Ela ergueu a mão em derrota, dando as costas para o homem e continuando seu caminho.
Noah resolveu seguir a atiradora, sofrendo para não trombar em outros soldados que ocupavam todo o salão. Não muitos segundos após, deparou-se com a mesa onde Liv estava sentada junto a Valquirie. Era realmente difícil não perceber que Khan estava deitado ao lado, já que a maioria dos guerreiros por perto passavam um pouco distantes do animal grande: a última coisa que queriam era pisá-lo e atrapalhar seu sono.
— Todas essas pessoas vão embarcar para a missão?... aliás, bom dia! — O louro veio sorrateiro à mesa, encostando suas mãos na madeira para sustentar um pouco de seu corpo, já que não havia lugar para sentar-se.
— Bom dia grandalhão, dormiu bem essa noite? — Disse Liv com simpatia.
— Sim, todos eles, são impressionantes não é mesmo? — Valquirie sorriu, observando seu amigo ficar surpreso com os batalhões vindos de regiões distantes — Bom dia, e vista isso, todos os soldados da missão receberam uma por honra — ela o saudou atrasada, mostrando-lhe uma capa que estava dobrada em seu colo. Para o alivio de Noah, a capa era para ele.
— Honra...?— ele estranhou, mas compreendeu rapidamente que era um motivo louvável — Respondendo a sua pergunta, sim, eu dormi como uma pedra, e não, não estou tão impressionado assim. Observou aqueles magos? Eles são convencidos demais! — Reclamou Noah segurando sua mais nova peça de roupa.
— Eles se acham exóticos, acostume-se com isso. O caso dos que moram na cidade dos magos, como eles, é ainda pior — A atiradora explicou.
— Vocês deveriam guardar essas reclamações. Não seria a melhor coisa do mundo ter uma rivalidade entre os membros dessa missão — Válquirie sussurrou, sendo cuidadosa para que nenhum mago por perto escutasse a zombaria.
— Como se magia bruta fosse a coisa mais poderosa desse mundo. Eu também posso fazer magia: uso ela em minha besta. Já viu minhas flechas mágicas explosivas? O que é magia bruta comparado à isso? — Liv falou revirando os olhos, causando risadas em Noah.
— Magia bruta nada mais é do que um dom que poucos possuem para usar a pureza mágica a seu favor, garotinha. Lutadores e atiradores que apenas conseguem usar em suas armas e corpo não passam de uma versão inferior da verdadeira força da magia. Quem você pensa que é para contestar isso? — Um dos poucos senhores magos que Noah viu alguns minutos antes apareceu por trás da loira.
— Liv, líder dos atiradores. Honrada em conhecer-te, velho! — Ela encarou o senhor, que engoliu em seco ao reconhecê-la.
— Vamos deixar isso para lá. Desculpe-me — Valquirie levantou-se rapidamente, apertando forte a mão de sua companheira de mesa.
O velho bufou, dando as costas para eles. Noah, que não falou nada durante a situação atípica e nem mesmo foi percebido pelo velho, manteve sua expressão atenta como a de um estudioso em sala de aula.
— Esses senhores magos... pensam que não aprimoramos nossas habilidades — Murmurou Liv, perseverante em sua teimosia.
— Porque não paramos de falar disso? — Com uma expressão de tédio, Valquirie intimou a amiga, enquanto sustentava a cabeça em sua mão, cujo braço estava apoiado na mesa.
— Ainda não vi sua irmã... para onde ela foi? — Liv lembrou.
— Ela já havia chegado e, portanto, deve estar do lado de fora dando água para Beorthwuff.
Já estavam prestes a iniciar um novo assunto na conversa quando observaram que todos no salão haviam parado de falar. Escutaram, logo em seguida, nas escadarias, alguns soldados da Guarda Imperial se moverem de forma ensaiada, e quando bateram suas lanças no chão, surgiu o Imperador Dourado com seu laço de sangue, o Leão, cujo nome é Atlas, rugindo em sinal de ordem. A armadura do Imperador era completa e banhada a ouro,
combinando com a de seu laço de sangue. Utilizava também uma capa, esta, por sua vez, prateada. Na cabeça levava uma coroa repleta de ouro e pedras preciosas. Possuía uma pele morena, olhos profundos e negros, características que lhe davam um ar calmo. Os únicos pelos que haviam em sua cabeça constituíam sua sobrancelha, e seu rosto anguloso lhe dava uma aparência jovial e soberana, mesmo que fosse de conhecimento geral que sua idade ultrapassava os 50 anos.
Os que estavam sentados em mesas se levantaram para que pudessem se curvar a ele, e os animais antes deitados e distraídos, agora estavam em pé e silenciosos — inclusive o tigre orgulhoso de Valquirie.
— Soldados, levantem-se! Hoje o império deverá curvar-se diante de vocês! — Sua voz era grossa e firme, fazendo Noah entender novamente a facilidade que este imperador tinha de lidar com as suas províncias e tomar decisões junto a elas — Sei que estão todos alegres hoje, que treinaram e se dedicaram para merecer fazer parte desta missão... Alguns chamam de expedição, outros de expansão, mas a grande verdade é que esta jornada tem como finalidade descobrir o que há além da névoa, e reconhecer o porquê ainda recebemos laços de sangue para nos tornarmos guerreiros. Devo lembrar-lhes que é algo extremamente perigoso, pois os últimos que se arriscaram a passar por ela nunca mais voltaram, exceto uma mulher...— Noah engoliu seco ao ouvir sobre sua mãe — Como podem observar, todos aqui são muito jovens e eu sou realista: esta missão não dá espaço para velhos como eu. Vocês foram escolhidos a dedo por mim e aceitaram o risco de nunca mais voltarem. Mantenham o respeito pelos mais velhos, assim como eles terão por vocês...afinal vocês, jovens, foram escolhidos como maioria... pois terão mais tempo para voltar.
Noah sentiu o choque de realidade que pesou sobre o salão, fazendo o aspecto normal dos soldados se tornar algo mais atento e voraz. Levantaram-se apenas ao final de sua fala, apesar da ordem no início da mesma, e, como indicados pelo imperador logo após, saíram pela porta do castelo, onde observaram que os portões foram fechados.
Estavam organizados de acordo com sua divisão: Por primeiro, 50 magos, em segundo os 50 atiradores, e em terceiro 95 lutadores, cada um acompanhado pelo seu laço de sangue, exceto Noah, que não deixou de perceber este fato, sua cara de emburrado denunciando seu incômodo. Olhou para o tigre, para um pombo, em seguida para um gato, logo após uma serpente, e pensou consigo mesmo que com apenas um simples camundongo ele já ficaria feliz. "Ao menos eu também tenho uma capa", pensou ele. Não demorou muito para revirar os olhos em derrota, mas apesar de tudo, ele sabia que poderia lidar muito bem com os problemas sem a ajuda de um laço de sangue.
Valquirie estava na frente de Noah. Ao lado dela sua irmã Samantha, albina, dispensava apresentações para o povo, conhecida pela sua frieza. Mesmo que o império tivesse paz desde muitas gerações, os problemas com alguns dos mais fortes monstros nas florestas do centro-oeste eram periodicamente resolvidos apenas por ela. Seu poder era maior durante a noite, especialmente nas luas cheias. Isso era raro, poucos guerreiros se fortalecem em determinadas situações naturais, e neste caso, era causado por conta do laço de sangue de Samantha: um lobo ainda maior que Khan, cinzento, com os olhos lilás iguais aos da guerreira. Enquanto a magia de Valquirie costumava queimar os oponentes — que eram apenas monstros e foras da lei — a de sua irmã os congelava, facilitando na prisão do que ou de quem a enfrentava. Usava uma armadura leve por todo o seu corpo, prateada com alguns detalhes em vermelho para indicar que fazia parte dos lutadores, onde quase não era possível ver os trajes comuns aos outros lutadores, pois os mesmos eram substituídos pela cota de malha que desenhava seu corpo. Usava uma capa, assim como todos, e guardada em suas coxas haviam adagas curvas cujo lado maior da lâmina era perfeitamente afiado, e o oposto serrilhado, dando um ar ainda mais mortal para a arma. Ao observar aquilo, Noah pensou no estrago que um golpe poderia causar.
Ele não a conhecia muito bem, e, apesar de saber de sua existência desde pequeno devido a Valquirie, ela nunca dirigiu a palavra formalmente para Noah. Mas a grande verdade é que ela era assim para todos: abria a boca apenas para falar o que era necessário.
Quando os portões se abriram, puderam ver que as calçadas estavam quase lotadas. As pessoas não aplaudiam e nem mesmo gritavam. O silêncio reinava em toda a cidade e os poucos ruídos tinham origem do vento circulando por entre as construções. O sol já havia aparecido por completo, revelando um céu limpo e azul. Começaram então a marchar rumo à praia de Traeth, e, novamente, as pessoas começaram a curvar-se diante dos guerreiros conforme prosseguiam. Noah, que já havia visto essa atitude pouco antes, sentiu algo ainda mais forte ao observar o grande número de pessoas reverenciando-os em sinal de respeito.
Respeito...
Ele não havia notado respeito algum por parte do povo, tudo que sentiu e que provavelmente cada um dos 195 que marchavam igualmente perceberam, foi que estavam se despedindo, como se esperassem que todos morressem.
O peso da responsabilidade daquela missão pesou diante dos soldados, que pela primeira vez passaram a sentir medo do que encontrariam, e então o que antes parecia ser uma honra ou uma oportunidade de ver algo novo, passou a parecer suicídio.
— Está sentindo isso, não está? — Noah perguntou a Valquirie.
— Sim, imaginei que seria diferente — Ela o respondeu, percebendo que Samantha também havia voltado sua atenção para a conversa.
Em alguns minutos chegaram à praia: as ondas ainda presentes, porém menores, reproduziam um som calmo. O mar estava perfeitamente limpo e azul, a areia tão clara que daria inveja a uma nuvem, as montanhas verdejantes que mostravam toda a sua beleza. Era como se Traeth estivesse lhes dizendo o que perderiam ao partir.
Diante do enorme navio de madeira, a tropa se pôs em formação na areia, olhando para o imperador que vinha logo atrás. O grande homem montado em seu leão rodeou o batalhão, olhando para cada um de seus soldados. O som das capas se movimentando com o vento era tudo que ouviam. Noah, que tinha ficado na extrema ponta a direita, foi encarado pelo mesmo de uma forma ainda mais profunda, pois o imperador sabia de toda a sua história, e mesmo com seu poder, não era capaz de impedir o louro de seguir sua vontade: era seu direito e nada nem ninguém iria lhe negar isso.
— Usem sabiamente suas armas, sua magia, sua pontaria, pois a partir daqui, depende apenas de vocês. Cuidem-se, vocês são fortes! — O imperador falou como um pai, de modo que apenas os soldados pudessem escutar claramente.
Alguns se entreolharam diante das palavras do homem, o silêncio entre eles ficando cada vez mais angustiante até que começaram a se mexer. Noah olhou para Valquirie, que por sua vez montou em Khan. Subiram então no navio, e quando todos estavam a bordo, abriram-se as enormes velas brancas com um leão estampado ao meio — já que todo imperador possuía a mesma espécie, acabou por se tornar símbolo imperial.
As pessoas finalmente aplaudiram e ovacionaram enquanto o navio começou a seguir o fluxo, o vento estava a favor e a magia utilizada pelos magos empurrava o enorme transporte ainda mais rápido. A praia começou a ficar distante e Noah observava aquilo tudo ficando fora de seu alcance, afligindo-o, até que apertou forte a balaustrada de madeira. Queria encontrar rapidamente o outro lado da névoa, descobrir todo o inexplorado e poder finalmente voltar, mas ao olhar para frente, deu-se conta de que ainda estavam longe.
— Relaxe, uma hora ou outra chegaremos à névoa — Disse Valquirie, acariciando as orelhas de Khan.
Era cômico para Noah ver sua amiga pedir-lhe para relaxar, quando a mesma não estava de tal modo
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